Grabato Dias
AMOR. TE. TI, TIGO, A MORTE. AMO-TE
Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te
sem R, sem risco ao meio da morte.
Quero-te assim, querente, quente e forte
ode que a circunstância obriga a mote.
Quatorze versos no papel e dou-te
exangue e medido ramo. O corte
já deixou de sangrar. Pinhos do norte!
Que ricas tábuas de caixão, pra bote!
No mundo em pedaços repartida
ficou-me a mim e ao luis vaz a vida,
galinha gorda rebolante ao espeto.
Me, mi, Mimi, migo... Ó amiga, as migas
ainda são um bom prato, e até com ligas
de duquesa se faz tanto soneto.
[326]
quinta-feira, julho 22, 2010
domingo, julho 18, 2010
Luís Carlos Patraquim
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 2)
A verdade é que sucediam episódios estranhos na cidade. Fazer machamba na banheira, arrancar o parquet para lenha, confusionar os elevadores até eles ficarem teimosos e pararem, isso até que se explicava com as adaptações à urbe. Mas as cabeças que começavam a aparecer sozinhas ensombravam os sonhos de Zefanias. Já não bastava os ataques dos boers, as lojas do povo só com papel higiénico quando até a comida era uma dificuldade, para esses xipókwés desesconderem-se na sua condição de limbo e apresentarem-se em forma de cabeças. Cabeça é para pensar e estar no corpo, as duas partes não hão-de ficar separadas.
[325]
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 2)
A verdade é que sucediam episódios estranhos na cidade. Fazer machamba na banheira, arrancar o parquet para lenha, confusionar os elevadores até eles ficarem teimosos e pararem, isso até que se explicava com as adaptações à urbe. Mas as cabeças que começavam a aparecer sozinhas ensombravam os sonhos de Zefanias. Já não bastava os ataques dos boers, as lojas do povo só com papel higiénico quando até a comida era uma dificuldade, para esses xipókwés desesconderem-se na sua condição de limbo e apresentarem-se em forma de cabeças. Cabeça é para pensar e estar no corpo, as duas partes não hão-de ficar separadas.
[325]
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terça-feira, julho 13, 2010
Luís Carlos Patraquim
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 1)
Morava no que fora um chalet, na Avenida 24 de Julho, quando os tramways subiam a D. Carlos, depois Manuel de Arriaga, agora Karl Marx, dobrando a Central Eléctrica e subindo, chiando, extenuando-se.
"A 24 de Julho é uma avenida coerente".
Verdade que a frondosa via, que atravessa a cidade a meio, na sua parte alta, desenrolando-se desde o bairro da Polana até ao Alto Mahé, mantivera a mesma designação. Nome desde o antigamente por causa da sentença do Marechal Mac-Mahon sobre os territórios da Catembe, defronte da baía, que Sua Majestade britânica reivindicava à dita soberania portuguesa e que assim se manteve por ter sido essa a data das famosas nacionalizações, loguinho mesmo a seguir à independência. Zefanias, que não era dado a sinuosidades semânticas, classificava como mesmura essa teimosia toponímica, alheio a manifestas incoincidências políticas. Nunca lhe consegui uma explicação para o termo.
O dito chalet, verdade seja, tinha mais de evocação do que de estatuto, relíquia de uma certa belle époque cujos perfumes cruzaram os oceanos, dobraram o cabo e aportaram na cidade. Aqui uma frontaria em arcos, lavrada, uns muros à inglesa, colunatas modestas, um e outro hotel junto ao porto, o can-can de algumas vaporosas francesas. Mas a cidade era na baixa. No altos, que Mouzinho de Albuquerque ainda subira a cavalo poucos anos antes com medo das emboscadas, a zona fresca propiciava as casas avarandadas onde uma burguesia sempre apavorada com a biliosa mas a prosperar podia dizer que pegava na lancheira e ia para o campo. Poucos sobravam, quase nenhuns, diga-se a verdade, ora substituídos ou acrescentados, ora vergastados pelo tempo.
[324]
A CANÇÃO DE ZEFANIAS SFORZA (excerto/ 1)
Morava no que fora um chalet, na Avenida 24 de Julho, quando os tramways subiam a D. Carlos, depois Manuel de Arriaga, agora Karl Marx, dobrando a Central Eléctrica e subindo, chiando, extenuando-se.
"A 24 de Julho é uma avenida coerente".
Verdade que a frondosa via, que atravessa a cidade a meio, na sua parte alta, desenrolando-se desde o bairro da Polana até ao Alto Mahé, mantivera a mesma designação. Nome desde o antigamente por causa da sentença do Marechal Mac-Mahon sobre os territórios da Catembe, defronte da baía, que Sua Majestade britânica reivindicava à dita soberania portuguesa e que assim se manteve por ter sido essa a data das famosas nacionalizações, loguinho mesmo a seguir à independência. Zefanias, que não era dado a sinuosidades semânticas, classificava como mesmura essa teimosia toponímica, alheio a manifestas incoincidências políticas. Nunca lhe consegui uma explicação para o termo.
O dito chalet, verdade seja, tinha mais de evocação do que de estatuto, relíquia de uma certa belle époque cujos perfumes cruzaram os oceanos, dobraram o cabo e aportaram na cidade. Aqui uma frontaria em arcos, lavrada, uns muros à inglesa, colunatas modestas, um e outro hotel junto ao porto, o can-can de algumas vaporosas francesas. Mas a cidade era na baixa. No altos, que Mouzinho de Albuquerque ainda subira a cavalo poucos anos antes com medo das emboscadas, a zona fresca propiciava as casas avarandadas onde uma burguesia sempre apavorada com a biliosa mas a prosperar podia dizer que pegava na lancheira e ia para o campo. Poucos sobravam, quase nenhuns, diga-se a verdade, ora substituídos ou acrescentados, ora vergastados pelo tempo.
[324]
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domingo, julho 04, 2010
Luís Carlos Patraquim
REINALDO FERREIRA
Cores do poema
alado
Garupa azul
Quando cais
Gorjão
[323]
REINALDO FERREIRA
Cores do poema
alado
Garupa azul
Quando cais
Gorjão
[323]
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segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Eduardo White
ASSUME O AMOR COMO UM OFÍCIO
Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,
repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido.
Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,
só nunca deixes que sobre
para não ser memória.
[322]
ASSUME O AMOR COMO UM OFÍCIO
Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,
repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido.
Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,
só nunca deixes que sobre
para não ser memória.
[322]
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quinta-feira, julho 09, 2009
Luís Carlos Patraquim
JOSÉ CRAVEIRINHA
Do meu amigo chegarão as flores
e os vaticínios
a dog starv’d at his master’s gate
predicts the ruin of the State
Tanjarinas!
E de mulheres mil
Um Nome,
Ou a pátria,
Rendilhada cortina
Que a usura pui,
E o cós da angústia
No blazer que a Noite em verbo nua
anverso da máscara
Convocando Xipokwés e géiseres e
as aprazíveis praias onde Ulisses
Aportou,
Do meu amigo chegarão as flores
Ai, deus, e u é?
[321]
JOSÉ CRAVEIRINHA
Do meu amigo chegarão as flores
e os vaticínios
a dog starv’d at his master’s gate
predicts the ruin of the State
Tanjarinas!
E de mulheres mil
Um Nome,
Ou a pátria,
Rendilhada cortina
Que a usura pui,
E o cós da angústia
No blazer que a Noite em verbo nua
anverso da máscara
Convocando Xipokwés e géiseres e
as aprazíveis praias onde Ulisses
Aportou,
Do meu amigo chegarão as flores
Ai, deus, e u é?
[321]
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domingo, junho 14, 2009
Paulina Chiziane
O ALEGRE CANTO DA PERDIZ (excerto)
Para suavizar a verdade e penetrar a profundidade, José dos Montes conta histórias antigas. As melhores histórias começam todas da mesma maneira. Era uma vez....
- A voz do sangue convocou este magno encontro – explica José dos Montes -, sob nossas veias corre o sangue sagrado das pedras. O céu azul foi chocado nos Montes Namuli, num ovo de perdiz. Nasceu com asas de pássaro, voou e colonizou a terra inteira. Aqui nasceu a primeira estrela, do ovo da mesma perdiz, estalou até ao céu, explodiu e espalhou-se como fogo-de-artifício formando a Via Láctea. É aqui o princípio do mundo. O fim do mundo. Todas as raças nasceram aqui. Dão a volta ao mundo e regressam, porque os Namuli unem todos os que querem bem para que comam numa só concha e bebam a água da mesma nascente.
Os braços do canavial ondeiam ao vento, soltando uma fanfarra imensa. Trazendo memórias de todas as origens e a razão da escravidão humana à volta dos cocos, do chá e do sisal.
