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segunda-feira, agosto 07, 2006

Fonseca Amaral

POEMA

Para o R.G.

Na carteira, junto ao peito,
«a mais maravilhosa fotografia da nossa adolescência»:
é o mar ao fundo, as casuarinas de religioso jeito
e a nossa juvenil independência

Estranhos hoje se sentam à mesa,
bebem o vinho e mancham a toalha:
não há novidade que apague e valha
o tecido sagrado da firmeza
O ruído insidioso não conseguiu varrer
os estilhaços de vidro na memória
e a picada fina da distância, já história,
é a cidade-flor-areia,
por esquecer

Do ímpeto e da delicadeza
trazes fotografia por medalha:
é óleo puro, serena certeza,
contido em firme, bem humana talha.


[226]

terça-feira, janeiro 25, 2005

Fonseca Amaral

S’AGAPO

Penélope,
nascida e criada no Alto-Maé,
filha do Kristos da cantina,
neta do Aristóteles da padaria,
vizinha de Karimo o monhé
da esquina,
irmã da helénica Sophia,
vai tecendo
e destecendo
- até ao pôr-do-sol –
tua renda de lençol
- pálida sombra do mito –
enquanto esperas
teu primo Ulisses,
o noivo aflito,
lá do Chibuto,
para as lautas bodas
no Ateneu.

Pois eu,
sem os direitos do grego astuto,
vou gritar no Largo Albasini
- ágora perfeito para tais intentos –
os meus profundos sentimentos
e lamentos.

Que os conheçam
a Polícia
a Milícia
os motoristas
as floristas
os maviques
os caciques
dos buicks
os poetas meus amigos
os colonos, dos antigos,
a casuarina
da esquina
e o cajueiro
do terreiro
- que é quintal
cá para a gente.

Penélope,
vou gritar,
sem cessar,
sem ática contenção,
até enrouquecer
de fazer dó:
S’AGAPO
S’AGAPO
S’AGAPO.


[124]

quarta-feira, junho 30, 2004

Fonseca Amaral

EXÍLIO

Longe embora cidade paráclita
a língua se nos cola ao céu da boca
se vier o olvido.

Banhas-te connosco em águas de desterro
flutuas sempre por nossa boca
nas praias da memória.

Nos dias mais soalheiros da diáspora
és tu quem materna vem dizer «estou aqui»
à emoção que nos habita.

Marulham outras águas aqui
mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo
o nome que nos corre à boca.

São lembranças que viajam para ti
mãe estuante que nos deste o leite e o mel
hoje por tão longe dissipados.


[88]

sexta-feira, junho 11, 2004

Fonseca Amaral

KARAMCHAND

O Guru, de olhos tão antigos,
tem seu miúdo comércio
numa loja de penumbras
Sorri
e as mãos, magros insectos amestrados,
tudo apertam num retrós de perfeição.

Se a um curto gesto
a um milimétrico acto
impõe sacralidade,
os lábios escravos, esses,
salmodiam o cântico de compra-e-venda:
(Buísa mali! Teka basela! Buísa! Teka!)
- rio múrmuro que sua barca
- tem, solarmente, de percorrer.

Escurece. Fecha a porta, Mestre.
Enquista-te, aranha, no canto mais obscuro.
Não te torças,
sicómoro batido de vento.
Não te espreguices,
felino de olhos acendidos.
Mas tu, Mestre, lança essa teia,
saliva irisada de palavras,
agita os braços, distende os músculos,
à espera de bala ou pedra ou eco...

Chega-se a hora de, por teu discorrer,
se escancararem, para alguns de nós,
imprevistos corredores, arcadas e portões.
Karamchand tornam-se, a partir daí,
todas as coisas tão imponderáveis,
germinando sagradas, abissais,
sob o resfolegar asmático do petromax!

O mundo maya é ilusão,
insistes petrificado, madrugada adentro,
rasgando-te a boca o cinzel verbal do Lakavatara.
Mas Karamchand, Mestre, desperta,
já te deu o sol no rosto.

Passa a mão e uma púcara de água
por esses olhos tão antigos,
volta aos panos, agulhas e linhas
- tua habitação diurna -
por detrás do sórdido balcão.

Será mesmo de sombras o mundo maya,
ó meu guru iludido,
sombrio baneane de raízes ao vento,
lingam murcho, frio,
já sem amoroso porto a demandar?


[84]

domingo, maio 23, 2004

Fonseca Amaral

PARA UM BARCO QUE APODRECE A MEIO DA BAÍA

Ship of the Body, Ship of the
Soul voyaging, voyaging, voyaging.

- Walt Whitman

Velho Liberal, zarcão e ferrugem ao lume de água,
cansado desta costa, tua conhecida como a palma do convés,
encostaste-te a um canto da Baía e ancoraste no sono.
Já não te desperta a malta acenando com o palhinhas
às belas marrusses das vilas costeiras,
nem o tempo em que, a escarrar e a tossir,
(Estibordo, bombordo, tantas braças, toda a estaléca àvante!)
à força de pulso, à chicotada de hélice,
lá ias, mastreado de positivismo e lírica retórica,
varando a Costa, corpo de mulher cingido de água.

