sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Rui Knopfli

PRINCÍPIO DO DIA

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele me responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar.)


[200]

3 comentários:

  1. Môs kambas. Tou xêgare aki apenasmente pra vos komunikar que u Mankakas mudou de kimbo. Agora vale a pena de mudarem a sua diréçaum internética.
    Bazei!
    Tou no meu kubiku. Surjam lá ke serão bem-vindus.
    http://mankakoso.blogspot.com/

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  2. Eu prometo estar sempre do outro lado da ponte quando me quiserem dizer bom dia e prometo responder com a entoação de quem tem muito gosto pela vida e pelos seres humanos meus semelhantes, meus iguais, portanto meus irmãos.
    Um abraço,

    BeiraMeuAmor

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  3. A riqueza incontestada da poesia moçambicana dentro do que eu chamo A FALA há falta de melhor, teve certamente uma origem. Como, quando se iniciou esta espantosa criatividade?

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