O rio Zambeze, o mar, o palmar e os Montes Namuli unem-se num polígono de diamante. Deus criou esta terra num momento de felicidade e a prendou de beleza extrema, causando paixão exacerbada em qualquer viandante e, por isso, era uma vez....
Histórias de navegadores que se fizeram ao mar em busca de pipipiri numa terra distante. Histórias das onze sereias, todas irmãs, sendo a Zambézia a mais bela. Memórias dos marinheiros e do chicote dos prazeiros. Histórias das donas e sinhás. Da Companhia da Zambézia, do Boror e do palmar. Histórias das mulheres guerreiras que penetram na fortaleza do invasor, roubaram as sementes os homens e construíram a barreira da vida, mostrando ao mundo quem, perante a mulher zambeziana, o invasor não tem omnipotência. Provando que superioridade das raças era simples treta. Histórias dos deusues dos montes que abençoaram a Zambézia com o sangue divino de pretos, brancos, amarelos, numa sopa de raças mais recheada que sopa de pedra.
- Somos fazedores de chuva e guardiães da água – explica José dos Montes. – Comandantes da trovoada. Nascemos ao canto das perdizes, gurué, gurué! Construímos nas cavernas. Agricultávamos os cereais cm cornos de antílope. Dos ossos longos das gazelas fazíamos os cachimbos para tabaco dos nossos guerreiros. Vieram os brancos e fomos apanhados como ratos. Escravizaram-nos.
Todos erguem os olhos para contemplar mais uma vez a imagem da terra mãe na gestação do mundo. Deixando aflorar a emoção no coração do Éden. Contemplando os montes à distância, confirmando tudo o que já sabiam. És filho apenas do ventre da tua mãe. Desde o nascimento estás só e viverás só. És mãe apenas quando o filho te habita o ventre. Depois do parto, cada um ganha identidade própria e segue o seu próprio destino.
- Somos de passos silenciosos, que pisam o chão em segredo. Que não aceitam a prisão de uma casa. Passos de aventuras na descoberta do novo mundo. Construímos o lar nas encostas dos montes e fomos arrastados pelas enxurradas, éramos filhos das aboboreiras semeadas nas bermas das estradas, colhidos por qualquer viandante. Palmilhávamos o solo até aos confins da terra. Damos a volta silenciosamente e estamos aqui, no ponto de partida. Aqui tudo começa e tudo termina. O mundo é redondo.
A voz inquisitiva dos filhos se ouve. Se os antepassados foram ontem heróis, não se entende que os descendentes saboreiem a parte mais amarga do percurso.
[320]
Colaboração enviada pela Vera Lúcia
O ALEGRE CANTO DA PERDIZ (excerto)
Para suavizar a verdade e penetrar a profundidade, José dos Montes conta histórias antigas. As melhores histórias começam todas da mesma maneira. Era uma vez....
- A voz do sangue convocou este magno encontro – explica José dos Montes -, sob nossas veias corre o sangue sagrado das pedras. O céu azul foi chocado nos Montes Namuli, num ovo de perdiz. Nasceu com asas de pássaro, voou e colonizou a terra inteira. Aqui nasceu a primeira estrela, do ovo da mesma perdiz, estalou até ao céu, explodiu e espalhou-se como fogo-de-artifício formando a Via Láctea. É aqui o princípio do mundo. O fim do mundo. Todas as raças nasceram aqui. Dão a volta ao mundo e regressam, porque os Namuli unem todos os que querem bem para que comam numa só concha e bebam a água da mesma nascente.
Os braços do canavial ondeiam ao vento, soltando uma fanfarra imensa. Trazendo memórias de todas as origens e a razão da escravidão humana à volta dos cocos, do chá e do sisal.
O rio Zambeze, o mar, o palmar e os Montes Namuli unem-se num polígono de diamante. Deus criou esta terra num momento de felicidade e a prendou de beleza extrema, causando paixão exacerbada em qualquer viandante e, por isso, era uma vez....
Histórias de navegadores que se fizeram ao mar em busca de pipipiri numa terra distante. Histórias das onze sereias, todas irmãs, sendo a Zambézia a mais bela. Memórias dos marinheiros e do chicote dos prazeiros. Histórias das donas e sinhás. Da Companhia da Zambézia, do Boror e do palmar. Histórias das mulheres guerreiras que penetram na fortaleza do invasor, roubaram as sementes os homens e construíram a barreira da vida, mostrando ao mundo quem, perante a mulher zambeziana, o invasor não tem omnipotência. Provando que superioridade das raças era simples treta. Histórias dos deusues dos montes que abençoaram a Zambézia com o sangue divino de pretos, brancos, amarelos, numa sopa de raças mais recheada que sopa de pedra.
- Somos fazedores de chuva e guardiães da água – explica José dos Montes. – Comandantes da trovoada. Nascemos ao canto das perdizes, gurué, gurué! Construímos nas cavernas. Agricultávamos os cereais cm cornos de antílope. Dos ossos longos das gazelas fazíamos os cachimbos para tabaco dos nossos guerreiros. Vieram os brancos e fomos apanhados como ratos. Escravizaram-nos.
Todos erguem os olhos para contemplar mais uma vez a imagem da terra mãe na gestação do mundo. Deixando aflorar a emoção no coração do Éden. Contemplando os montes à distância, confirmando tudo o que já sabiam. És filho apenas do ventre da tua mãe. Desde o nascimento estás só e viverás só. És mãe apenas quando o filho te habita o ventre. Depois do parto, cada um ganha identidade própria e segue o seu próprio destino.
- Somos de passos silenciosos, que pisam o chão em segredo. Que não aceitam a prisão de uma casa. Passos de aventuras na descoberta do novo mundo. Construímos o lar nas encostas dos montes e fomos arrastados pelas enxurradas, éramos filhos das aboboreiras semeadas nas bermas das estradas, colhidos por qualquer viandante. Palmilhávamos o solo até aos confins da terra. Damos a volta silenciosamente e estamos aqui, no ponto de partida. Aqui tudo começa e tudo termina. O mundo é redondo.
A voz inquisitiva dos filhos se ouve. Se os antepassados foram ontem heróis, não se entende que os descendentes saboreiem a parte mais amarga do percurso.
[320]
Colaboração enviada pela Vera Lúcia
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domingo, junho 07, 2009
Luís Carlos Patraquim
RUI NORONHA
Porque te esquecerão
E mesmo a língua
Os outros
Os que julgam ser e os poetas
larvas lavras seculares
Eu te redimo
Imperial e livre
- quenguêlêquêzê! -
pai criança das origens
infinito
sob a lua prismática
do Índico
[319]
RUI NORONHA
Porque te esquecerão
E mesmo a língua
Os outros
Os que julgam ser e os poetas
larvas lavras seculares
Eu te redimo
Imperial e livre
- quenguêlêquêzê! -
pai criança das origens
infinito
sob a lua prismática
do Índico
[319]
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quarta-feira, junho 03, 2009
Glória de Santana
EPITÁFIO
Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face
e me sacudirás
Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte
e me sacudirás
E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente
e então me esquecerás
[318]
EPITÁFIO
Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face
e me sacudirás
Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte
e me sacudirás
E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente
e então me esquecerás
[318]
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domingo, novembro 30, 2008
Mutimati Barnabé João
VENCEREMOS
A última coisa que vi foi nada.
Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então
Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada
E um cheiro queimado de carne
Que vinha de dentro do peito para a boca.
Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa
Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua
E o mundo inteiro é muito pouco agora
E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.
Não poderei fazer mais a mesma tarefa
Mas a Luta continua pois é independente de um homem só
E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua.
Venceremos.
[317]
VENCEREMOS
A última coisa que vi foi nada.
Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então
Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada
E um cheiro queimado de carne
Que vinha de dentro do peito para a boca.
Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa
Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua
E o mundo inteiro é muito pouco agora
E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.
Não poderei fazer mais a mesma tarefa
Mas a Luta continua pois é independente de um homem só
E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua.
Venceremos.
[317]
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segunda-feira, novembro 10, 2008
Eduardo White
HÁ VEZES EM QUE NEM É A MORTE QUE SE TEME
Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.
Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.
E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.
Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.
[316]
HÁ VEZES EM QUE NEM É A MORTE QUE SE TEME
Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.
Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.
E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.
Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.
[316]
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quinta-feira, outubro 09, 2008
Guita Jr.