Mundo familiar aquele: Funcionários, machambeiros,
magaíças, a casada por procuração,
a alacre gente ribeirinha de Inhambane e Mossuril,
a fumar com o lume dentro da boca,
e um poeta que trazia, de contrabando,
três mancheias de bruma e um rouxinol.
Quantos não fecharam já o definitivo e secreto périplo,
desembarcando lá onde não se exigem
malas, mantas, trouxas, esteiras nem cartas de chamada?

Para ti, meu navio de cabelos brancos, velho colono do mar,
vieram o cansaço, o caruncho a roer-te o casco e as articulações,
o catarro roubando-te galhardia aos silvos
que faziam saltar, bater as palmas
às gentes daqui até à Mocímboa.

Foste amarra de emoção passada entre mar e terra,
mas cansaste-te, meu velho.
Olha, arrasta-te, reumático, ao Cemitério dos Navios
e, «com vossa licença, cidadãos»,
ao lado dos mais aderna um tanto,
ajeita a chaminé debaixo da cabeça,
cerra as pálpebras das vigias,
deixa-te morrer, tristemente morrer,
com esse teu nome a evocar descabelados conluios carbonários,
muito medo para o ganho e imensos lunares de suor.

Prometo-te que nós,
deste cais onde viscoso nembo a viagem nos tolhe,
macilentos, impaludados, te acenaremos, todos os dias,
com um lenço e um sorriso de irónica simpatia.

Farewell my old ship! A água te seja leve.


[81]

terça-feira, maio 11, 2004

Fonseca Amaral

PASSAGEM DE NÍVEL

Para o R.K.

Ali a nossa Pátria mal nascia.
A água salgada, o lodo, a maresia
eram o cuspo, o barro, o olor
com que um Deus jovem e faceto,
ao mesmo tempo urbano, pastoril e marítimo
(Seria branco ou preto?)
nos moldava de todas as cores:
pila ao léu
a verter para o céu
ou prós comboios,
a provocar os mabunos,
lá do Godine,
das entranhas reluzentes.

Shitimela shi ku psá...
Mas a ira deles, tão loiros,
seria só da nossa adâmica nudez
de machinhos inocentes?
A praia do Nhike-Panze
foi um ar que lhe deu...
Joãozinho, você não venha agora
com as suas manias,
que eu bem conheço,
evocar o que não é jamais.

O aterro está muito bem assim.
Cinco chagas!,
Você pode ficar certo duma coisa:
não só lá enterrámos a infância
mais a roupa (tão leve!)
que a envolvia.


[79]

sexta-feira, outubro 24, 2003

Fonseca Amaral

PENITÊNCIA

Vou expor-me a um Vento
Vou expor-me a uma Chuva
Sem um lamento.

Vou expor-me a uma Chuva
Para te lavar, ó corpo vil,
Para te livrar da densa bruma
Que sinto dentro em ti
Tão dentro, tão dentro
Que é quase fora de ti.

Vou expor-me a um Vento,
Para tu, Alma, voares bem longe
E só voltares
Depois de o corpo expurgado
Clamar por ti.


(Colaboração: Licuari)

[30]

segunda-feira, junho 02, 2003

Fonseca Amaral.

L'APRÉS-MIDI D'UN GALA-GALA

Aí vai, em espiral,
pela mafurreira acima.
De capuz azul celeste,
estreitos lombos de cinza,
seu ventre quase de nácar
arrima-se às moças. Moscas,
quero eu dizer, na verdade.

Não se importa mesmo nada
com este odor machambeiro
a massala, milho velho,
capim seco e gasolina.
Só com a árvore conta
- mais um pedaço de terra,
para as pequenas surtidas.

Mesmo pequenas surtidas?
Também tem disso, também.
Coisas da vida terrena
de um bicho tão colorido,
solteiríssimo, tristonho...

Gala-gala, gala-gala,
diz que sim, que sim, que sim,
gala-gala!

"Conversa de jaca mole",
coaxam muchachos duros.
"Temos um réptil rampante,
heroicamente falemos.
Em ramada, em campo verde,
é dragão, raio, uma espada.
Sua justa guerra às moscas,
monstros de sete mil olhos,
merece um outro poema,
muito, muito sublimado!"

Gala-gala, gala-gala,
diz que não, que não, que não,
gala-gala!
Mesmo do seio do mato,
vem Mufana, a assobiar.
Topa logo o gala-gala.
Aventa rija pedrada,
e lá se vão para as malvas
o lagarto e o poema.


[5]

Bibliografia essencial: No Reino de Caliban - Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa, Volume III, Organização de Manuel Ferreira, Plátano (2ª Edição, 1997)