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segunda-feira, março 27, 2006

Leite de Vasconcelos

CANTO DO VERBO EM BUSCA DA FORMA

Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui voo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo


[206]

domingo, agosto 15, 2004

Leite de Vasconcelos

RECEITA PARA UMA INFRACÇÃO

Poderia ser para o Dr. Albertino Damasceno
mas é, mais simplesmente e com amizade,
para o Tino

Toma nas mãos uma manga
dessas que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
Uma hérnia dizem-te que discal
desferidora de zagaias contra a coxa esquerda
mal consentes o pretexto de um movimento
menos respeitoso
impede que com manga e canivete
subas à forquilha de uma árvore
além de que tens mais de cubicagem
que força para elevá-la a músculos
De músculos falando
o cardíaco funciona menos mal
mas a tensão tende a subir
se não cortas o sal pela raiz
Falam-te também de certas precauções
que o fígado prescreve
e o baço embora menos determina
Apesar do sobredito toma nas mãos a manga
goza nas mãos primeiro sua redondez e consistência
dedilha a promessa da insídia mais adiante
Interdita a altura da árvore Paciência!
Faz-te Robin dos Bosques rasteiro
com bojo de frei Tuck e senta-te na sombra
(seria mais indigno subires por uma escada)

Agora com canivete e ternura fende a manga
mas guarda-te de a escalpares
Deves sentir dela a pele e o íntimo
como quando se beija uma mulher
Manda ao diabo a tensão
e deixa repousar por um momento em decúbito ventral
o pedaço de manga numa cama de sal
de preferência grosso por forma a que dois ou três grãos
adiram à carnação Não cerres os olhos É preciso
misturar a manga o sal a luz o remexer das folhas
e a eventualidade de acidentes felizes
como saltar num ramo o xitotonguana azul do Craveirinha
Atentamente morde e devagar
até que o imaturo açúcar desentranhe
se desprenda venha salpicar de infância
as papilas do tempo e liquefaça o sal em lágrima
mas lágrima feliz de ácidas memórias
como suor de corrida correndo nos lábios
polpa de maçanica beijo entre canas fruto de embondeiro
casca de tangerina espremida junto aos olhos

Toma uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida


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