NO CONFRADE RANGER DE DENTES
vagueio pelas predilecções mais próximas
ocorre-me neptuno e não transito
para além do simples significante
assim sendo mais próximo estou de saturno
mesmo sem acesso a todos os seus deuses
como os meninos do Gilé
antes de se abrir o sol pela manhã
mergulho incólume na brisa matutina
e torna-se-me dever saborear a comédia da morte
e nas garras negras de cada flagrante devo
desmentir a dor por turnos e constante
a todos os meninos do Gilé
o conformismo ou a dignidade violentada
anulam as provas que seriam para depois
e sem tumulto três de cada um de nós
vão em serapilheira desnudos a enterrar
sem nada que se ore nem canções nativas
pelos meninos do Gilé
agora sem credo zomola patarão
extingue-me também esta pele e ossos
a mente não permite que me dissolva no espaço
o tempo apagará o remorso teu c’uma salva
de palmas e kanimambos muitos – não
dos também teus anónimos meninos do Gilé
[315]
NO CONFRADE RANGER DE DENTES
vagueio pelas predilecções mais próximas
ocorre-me neptuno e não transito
para além do simples significante
assim sendo mais próximo estou de saturno
mesmo sem acesso a todos os seus deuses
como os meninos do Gilé
antes de se abrir o sol pela manhã
mergulho incólume na brisa matutina
e torna-se-me dever saborear a comédia da morte
e nas garras negras de cada flagrante devo
desmentir a dor por turnos e constante
a todos os meninos do Gilé
o conformismo ou a dignidade violentada
anulam as provas que seriam para depois
e sem tumulto três de cada um de nós
vão em serapilheira desnudos a enterrar
sem nada que se ore nem canções nativas
pelos meninos do Gilé
agora sem credo zomola patarão
extingue-me também esta pele e ossos
a mente não permite que me dissolva no espaço
o tempo apagará o remorso teu c’uma salva
de palmas e kanimambos muitos – não
dos também teus anónimos meninos do Gilé
[315]
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quarta-feira, agosto 20, 2008
Eduardo White
A PALAVRA
A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.
A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.
A palavra madura é espectáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.
A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.
A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.
[314]
A PALAVRA
A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.
A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.
A palavra madura é espectáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.
A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.
A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.
[314]
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white
terça-feira, julho 29, 2008
Guita Jr.
MÃOS SOBRE O FARRAPO
mas vamos reconstruindo o país aos impostos
uns menos puros outros mais ilícitos
outros antes porém aos encontrões com mulalas
a verterem-nos da carne o hematozoário
mais emergente que o donativo mais escasso
fazemos sauna nós mesmos sem idades
em busca da purpúrea metamorfose legal
mas é verdade que há ainda motobombas
comprometidas com o dever de necessitar
é verdade
e discursam-se mais dogmas e mitos
as alturas e a vontade submissa
agora estou a pedir cinquenta
para perpetuar o farrapo e a esmola
e para evitar falar de bares e copos
vai uma coroa de flores para os heróis
sempre nos satisfaz mais uma gorgeta
para desarraigar as vontades abdominais
[313]
MÃOS SOBRE O FARRAPO
mas vamos reconstruindo o país aos impostos
uns menos puros outros mais ilícitos
outros antes porém aos encontrões com mulalas
a verterem-nos da carne o hematozoário
mais emergente que o donativo mais escasso
fazemos sauna nós mesmos sem idades
em busca da purpúrea metamorfose legal
mas é verdade que há ainda motobombas
comprometidas com o dever de necessitar
é verdade
e discursam-se mais dogmas e mitos
as alturas e a vontade submissa
agora estou a pedir cinquenta
para perpetuar o farrapo e a esmola
e para evitar falar de bares e copos
vai uma coroa de flores para os heróis
sempre nos satisfaz mais uma gorgeta
para desarraigar as vontades abdominais
[313]
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segunda-feira, julho 07, 2008
Jall Sinth Hussein
BASMA (76)
Coração no bolso
para o que der e vier
põe-me a mão no bolso
[312]
BASMA (76)
Coração no bolso
para o que der e vier
põe-me a mão no bolso
[312]
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sinth hussein
quinta-feira, junho 26, 2008
Rui Knopfli
CORPO PRESENTE
Mais me pesa a terra sobre os olhos
e no lugar do coração. Não era
enfim tão rápido quanto crera.
Não fora esse indício e juraria a ausência
total de sensações. Pesa-me, porém
sobre a cegueira dos olhos e o vago
atroz do coração. Atroz não
porque me doa ou amargure,
mas porque esse ruído débil,
sempre inaudível, companheiro
da primeira à derradeira hora,
súbito cessou,
substituindo-o o horror de insuspeitado
e impenetrável silêncio. Depressa
me habituarei. A insensibilidade
da mão esquerda, sê-lo-á? Ou
será da terra? A terra…
O corpo soma-se-me em terra.
De tosca e anómala não chega
a ser obscena na terra a nudez
final. Aqui neste lugar
não há lembranças da vida. Mais
depressa ainda a vida se esquecerá
de mim e deste escuro mas promissor
tirocínio a uma futura arqueologia.
[311]
CORPO PRESENTE
Mais me pesa a terra sobre os olhos
e no lugar do coração. Não era
enfim tão rápido quanto crera.
Não fora esse indício e juraria a ausência
total de sensações. Pesa-me, porém
sobre a cegueira dos olhos e o vago
atroz do coração. Atroz não
porque me doa ou amargure,
mas porque esse ruído débil,
sempre inaudível, companheiro
da primeira à derradeira hora,
súbito cessou,
substituindo-o o horror de insuspeitado
e impenetrável silêncio. Depressa
me habituarei. A insensibilidade
da mão esquerda, sê-lo-á? Ou
será da terra? A terra…
O corpo soma-se-me em terra.
De tosca e anómala não chega
a ser obscena na terra a nudez
final. Aqui neste lugar
não há lembranças da vida. Mais
depressa ainda a vida se esquecerá
de mim e deste escuro mas promissor
tirocínio a uma futura arqueologia.
[311]
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knopfli
terça-feira, maio 27, 2008
O primeiro poema apareceu há precisamente cinco anos.
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:
(Canção Popular) - De Longe Esta Ilha Parece Pequena
(Canção Popular) - Eis o Que É Belo Neste Mundo
Alberto de Lacerda - Regresso
Alberto de Lacerda - L'Isle Joyeuse
Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
Alberto de Lacerda - A Minha Ilha
Alberto de Lacerda - Jóias
Alberto de Lacerda - Lourenço Marques Revisited
Alberto de Lacerda - Melancia
Alberto de Lacerda - Mandimba Metónia Vila Cabral
Alberto de Lacerda - A Mouzinho de Albuquerque
Alberto de Lacerda - Pureza
Alberto de Lacerda - Atributos Divinos
Alberto de Lacerda - Outros Sons
Alberto de Lacerda - Moçambique
Alberto de Lacerda - Peregrino
Alberto de Lacerda - Não Encontraste a Rua
Alberto de Lacerda - As Árvores no Parque
Alberto de Lacerda - Falemos de Miosótis
Alberto de Lacerda - Exílio
Alberto de Lacerda - Ardeste
Alberto de Lacerda - Dir-se-ia de repente
Albino Magaia - Descolonizámos o Land-Rover
Albino Magaia - No Sul Nada de Novo
Albino Magaia - Na Praia da Catembe
Amin Nordine - Chapa
Amin Nordine - Do Lado da Ala-B
Amin Nordine - Nosso Lar da Mafalala
Ana Mafalda Leite - Naturalidade (Carta a Rui Knopfli)
Ana Mafalda Leite - O Vermelho das Acácias na Paisagem
Ana Mafalda Leite - Do Outro Lado a Sul, Trópico de Caprocórnio
Armando Artur - Urgência
Armando Artur - Infância
Armando Artur - (Ao Rui Nogar)
Brian Tio Ninguas - A Josina, Heroína Sorridente
Campos Oliveira - O Pescador de Moçambique
Carlos Cardoso - Ruth First
Carlos Gil - Um Bairro
Carlos Gil - Princesa de Duas Cidades
Carneiro Gonçalves - Conto de Achiriua (excerto)
Custódio Vasco Duma - O Que Perdi
Domi Chirongo - Chimurenga
Eduardo White - O Manual das Mãos (excerto)
Eduardo White - Mastro
Eduardo White - És a Vela Içada
Eduardo White - Tu
Eduardo White - Quisera Um Dia
Eduardo White - Filho que Fosse
Eduardo White - Felizes os Homens
Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Eugénio Lisboa - Transparência
Fernando Couto - Verão Africano
Fernando Couto - Impala
Fernando Couto - Pergunta a Paul Robeson
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Fonseca Amaral - Karamchand
Fonseca Amaral - Exílio
Fonseca Amaral - S'Agapo
Fonseca Amaral - Poema
Frei Bartolomeu dos Mártires - Um Caminhar na Cidade de Pedra e Cal
Frei Bartolomeu dos Mártires - As Ruínas Derrotadas
Glória de Santana - Dia Africano
Glória de Santana - Bairro Negro
Glória de Santana - Segundo Poema da Solidão
Glória de Santana - Por Onde a Esperança
Grabato Dias - As Quybyrycas (canto nove - fragmento)
Grabato Dias - Laurentina Cesariniana 2
