terça-feira, maio 08, 2012

Joaquim Chissano

VIDAS, LUGARES E TEMPOS (excerto)

Todos os dias, nos meus primeiros meses de escola, saía da palhota do meu pai com o meu irmão, descia a ladeira com os músculos das pernas retesados para não cair. Foi assim apenas por alguns dias porque, com a prática, passámos a descer a correr, sem nos importarmos com a cacimba que nos molhava. Passávamos ao longo do arenoso caminho dos bois, atravessávamos, em seguida, o pântano onde o nevoeiro era mais denso. Tínhamos de tirar as sapatilhas para não as molharmos nos charcos que as chuvas deixavam, e não as sujarmos com o matope que ficava no carreiro que tínhamos de seguir dentre os mavungu e o caniço do pântano, tínhamos de saltar de um mcoma, raíz de mavungu, para outro quando isto nos podia salvar de mergulhar numa poça mais profunda de água ou de lama preta.

Nos dias mais frios, os dentes batiam com vibração e cadência rápidas dos maxilares. Era normal. Não ligávamos a mínima importância. Não sabíamos que não estávamos agasalhados o suficiente. Nunca o tínhamos estado. O que sabíamos é que fazia frio e muita cacimba, caminhávamos, depois, pela estrada principal, alteada de saibro no meio da planície ligando o 'Ntavene' à cidade baixa. A maior parte das vezes, quando não passava o comboio, preferíamos andar ao longo da linha férrea. Estaríamos mais protegidos do perigo de sermos atropelados pelos carros ou de sermos molhados com água vermelha de saibro, caso um carro, em velocidade, entrasse num charco e a espalhasse pelos lados. Quando chegávamos à escola, ou um pouco antes, encontrávamos já lá os nossos colegas brancos que não tiritavam de frio porque levavam camisolas bem quentes que até lhes cobriam os pescoços. Nós também, nessa altura, não sentíamos tanto frio. Tínhamos andado tanto que o esforço de marchar e de correr nos aquecia.


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