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sexta-feira, maio 23, 2008

João Paulo Borges Coelho

HINYAMBAAN (excerto)

Chegam à estrada principal e rumam a norte. Sentem-na como algo familiar e antigo que haviam perdido e agora recuperam, apesar de ter sido apenas ontem que a conheceram e deixaram. É este mais um dos mistérios das longas viagens, que alteram de um modo inelutável a percepção que temos das coisas que nos cercam. Como se fôssemos donos de um rio que não há meio de se imobilizar para que dele tomemos posse.


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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/5)

A dona Guilhermina, pragmática, pouco interessavam as justificações. Se o Zeca olhasse em volta, se se dispusesse a largar um certo caderno e um certo automóvel (ambos sem préstimo nem solução), se se decidisse enfim a sair à rua como toda a gente, veria que, a par da crise de todos os dias também todos os dias se abriam possibilidades de sair dela.
- Como, possibilidades?
Dona Guilhermina exemplificou uma delas: segundo o Secretário Filimone, o Estado dispunha-se a fornecer barcos de pesca a quem quisesse pescar. O Zeca devia ao menos tentar.
- Como, tentar? – perguntou Ferraz cautelosamente.
Vinha do Chókwè, do interior. Exercia a arte concreta do apertar e desapertar coisas, afinar. Desconfiava da escorregadia superfície do mar, da imprevisibilidade dos seus humores.
- Tentar tentando! – retorquiu ela, agastada.
Adquirindo um dos tais barcos, contratando pescadores, sabia lá! A única coisa que sabia é que o via zanzando por ali enquanto ela própria passava o dia fora, num trabalho, ou melhor, em dois ou três trabalhos propriamente ditos.
E foi assim que o mecânico Ferraz, depois de arrancado à garagem e encostado à parede, foi empurrado para a pesca.


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segunda-feira, dezembro 04, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/4)

O que distinguia a loja de Valgy, mais ainda que os panos, era a arte que o dono tinha, como ele dizia, de dar esses panos a provar (no seu português aproximado e delirante, considerava que pelo tacto e pela vista se conseguia descobrir o sabor). Empunhava uma longa vara de madeira com um gancho na ponta, mergulhava-a na escuridão das alturas e, com um gesto seco sacudia um rolo até aí invisível que, ao soltar-se de onde estava pendurado principiava a descer lentamente, atravessando os ares. A princípio parecia uma mancha de tinta negra, uma fuligem sujando o ar, a asa de um morcego adejando devagar. A meio do voo ganhava os tons cinzento-azulados aos olhos da pasmada clientela, virada para cima a tentar descobrir o que ali vinha. E por fim, uma lenta borboleta colorida brincando com a luz que lhe chegava antes de se desenrolar suavemente no balcão. E Valgy recebia nos braços, como quem recebe uma criança, uma cambraia finíssima de linho ou algodão a que fiapos de teias de aranha que trazia agarrados conferiam ainda maior leveza. Tão fina que não tinha cor, que não podia tê-la uma vez que a cor não teria matéria tangível a que se agarrar. Uma cambraia que se limitava por isso a reflectir a cor das coisas em redor: o castanho-escuro das mãos de Valgy – que a afagavam para melhor fazer ressaltar o seu valor e qualidade – ou a própria cor do olhar das clientes, que a fitavam intrigadas. Quase, já, maravilhadas.


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quinta-feira, novembro 02, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/3)