Grabato Dias - Baixa Laurentina
Grabato Dias - Laurentina Xipamanensis Ronga Maxilar
Grabato Dias - Laurentina Djambular Cafezinho das Dez
Grabato Dias - Laurentina Desagravada
Grabato Dias - Necrologia Laurentina
Guita Jr. - Deixar Tudo e Partir
Gulamo Khan - Xitimela
Gulamo Khan - Moçambicanto I
Helder Macedo - Partes de África (excerto/1)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/2)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/3)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/4)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/5)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/6)
Hélder Muteia - Presença
Hélder Muteia - Nós e o Destino
Heliodoro Baptista - À Volta das Origens
Heliodoro Baptista - Presságio, Minha Ave
Heliodoro Baptista - T. S. Eliot The Shadows of Rainbow
Heliodoro Baptista - Alegoria
Isabella Oliveira - M. & U. Companhia Ilimitada (excerto)
Isabella Oliveira - Memória da Ilha
Jall Sinth Hussein - Índico
Jall Sinth Hussein - Ilha de Moçambique 1972
Jall Sinth Hussein - Basma (72)
Jall Sinth Hussein - Tangerinas em Redor da Minha Vida
Jall Sinth Hussein - Mar
Jall Sinth Hussein - Moçambique 75 - Praça Mouzinho de Albuquerque
Jall Sinth Hussein - São as coisas e têm alma própria
Jall Sinth Hussein - Basma (51)
Jall Sinth Hussein - Basma (9)
Jall Sinth Hussein - Basma (77)
Jall Sinth Hussein - As coisas importantes
Jall Sinth Hussein - Basma (33)
Jall Sinth Hussein - Basma (42)
Jall Sinth Hussein - Basma (44)
João Dias - Gôdido
João Dias - Indivíduo Preto
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Hotel das Duas Portas (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / As Cores do Nosso Sangue (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Implicações de Um Naufrágio (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/1))
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / A Força do Mar de Agosto (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Balada da Xefina (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Duas Sombras do Rio (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - As Duas Sombras do Rio (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/4)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/5)
João Paulo Borges Coelho - Hinyambaan (excerto)
Jorge Viegas - O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas - Do Meu País
Jorge Viegas - Círculo de Sombra
José Craveirinha - Poema de JC Num Dia em que Estava Todo de Negro
José Craveirinha - Aforismo
José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
José Craveirinha - Moçambiquicida
José Craveirinha - Menus
José Craveirinha - Quero Ser Tambor
José Craveirinha - O Bule e O Blue
José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
José Craveirinha - Pátria
José Craveirinha - Anti-Lirismo Inútil
José Craveirinha - A Raiva que se Limita
José Craveirinha - Amanhã
José Craveirinha - Polana
José Craveirinha - Natal
José Craveirinha - Mampsincha
José Craveirinha - João Matangulana
José Craveirinha - Fábula
José Craveirinha - Karingana Ua Karingana
José Craveirinha - A Minha Complacência
José Craveirinha - Café Frio
José Craveirinha - Autobiografia
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/1)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/2)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/3)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/4)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/5)
José Pastor - A Pessoa de Josefane Ficou no Massacre…
Júlio Carrilho - Porta de Água
Júlio Carrilho - (casquinha)
Júlio Carrilho - Estranha forma
Júlio Carrilho - De Repente a Terra
Júlio Carrilho - (Ser Mwani)
Júlio Carrilho - Nada Mais
Julius Kazembe - O Girassol
Leite de Vasconcelos - Receita para uma Infracção
Leite de Vasconcelos - Canto do Verbo em Busca da Forma
Luís Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luís Bernardo Honwana - Rosita, Até Morrer
Luís Bernardo Honwana - Nós Matámos o Cão-Tinhoso (excerto)
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Luis Carlos Patraquim - Moradas
Luis Carlos Patraquim - As Casas
Luis Carlos Patraquim - Lidemburgo Blues 5
Luis Carlos Patraquim - Elegia do Nilo
Luis Carlos Patraquim - Frei Mutimáti Grabato João
Luís de Camões - Os Lusíadas (I, 54)
Manuela Sousa Lobo - Angola 11.11.75 (excerto)
Marcelino dos Santos - Sonho da Mãe Negra
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mia Couto - Ilha de Moçambique
Mia Couto - Versos do Prisioneiro - Última Carta do Preso ao Poeta
Mia Couto - Versos do Prisioneiro (6)
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Mutimati Barnabé João - Dia 7
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Nelson Saúte - Testamento Para os Meus Filhos
Nelson Saúte - Munhuana Blues
Nelson Saúte - Costa do Sol
Nelson Saúte - Marrabenta para Fanny Mpfumo
Nelson Saúte - Maputo
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Noémia de Sousa - Se Me Quiseres Conhecer
Nuno Bermudes - Natal em África
Nuno Bermudes - Domingo
Nuno Bermudes - Na Dor da Tua Morte
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Orlando Mendes - Ponte Pênsil
Orlando Mendes - A Chamada Inspiração
Orlando Mendes - Interferência Necessária
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/1)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/2)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/3)
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui de Noronha - Soneto
Rui de Noronha - À Luz do Poente
Rui de Noronha - Quinhenta Mais Quinhenta, Mais Quinhenta...
Rui de Noronha - Chuva Miudinha
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Rui Knopfli - Poemazinho Reaccionário Para Uso Particular
Rui Knopfli - Nunca Mais É Sábado!...
Rui Knopfli - Certidão de Óbito
Rui Knopfli - Epigrama
Rui Knopfli - Auto-Retrato
Rui Knopfli - Praça Sete de Março
Rui Knopfli - A Pedra no Caminho
Rui Knopfli - Visitação (1)
Rui Knopfli - Sem Nada de Meu
Rui Knopfli - S. Paulo
Rui Knopfli - Cão do Nilo
Rui Knopfli - A Descoberta da Rosa
Rui Knopfli - Navio no Porto
Rui Knopfli - Pirâmide .7
Rui Knopfli - Música de Fim de Dia
Rui Knopfli - Paisagem
Rui Knopfli - Telegrama
Rui Knopfli - Princípio do Dia
Rui Knopfli - Posteridade
Rui Knopfli - Lembranças do Futuro
Rui Knopfli - O Ladrão de Versos
Rui Knopfli - Winds of Change
Rui Knopfli - Miles
Rui Knopfli - Hackensack
Rui Knopfli - Letra para Um Solo de Charlie Parker
Rui Knopfli - Achado Sem Valor Arqueológico
Rui Knopfli - O Escriba Acocorado
Rui Nogar - Xicuembo
Rui Nogar - Os 2 Primeiros Poemas da Impaciência
Rui Nogar - Nova Dimensão
Rui Nogar - Mensagem da Machava
Ruy Guerra - A Morte do Velho Guerreiro Swazi
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Sebastião Alba - Ninguém Meu Amor
Sebastião Alba - O Navegador
Sebastião Alba - Como os Outros
Sebastião Alba - Natal no Cárcere
Sebastião Alba - Epílogo
Sebastião Alba - Preciso de qualquer objecto
Sebastião Alba - Está Quebrada
Sebastião Alba - O Limite Diáfano
Sebastião Alba - Gosto dos Amigos
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 1)
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 2)
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 3)
Victor Matos e Sá - A Rui de Noronha
Virgílio de Lemos - Ouamisi
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:
(Canção Popular) - De Longe Esta Ilha Parece Pequena
(Canção Popular) - Eis o Que É Belo Neste Mundo
Alberto de Lacerda - Regresso
Alberto de Lacerda - L'Isle Joyeuse
Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
Alberto de Lacerda - A Minha Ilha
Alberto de Lacerda - Jóias
Alberto de Lacerda - Lourenço Marques Revisited
Alberto de Lacerda - Melancia
Alberto de Lacerda - Mandimba Metónia Vila Cabral
Alberto de Lacerda - A Mouzinho de Albuquerque
Alberto de Lacerda - Pureza
Alberto de Lacerda - Atributos Divinos
Alberto de Lacerda - Outros Sons
Alberto de Lacerda - Moçambique
Alberto de Lacerda - Peregrino
Alberto de Lacerda - Não Encontraste a Rua
Alberto de Lacerda - As Árvores no Parque
Alberto de Lacerda - Falemos de Miosótis
Alberto de Lacerda - Exílio
Alberto de Lacerda - Ardeste
Alberto de Lacerda - Dir-se-ia de repente
Albino Magaia - Descolonizámos o Land-Rover
Albino Magaia - No Sul Nada de Novo
Albino Magaia - Na Praia da Catembe
Amin Nordine - Chapa
Amin Nordine - Do Lado da Ala-B
Amin Nordine - Nosso Lar da Mafalala
Ana Mafalda Leite - Naturalidade (Carta a Rui Knopfli)
Ana Mafalda Leite - O Vermelho das Acácias na Paisagem
Ana Mafalda Leite - Do Outro Lado a Sul, Trópico de Caprocórnio
Armando Artur - Urgência
Armando Artur - Infância
Armando Artur - (Ao Rui Nogar)
Brian Tio Ninguas - A Josina, Heroína Sorridente
Campos Oliveira - O Pescador de Moçambique
Carlos Cardoso - Ruth First
Carlos Gil - Um Bairro
Carlos Gil - Princesa de Duas Cidades
