Ana Mafalda Leite
DO OUTRO LADO, A SUL
TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO
à Luísa Petris e ao Luís Cezerilo
por aqui arrefece com o Inverno, meu amigo, e quase apetece fazer um poema. do lado de lá a paisagem é só silêncio e a alma voa descompassada.
perguntamos se o trópico de capricórnio está para chegar, pois o signo roda ao ritmo das estações. aí será verão e eu coloco nos ombros esta mágoa encasacada que me pesa e não aquece.
voltam-se as páginas dos dias uma a uma. as notícias vêm de longe em trinta e três rotações. não haverá uma canção solta na vossa pressa de votar o coração que nos prende?
estamos quietos. quase parece que hibernámos neste azul vivo que corta como o gelo num dia de sol.
pedem-nos que habitemos essa língua que aí se desmancha em arco-íris, que temperamos com gengibre esta insossa maneira de comunicar.
onde se despem afectos e se escondem charcos de solidão. tenho de atravessar o oceano e ir banhar-me dessa luz austral que me renasce.
tenho medo de morrer aqui. enregelada. atravessa-se na minha cabeça uma espécie de neve insuportável e os ossos sinto-os a estalar.
Não escolhi o trópico de câncer, não desejo andar às arrecuas. na verdade não escolhi o mapa e detesto que os lugares me prendam ao chão.
a minha natureza é andarilha e precisa de calor para crescer. não me peçam palavras que vistam a garganta de quem canta longe.
eu não posso traduzir a alma ou travesti-la. preciso de um pote cheio de xicuembos, incensos, ervas aromáticas, em que aspire a terra vermelha que trago sempre a nascer dentro de mim.
desço os olhos para o trópico de capricórnio, abro as cortinas da imaginação e o sul desenha-se por entre os dedos açafrânicos.
dizes-me então que te apaixonaste por uma jovem muçulmana que dança a dança do ventre e súbitos saris esvoaçam entre nós.
levada numa miragem, esqueço a origem dos nomes
peço à raiz do tempo que o amor nos povoe do pó das estrelas
e encantada a voz me dance nesse ventre que abraça o teu olhar maravilhado
[232]
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sábado, setembro 23, 2006
quinta-feira, maio 11, 2006
Ana Mafalda Leite
O VERMELHO DAS ACÁCIAS NA PAISAGEM
cai ao chão a mais íntima aurora
há-de vestir-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra
este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama
arde em lábios audaciosos
neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer um dom de mansidão
em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chão
[214]
O VERMELHO DAS ACÁCIAS NA PAISAGEM
cai ao chão a mais íntima aurora
há-de vestir-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra
este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama
arde em lábios audaciosos
neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer um dom de mansidão
em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chão
[214]
terça-feira, abril 25, 2006
Ana Mafalda Leite
NATURALIDADE
(UMA CARTA A RUI KNOPFLI)
Eu, meu caro Rui Knopfli, eu caso-me à agrura das micaias e das rosas, ao roxo das noites lentas e às luas do dois hemisférios. Do sul ao norte em espiral me move o coração em índico interior, a intensa lentidão dos sentidos adormecidos por essas aves estranhas que me povoam os sentidos de asas bem reais.
chamem-me europeia ou africana, que fazer senão calar? Meus versos livres, livres xingombelas, livres pomos, voam sem chão, neste chão que trago por dentro da casa móvel que atravessa o sonho. Muito por dentro de todas as paisagens acorda aí esse teu, este meu, quebranto dolente, luz que as tardes em brasa levantam na alma acordada em seu abrupto amanhecer. É provável e é certo ser este meu corpo entrançado de liana e liamba uma trepadeira de nuvens em que o arco íris morde a cauda de muitos céus em desvario, porque a alma sem sossego acasala seres bifrontes, monstros de um hermes apátrida.
que pátria a de um poeta senão uma língua bífida e em fogo, senão um veneno redentor de mamba, enroscada dor nesse corpo babel em chama anunciado?
há no entanto uma terra e uma pátria em que pouso devagar, me reconheço e desconheço, escriba acocorado enrubescendo a língua de amorosos sabores, de vibrados ritmos, é a tua pátria de versos ó Rui, a tua mafalala entumescida José, a tua sensual arquitectura a oriente, Eduardo, ó príncipe dos poetas, o teu rumo silencioso e manso Artur, a escultura maconde da tua voz magoada Noémia, teu rendilhar de pemba azul Glória, a monção elegíaca e trágica, dolorosa dos teus blues, Patraquim, teu mar ao norte em ilhas utópicas Virgílio, e em arca de noé, essa fábula grotesca de Grabato arrebatando os pontos cardeais num chão desgarrado a Filimones, mes em nós crescido até à palma primeira de todos os sons.
Acredita, a terra-mar que em nossas línguas caminha é naturalidade obscena, pátria dividia em crónicas da peste, nascimento incestuoso de múltiplas mães, em nós úbere o som da xipalapala.
lancinado eco do fim das tardes, misterioso som, morro de muchém crescido da terra, desventrando asas em voluta, lento voo em sombra acesa, pátria minha, passaporte,
naturalidade, só uma, a poesia.
[211]
NATURALIDADE
(UMA CARTA A RUI KNOPFLI)
Eu, meu caro Rui Knopfli, eu caso-me à agrura das micaias e das rosas, ao roxo das noites lentas e às luas do dois hemisférios. Do sul ao norte em espiral me move o coração em índico interior, a intensa lentidão dos sentidos adormecidos por essas aves estranhas que me povoam os sentidos de asas bem reais.
chamem-me europeia ou africana, que fazer senão calar? Meus versos livres, livres xingombelas, livres pomos, voam sem chão, neste chão que trago por dentro da casa móvel que atravessa o sonho. Muito por dentro de todas as paisagens acorda aí esse teu, este meu, quebranto dolente, luz que as tardes em brasa levantam na alma acordada em seu abrupto amanhecer. É provável e é certo ser este meu corpo entrançado de liana e liamba uma trepadeira de nuvens em que o arco íris morde a cauda de muitos céus em desvario, porque a alma sem sossego acasala seres bifrontes, monstros de um hermes apátrida.
que pátria a de um poeta senão uma língua bífida e em fogo, senão um veneno redentor de mamba, enroscada dor nesse corpo babel em chama anunciado?
há no entanto uma terra e uma pátria em que pouso devagar, me reconheço e desconheço, escriba acocorado enrubescendo a língua de amorosos sabores, de vibrados ritmos, é a tua pátria de versos ó Rui, a tua mafalala entumescida José, a tua sensual arquitectura a oriente, Eduardo, ó príncipe dos poetas, o teu rumo silencioso e manso Artur, a escultura maconde da tua voz magoada Noémia, teu rendilhar de pemba azul Glória, a monção elegíaca e trágica, dolorosa dos teus blues, Patraquim, teu mar ao norte em ilhas utópicas Virgílio, e em arca de noé, essa fábula grotesca de Grabato arrebatando os pontos cardeais num chão desgarrado a Filimones, mes em nós crescido até à palma primeira de todos os sons.
Acredita, a terra-mar que em nossas línguas caminha é naturalidade obscena, pátria dividia em crónicas da peste, nascimento incestuoso de múltiplas mães, em nós úbere o som da xipalapala.
lancinado eco do fim das tardes, misterioso som, morro de muchém crescido da terra, desventrando asas em voluta, lento voo em sombra acesa, pátria minha, passaporte,
naturalidade, só uma, a poesia.
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