Luís Carlos Patraquim
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 3)
Todas as cidades têm as suas entranhas e estranhezas. Apesar de Maputo não ter muito de labiríntico, e digo isto se exceptuarmos os chamados subúrbios, anverso do cimento, não se lhe conhecem túneis nem grutas como em Nápoles, ou Roma, para só citar dois nomes.
Desenhada a régua e esquadro, aqui um quase boulevard que sai da Praça junto ao porto e sobe, em suave inclinação, até ao Conselho Executivo, a baixa e a alta espraiam-se, regra geral, em quarteirões que as paralelas e as perpendiculares demarcam. Uma e outra sinuosidade, alguns gavetos, pátios interiores, numa arquitectura monótona. Há excepções, a que é preciso estar atento. Outras impõem-se. Outras, ainda, ruíram.
[327]
Mostrar mensagens com a etiqueta patraquim. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta patraquim. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, agosto 11, 2010
domingo, julho 18, 2010
Luís Carlos Patraquim
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 2)
A verdade é que sucediam episódios estranhos na cidade. Fazer machamba na banheira, arrancar o parquet para lenha, confusionar os elevadores até eles ficarem teimosos e pararem, isso até que se explicava com as adaptações à urbe. Mas as cabeças que começavam a aparecer sozinhas ensombravam os sonhos de Zefanias. Já não bastava os ataques dos boers, as lojas do povo só com papel higiénico quando até a comida era uma dificuldade, para esses xipókwés desesconderem-se na sua condição de limbo e apresentarem-se em forma de cabeças. Cabeça é para pensar e estar no corpo, as duas partes não hão-de ficar separadas.
[325]
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 2)
A verdade é que sucediam episódios estranhos na cidade. Fazer machamba na banheira, arrancar o parquet para lenha, confusionar os elevadores até eles ficarem teimosos e pararem, isso até que se explicava com as adaptações à urbe. Mas as cabeças que começavam a aparecer sozinhas ensombravam os sonhos de Zefanias. Já não bastava os ataques dos boers, as lojas do povo só com papel higiénico quando até a comida era uma dificuldade, para esses xipókwés desesconderem-se na sua condição de limbo e apresentarem-se em forma de cabeças. Cabeça é para pensar e estar no corpo, as duas partes não hão-de ficar separadas.
[325]
terça-feira, julho 13, 2010
Luís Carlos Patraquim
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 1)
Morava no que fora um chalet, na Avenida 24 de Julho, quando os tramways subiam a D. Carlos, depois Manuel de Arriaga, agora Karl Marx, dobrando a Central Eléctrica e subindo, chiando, extenuando-se.
"A 24 de Julho é uma avenida coerente".
Verdade que a frondosa via, que atravessa a cidade a meio, na sua parte alta, desenrolando-se desde o bairro da Polana até ao Alto Mahé, mantivera a mesma designação. Nome desde o antigamente por causa da sentença do Marechal Mac-Mahon sobre os territórios da Catembe, defronte da baía, que Sua Majestade britânica reivindicava à dita soberania portuguesa e que assim se manteve por ter sido essa a data das famosas nacionalizações, loguinho mesmo a seguir à independência. Zefanias, que não era dado a sinuosidades semânticas, classificava como mesmura essa teimosia toponímica, alheio a manifestas incoincidências políticas. Nunca lhe consegui uma explicação para o termo.
O dito chalet, verdade seja, tinha mais de evocação do que de estatuto, relíquia de uma certa belle époque cujos perfumes cruzaram os oceanos, dobraram o cabo e aportaram na cidade. Aqui uma frontaria em arcos, lavrada, uns muros à inglesa, colunatas modestas, um e outro hotel junto ao porto, o can-can de algumas vaporosas francesas. Mas a cidade era na baixa. No altos, que Mouzinho de Albuquerque ainda subira a cavalo poucos anos antes com medo das emboscadas, a zona fresca propiciava as casas avarandadas onde uma burguesia sempre apavorada com a biliosa mas a prosperar podia dizer que pegava na lancheira e ia para o campo. Poucos sobravam, quase nenhuns, diga-se a verdade, ora substituídos ou acrescentados, ora vergastados pelo tempo.
[324]
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 1)
Morava no que fora um chalet, na Avenida 24 de Julho, quando os tramways subiam a D. Carlos, depois Manuel de Arriaga, agora Karl Marx, dobrando a Central Eléctrica e subindo, chiando, extenuando-se.
"A 24 de Julho é uma avenida coerente".