Carneiro Gonçalves - Conto de Achiriua (excerto)
Custódio Vasco Duma - O Que Perdi
Domi Chirongo - Chimurenga
Eduardo White - O Manual das Mãos (excerto)
Eduardo White - Mastro
Eduardo White - És a Vela Içada
Eduardo White - Tu
Eduardo White - Quisera Um Dia
Eduardo White - Filho que Fosse
Eduardo White - Felizes os Homens
Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Eugénio Lisboa - Transparência
Fernando Couto - Verão Africano
Fernando Couto - Impala
Fernando Couto - Pergunta a Paul Robeson
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Fonseca Amaral - Karamchand
Fonseca Amaral - Exílio
Fonseca Amaral - S'Agapo
Fonseca Amaral - Poema
Frei Bartolomeu dos Mártires - Um Caminhar na Cidade de Pedra e Cal
Frei Bartolomeu dos Mártires - As Ruínas Derrotadas
Glória de Santana - Dia Africano
Glória de Santana - Bairro Negro
Glória de Santana - Segundo Poema da Solidão
Glória de Santana - Por Onde a Esperança
Grabato Dias - As Quybyrycas (canto nove - fragmento)
Grabato Dias - Laurentina Cesariniana 2
Grabato Dias - Baixa Laurentina
Grabato Dias - Laurentina Xipamanensis Ronga Maxilar
Grabato Dias - Laurentina Djambular Cafezinho das Dez
Grabato Dias - Laurentina Desagravada
Grabato Dias - Necrologia Laurentina
Guita Jr. - Deixar Tudo e Partir
Gulamo Khan - Xitimela
Gulamo Khan - Moçambicanto I
Helder Macedo - Partes de África (excerto/1)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/2)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/3)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/4)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/5)
Helder Macedo - Partes de África (excerto/6)
Hélder Muteia - Presença
Hélder Muteia - Nós e o Destino
Heliodoro Baptista - À Volta das Origens
Heliodoro Baptista - Presságio, Minha Ave
Heliodoro Baptista - T. S. Eliot The Shadows of Rainbow
Heliodoro Baptista - Alegoria
Isabella Oliveira - M. & U. Companhia Ilimitada (excerto)
Isabella Oliveira - Memória da Ilha
Jall Sinth Hussein - Índico
Jall Sinth Hussein - Ilha de Moçambique 1972
Jall Sinth Hussein - Basma (72)
Jall Sinth Hussein - Tangerinas em Redor da Minha Vida
Jall Sinth Hussein - Mar
Jall Sinth Hussein - Moçambique 75 - Praça Mouzinho de Albuquerque
Jall Sinth Hussein - São as coisas e têm alma própria
Jall Sinth Hussein - Basma (51)
Jall Sinth Hussein - Basma (9)
Jall Sinth Hussein - Basma (77)
Jall Sinth Hussein - As coisas importantes
Jall Sinth Hussein - Basma (33)
Jall Sinth Hussein - Basma (42)
Jall Sinth Hussein - Basma (44)
João Dias - Gôdido
João Dias - Indivíduo Preto
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Hotel das Duas Portas (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / As Cores do Nosso Sangue (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Implicações de Um Naufrágio (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/1))
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / A Força do Mar de Agosto (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Balada da Xefina (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Duas Sombras do Rio (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - As Duas Sombras do Rio (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/4)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/5)
João Paulo Borges Coelho - Hinyambaan (excerto)
Jorge Viegas - O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas - Do Meu País
Jorge Viegas - Círculo de Sombra
José Craveirinha - Poema de JC Num Dia em que Estava Todo de Negro
José Craveirinha - Aforismo
José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
José Craveirinha - Moçambiquicida
José Craveirinha - Menus
José Craveirinha - Quero Ser Tambor
José Craveirinha - O Bule e O Blue
José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
José Craveirinha - Pátria
José Craveirinha - Anti-Lirismo Inútil
José Craveirinha - A Raiva que se Limita
José Craveirinha - Amanhã
José Craveirinha - Polana
José Craveirinha - Natal
José Craveirinha - Mampsincha
José Craveirinha - João Matangulana
José Craveirinha - Fábula
José Craveirinha - Karingana Ua Karingana
José Craveirinha - A Minha Complacência
José Craveirinha - Café Frio
José Craveirinha - Autobiografia
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/1)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/2)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/3)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/4)
José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai (excerto/5)
José Pastor - A Pessoa de Josefane Ficou no Massacre…
Júlio Carrilho - Porta de Água
Júlio Carrilho - (casquinha)
Júlio Carrilho - Estranha forma
Júlio Carrilho - De Repente a Terra
Júlio Carrilho - (Ser Mwani)
Júlio Carrilho - Nada Mais
Julius Kazembe - O Girassol
Leite de Vasconcelos - Receita para uma Infracção
Leite de Vasconcelos - Canto do Verbo em Busca da Forma
Luís Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luís Bernardo Honwana - Rosita, Até Morrer
Luís Bernardo Honwana - Nós Matámos o Cão-Tinhoso (excerto)
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Luis Carlos Patraquim - Moradas
Luis Carlos Patraquim - As Casas
Luis Carlos Patraquim - Lidemburgo Blues 5
Luis Carlos Patraquim - Elegia do Nilo
Luis Carlos Patraquim - Frei Mutimáti Grabato João
Luís de Camões - Os Lusíadas (I, 54)
Manuela Sousa Lobo - Angola 11.11.75 (excerto)
Marcelino dos Santos - Sonho da Mãe Negra
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mia Couto - Ilha de Moçambique
Mia Couto - Versos do Prisioneiro - Última Carta do Preso ao Poeta
Mia Couto - Versos do Prisioneiro (6)
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Mutimati Barnabé João - Dia 7
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Nelson Saúte - Testamento Para os Meus Filhos
Nelson Saúte - Munhuana Blues
Nelson Saúte - Costa do Sol
Nelson Saúte - Marrabenta para Fanny Mpfumo
Nelson Saúte - Maputo
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Noémia de Sousa - Se Me Quiseres Conhecer
Nuno Bermudes - Natal em África
Nuno Bermudes - Domingo
Nuno Bermudes - Na Dor da Tua Morte
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Orlando Mendes - Ponte Pênsil
Orlando Mendes - A Chamada Inspiração
Orlando Mendes - Interferência Necessária
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/1)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/2)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/3)
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui de Noronha - Soneto
Rui de Noronha - À Luz do Poente
Rui de Noronha - Quinhenta Mais Quinhenta, Mais Quinhenta...
Rui de Noronha - Chuva Miudinha
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Rui Knopfli - Poemazinho Reaccionário Para Uso Particular
Rui Knopfli - Nunca Mais É Sábado!...
Rui Knopfli - Certidão de Óbito
Rui Knopfli - Epigrama
Rui Knopfli - Auto-Retrato
Rui Knopfli - Praça Sete de Março
Rui Knopfli - A Pedra no Caminho
Rui Knopfli - Visitação (1)
Rui Knopfli - Sem Nada de Meu
Rui Knopfli - S. Paulo
Rui Knopfli - Cão do Nilo
Rui Knopfli - A Descoberta da Rosa
Rui Knopfli - Navio no Porto
Rui Knopfli - Pirâmide .7
Rui Knopfli - Música de Fim de Dia
Rui Knopfli - Paisagem
Rui Knopfli - Telegrama
Rui Knopfli - Princípio do Dia
Rui Knopfli - Posteridade
Rui Knopfli - Lembranças do Futuro
Rui Knopfli - O Ladrão de Versos
Rui Knopfli - Winds of Change
Rui Knopfli - Miles
Rui Knopfli - Hackensack
Rui Knopfli - Letra para Um Solo de Charlie Parker
Rui Knopfli - Achado Sem Valor Arqueológico
Rui Knopfli - O Escriba Acocorado
Rui Nogar - Xicuembo
Rui Nogar - Os 2 Primeiros Poemas da Impaciência
Rui Nogar - Nova Dimensão
Rui Nogar - Mensagem da Machava
Ruy Guerra - A Morte do Velho Guerreiro Swazi
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Sebastião Alba - Ninguém Meu Amor
Sebastião Alba - O Navegador
Sebastião Alba - Como os Outros
Sebastião Alba - Natal no Cárcere
Sebastião Alba - Epílogo
Sebastião Alba - Preciso de qualquer objecto
Sebastião Alba - Está Quebrada
Sebastião Alba - O Limite Diáfano
Sebastião Alba - Gosto dos Amigos
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 1)
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 2)
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 3)
Victor Matos e Sá - A Rui de Noronha
Virgílio de Lemos - Ouamisi
sexta-feira, maio 23, 2008
João Paulo Borges Coelho
HINYAMBAAN (excerto)
Chegam à estrada principal e rumam a norte. Sentem-na como algo familiar e antigo que haviam perdido e agora recuperam, apesar de ter sido apenas ontem que a conheceram e deixaram. É este mais um dos mistérios das longas viagens, que alteram de um modo inelutável a percepção que temos das coisas que nos cercam. Como se fôssemos donos de um rio que não há meio de se imobilizar para que dele tomemos posse.
