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sexta-feira, outubro 20, 2017

Rui Knopfli

JUSTERINI & BROOKS

Este punhal de veludo,
esta fria estalactite,
esta cicuta tão lenta
e que tão profundamente
fere. Esta lâmina

líquida, doirada,
este filtro parecido ao sol,
este rarefeito odor simultâneo
ao fumo, à água, à pedra.
Este adormecer antes do sono

só preâmbulo da vigília,
que é o gélido acordar
da imaginação para
as fronteiras dormentes
do horizonte protelado.

Este trajecto subterrâneo e húmido
pelos túneis do infortúnio,
que é o adiar moroso
da morte, no prolongar
silencioso da vida,

lágrimas da noite tornadas
pranto da madrugada,
rumor débil e distante
brandindo já no sangue
o endurecer das artérias.


[343]

quinta-feira, outubro 19, 2017

Rui Knopfli

FIM DE TARDE NO CAFÉ

Na tarde cor de azebre
falávamos de coisas amargas.
Ali, na mesa triste do café
com moscas adejando
sobre restos de açúcar
e um copo de água
morna de esquecida,
falávamos da amargura das coisas,
entre rostos graníticos e enxovalhados,
entre estranhos e estranhos
de estranhos e os que,
nada tendo de estranhos,
cuidam de cuidar
o que se passa entre estranhos.
Na tarde comprida e silenciosa
tecíamos gestos inúteis
e palavras entre dentes,
mergulhados na paisagem geométrica
do café. Do café tão cheio de gente
e fumo e moscas e caras tristes
e afinal tão profundamente,
tão desesperadamente vazio.


[342]

terça-feira, dezembro 01, 2015

Rui Knopfli

INVERNAL

Corre já um arrepio pela crista
de Novembro. A imprevisível surpresa
da luz de inverno é a sua agressiva
doçura horizontal. Toma-se de frio

o ombro esquerdo, a moinha persistente
espreitando o coração cansado.
Subo devagar o Mall e a luz
fere-me os olhos frontalmente, filtrada,

fina e branca, quase paralela ao solo,
como em África nunca aconteceria.
Perpendicular, fita-me de frente,
rasante ao chão como se lhe pedisse

que, por fim, me receba. Novembro,
agora pressago, Novembro, agora
sobre o ombro esquerdo, baixando,
insidioso, sobre o lado dito fatal.


[338]

quinta-feira, abril 14, 2011

Rui Knopfli

INVENTÁRIO

Rosas inglesas rosa pálido tingido
de alvura, gravatas Lanvin e Ricci.
Na mão a demorada taça de ordálio,
ouro velho e insidioso, doce cheiro a fumo.
Objectos familiares, ténues, difusas

lembranças de longe. Um crânio
de ébano negrejando entre a luz
e a garrulice do barro artesanal,
o cio magoado da voz fadista. A ilha ao sol,
ao sonho, amortalhada na distância.

O cajueiro e a mafurra, micaias
agrestes, panoramas da infância,
dolorosos, esbatidos fantasmas
de outro tempo, agigantados em olmos
e castanheiros na oval cinzenta

do No Man's Common. Livros por abrir
dormitando na poeira, o gráfico
anguloso do horóscopo, retratos,
memória paralisando o instante
esquecido. A mulher de passagem,

velo fulvo, debrum para o azul
lavado do olhar, perfil mitigando
a vacilante modorra do entardecer.
Alongada curva do flanco retraindo-se
sob a experimentada carícia antiga

dos dedos cansados. Toda a memória
inflectindo o gesto, o gesto já só memória
que de si mesma se desprende e afasta,
conjecturando, indolor, a paisagem
neutra dos dias que se avizinham ermos.


[330]

quinta-feira, junho 26, 2008

Rui Knopfli

CORPO PRESENTE

Mais me pesa a terra sobre os olhos
e no lugar do coração. Não era
enfim tão rápido quanto crera.
Não fora esse indício e juraria a ausência
total de sensações. Pesa-me, porém
sobre a cegueira dos olhos e o vago
atroz do coração. Atroz não
porque me doa ou amargure,
mas porque esse ruído débil,
sempre inaudível, companheiro
da primeira à derradeira hora,
súbito cessou,
substituindo-o o horror de insuspeitado
e impenetrável silêncio. Depressa
me habituarei. A insensibilidade
da mão esquerda, sê-lo-á? Ou
será da terra? A terra…
O corpo soma-se-me em terra.
De tosca e anómala não chega
a ser obscena na terra a nudez
final. Aqui neste lugar
não há lembranças da vida. Mais
depressa ainda a vida se esquecerá
de mim e deste escuro mas promissor
tirocínio a uma futura arqueologia.


[311]

domingo, fevereiro 10, 2008

Rui Knopfli

O ESCRIBA ACOCORADO

Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.