Verdade que a frondosa via, que atravessa a cidade a meio, na sua parte alta, desenrolando-se desde o bairro da Polana até ao Alto Mahé, mantivera a mesma designação. Nome desde o antigamente por causa da sentença do Marechal Mac-Mahon sobre os territórios da Catembe, defronte da baía, que Sua Majestade britânica reivindicava à dita soberania portuguesa e que assim se manteve por ter sido essa a data das famosas nacionalizações, loguinho mesmo a seguir à independência. Zefanias, que não era dado a sinuosidades semânticas, classificava como mesmura essa teimosia toponímica, alheio a manifestas incoincidências políticas. Nunca lhe consegui uma explicação para o termo.
O dito chalet, verdade seja, tinha mais de evocação do que de estatuto, relíquia de uma certa belle époque cujos perfumes cruzaram os oceanos, dobraram o cabo e aportaram na cidade. Aqui uma frontaria em arcos, lavrada, uns muros à inglesa, colunatas modestas, um e outro hotel junto ao porto, o can-can de algumas vaporosas francesas. Mas a cidade era na baixa. No altos, que Mouzinho de Albuquerque ainda subira a cavalo poucos anos antes com medo das emboscadas, a zona fresca propiciava as casas avarandadas onde uma burguesia sempre apavorada com a biliosa mas a prosperar podia dizer que pegava na lancheira e ia para o campo. Poucos sobravam, quase nenhuns, diga-se a verdade, ora substituídos ou acrescentados, ora vergastados pelo tempo.
[324]
domingo, julho 04, 2010
quinta-feira, julho 09, 2009
Luís Carlos Patraquim
JOSÉ CRAVEIRINHA
Do meu amigo chegarão as flores
e os vaticínios
a dog starv’d at his master’s gate
predicts the ruin of the State
Tanjarinas!
E de mulheres mil
Um Nome,
Ou a pátria,
Rendilhada cortina
Que a usura pui,
E o cós da angústia
No blazer que a Noite em verbo nua
anverso da máscara
Convocando Xipokwés e géiseres e
as aprazíveis praias onde Ulisses
Aportou,
Do meu amigo chegarão as flores
Ai, deus, e u é?
[321]
JOSÉ CRAVEIRINHA
Do meu amigo chegarão as flores
e os vaticínios
a dog starv’d at his master’s gate
predicts the ruin of the State
Tanjarinas!
E de mulheres mil
Um Nome,
Ou a pátria,
Rendilhada cortina
Que a usura pui,
E o cós da angústia
No blazer que a Noite em verbo nua
anverso da máscara
Convocando Xipokwés e géiseres e
as aprazíveis praias onde Ulisses
Aportou,
Do meu amigo chegarão as flores
Ai, deus, e u é?
[321]
domingo, junho 07, 2009
segunda-feira, maio 09, 2005
Luís Carlos Patraquim
FREI MUTIMÁTI GRABATO JOÃO
«Vemos só o que vemos sabendo que há mais
Do outro lado do aquilo, no delá da galba»
P’la estrada de Machava, à esquina da Meseta,
como Rolando sob a última fachada
ou como quem tropeça piqueno
e um Morto muito
lhe deve versos – o cono! –
mai-lo zarolho que lhe deu
claramente visto o Povo,
lá vai Frei João, o Mutimáti,
ao grabato da alma.
Psiu, D. Antónia; João dos barcos
desancorados da infância; Amélia,
múgica guitarra onde sob os cabelos
a voz e tu, menino,
que arado adunco nos mostraste em obra,
visto que o autor é o seu próprio processo,
e dele nem Virgílio o nomeia
em verde prado onde os deuses apascentou;
Psiu, que p’lo caminho de Inhaminga,
p’lo caminho de Santiago com a Rosa na Arca
e a sapata grossa ecoando, cavernosa,
~uas quybyrycas de Barcelos,
lá vai Mutimáti mai-lo cachimbo
de chicaocao e canho adornando ogres,
floresta obscura, parva savana nítida.
D’oiro menino e número ele busca, um zunido,
não de Deucalião a curva da pedra batendo
e a terra ferida e nem os círculos
sobressaltando as águas, tingindo-as
de um cenho triste, mas de puríssimo mel
desenhando o vário Mundo, branco estertor
que da tela golfa e onde pasta
a bela novilha – ou Inês? – sossegada
e Ele sacoleja o tinthohlo
como uma Canção Desesperada.
Haverá odes de haverás e,
no delá da galba, gájaras de Ceres
generosa e um cajueiro em seu júbilo
entesourando a colheita
e os súcios nem o cuspo de um verso teu
merecem onde minucioso te deste à desova
e o Cavré ainda salga os velhos espíritos
e o Rui sangra a sombra ardida e verde
e tu a veres só o que vês
sabendo que há mais do outro lado
do aquilo onde agora estás.