Judite quer que o diálogo continue acontecendo. E sugere-lhe coisa diferente, que vem pensando e amadurecendo. Ela tem o segredo das bagias e sabe que quanto mais for o trabalho (e vai ser muito, para se poder concluir a revolução), mais os trabalhadores terão fome, fome de bagias. Judite já se vê obrigada a aumentar a produção, transformando a casa que foi de Pestana numa fábrica, com algumas ajudantes cozinhando sob a sua orientação para se poder dar conta do recado. E além de produzir, é também necessário vender. Não só à sombra da acácia de dona Aurora – que ela nunca abandonará, pois foi ali que encontrou a sorte – mas em muitos outros lugares. Entre eles, um posto de venda em frente à Presidência da República Popular de Moçambique. Vê-se já ali sentada, os Mercedes e os Volvos passando velozes, uivando as suas sirenes. De repente, o Mercedes mais comprido estaca com um chiar de pneus em frente ao seu tabuleiro. No ar, um cheiro acre de borracha e gasolina perdendo no confronto com o aroma incomparável das bagias. O camarada Presidente sentira um súbito aperto no estômago, toda aquela trabalheira de pôr o país a andar fazendo com que se tivesse esquecido de almoçar. ‘O que tens aí, mulher?’, ‘São bagias, camarada Presidente’. ‘Dá cá uma para provar!’ Judite oferece prontamente uma bagia com um enigmático sorriso nos lábios, sabendo com certeza que ele pedirá mais uma e outra ainda, sem se conseguir conter. Depois, de estômago aquietado e indicador em riste, ao camarada Presidente volta aquela sua vontade de discursar, e diz: ‘Vejam este exemplo, camaradas Ministros! Moçambicanas e moçambicanos, olhem este exemplo! É aqui, neste simples tabuleiro, que está a nossa criatividade, a garantia do sucesso da revolução moçambicana! Abaixo a dependência dos produtos importados! Contemos com as nossas próprias forças! Viva a revolução moçambicana!’, e todos: ‘Viva! Viva!’ Em seguida, o Presidente ordena ao Ministro das Finanças que regule as contas das bagias que comeu, que a República Popular de Moçambique nunca fica a dever nada a ninguém. E Judite, satisfeita, amarra os lucros na ponta da capulana.


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domingo, outubro 29, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/2)

Tomar banho era outro problema. Faziam-no no quintal, entre quatro paliçadas de caniço com metro e pouco de altura, tirando água do balde e lançando-a sobre o corpo. No fundo, Josefate habituara-se já à situação, agradava-lhe tomar banho apreciando ao mesmo tempo o movimento do bairro, as mulheres a caminho do mercado, as crianças arrastando-se para a escola ainda ensonadas. Mas para Antonieta o banho era coisa mais complicada. Tinha de agachar-se para que os seus volumes não fossem vistos do exterior, e mesmo o facto de não o serem não impedia que fossem adivinhados. A situação não era portanto a melhor para a dignidade dos Mbeves. As suas cabeças emergiam molhadas atrás da paliçada de caniço, denunciando gestos que são sempre íntimos qualquer que seja a cultura, a circunstância e a condição. ‘Lá está um dos Mbeves tomando banho! Ah, gente sem descrição!’, diziam os transeuntes. Depois, sair do banho era outra preocupação. O chão encharcava-se de águas estagnadas, sobretudo se chovia, águas que levavam uma eternidade a escoar-se para as profundezas da terra, nunca secando por completo, ficando sempre uma lama imunda e pestilenta. Um caminho de pedras soltas ligava a paliçada à casa, e lá iam os Mbeves saltitando de pedra em pedra para não sujar os pés, limpos e lavados de fresco, a escorrer água, mas parecendo assaltantes seminus realizando os seus furtivos gestos.


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domingo, outubro 15, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/1)

Onde já se viu o despautério de chamar Salazar a uma vila que o velho ditador nunca sequer visitou? Despautério de lhe dar o nome de quem nunca por ela se interessou a não ser talvez fugazmente, quando um funcionário zeloso lhe disse: ‘Excelência, demos o seu nome a tal longínquo local’. E ele, modesto, na sua voz de falsete: ‘Não era preciso tanto, mas está bem: o que está feito, não vamos agora voltar atrás que é sinal de titubeação’. Uma vila tão bela e feia quanto as demais, Mas olha-se para ela e salta à vista que só podia ser Matola, nunca Salazar.


