Nelson Saúte
MAPUTO
Preciso dizer-te com carácter de urgência.
Preciso revelar-te na palavra e no silêncio.
Preciso sublimar a minha solidão na sombra
das palavras e dos gestos acordando
na imensidão dos dias vozes duendes
como se me albergasses na infância
Preciso amar-te com urgência. Amar-te
como palavras. Sussurrar-te minhas ânsias.
Adormecer minha voz no teu ouvido.
Perscrutar o som do silêncio. Dizer-te
com urgência inadiável que te amo.
Preciso amar-te ó meu amor amado.
Preciso amar-te como quem ama
pela última vez. Amar-te como se fosse
um voo agónico. Amar-te na margem
da ausência tua. Amar-te nas canções
que oiço pela manhã. Nas vozes espantadas
das mulheres no Xipamanine. Preciso
de te amar neste trajecto dorido por Maputo
com estas vozes que atravessam a noite.
Preciso amar-te com urgência. Amar-te agora e sempre.
Preciso de te amar somente.
Dizer-te: amo-te, minha musa, meu amor amado.
Preciso de te amar. Amar. Amar-te simplesmente.
[270]
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segunda-feira, junho 25, 2007
sábado, junho 16, 2007
Nelson Saúte
MARRABENTA PARA FANNY MPFUMO
ao Zé Flávio Teixeira
Fanny Mpfumo cantava I love you so
eu era menino e nem sabia o que era tindjombo:
- ó a va sati valomo! –
mas já dizia hodi nos quintais contíguos
do meu Bairro Indígena.
Unga tlhupheque nkata que ouvia na rádio
por sobre o móvel da sala
na casa da minha avó
nomeava todas as mulheres que derrubavam
à passagem os meus inocentes e desprevenidos anos
ali na varanda do Muchina.
O king ya marrabenta era suposto
conviver conosco todos os dias.
Também ouvíamos Elisa gomara saia
nos tempos em que os Djambo 70 conjuravam
e o destino dos meus pais não era só
os míticos bailes da cidade de caniço.
O mufana que eu era também gostava
maningue do Gonzana e de todo o conjunto João Domingos
Massoriana no palato daqueles tempos.
Algumas vezes ouvia o João Wate
e outros que a memória não acautelou.
O Alexandre Langa foi mais tarde
que me empolgou – Rosa Maria.
Tínhamos atravessado
para lá do asfalto e alcandorados estávamos
na Polana onde inaugurávamos a nossa condição
de habitantes de fogos suspensos,
alcançados mais tarde em obscuras escadas
disputadas por bidões de água
acartados do jardim Tunduro.
Minha avó falava naqueles velhos anos
do Artur Garrido, conterrâneo lá de Ressano Garcia.
Mais tarde vi Fanny Mpfumo no Scala
- não muitos anos depois no Estrela Vermelha –
marrabentando uma guitarra eléctrica
no frémito do seu amor por Georgina waka Nwamba.
[268]
MARRABENTA PARA FANNY MPFUMO
ao Zé Flávio Teixeira
Fanny Mpfumo cantava I love you so
eu era menino e nem sabia o que era tindjombo:
- ó a va sati valomo! –
mas já dizia hodi nos quintais contíguos
do meu Bairro Indígena.
Unga tlhupheque nkata que ouvia na rádio
por sobre o móvel da sala
na casa da minha avó
nomeava todas as mulheres que derrubavam
à passagem os meus inocentes e desprevenidos anos
ali na varanda do Muchina.
O king ya marrabenta era suposto
conviver conosco todos os dias.
Também ouvíamos Elisa gomara saia
nos tempos em que os Djambo 70 conjuravam
e o destino dos meus pais não era só
os míticos bailes da cidade de caniço.
O mufana que eu era também gostava
maningue do Gonzana e de todo o conjunto João Domingos
Massoriana no palato daqueles tempos.
Algumas vezes ouvia o João Wate
e outros que a memória não acautelou.
O Alexandre Langa foi mais tarde
que me empolgou – Rosa Maria.
Tínhamos atravessado
para lá do asfalto e alcandorados estávamos
na Polana onde inaugurávamos a nossa condição
de habitantes de fogos suspensos,
alcançados mais tarde em obscuras escadas
disputadas por bidões de água
acartados do jardim Tunduro.
Minha avó falava naqueles velhos anos
do Artur Garrido, conterrâneo lá de Ressano Garcia.
Mais tarde vi Fanny Mpfumo no Scala
- não muitos anos depois no Estrela Vermelha –
marrabentando uma guitarra eléctrica
no frémito do seu amor por Georgina waka Nwamba.