[151]
FREI MUTIMÁTI GRABATO JOÃO
«Vemos só o que vemos sabendo que há mais
Do outro lado do aquilo, no delá da galba»
P’la estrada de Machava, à esquina da Meseta,
como Rolando sob a última fachada
ou como quem tropeça piqueno
e um Morto muito
lhe deve versos – o cono! –
mai-lo zarolho que lhe deu
claramente visto o Povo,
lá vai Frei João, o Mutimáti,
ao grabato da alma.
Psiu, D. Antónia; João dos barcos
desancorados da infância; Amélia,
múgica guitarra onde sob os cabelos
a voz e tu, menino,
que arado adunco nos mostraste em obra,
visto que o autor é o seu próprio processo,
e dele nem Virgílio o nomeia
em verde prado onde os deuses apascentou;
Psiu, que p’lo caminho de Inhaminga,
p’lo caminho de Santiago com a Rosa na Arca
e a sapata grossa ecoando, cavernosa,
~uas quybyrycas de Barcelos,
lá vai Mutimáti mai-lo cachimbo
de chicaocao e canho adornando ogres,
floresta obscura, parva savana nítida.
D’oiro menino e número ele busca, um zunido,
não de Deucalião a curva da pedra batendo
e a terra ferida e nem os círculos
sobressaltando as águas, tingindo-as
de um cenho triste, mas de puríssimo mel
desenhando o vário Mundo, branco estertor
que da tela golfa e onde pasta
a bela novilha – ou Inês? – sossegada
e Ele sacoleja o tinthohlo
como uma Canção Desesperada.
Haverá odes de haverás e,
no delá da galba, gájaras de Ceres
generosa e um cajueiro em seu júbilo
entesourando a colheita
e os súcios nem o cuspo de um verso teu
merecem onde minucioso te deste à desova
e o Cavré ainda salga os velhos espíritos
e o Rui sangra a sombra ardida e verde
e tu a veres só o que vês
sabendo que há mais do outro lado
do aquilo onde agora estás.
[151]
quinta-feira, março 24, 2005
Luís Carlos Patraquim
ELEGIA DO NILO
à Odete e ao Amioto
Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença; Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-os junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que sabia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.
[142]
ELEGIA DO NILO
à Odete e ao Amioto
Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença; Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-os junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que sabia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.
[142]
domingo, março 13, 2005
Luís Carlos Patraquim
LIDEMBURGO BLUES (5)
Et pur, magno pórtico onde
neither division nor unity
Matters! Tu, mufana que te atreves,
atira a pedra, rasga
a textura opaca de tanto sangue!
Fere a cicatriz e a dobre, tu
que desceste ao vale dos mortos e sugaste
o osso e encontraste o vazio, batendo-o
na viseira de deus, veste a pele
e não cegues o olho do Leopardo.
Ele espreita os séculos, é quem
vagueia pelos dias e não dorme desde o crepúsculo,
o último que há-de vir
e por onde salta, alma voraz
intumescendo a árvore.
[139]
LIDEMBURGO BLUES (5)
Et pur, magno pórtico onde
neither division nor unity
Matters! Tu, mufana que te atreves,
atira a pedra, rasga
a textura opaca de tanto sangue!
Fere a cicatriz e a dobre, tu
que desceste ao vale dos mortos e sugaste
o osso e encontraste o vazio, batendo-o
na viseira de deus, veste a pele
e não cegues o olho do Leopardo.
Ele espreita os séculos, é quem
vagueia pelos dias e não dorme desde o crepúsculo,
o último que há-de vir
e por onde salta, alma voraz
intumescendo a árvore.
[139]
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Luís Carlos Patraquim
EIS AS CASAS
Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua ou sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe, memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado de desejo. O bosque.
Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagens de despudor sem mim. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.
[133]
EIS AS CASAS
Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua ou sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe, memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado de desejo. O bosque.
Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagens de despudor sem mim. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.
[133]
quinta-feira, janeiro 27, 2005
Luís Carlos Patraquim
MORADAS
O rosto da montanha na sombra do vale,
sua macerada inscrição confundindo as pegadas
de quem, ignoto, nem a memória inscreveu
sobre o vento.
Alguém que olha a ausência
e o mais íntimo sinal, sedosa estrela,
uma quase poeira, a viandante terra,
nómada, entre silêncio e nada.
Uma única mão de luz talonando o tempo.
[126]
MORADAS
O rosto da montanha na sombra do vale,
sua macerada inscrição confundindo as pegadas
de quem, ignoto, nem a memória inscreveu
sobre o vento.
Alguém que olha a ausência
e o mais íntimo sinal, sedosa estrela,
uma quase poeira, a viandante terra,
nómada, entre silêncio e nada.
Uma única mão de luz talonando o tempo.
[126]
domingo, janeiro 04, 2004
Luís Carlos Patraquim
MUHÍPITI
É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.
[54]
MUHÍPITI
É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.
[54]
Subscrever:
Mensagens (Atom)