[310]
HINYAMBAAN (excerto)
Chegam à estrada principal e rumam a norte. Sentem-na como algo familiar e antigo que haviam perdido e agora recuperam, apesar de ter sido apenas ontem que a conheceram e deixaram. É este mais um dos mistérios das longas viagens, que alteram de um modo inelutável a percepção que temos das coisas que nos cercam. Como se fôssemos donos de um rio que não há meio de se imobilizar para que dele tomemos posse.
[310]
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borges coelho
segunda-feira, maio 19, 2008
Albino Magaia
INUNDAÇÃO
I
Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.
II
Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.
III
Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…
Milho afogado e batata-doce morreu!
Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?
[309]
INUNDAÇÃO
I
Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.
II
Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.
III
Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…
Milho afogado e batata-doce morreu!
Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?
[309]
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domingo, maio 18, 2008
Júlio Carrilho
NADA MAIS
Nada mais do que um motivo de recuo. Uma simples procura de retaguardas insuspeitas. Um resguardo da minha inteligência poluída. É que hoje se faz o dia a poluir. Depois empenhamo-nos em doutrinas reestruturantes. E sem nos acabarmos, a tortura de mais um recomeço.
Só cada um pode resgatar a sua própria alma.
E então? Lancei-me na savana em busca do fosso do descanso. Encontrei-o. Mas encontrei também o dono da planície. O dono da erva. O dono inclusive do meu próprio correr. Agora só as recordações me podem resgatar nos amores que eu próprio entristeci.
[308]
NADA MAIS
Nada mais do que um motivo de recuo. Uma simples procura de retaguardas insuspeitas. Um resguardo da minha inteligência poluída. É que hoje se faz o dia a poluir. Depois empenhamo-nos em doutrinas reestruturantes. E sem nos acabarmos, a tortura de mais um recomeço.
Só cada um pode resgatar a sua própria alma.
E então? Lancei-me na savana em busca do fosso do descanso. Encontrei-o. Mas encontrei também o dono da planície. O dono da erva. O dono inclusive do meu próprio correr. Agora só as recordações me podem resgatar nos amores que eu próprio entristeci.
[308]
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domingo, abril 13, 2008
Albino Magaia
NA PRAIA DA CATEMBE
Diz Carlos:
Que existe meu irmão
atrás daquele muro de pedra
que se avista da velha praia da Catembe?
Que existe
escondido dos olhos dos barcos que chegam
tão secreto que se deva ocultar
atrás daquela parede alta cheia de mistério?
Alonga a vista
e fura a parede de pedra que barra o horizonte.
Que vês?
Que sente tua alma?
Que fogo te abrasa?
Oh, mas diz
diz irmão
o que existe atrás daquele muro.
Di-lo em voz alta para os outros ouvirem
que eu já estou farto de o saber…
[307]
NA PRAIA DA CATEMBE
Diz Carlos:
Que existe meu irmão
atrás daquele muro de pedra
que se avista da velha praia da Catembe?
Que existe
escondido dos olhos dos barcos que chegam
tão secreto que se deva ocultar
atrás daquela parede alta cheia de mistério?
Alonga a vista
e fura a parede de pedra que barra o horizonte.
Que vês?
Que sente tua alma?
Que fogo te abrasa?
Oh, mas diz
diz irmão
o que existe atrás daquele muro.
Di-lo em voz alta para os outros ouvirem
que eu já estou farto de o saber…
[307]
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sábado, abril 05, 2008
Rui Nogar
MENSAGEM DA MACHAVA
I
tudo ganhou novos ângulos novas luzes
é mais volátil é mais livre o voo das aves
flores lilases nos gostos mais simples
o amor é tão fácil como o sorriso das crianças
o amor é tão puro como o sémen das chamas
ah sinto-me estrada fertilizando
milhões de passos ao nosso encontro
II
reparem camaradas na minha ausência
como ela se povoa de novas estradas
as palavras são mais precisas reinventadas
servem todas uma a uma
as distâncias que nos separam
e apesar das grades dos cães-polícias
sinto-me cada vez mais perto de vós.
[306]
MENSAGEM DA MACHAVA
I
tudo ganhou novos ângulos novas luzes
é mais volátil é mais livre o voo das aves
flores lilases nos gostos mais simples
o amor é tão fácil como o sorriso das crianças
o amor é tão puro como o sémen das chamas
ah sinto-me estrada fertilizando
milhões de passos ao nosso encontro
II
reparem camaradas na minha ausência
como ela se povoa de novas estradas
as palavras são mais precisas reinventadas
servem todas uma a uma
as distâncias que nos separam
e apesar das grades dos cães-polícias
sinto-me cada vez mais perto de vós.
[306]
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quinta-feira, março 20, 2008
Rui Nogar
NOVA DIMENSÃO
Esta borboleta
Que volitando vai
De cama em cama grade a grade
De não-penses-mais
A um-dia-hás-de-sair
Não é uma borboleta vulgar
É sim uma borboleta
Borboleta ainda
Que um homem nesta prisão
Jurou libertar um dia
Para um voo universal
Do ciclo deste poema
Nas praças desta nação
É uma borboleta sim
Que ela aprendeu a amar
Em cada nova tentativa
De profundas metamorfoses
Sim
Borboleta política
Casulada seis meses
Na cela número três
Na Penitenciária Industrial
Da Colónia de Moçambique…
[305]
NOVA DIMENSÃO
Esta borboleta
Que volitando vai
De cama em cama grade a grade
De não-penses-mais
A um-dia-hás-de-sair
Não é uma borboleta vulgar
É sim uma borboleta
Borboleta ainda
Que um homem nesta prisão
Jurou libertar um dia
Para um voo universal
Do ciclo deste poema
Nas praças desta nação
É uma borboleta sim
Que ela aprendeu a amar
Em cada nova tentativa
De profundas metamorfoses
Sim
Borboleta política
Casulada seis meses
Na cela número três
Na Penitenciária Industrial
Da Colónia de Moçambique…
[305]
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domingo, março 16, 2008
Rui Nogar
OS 2 PRIMEIROS POEMAS DA IMPACIÊNCIA
I
Tatuagens de lua
no corpo quente
da mãe-terra
e assim nua nua
no leito vermelho
virginal ainda
ela espera a semente
que tarda a chegar
que tarda a chegar
II
Que venham
mas não de braços cruzados
aqui amigos
o sexo vermelho da terra
lateja de febre e de cio
é preciso saciá-la
e depressa
que venham
sim que venham
mas repito não de braços cruzados
aqui amigos
aqui
a terra fenece
na fome de arados
que tardam a chegar
que tardam a chegar
ah! que tardam tanto a chegar
[304]
OS 2 PRIMEIROS POEMAS DA IMPACIÊNCIA
I
Tatuagens de lua
no corpo quente
da mãe-terra
e assim nua nua
no leito vermelho
virginal ainda
ela espera a semente
que tarda a chegar
que tarda a chegar
II
Que venham
mas não de braços cruzados
aqui amigos
o sexo vermelho da terra
lateja de febre e de cio
é preciso saciá-la
e depressa
que venham
sim que venham
mas repito não de braços cruzados
aqui amigos
aqui
a terra fenece
na fome de arados
que tardam a chegar
que tardam a chegar
ah! que tardam tanto a chegar
[304]
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sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Rui Nogar
XICUEMBO
eu bebo suruma
dos teus ólho Ana Maria.
eu bebo suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quere dormir quere comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer
suruma dos teus ólho Ana Maria
matou socego no meu coração
oh matou socego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulhar de todo o gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor
[303]
XICUEMBO
eu bebo suruma
dos teus ólho Ana Maria.
eu bebo suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quere dormir quere comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer
suruma dos teus ólho Ana Maria
matou socego no meu coração
oh matou socego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulhar de todo o gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor
[303]
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terça-feira, fevereiro 26, 2008
Eduardo White
FELIZES OS HOMENS
Felizes os homens
que cantam o amor.
A eles a vontade do inexplicável
e a forma dúbia dos oceanos.
