domingo, outubro 24, 2010

José Eduardo Agualusa

MILAGRÁRIO PESSOAL (excerto)

O grupo organizou-se como um coral, as mulheres à direita e os homens à esquerda. Dois dos homens, à frente, carregavam compridos batuques artesanais, feitos de pele de antílope bem esticada. Outro trazia uma flauta de bisel. Foi este quem deu início à cerimónia, soprando uma melodia aérea, levemente árabe, à qual, ao fim de dois minutos, se juntaram os batuques, primeiro num sussurro, depois cada vez mais rápidos, num galope urgente, e então um dos homens irrompeu a cantar, numa poderosa voz de tenor, arrastando o coral. Levei alguns minutos para compreender, em sobressalto, que cantavam em português, ou melhor, num idioma em ruínas que, séculos antes, havia sido o nosso. Levei bastante mais tempo, quatro ou cinco dias, para compreender que aquilo que eles cantavam eram fragmentos de um diário - o testemunho de um marinheiro que Vasco da Gama deixou em Melinde, um lançado, e que por ali ficou fazendo filhos. Ao que parece, muitos filhos.
Julgo que os descendentes de Diogo Mendes decidiram transformar em canções o diário do avô português, transmitindo-o depois, nesse formato, de geração em geração, como forma de melhor o preservarem. Pouco a pouco, porém, à medida que se iam esquecendo do sentido das palavras, passaram a atribuir-lhes propriedades mágicas.


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