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terça-feira, dezembro 10, 2013

Eugénio Lisboa

A pátria é triste. Sofro. Estou calmo.
Único honesto, entre deshonestos, clarividente,
entre os cegos, a indignação há muito acalmo.
Estou só. Sofro quando alguém sente.
A honestidade – que solidão! A coragem cansa.
Em breve, cadáver que a outros mortos fala,
penso em Atenas, plena de alegria mansa,
e no coração afogo palavras que o pudor cala.
Estou cansado de prever o negro acontecer.
Algo nasce. Algo morre. Com quem perde, estou.
Honestidade é pátria de quem outra não sabe ter.
Ao abismo das causas perdidas, quieto, vou.
Melhor do que ocupar-me da minha pobre vida,
agora que pos pássaros a cantar começam,
na espada pego, com mão há pouco ferida
– o vento rasgo. Percebo que meus pés tropeçam.


[337]

sábado, fevereiro 10, 2007

Eugénio Lisboa

TRANSPARÊNCIA

Morrer é só não ser visto,
é sair de ao pé de ti,
apagar-me em tudo isto,
deixar de ver o que vi.

Morrer é não estar em ti,
e mais do que não te ver,
é não ser visto por ti,
no deserto do não ser.

Morrer é como apagar-se
a chama que houve em nós,
é uma espécie de ficar-se
vazio da própria voz.

Vive o amor da atenção
que se tem por quem se ama.
Mas a morte atiça em vão
o fio que não dá chama.

Morrer é só não ser visto,
é passar a pertencer
a um livro de registo
que guarda o nosso não-ser.


[249]

quarta-feira, novembro 26, 2003

Eugénio Lisboa

ORIGEM

Ao Sebastião Alba

Regresso ao passado espesso
Tecido incestuosos vário sujo
Magna de ódio embebido em gesso
Rápidos pavores de que fujo
Ó húmida tentação horizontal
Cave podre e quente latejante
Onde menina sedução mineral
Viva palpo aliso quase ofegante
A vida a violência o sangue o sal
Incrível solo de augusta criação
O leite o mar a mão o sexo
O amor o riso e a traição
Os livros e a pureza ó quase nexo
Ó embruxado, aquecido caldo
Turva sopa inquieta mátria
Em ti me aqueço grito escaldo
Noiva do negro cru espasmo-pátria!
Tempo turvo incerto fino rubro
Metálico fogo ruivo trampolim
Horizontal finura que recubro
Ó mãe irmã uva de cetim!
Tempo antigo de impura surdina
tudo era ali calor de incerteza
Risco cerco sugestão de mina
Súbito esperma surto da represa.
O estupro a morte o oleoso sangue
O mar que tudo lava a memória
O ódio a agonia o corpo exangue
Do negro rebentado – única vitória!
Infância plasma leite de origem
Noite descoberta febre violenta
Profanação antiga ó mãe vertigem
Noite confusa vigília peçonhenta.
Sabor antigo e brusco a caju
Pecado de limão ao fim do dia.
Histórias de mamba e de surucucu
Alçado gozo de fruto e agonia.


[41]

quarta-feira, outubro 22, 2003

Eugénio Lisboa

NO TEMPO EM QUE, FERNANDO

Ao José Craveirinha

Era terra de sol e alegria,
de húmida, vegetal espessura:
ali a minha voz acontecia,
com o ritmo do sangue e da negrura.

Agora, a neve branca cobre a estrada,
com seu manto de noite e solidão.
Já, se o círculo traço, não há nada,
se não fora gelada vibração.

Era terra de ouro fecundada,
força macha, leal, apetecida.
Era chuva, magia visitada,
era sal, sugestão de força ardida.

Agora é só o branco que faz mal
ao filho cujo sal já emigrou.
A vida, agora, é lisa, mineral,
o coração, gelado, sossegou.


[29]