[302]
FELIZES OS HOMENS
Felizes os homens
que cantam o amor.
A eles a vontade do inexplicável
e a forma dúbia dos oceanos.
[302]
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domingo, fevereiro 10, 2008
Rui Knopfli
O ESCRIBA ACOCORADO
Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,
em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve
no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana
estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.
[301]
O ESCRIBA ACOCORADO
Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,
em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve
no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana
estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.
[301]
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quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Júlio Carrilho
(SER MWANI)
Não é que ser mulato me abra as portas:
é preciso que se tenha aprendido a beber
esse saber da praia
qualquer que seja a dor que se transporta.
A Guerra aqui não se reproduz. Sofre-se.
A escravatura aqui não se aprimora. Degrada-se:
na sabedoria dos escravos
na subtileza do servir dos servos
na paciência dos barcos adornados
Tudo sucumbe no equilíbrio sustentável
da intriga
viscosamente escrutinada nas sub-ilhas de murmúrios
dos quintais fechados
[300]
(SER MWANI)
Não é que ser mulato me abra as portas:
é preciso que se tenha aprendido a beber
esse saber da praia
qualquer que seja a dor que se transporta.
A Guerra aqui não se reproduz. Sofre-se.
A escravatura aqui não se aprimora. Degrada-se:
na sabedoria dos escravos
na subtileza do servir dos servos
na paciência dos barcos adornados
Tudo sucumbe no equilíbrio sustentável
da intriga
viscosamente escrutinada nas sub-ilhas de murmúrios
dos quintais fechados
[300]
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terça-feira, fevereiro 05, 2008
Helder Macedo
PARTES DE ÁFRICA (excerto/6)
Uma noite o guarda da praia apareceu lá em casa, todo o caminho a corta-mato de bicicleta, a dizer esbaforido que havia um avião grande a querer flutuar na água. No trânsito de ele vir e de o meu pai ir, a tripulação tinha desaparecido (salva por outro hidroavião inglês?) mas o Catalina encalhara nas dunas de areia fina que separavam a prai do alto mar, e quando também lá fui no dia seguinte era uma cave de Aladino: máscaras com grandes tubos a sair da boca, capacetes de metal, pistolas, chocolates, os instrumentos mais bizarros. Foi tudo selado para os senhores da capitania, mas ainda fui a tempo de provar o chocolate, que afinal era uma sensaboria que sabia a sopa, e assustar o cão com uma máscara.
[299]
PARTES DE ÁFRICA (excerto/6)
Uma noite o guarda da praia apareceu lá em casa, todo o caminho a corta-mato de bicicleta, a dizer esbaforido que havia um avião grande a querer flutuar na água. No trânsito de ele vir e de o meu pai ir, a tripulação tinha desaparecido (salva por outro hidroavião inglês?) mas o Catalina encalhara nas dunas de areia fina que separavam a prai do alto mar, e quando também lá fui no dia seguinte era uma cave de Aladino: máscaras com grandes tubos a sair da boca, capacetes de metal, pistolas, chocolates, os instrumentos mais bizarros. Foi tudo selado para os senhores da capitania, mas ainda fui a tempo de provar o chocolate, que afinal era uma sensaboria que sabia a sopa, e assustar o cão com uma máscara.
[299]
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segunda-feira, janeiro 28, 2008
Helder Macedo
PARTES DE ÁFRICA (excerto/5)
Havia uma altura do ano em que as ruas de Lourenço Marques estavam cheias de espadas. Não eram bem espadas, a forma era mais de alfanges, e eram de facto umas longas vagens que caíam das acácias permitindo duelos que nem o Errol Flynn nas matinés do Scala. As mais longas chegavam a ter meio metro, que para um braço de doze anos era o tamanho ideal. As sementes dentro das carapaças acastanhadas chocalhavam marcialmente a cada golpe, os duelos terminavam não quando um matava o outro, porque ressuscitava-se sempre, mas quando alguém pedia tréguas, o que seria uma vergonha. Ou então quando uma das espadas se desintegrava. Era por isso conveniente escolher sempre uma espada ainda firme mas já razoavelmente seca (que além do mais tinha a vantagem de as sementes também rufarem tambores de guerra) para, facilmente desintegrada com honra, se poder ir ter com os amigos do futebol no campo do Harmonia. O Coluna aparecia às vezes no fim do calor da tarde e deixava-se ficar alguns minutos, dando conselhos: «nunca chutes a bola com a biqueira, o pé em ângulo controla melhor a direcção da bola.» Já jogava no Desportivo e era ouvido com metafísico respeito. O Costa Pereira, mais populista, de vez em quando acedia a jogar connosco, defendendo a baliza da equipa da equipa que estivesse a perder. E um dia quase lhe meti um golo. Momento inesquecível: de pé em ângulo.
[298]
PARTES DE ÁFRICA (excerto/5)
Havia uma altura do ano em que as ruas de Lourenço Marques estavam cheias de espadas. Não eram bem espadas, a forma era mais de alfanges, e eram de facto umas longas vagens que caíam das acácias permitindo duelos que nem o Errol Flynn nas matinés do Scala. As mais longas chegavam a ter meio metro, que para um braço de doze anos era o tamanho ideal. As sementes dentro das carapaças acastanhadas chocalhavam marcialmente a cada golpe, os duelos terminavam não quando um matava o outro, porque ressuscitava-se sempre, mas quando alguém pedia tréguas, o que seria uma vergonha. Ou então quando uma das espadas se desintegrava. Era por isso conveniente escolher sempre uma espada ainda firme mas já razoavelmente seca (que além do mais tinha a vantagem de as sementes também rufarem tambores de guerra) para, facilmente desintegrada com honra, se poder ir ter com os amigos do futebol no campo do Harmonia. O Coluna aparecia às vezes no fim do calor da tarde e deixava-se ficar alguns minutos, dando conselhos: «nunca chutes a bola com a biqueira, o pé em ângulo controla melhor a direcção da bola.» Já jogava no Desportivo e era ouvido com metafísico respeito. O Costa Pereira, mais populista, de vez em quando acedia a jogar connosco, defendendo a baliza da equipa da equipa que estivesse a perder. E um dia quase lhe meti um golo. Momento inesquecível: de pé em ângulo.
[298]
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segunda-feira, janeiro 21, 2008
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Helder Macedo
PARTES DE ÁFRICA (excerto/4)
«A casa era uma construção apalaçada do tempo das capitanias, versão residencial do quadrado de Marracuene num amplo cubo com quatro torres atarracadas, varandas ligando-as em perfeita simetria ao nível do primeiro andar, escadaria para um jardim com caramanchão, um embondeiro, palmeiras, um rego de água ao lado do caniçal. Em frente ao jardim abria-se a ideia platónica de uma praça, prefigurada por uma extensão abaulada de terra batida ainda sem outras casas em volta a justificá-la, excepto, do lado oposto, a sede da administração. Mas no centro da praça, e só por isso era praça e tinha centro, erguia-se um poste de bandeira. Os sipais, de farda caqui e cofio vermelho, apresentavam armas com as kropachets, já há muito sem a pólvora do tempo da revolta dos maganjas, enquanto um deles tocava o clarim e outro içava ou arreava a bandeira no rápido alvorecer da madrugada ou no intenso clarão roxo que precedia a noite repentina. Depois marchavam, em formação, no compasso surdo das solas grossas dos pés descalços, até destroçarem junto a um renque de árvores, ao longe. O clarim assinalando o fim do dia imperial era também o momento em que os morcegos, pendurados de cabeça para baixo na árvore fantasma ao fundo do quintal desde o toque da alvorada, iam começar o seu depredatório dia libertário na mesma noite sem crepúsculo de que os pássaros se recolhiam alvoraçados, com exagerada estridência. E também os grupos seminus de homens aflitos e mulheres com crianças às costas ou aos longos peitos ressequidos, que haviam acampado desde a manhã na sombra pegajosa de insectos em volta da administração, aviadas as últimas demandas começavam de repente a falar mais alto antes de regressarem às aldeias que se confundiam na distância com a terra e o caniço de que eram construídas. Um dia o meu irmão construiu sobre o rego de água uma ponte de terra e caniço que não caiu quando depois passou sobre ela de bicicleta. Foi um acontecimento de pura magia. E numa noite muito quente em que me pareceu ouvir vozes ao fundo da casa e um súbito estrondo, sonhei que havia um leão no quintal. Quando acordei de manhã disseram-me que sim, que era uma leoa. Não me deixaram ir vê-la mas havia para mim um leão pequenino, uma criaturinha quase ainda do tamanho dum gato que ao fim de uma semana em que se pensava que iria sobreviver, já se divertia a fazer esperas ao meu cão, que era tão grande (se é o mesmo da fotografia) que pouco tempo antes eu ainda cavalgava.»