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segunda-feira, agosto 21, 2006

João Paulo Borges Coelho

AS DUAS SOMBRAS DO RIO (excerto/2)

No dia seguinte, o lojista chegou como de costume. Vinha preocupado com um ligeiro atraso e por isso achou estranho que a porta estivesse fechada e as gelosias das janelas cerradas. Hesitou, bateu à porta e acabou por ir sentar-se junto dos outros criados, debaixo do alpendre, aguardando. Era uma situação inédita, aquela, e eles, habituados à rotina e à obediência, não sabiam o que fazer. Comentavam uns com os outros, falavam de coisas pequenas, esperavam. Mas a responsabilidade roía o lojista que não se sentia bem desconversando com o tempo, esperando que as coisas se resolvessem por si próprias. Por isso juntou coragem e deu a volta à casa, espreitando à procura de um sinal. Subiu os três degraus da varanda, do outro lado, batendo as palmas bem alto para pedir licença. Foi então que deparou com a patroa ao fundo da varanda, quieta, olhando o rio.
- Bom dia, patroa. Estamos já lá fora à espera de entrar. Há também alguns clientes.
Teve como resposta o silêncio. Mame Mère desinteressa-se dele, envolvida agora em assunto mais interior e fundamental. Passou a noite naquela mesmíssima posição, a mão esquerda pousada no colo e a direita no cabo do punhal, erecta, olhando o rio com os seus grandes olhos abertos. O xaile descaiu-lhe para a cintura já há muito tempo, o que de restou pouco importa: o cacimbo não molesta os mortos da mesma maneira que molesta os vivos. O sol matinal espalha-se pelo soalho da varanda e daqui a pouco chegará aos pés da congolesa e começará a trepar-lhe pelas pernas, iluminando-a.
O lojista esperou ainda um pouco, respeitoso. Mas intrigado com aquele alheamento, acabou por aproximar-se. Pigarreou primeiro, falou depois, tentando convencê-la a reagir, sem saber que Mama Mère estava já muito longe dali. Deu-se por fim conta de que o mundo desabava (quem depende daquela maneira, como o lojista e os criados, deposita sempre no protector o segredo da ordem das coisas). Deu vários passos na varanda sem se decidir por uma direcção, falou sozinho durante um bocado e acabou por fugir dali, gritando alto. De volta ao alpendre, levou ainda um tempo a fazer-se entender pelos restantes. Desataram então a falar muito alto uns com os outros, lamentando e inquirindo, descoordenados. Uns saíam do confuso círculo e iam espreitar à varanda. Voltavam depois gesticulando e bradando coisas incompreensíveis, como se visão do vulto induzisse a loucura.


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sexta-feira, junho 30, 2006

João Paulo Borges Coelho

AS DUAS SOMBRAS DO RIO (excerto/1)

De volta ao leme, o piloto Ricardo pensa agora em vilas e aldeias iguais a tantas outras: Cachomba, Chigango, Mágoè (baptizado de Velho depois de afundado, para o distinguir de um falso Mágoè a que chamam agora Novo), Canquino, Choué, Inhacososo, Carinde, Aveiro. Vilas e aldeias antigas, engolidas pelo lago. Vilas que o Estrela-do.Mar visitava e agora ignora. Que antes escalava e agora sobrevoa. Visto daquelas profundezas é como se o pequeno barco voasse, como se fosse um avião recortado no céu azul e iluminado. E vistas da superfície da água parecem aquelas vilas e aldeias um mistério onde a vida ficou suspensa e os homens e animais se transformaram em peixes, peixes cinzentos de olhos muito abertos – como se para sempre tivessem ficado surpresos com a magnitude daquele milagre.
Imagina o piloto Ricardo como será agora a vida dentro dessas cidades submersas. As casas dos brancos – de pedra – ainda lá estão, na penumbra azulada daqueles fundos aquáticos, tal como os caminhos e os mercados. Casas habitadas e caminhos percorridos por peixes silenciosos, em lentos movimentos. Mercados onde se compra e vende em silêncio. Segredos por toda a parte.
De quando em quando – como agora quando passa o barco – uma onda lenta varre aqueles espaços instalando um vago alvoroço. E os peixes, até aí serenos, disparam rápidos em diversas direcções, entrando uns pela janela da casa que foi de um velho administrador, escondendo-se outros na goteira do seu telhado, lançando-se ainda outros em correrias loucas pelas vastas planícies – hoje planícies submersas. Logo porém se aquietam e regressam ao ponto de partida, como que à procura da razão de tudo aquilo. O mesmo faz Ricardo, aguçando a imaginação e o olhar por cima da amurada, tentando descobrir mais detalhes que o ajudem a compreender aquele mundo fantástico.