[268]
segunda-feira, maio 14, 2007
Nelson Saúte
COSTA DO SOL
À mesa enquanto o cachucho me não desmente
a incerteza sobre o blues que prolonga
a minha solidão sobre a esparsa quietude da tarde
ausento-me desta varanda e meu olhar
intenta alcançar a fronteira entre o mar e a ilha.
Quando regresso de Xefina me dou conta
de que tenho companheiros que falam
com abundância e se riem às gargalhadas
tecem elogios ao caril de camarão
e ainda são capazes de falar línguas estrangeiras.
[264]
COSTA DO SOL
À mesa enquanto o cachucho me não desmente
a incerteza sobre o blues que prolonga
a minha solidão sobre a esparsa quietude da tarde
ausento-me desta varanda e meu olhar
intenta alcançar a fronteira entre o mar e a ilha.
Quando regresso de Xefina me dou conta
de que tenho companheiros que falam
com abundância e se riem às gargalhadas
tecem elogios ao caril de camarão
e ainda são capazes de falar línguas estrangeiras.
[264]
quinta-feira, abril 19, 2007
Nelson Saúte
MUNHUANA BLUES
Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.
[260]
Bibliografia essencial: Nelson Saúte, Maputo Blues, Ndjira, Maputo 2006
MUNHUANA BLUES
Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.
[260]
Bibliografia essencial: Nelson Saúte, Maputo Blues, Ndjira, Maputo 2006
domingo, agosto 01, 2004
Nelson Saúte
TESTAMENTO PARA OS MEUS FILHOS
Mayisha e Irati:
este o magro pecúlio que vos deixo
- livros, papéis, sonhos.
Poemas para as mulheres
que amei. Hinos de amor à vossa mãe.
Filhos, só vocês dois.
Depois de mim herdarão o nome
e a tarefa de perpetuar o que progenitor
encetou. Fica para trás uma vida.
Ilusões, cansaços, combates.
Infrutífero desespero de viver
num país apátrida.
Deixo-vos estes desígnios
de coisa nenhuma. Algum pecúlio
um coração, bondade e alguma fé
doméstica. Amanhã estes homens
e mulheres que se festejam
na algazarra das vozes e na luz
de artifício nada terão para vos dizer.
Oiçam então a voz do progenitor
que não sucumbe às vozes
nesta madrugada primeira
do vigésimo primeiro século.
Estas vozes digo-vos estarão
apagadas pela cinza do tempo
e do esquecimento.
Vosso pai afagar-vos-á
com a mesma ternura enquanto vivia
e levar-vos-á a passear pelas ruas da memória
com a mesma ilusão que vos alberga
nesta pequena casa que também vos deixa.
Para trás ficará um tempo
mas não ficarão os homens que destroçaram
a minha geração, meus filhos.
Não ficarão os sonhos e ilusões
nem a lembrança inconsútil da barbárie.
Espero que resista a honra deste homem
que está por detrás destes versos e que um dia
curvados sobre a sua tumba
vocês digam sem vergonha: Pai
[93]
TESTAMENTO PARA OS MEUS FILHOS
Mayisha e Irati:
este o magro pecúlio que vos deixo
- livros, papéis, sonhos.
Poemas para as mulheres
que amei. Hinos de amor à vossa mãe.
Filhos, só vocês dois.
Depois de mim herdarão o nome
e a tarefa de perpetuar o que progenitor
encetou. Fica para trás uma vida.
Ilusões, cansaços, combates.
Infrutífero desespero de viver
num país apátrida.
Deixo-vos estes desígnios
de coisa nenhuma. Algum pecúlio
um coração, bondade e alguma fé
doméstica. Amanhã estes homens
e mulheres que se festejam
na algazarra das vozes e na luz
de artifício nada terão para vos dizer.
Oiçam então a voz do progenitor
que não sucumbe às vozes
nesta madrugada primeira
do vigésimo primeiro século.
Estas vozes digo-vos estarão
apagadas pela cinza do tempo
e do esquecimento.
Vosso pai afagar-vos-á
com a mesma ternura enquanto vivia
e levar-vos-á a passear pelas ruas da memória
com a mesma ilusão que vos alberga
nesta pequena casa que também vos deixa.
Para trás ficará um tempo
mas não ficarão os homens que destroçaram
a minha geração, meus filhos.
Não ficarão os sonhos e ilusões
nem a lembrança inconsútil da barbárie.
Espero que resista a honra deste homem
que está por detrás destes versos e que um dia
curvados sobre a sua tumba
vocês digam sem vergonha: Pai
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