[301]

terça-feira, novembro 20, 2007

Rui Knopfli

ACHADO SEM VALOR ARQUEOLÓGICO

Emergirei primeiro uma ranhurada
secção da calota, nota de brancura
dissonante espreitando no denso
verde da relva. Crianças, que adivinho,
correrão insuspeitamente do horizonte.
E virão aguaceiros em bátegas fortes
e a relva vicejará lustrosa e tenra.
De noite, nas noites sem luar,
amantes furtivos hão-de estender-se
rente a mim. A epiderme macia
da rapariga loira roçar-me-á,
com um arrepio brusco, a insensibilidade
nua da fronte: náusea imperceptível
de pronto esquecida na febre
dos beijos e afagos. Após a estiagem
a erva mirrará abrindo claros.
Fitarei, então, pela primeira vez,
ao fim de tão longa vigília,
com a escura fenda que outrora
foi o meu olho esquerdo, o céu
de um azul impoluto e brunido.
A breve trecho, o ângulo tristonho
da maxila, pequena mancha clara,
prenderá a atenção de um menino
de grandes olhos serenos, que há-de
pousar em mim, sem horror, a mansa
e grave curiosidade de seu olhar sonhador.


[289]

domingo, julho 15, 2007

Rui Knopfli

LETRA PARA UM SOLO DE CHARLIE PARKER

Como estranha ave de presa
que ferida de morte flectisse
a hipérbole do voo na agonia
prolongada, é um canto angular,
terso, mas de arestas poluídas.
Polígono torturado, perturba-o
a iminência adiada de um grito
de socorro. Em sua chama viva
perpassam secretas vozes de rebeldia,
bárbaros sons de tormenta. No clamoroso
incêndio da ira e da raiva
(é preciso saber escutar),
a urgência implorativa
de um pouco de ternura.


[272]

sábado, junho 02, 2007

Rui Knopfli

HACKENSACK

Você compreende Thelonious Monk?
Não. Você não o entende.
Até lhe desagrada e o inquieta
aquela forma esquisita
de ter o passo oblíquo e trôpego
e de deixar tombar a nota
não quando você a espera,
mas um momento antes ou depois,
sempre depois se a espera antes,
sempre antes se a espera depois.
Não finja. Eu sei que o incomoda
e o irrita o modo impertinente
com que faz rilhar o dente
ao piano, com que pulveriza
as semibreves. De Dinah
a Bolivar blues não se vai
nas cordas doces de um violino;
tem de se ir pisando duro
mas com cautela e precaução
doseando silêncio e som
opondo ao vazio mensuração.


[266]

domingo, março 04, 2007

Rui Knopfli

MILES

O que nos dizes de ti
tem a dolorida geometria
das peras de Satie


[252]

segunda-feira, novembro 06, 2006

Rui Knopfli

WINDS OF CHANGE

Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.


[238]

domingo, julho 09, 2006

Rui Knopfli

O LADRÃO DE VERSOS

Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.


[222]

quarta-feira, maio 24, 2006

Rui Knopfli

LEMBRANÇAS DO FUTURO

Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.

O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:

só os poetas têm lembranças do futuro.


[217]

domingo, abril 09, 2006

Rui Knopfli

POSTERIDADE

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.


[209]

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Rui Knopfli

PRINCÍPIO DO DIA

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele me responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar.)


[200]

sábado, janeiro 21, 2006

Rui Knopfli

TELEGRAMA

Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.


[196]

sábado, janeiro 07, 2006

Rui Knopfli

PAISAGEM

Acordando a densa folhagem
da mafurreira,
rouco, o grito da soa
rasga o ar parado.
Gorgolejando
responde o lagarto
humilde das pedras:

Dois tons
Na imensa orquestra do plaino.

Com fragmentados,
distantes murmúrios
de povoações algures,
paralelo, corre nas lonjuras
do sol mordente, um coro
fanhoso de cigarras.

Sob a comprida sombra de meus olhos
dormita uma adolescente negra,
finos, dengosos músculos
arquejando leve sob a pele lustrosa.

Nos confins da tarde
ri estridente um bêbedo
e mil vidas vibram poderosas
na falsa quietude dos matos.
De estranho metal,
nos espaços, cintilam agulhas.

Então,
uma brisa morna
arrasta as últimas folhas secas
por sobre
o rio e a foz.


[193]

domingo, novembro 27, 2005

Rui Knopfli

MÚSICA DE FIM DE DIA

Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(outros tomas estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:
Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:
Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra…
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.


[186]

quinta-feira, outubro 13, 2005

Rui Knopfli

PIRÂMIDE. 7

Salvo o recorte da cidade,
ângulos e linhas secas,
arestas cinzentas cortando
a palidez indecisa.
Salvo com nitidez
isso e nada mais:
Um perfil rígido
de tristes tons esmaecidos.
Salvo esse desenho morto,
esses silêncios desabitados,
sem cores, sem vozes,
sem árvores. Isso guardo
e nada mais, a imagem
doente do espaço
outrora habitado.


[179]

domingo, julho 24, 2005

Rui Knopfli

NAVIO NO PORTO

Vamos até ao cais ver o navio
panamense.
Com as suas cores sujas,
a tripulação descalça e bronzeada,
de feições índias e mulatas,
- tem um aspecto estranho o navio
Panamense.
Na franja doirada de sol
paira o gárrulo das camisas
e, sobre a brisa molenga,
flutuam fonemas espanhóis.
A gente vê cá em baixo
o negro, mais negro do carvão,
cirandando debruçado
e, lá em cima,
a cor e a música das vozes
em torno dum transístor pequeno.
A gente vê uns e vê os outros,
vê mares abrindo-se
e cais fechando-se.
E a gente pensa, olhando com olhos
estranhos
a estranheza do navio panamense.


[167]