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domingo, maio 18, 2008

Júlio Carrilho

NADA MAIS

Nada mais do que um motivo de recuo. Uma simples procura de retaguardas insuspeitas. Um resguardo da minha inteligência poluída. É que hoje se faz o dia a poluir. Depois empenhamo-nos em doutrinas reestruturantes. E sem nos acabarmos, a tortura de mais um recomeço.

Só cada um pode resgatar a sua própria alma.

E então? Lancei-me na savana em busca do fosso do descanso. Encontrei-o. Mas encontrei também o dono da planície. O dono da erva. O dono inclusive do meu próprio correr. Agora só as recordações me podem resgatar nos amores que eu próprio entristeci.


[308]

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Júlio Carrilho

(SER MWANI)

Não é que ser mulato me abra as portas:
é preciso que se tenha aprendido a beber
esse saber da praia
qualquer que seja a dor que se transporta.

A Guerra aqui não se reproduz. Sofre-se.
A escravatura aqui não se aprimora. Degrada-se:
na sabedoria dos escravos
na subtileza do servir dos servos
na paciência dos barcos adornados

Tudo sucumbe no equilíbrio sustentável
da intriga
viscosamente escrutinada nas sub-ilhas de murmúrios
dos quintais fechados


[300]

quinta-feira, setembro 27, 2007

Júlio Carrilho

DE REPENTE A TERRA

De repente a terra. A descoberta das cores que a povoam. Do preto ao ocre. Cada tom a revelar os seus segredos. A passar mensagens. Incipientemente a acordar-me para as dores da luz penetrando forte pela consciência. Afinal só eram sombras o que eu percebia na inocência. Afinal a vida estava lá fora a contorcer-se. Mosaico de futuro a construir-se em cada um dos grãos de areia. A lângua de lama seca a repartir-se ao sol. É um expediente que quebra cada brilho para me arrumar o pensamento.


[281]

domingo, junho 10, 2007

Júlio Carrilho

ESTRANHA FORMA

Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta da pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas


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quarta-feira, maio 23, 2007

Júlio Carrilho

(CASQUINHA)

Um vulto emerso na casquinha
tem asas de pau a equilibrar o tronco
como cintura numa dança de água
vasado tronco de árvore a nadar

Se um sobressalto de ar lhe enfuna o
pensamento
a concha de tecido apressa-o
na onda a respigar


[265]


Bibliografia essencial: Júlio Carrilho, NónuMar, Ndjira 2001

sábado, agosto 28, 2004

Júlio Carrilho

PORTA DE ÁGUA

Quarenta e tal quilómetros quadrados
de modorras viradas para a praia
escoam dos solares escancarados
a deixar os mortos a olhar
luzentes cristais de água de cambraia

Não sei ainda se isto é alegria
deixada até ao estoiro da miséria
mas a calma tecida dia-a-dia
tem o vagar da pressa que se quer
no endógeno assumir-se de matéria

Ah porta minha que deste as águas
para buscar as faces da verdade
hoje descontraída em tuas mágoas:
não tens a quem explicar o teu saber
que a nudez distorce sem maldade

Teremos que esperar que se decante
no teu líquido palco o som dos remos
se afinem silhuetas de ar cortante
para depois por ruas sem licença
abrirmos planos que só nós podemos


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