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sábado, maio 20, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / BALADA DA XEFINA (excerto)

Eu, Mustafa Issufo, vejo bem desde pequeno. Vejo tudo, a longas distâncias. Se assim não fosse não seria capaz de vos dar conta do que se segue. Daqui, deste buraco enterrado no chão onde me encontro, vejo a cidade quase inteira, ou pelo menos aquilo que ela tem de apresentável. Na ponta esquerda e mais distante, atrás do cabeço do Caracol – de onde os casarões espreitam o Clube Naval lá em baixo, e atrás dele a baía – imaginam-se os guindastes do porto que antes rangiam submissos sob pesados fardos, depois mais ociosos, dedos sem anéis espetados no céu. Não se vêem daqui do meu buraco, como disse, mas imaginam-se, porque na condição que é a nossa vos garanto que se solta a imaginação. Foi desta floresta metálica, rente a uma água de breu quieta e oleosa, que partimos no pior dia que a minha vida teve.


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domingo, abril 30, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / A FORÇA DO MAR DE AGOSTO (excerto)

(…) e quando o primeiro pescador empurrou o seu xitatarru pela areia da praia, ainda a azulava a madrugada, verificou com surpresa que esse peixe de pau não ganhava a leveza que normalmente ganha no contacto com a onda. Pelo contrário, continuava a pesar, apesar de irem já longe os dois pela dita onda fora, deixando nela o rasto contínuo do barco pontilhado nos lados pelos gatafunhos que os pés do dito pescador deixavam, no esforço de empurrar. Notou também que a sua pele não brilhava como normalmente o faz quando é lambida pela água. Continuava baça como acorda todos os dias, antes que o trabalho a aqueça e abrilhante.


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terça-feira, fevereiro 28, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/2)

Nesse tempo ainda não existia o pontão do cais e as mulheres embarcavam com mil dificuldades, equilibrando trouxas à cabeça e arrastando os filhos nas pontas das capulanas. Primeiro, era a distância interminável com água pelos joelhos até chegarem às canoas. Depois, estas pejadas de gente e carga, ameaçando adornar na sua viagem lenta até encostarem ao casco ferrugento do barco da carreira. Finalmente, o embarque, o povo trepando como podia, as galinhas cacarejando, os cabritos balindo assustados com o transbordo, as crianças chorando, a multidão cansada e irritada como se estivesse terminando e não começando a viagem. E o Nieleti parecia então uma nova arca de Noé, com bichos e plantas, humanos e coisas, diferente da original apenas na medida em que em vez de estar salvando um par de cada, procurava salvar um povo inteiro.


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terça-feira, fevereiro 21, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/1)

(…) Tomé Nhaca sabia de outras searas de peixe maduro, pronto a colher, tão recônditas que haviam sobrevivido à febre da mudança dos nomes; que, de facto, nem sequer haviam tido nomes. Não lhos deu ele também para que ficassem por descobrir. Bastava-lhe localizá-las, o que fazia recorrendo a enigmáticos expedientes: estando-se a certa distância, no mar, sob um certo sol, vendo-se dali em linha recta as duas tetas altas da Inhaca, que continuam à mostra mesmo depois da ilha quase ter desaparecido na distância, deveria o seu barco estar no sítio certo, fazendo sombra a um desconhecido cardume, lá em baixo. E assim era porque, tirado o secreto azimute, o barco ficava a pairar numa ondulação suave sobre tocas de onde espreitavam circunspectas garoupas ou irascíveis moreias, bandos de papagaios coloridos e vaidosos, longas filas de peixes-serra, tubarões vogando em círculos na permanente procura que é a sua. Atiravam-se então as redes e elas vinham cheias dessa massa fervilhante, tão cheias que era um alegre martírio subi-las, um martírio a que homens se submetiam cantando.


