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segunda-feira, novembro 13, 2006

Orlando Mendes

INTERFERÊNCIA NECESSÁRIA

Na peregrina vigília do repouso
enquanto o sono rebelde não vem
retenho a realidade que visita de pé
e abro os olhos armados contra a escuridão, ouso
saber que na planta sã não entra muchém.
E adormeço com o sono acalentado porque é.


[239]

terça-feira, agosto 29, 2006

Orlando Mendes

A CHAMADA INSPIRAÇÃO

Gotas quase poeira de cacimba
caindo sobre as palmas das mãos
como em floresta desvirginada
e exposta nua de memórias
ao sol da primeira lavra.

Não queima nem lacera nem alivia.

Percute a descoberta palavra
para ser primitivo rastilho
do poema vivo candente.
E cresce na voz que temos
nas veias desde sempre.


[229]

terça-feira, agosto 01, 2006

Orlando Mendes

PONTE PÊNSIL

O menino branco nasceu numa ilha do Índico
Na rota dos navios cargueiros de especiarias.
A mãe negra o embalou silenciosa
Nas horas mornas vagarosas da solidão.
Cresceu brincando com os meninos negros
As saudades dos dias de São Vapor
(A mãe branca sonhava meninos negros regenerados
Navegando felizes em barquinhos à vela
Com o seu menino de cabelos soltos na proa…)
Hoje o menino branco negoceia especiarias
E os negros carregam especiarias
Nos dias que foram de São Vapor.
(Pesadelos que se infiltram no corpo da mãe negra
Antes de fecundado seu ventre são)
Bacharéis discutem na sonolenta academia dos bons costumes
O casamento sem registo nem confissão
Anseiam pela caça aos bichos que espreitam nos limites da queimada
E sabem dum mistério que arrepia e atrai e é preciso anular.
Os turistas filmam a inédita nudez
Para documentação dos arquivos familiares
E só o vento da floresta uiva por ti menino negro
Nesta longa noite velada sem poesia…


[225]

sexta-feira, abril 30, 2004

Orlando Mendes

INSTANTE PARA DEPOIS

A tarde viva está quase vazia
na esplanada represa de sombra morna.
Seis velhos mastigam recordações
com dentes cariados da memória
e o dia-a-dia com as falhas dos dentes.
Olhos distantes sobre os livros
e mãos e pernas entrelaçadas
um casal jovem intimamente suborna
o tempo minuto a minuto seguinte.
Na berma do passeio mufana parado
estende os dedos pedindo quinhentas
nem se sabe porquê e ninguém dá.

Passa um jipe da polícia militar
e um dos velhos mastiga em segredo
que aquilo anda muito pior por lá.
Os dentes e as falhas cessam de mastigar
recordações e a suave cadência dos pulsos
e a moça levanta os olhos húmidos
mufana encolhe os dedos e desliza
inteiro ao sol da rua e assobia
não se sabe porquê e ninguém sente.

Batem horas num relógio distante
e o jovem casal parte subitamente
para o seu primeiro acto de posse.
A tarde fica então mais vazia
com os velhos mastigando a voz sibilada
no dia raso à sombra morna.

Reina a paz na esplanada laurentina


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domingo, outubro 12, 2003

Orlando Mendes

RIGOR

Quando passa e aí devotamente se demora
o erudito na volúpia dos contornos subtis
para televisionar durante uma hora
o que se pratica e mais o que se diz
não pense que dispensamos o rigor da geometria
e da linguagem que nos faz a fala.
Sabemos como se desenha e pronuncia
cada sílaba de palavra nova
porque o escrúpulo gramatical é a verdade que o prova
assim um corpo no amor outro possui e dá-se
e a mulher pariu um filho e o embala.
Sim usamos régua, esquadro e compasso
e o vocábulo e a sintaxe
para medir a minúcia de cada traço
e formar o sentido exacto de cada frase
não leccionados. E se for preciso que se arrase
o antigamente caiado e agora decrépito muro
onde mão privilegiada escreveu
em nome da metrópole cerebral
«decreto: quem sabe e dita sou.»
Hoje temos o mar e o nosso próprio sal.


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