sábado, dezembro 24, 2005

Sebastião Alba

NATAL NO CÁRCERE

O menino que, ao domingo, recebe na língua a hóstia que nela depõe o tio-avô, pároco da aldeia, é o garoto que, à tarde, observará, deitado na relva, a chegada dum pássaro ao seu ninho. Entre os dois trava-se ainda uma luta de morte. Mas é o segundo, quarenta anos mais tarde, quem escreve estas linhas.
Porque te vês agir, a falar, o fulcro do teu pensamento, durante o dia, é fazer sem denodo o esforço de caminhar entre estas sombras como se fosses uma delas. Não te distancies.
Gambiarras, lâmpadas miniaturais, pinheiros factícios. O mito já não tem “dentro”.


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