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terça-feira, fevereiro 07, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/3)

Enquanto Herculano pensa e caminha, o capim torna-se ralo e os novelos de micaias, as amálgamas de arbustos retorcidos e sem nome cedem lugar a pequenos exércitos de árvores alinhadas, trabalhadas pelos homens, ao seu gosto afeiçoadas. Abençoadas. Árvores com frutos de cascas finas como peles de mulher, caroços raros, polpa abundante e suculenta. Cremosos como a banana, sumarentos e dourados como os citrinos ou vivendo da fama do cheiro que exalam, como a massala. Acariciou uma laranja sem sequer a arrancar da pequena árvore de onde pendia, apenas para lhe sentir o arredondado da forma, a ténue rugosidade da casca, e para cheirar o leve aroma acidulado. Um pouco adiante, tomou nas mãos uma manga enorme como um coração, vermelha como ele. Arrancou-lhe a casca com os dentes como quem tira pétalas a uma flor. Cheirou-a de várias maneiras, pois são também diversos os aromas que a manga exala – florais, resinosos, aromas roubados até de outras frutas, quentes como as especiarias ou gelados como a lua se lhe pudéssemos tocar – antes de fincar os dentes nela e deixar que o sumo lhe escorresse até ao queixo. Largou-a porque viu ao lado uma goiabeira carregada de frutos maduros. Deixou-se enevoar pela magia da goiaba, pelo seu enigmático perfume, simultaneamente repugnante e irresistível. Se verde, de uma acidez estimulante; se madura, como se comêssemos pequenos novelos granulosos e suculentos. Deteve-se em frente a uma pequena papaieira vergada pelo peso das suas papaias. Irresistíveis para ele como para os pássaros que saltitavam em volta, debicando-as. Pegou no punhal e abriu uma delas a todo o comprimento, ficando por um momento a olhar a fenda oblonga e a carne cor de fogo espreitando de dentro dela, o líquido incolor que a humedecia como um soro vital. Molhou nela a ponta dos dedos, acariciando as sementes negras e contrastantes como grãos de pimenta. Enterrou-lhe os dentes com avidez e sentiu a carne ceder, no seu cerne um sabor a mel. Ébrio, deixou-se finalmente chegar à árvore das árvores, a árvore do ocanho, fruto da terra. Olhou-os ainda verdes, pendurados, ou amadurecendo no chão em volta. Provou a sua polpa boa, e quando sentiu o sabor agridoce na base da língua achou a prova palpável e definitiva de que estava chegando a casa.


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domingo, janeiro 29, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/2)

(…) depois da curva do caminho Herculano deparou com uma pequena manda de bois movendo-se sem destino certo. Magros, procuravam resistir ao calor e à fome da única maneira que os bois conhecem: encostando-se uns aos outros, procurando a inútil protecção desse anonimato, sem saber que é assim que mais se expõem; que é ocupando maior área que ficam mais vulneráveis. Herculano olhou em volta procurando o pastor, mas não havia ali ninguém. Apenas aqueles animais de língua descaída e olhar vago. Não fossem as caudas abanando para afastar insectos sedentos da humidade das suas narinas e olhos, e estariam imóveis como se fizessem parte de um retrato. Não esboçaram o mínimo gesto de resguardo, a mais ténue tentativa de se afastar quando Herculano se aproximou. Além de conformados, estavam também perdidos. Adivinhou-o porque o gado se movimenta sempre na zona de fronteira, tendo nas costas as machambas e casas do povo, na frente o mato. São eles que desbravam esse mato mastigando, e atrás deles anda o povo. Fazem assim porque têm sempre fome, noite e dia, e porque a sua humildade os impede de conhecerem o medo do desconhecido. São vítimas potenciais conformadas com o destino, e por isso não se defendem, por isso morrem sem ter medo nem entender. Só aquele olhar vago, vogando sobre as coisas, e a incapacidade de traduzir o que ele capta num pavor do corpo.


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sábado, janeiro 14, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/1)

