Rui de Noronha
CHUVA MIUDINHA
Cai uma chuva gélida, miudinha,
Que mal soa nos zincos dos telhados.
Chuva que gela o corpo, gela a espinha,
E um dia inteiro deixa-nos gelados.
E cai, cai sem cessar, pó de farinha
Que nos deixa na rua enfarinhados.
Cai sem cessar, eterna ladaínha,
Nos nossos corações ajoelhados...
Um vento agreste as árvores perpassa,
Desenrolando um manto de desgraça
Sobre a paisagem húmida, encolhida...
E a chuva continua triste e mansa,
E na minha alma à mesma semelhança,
Cai-me o Passado em chuva comovida...
[259]
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segunda-feira, abril 16, 2007
terça-feira, abril 10, 2007
Rui de Noronha
QUINHENTA MAIS QUINHENTA, MAIS QUINHENTA...
Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)...
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.
Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro... e água benta...
-Água lhe dava eu de vontade aos socos...
Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado... Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?
Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?
[258]
QUINHENTA MAIS QUINHENTA, MAIS QUINHENTA...
Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)...
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.
Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro... e água benta...
-Água lhe dava eu de vontade aos socos...
Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado... Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?
Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?
[258]
domingo, abril 08, 2007
Rui de Noronha
À LUZ DO POENTE
Há pouco
Estando olhando o mar,
Tive um desejo louco
De nele me deitar.
A água tão quieta,
Tão limpa e cintilante,
Punha-me pena de não ser poeta
Um só instante,
Para montar-lhe o dorso e ir o mundo fora
Tangendo as leves ondas;
Cantando a luz da Aurora
As pálidas giocondas,
E a grande desventura
Dos que ela enfeitiçou
E numa noite escura
Sepultou…
Dourando-a de revés,
O sol descia lentamente,
E havia no poente,
De quando em vez
hesitações de ouro
Que punham um brando coro
De nostalgia
Nas folhas mais erquidas do arvoredo
Que oscilando a medo
Olhavam tristemente o fim do dia…
E então
mesmo vestido
Vencido o coração,
Vencido o meu sentido,
Eu fui entrando, pouco a pouco,
Lentamente…
E ali me pus nadando como um louco
À luz do poente…
[257]
Bibliografia essencial: Rui de Noronha, Os Meus Versos, Texto Editores, Maputo 2006
À LUZ DO POENTE
Há pouco
Estando olhando o mar,
Tive um desejo louco
De nele me deitar.
A água tão quieta,
Tão limpa e cintilante,
Punha-me pena de não ser poeta
Um só instante,
Para montar-lhe o dorso e ir o mundo fora
Tangendo as leves ondas;
Cantando a luz da Aurora
As pálidas giocondas,
E a grande desventura
Dos que ela enfeitiçou
E numa noite escura
Sepultou…
Dourando-a de revés,
O sol descia lentamente,
E havia no poente,
De quando em vez
hesitações de ouro
Que punham um brando coro
De nostalgia
Nas folhas mais erquidas do arvoredo
Que oscilando a medo
Olhavam tristemente o fim do dia…
E então
mesmo vestido
Vencido o coração,
Vencido o meu sentido,
Eu fui entrando, pouco a pouco,
Lentamente…
E ali me pus nadando como um louco
À luz do poente…
[257]
Bibliografia essencial: Rui de Noronha, Os Meus Versos, Texto Editores, Maputo 2006
segunda-feira, outubro 23, 2006
Rui de Noronha
SONETO
Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.
E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.
E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim…
E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!
[235]
SONETO
Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.
E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.
E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim…
E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!
[235]
quarta-feira, outubro 08, 2003
Rui de Noronha
GRITO DE ALMA
Vem de séculos, alma, essa orgulhosa casta,
Repudiando a dor, tripudiando a lei.
Num gesto de altivez que em onda leva arrasta
Inteiras gerações de amaldiçoada grei.
Ir procurar, amor, nessa altivez madrasta,
Um gesto de carinho ou de brandura, eu sei?
Ao tigre dos juncais, duma crueza vasta,
Quem há que roube a presa? Aponta-me e eu irei!
Cruel destino o meu, que ao meu caminho trouxe
Na fulgurante luz do teu olhar tão doce
À mágoa minha eterna, a minha eterna dor.
Vai. Segue o teu destino. A onda quer-te e passa.
Vai com ela cantar o orgulho da tua raça
Que eu ficarei cantando o nosso eterno amor ...
[26]
GRITO DE ALMA
Vem de séculos, alma, essa orgulhosa casta,
Repudiando a dor, tripudiando a lei.
Num gesto de altivez que em onda leva arrasta
Inteiras gerações de amaldiçoada grei.
Ir procurar, amor, nessa altivez madrasta,
Um gesto de carinho ou de brandura, eu sei?
Ao tigre dos juncais, duma crueza vasta,
Quem há que roube a presa? Aponta-me e eu irei!
Cruel destino o meu, que ao meu caminho trouxe
Na fulgurante luz do teu olhar tão doce
À mágoa minha eterna, a minha eterna dor.
Vai. Segue o teu destino. A onda quer-te e passa.
Vai com ela cantar o orgulho da tua raça
Que eu ficarei cantando o nosso eterno amor ...
[26]
quarta-feira, junho 18, 2003
quinta-feira, maio 29, 2003
Rui de Noronha
SURGE ET AMBULA
Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo avança, o tempo vai seguindo...
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E no outro tu dormes o teu sono infindo...
A selava faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo.
A terra e a escuridão têm aqui o seu império
E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo...
Desperta. á no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula...
Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno...
Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz – "Africa, surge et ambula"
[3]
Bibliografia essencial: Rui de Noronha, Sonetos, Tip. Minerva Central, Lourenço Marques (exemplar fotocopiado)
SURGE ET AMBULA
Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo avança, o tempo vai seguindo...
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E no outro tu dormes o teu sono infindo...
A selava faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo.
A terra e a escuridão têm aqui o seu império
E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo...
Desperta. á no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula...
Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno...
Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz – "Africa, surge et ambula"
[3]
Bibliografia essencial: Rui de Noronha, Sonetos, Tip. Minerva Central, Lourenço Marques (exemplar fotocopiado)
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