Apesar de se ver de lá a cidade de Maputo – de dia como sombra azulada, quase aguarela, de noite timidamente tremeluzindo como janela de casa de pobre – o Machangulo é uma terra complicada. Terra dos Madindindes, dizem. Assim chamados por semearem enes e dês nas palavras que usam. Não inventam propositadamente novas palavras, antes disfarçam as que existem na tentativa de passarem por inventores sem se darem ao trabalho de o ser. Gente complicada.
A orla conforma-se com essa fama. Põe-se ali o sol do lado do mar, e não de dentro como seria normal. Podia ser praia e não é porque lhe falta areal, sendo o que existe estreito e cinzento. Onde é já francamente mar crescem ainda umas árvores com a mesma desenvoltura que teriam se estivessem em terra seca (navegando, os barcos afagam por vezes os seus ramos como pássaros que voasse, ou amarram neles os cabos de âncora para descansar). Por outro lado, dentro da terra surgem lagoas altivamente encapeladas – Buti, Mandi, Mangalidje e muitas outras – como se fossem ainda elas próprias o mar. Os pequenos rios que na quase praia desaguam entram pelo mar adentro transportando ainda as suas distintas cores de rio, de um acastanhado pardacento, conseguindo com esse artifício continuar a ser rios já bem dentro da baía, quando há muito deixaram de ter margens sólidas que os sustentem. De tal forma que é possível a um pescador desaparecer com o seu xitatarru no horizonte da baía e voltar depois dizendo que não chegou ao mar, que andou apenas pescando dentro desse rio sem margens que se vejam. E fazê-lo sem estar mentindo.
É inegável, portanto, que a natureza se deixou tomar por alguma confusão quando espalhou as suas disposições neste lugar, misturando os ingredientes de forma pouco habitual. Por isso são do Machangulo os maiores caranguejos que há neste mundo, grandes e gordos como mamíferos. O caranguejo é, como se sabe, um bicho amigo da confusão, movendo-se sem direcção como se estivesse fugindo da sombra que cria, pisando com cuidado como se ela queimasse ao invés de refrescar. E girando muito os olhos numa angústia pouco esclarecida, com dentes nas mãos sempre a tentar morder coisa nenhuma. Além de grandes, esses caranguejos do Machangulo são também carrancudos e agressivos, desafiando cães e corvos no areal daquilo que tenta ser praia. Finalmente, depois de cozidos é a sua carne a mais deliciosa, embora também a mais difícil de se deixar comer devido à confusão, ainda ela, entre aquilo que são ossos e aquilo que é já carne e músculo. E a própria carapaça é cinzenta e tristonha enquanto viva, vermelho-alegre quando morta. Manifestando-se portanto ao contrário.


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terça-feira, janeiro 10, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / IMPLICAÇÕES DE UM NAUFRÁGIO (excerto)

Soshana correra tanto quanto uma gazela das que eles costumavam perseguir, contornando a lagoa, atravessando o areal das suas margens, galgando o capinzal que lhes cresce junto, invadindo terreiros que se lhe atravessavam no caminho e punha em alvoroço, com porcos pretos grunhindo, cabritos bodejando, galinhas cacarejando e fugindo sem direcção, pilões tombados derramando o grão, peneiras entornando a farinha pelas esteiras e pelo chão. Continuara sem parar, perseguido pelos insultos dos prejudicados, até chegar finalmente à porta de Totwane, que dormitava sentado e com o ar aprofundado de sempre. Levou tempo até que o miúdo recuperasse o fôlego e pudesse explicar ao que vinha, o que fez entrecortando arquejos aflitivos com um fantasioso relato. Totwane, resmungão como ficava sempre que lhe interrompiam as sestas, a curiosidade crescendo-lhe porém, deu o desconto normal aos exageros juvenis a que há muito se acostumara por lidar bastante com a rapaziada, quer explicando-lhes lições quer divertindo-se. Mas o que sobrava, dados os descontos, era suficiente para lhe fazer sentir que valia a pena a caminhada. A tal fera mordendo-lhe por dentro.


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quinta-feira, outubro 06, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / IBO AZUL (excerto/2)

Mais adiante, o quintal de njungo Santinho waMucojo, onde gerações de maçanicas amarelas e vermelhas se deixavam engelhar ao sol como a pele que esse velho teria se hoje fosse vivo, espalhadas sobre as esteiras, exalando a luxúria do seu cheiro. E onde castanhas de caju polidas como pedras preciosas se alinhavam nos tabuleiros, pequeno exército disciplinado e brilhante. Uma banca à porta, onde o povo vinha comprar o lanho ao preço que fosse, o aroma das mangueiras manchando o ar, as galinhas debicando ou dormitando nos ramos baixos das árvores, o bico escondido entre as asas. As vozes soltas das mulheres, as gargalhadas sacudindo-se, os chamados golpeando. Gente ordenando e acatando em português antigo ou em kimwane límpido como a água da cisterna. Fresco e escuro como ela.


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domingo, setembro 25, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / IBO AZUL (excerto/1)

Tudo o que o homem traz são vantagens. Detém conhecimentos universais enquanto que à mulher só lhe foram revelados os pequenos segredos da roda das avós, segredos fermentados na repetição do viver diário, máximas vulgares e todavia poderosas, pela idade que já levam. Será mais previsível ser ele a inquirir, ela a responder com monossilábicos pudores ou abertas gargalhadas. É ele que avança, ela espera. No entanto, e sem que o homem o saiba ainda, quando se encontrarem os dois todas as vantagens que ele traz se desmoronarão. Porque quem pergunta tem necessidades, quem responde dá. A fragilidade da sua posição só a descobrirá contudo quando dobrar o velho pontão para lá, ou ela o fizer para cá, dependendo de qual dos dois ali chegar primeiro, e se encontrarem enfim cara a cara. Ele detém a vantagem da idade e das ideias, ela a da terra sobre a qual assentam as suas pernas vigorosas, do fervilhar dessa terra e daquilo que lhe falta ainda descobrir na vida que vai viver.


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terça-feira, agosto 23, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / AS CORES DO NOSSO SANGUE (excerto)

Entrem. Façam de conta que estão em vossa casa. Eis a Zambézia, terra do chá e do coco, terra da fertilidade. Terra das donas belas e autoritárias, e dos pratos suculentos. Terra do camarão. Diziam isso antes, continuaram a dizê-lo depois. Não sabemos, no entanto, se tudo isso será de fiar. E para que serve. É que temos também cá uma pobreza antiga e arreigada que não sabemos mais o que fazer para nos vermos livres dela. Uma pobreza que só tem vindo a piorar. Uma pobreza que cada um vê e sente de maneira diferente: no Alto Molócuè acenando subservientemente a quem passa, no Alto Ligonha ignorando sobranceiramente quem nos acena. O problema é das estradas, dizem. Houvesse estradas e essa pobreza tomaria uma delas e iria para bem longe daqui. Talvez sim, respondemos nós, e talvez não. É que havendo estradas, e escoando-se por elas os nossos males, pode ser que por elas venham também os males dos outros que ainda não conhecemos. Deixemo-nos portanto ficar assim mais um pouco, a reflectir. Deixemo-nos ficar assim mais um pouco, cada qual no seu lugar. Pensando duas vezes antes de pôr o pé na nuvem de pó se é em Agosto, no mar de lama se em Fevereiro. Ai de nós, que padecemos da doença de ter de caminhar! Ai de nós, que aos espíritos que nos assolam e agitam não há obstáculo – lama ou pó – que os detenha!


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sábado, agosto 06, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / O HOTEL DAS DUAS PORTAS (excerto)

As minhas colegas andam sempre com revistas: a Jours de France se são snobs, o Paris Match se preocupadas com o mundo, o Reader’s Digest se têm a mania que lêem, o Capricho ou o Grande Hotel se ainda são sensíveis ao romance e esperam uma vida melhor; enfim, a Plateia ou a Crónica Feminina se são recém-chegadas, saloias, com saudades da terra de onde vieram. Quanto a mim, gosto de literatura.
Lia o Bonjour Tristesse (não sei se conhecem), que lamentavelmente nunca cheguei a acabar e agora nunca mais terei oportunidade de o fazer. Lembro-me de que achei curiosa a coincidência do enredo também se tecer numa praia, envolvendo uma rapariga que, guardadas as distâncias, até era parecida comigo. Ou, mais exactamente, de quem eu me sentia próxima. O mesmo mar imutável no seu repetido movimento; a mesma areia pesada, imune ao tempo; o mesmo sol lento e monótono. E, todavia, tudo se transformando velozmente em redor da rapariga e dentro dela. Também eu sentia uma transformação intenso fermentando dentro de mim, embora, ao contrário dela, não soubesse ainda definir-lhe os contornos. Nem suspeitasse quão radical acabaria por ser.


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