[296]
PARTES DE ÁFRICA (excerto/4)
«A casa era uma construção apalaçada do tempo das capitanias, versão residencial do quadrado de Marracuene num amplo cubo com quatro torres atarracadas, varandas ligando-as em perfeita simetria ao nível do primeiro andar, escadaria para um jardim com caramanchão, um embondeiro, palmeiras, um rego de água ao lado do caniçal. Em frente ao jardim abria-se a ideia platónica de uma praça, prefigurada por uma extensão abaulada de terra batida ainda sem outras casas em volta a justificá-la, excepto, do lado oposto, a sede da administração. Mas no centro da praça, e só por isso era praça e tinha centro, erguia-se um poste de bandeira. Os sipais, de farda caqui e cofio vermelho, apresentavam armas com as kropachets, já há muito sem a pólvora do tempo da revolta dos maganjas, enquanto um deles tocava o clarim e outro içava ou arreava a bandeira no rápido alvorecer da madrugada ou no intenso clarão roxo que precedia a noite repentina. Depois marchavam, em formação, no compasso surdo das solas grossas dos pés descalços, até destroçarem junto a um renque de árvores, ao longe. O clarim assinalando o fim do dia imperial era também o momento em que os morcegos, pendurados de cabeça para baixo na árvore fantasma ao fundo do quintal desde o toque da alvorada, iam começar o seu depredatório dia libertário na mesma noite sem crepúsculo de que os pássaros se recolhiam alvoraçados, com exagerada estridência. E também os grupos seminus de homens aflitos e mulheres com crianças às costas ou aos longos peitos ressequidos, que haviam acampado desde a manhã na sombra pegajosa de insectos em volta da administração, aviadas as últimas demandas começavam de repente a falar mais alto antes de regressarem às aldeias que se confundiam na distância com a terra e o caniço de que eram construídas. Um dia o meu irmão construiu sobre o rego de água uma ponte de terra e caniço que não caiu quando depois passou sobre ela de bicicleta. Foi um acontecimento de pura magia. E numa noite muito quente em que me pareceu ouvir vozes ao fundo da casa e um súbito estrondo, sonhei que havia um leão no quintal. Quando acordei de manhã disseram-me que sim, que era uma leoa. Não me deixaram ir vê-la mas havia para mim um leão pequenino, uma criaturinha quase ainda do tamanho dum gato que ao fim de uma semana em que se pensava que iria sobreviver, já se divertia a fazer esperas ao meu cão, que era tão grande (se é o mesmo da fotografia) que pouco tempo antes eu ainda cavalgava.»
[296]
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segunda-feira, janeiro 07, 2008
Helder Macedo
PARTES DE ÁFRICA (excerto/3)
Era magríssimo, tinha sido actor do mudo nos anos 20, emigrara para Moçambique onde arranjou um camião arraçado de caravana blindada, e precedia as exibições com um sapateado de sapatos compridos, à palhaço, acompanhado por uma grafonola de campânula. Ia aonde o chamassem, às vezes ia sem o terem chamado, e era sempre uma grande excitação. Devo-lhe o meu primeiro filme, O Capitão das Nuvens. Quis logo ser aviador: pus uma cadeira em frente de outra com o cão de copiloto na de trás e metralhámos os alemães.
[295]
PARTES DE ÁFRICA (excerto/3)
Era magríssimo, tinha sido actor do mudo nos anos 20, emigrara para Moçambique onde arranjou um camião arraçado de caravana blindada, e precedia as exibições com um sapateado de sapatos compridos, à palhaço, acompanhado por uma grafonola de campânula. Ia aonde o chamassem, às vezes ia sem o terem chamado, e era sempre uma grande excitação. Devo-lhe o meu primeiro filme, O Capitão das Nuvens. Quis logo ser aviador: pus uma cadeira em frente de outra com o cão de copiloto na de trás e metralhámos os alemães.
[295]
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sábado, dezembro 29, 2007
Helder Macedo
PARTES DE ÁFRICA (excerto/2)
Logo que aprendi a descer as escadas de bicicleta, desafiei o cão para ir comigo à escola para aprendermos também o alfabeto e a tabuada, as linhas férreas e os rios de Portugal. Durante o alfabeto e a tabuada ele deixava-se ficar resignado debaixo da carteira, mas no Trofa a Fafe e Minho Mira começava a maçar-se: um ou dois bocejos veementes, comichão súbita, orelha arrebitada por algum ruído lá fora, às vezes uma cabeçada na esquina da carteira fazendo preceder por um ganido de trapalhão o vigoroso latir com que saltava pela janela. O senhor professor então zangava-se: se eu queria o cão na aula, tinha de se portar bem, como toda a gente. E um dia até lhe recusou a entrada. Os ganidos na varanda foram tão insistentes, a solidariedade dos camaradas na sala de aulas tão unânime, que acabou por ser readmitido, não se esquecendo de ir primeiro agradecer-lhes, um a um, de cauda contente, antes de se enroscar de novo no seu lugar. Mas era congenitamente indisciplinado e safou-se à hora do costume. E depois da aula lá fomos ter com ele, à beira do Incomati, onde o encontrávamos sempre a espantar pássaros, a rosnar de longe aos jacarés espapaçados na areia e a comparar mentalmente tamanhos de rios.
[294]
PARTES DE ÁFRICA (excerto/2)
Logo que aprendi a descer as escadas de bicicleta, desafiei o cão para ir comigo à escola para aprendermos também o alfabeto e a tabuada, as linhas férreas e os rios de Portugal. Durante o alfabeto e a tabuada ele deixava-se ficar resignado debaixo da carteira, mas no Trofa a Fafe e Minho Mira começava a maçar-se: um ou dois bocejos veementes, comichão súbita, orelha arrebitada por algum ruído lá fora, às vezes uma cabeçada na esquina da carteira fazendo preceder por um ganido de trapalhão o vigoroso latir com que saltava pela janela. O senhor professor então zangava-se: se eu queria o cão na aula, tinha de se portar bem, como toda a gente. E um dia até lhe recusou a entrada. Os ganidos na varanda foram tão insistentes, a solidariedade dos camaradas na sala de aulas tão unânime, que acabou por ser readmitido, não se esquecendo de ir primeiro agradecer-lhes, um a um, de cauda contente, antes de se enroscar de novo no seu lugar. Mas era congenitamente indisciplinado e safou-se à hora do costume. E depois da aula lá fomos ter com ele, à beira do Incomati, onde o encontrávamos sempre a espantar pássaros, a rosnar de longe aos jacarés espapaçados na areia e a comparar mentalmente tamanhos de rios.
[294]
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sábado, dezembro 22, 2007
Helder Macedo
PARTES DE ÁFRICA (excerto/1)
Contava-me as histórias do namarrocolo com demoras pedagógicas de bardo, enumerando todos os bichos grandes de que o esperto coelhinho conseguia sempre triunfar: o imprevisível leopardo, o justiceiro leão, o paciente elefante, a sinistra quizumba a rondar, a rondar, e que queria comer a mãe do namarrocolo, mas quando acabou a refeição percebeu que o namarrocolo a enganara, e que tinha comido a própria mãe. Repetia cada frase várias vezes sempre com as mesmas palavras, imitava as vozes dos bichos, das plantas, do fogo, do vento, dos rios, conjurava os movimentos e as formas com as suas grandes mãos da cor da terra, acocorados ambos no jeito africano que ele me tinha ensinado e que era como o namarrocolo se sentava para contar e para ouvir histórias.
[[293]
PARTES DE ÁFRICA (excerto/1)
Contava-me as histórias do namarrocolo com demoras pedagógicas de bardo, enumerando todos os bichos grandes de que o esperto coelhinho conseguia sempre triunfar: o imprevisível leopardo, o justiceiro leão, o paciente elefante, a sinistra quizumba a rondar, a rondar, e que queria comer a mãe do namarrocolo, mas quando acabou a refeição percebeu que o namarrocolo a enganara, e que tinha comido a própria mãe. Repetia cada frase várias vezes sempre com as mesmas palavras, imitava as vozes dos bichos, das plantas, do fogo, do vento, dos rios, conjurava os movimentos e as formas com as suas grandes mãos da cor da terra, acocorados ambos no jeito africano que ele me tinha ensinado e que era como o namarrocolo se sentava para contar e para ouvir histórias.
[[293]
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macedo
domingo, dezembro 16, 2007
Eduardo White
QUISERA UM DIA
Quisera um dia
a terra
o hábito de ser carne
membro boca olho
ou areia molhada
que o mar reclama
e eis que súbita
a pele grávida
a margem flácida
se desaba cada segundo
onde um grão amassa um filho.
[292]
QUISERA UM DIA
Quisera um dia
a terra
o hábito de ser carne
membro boca olho
ou areia molhada
que o mar reclama
e eis que súbita
a pele grávida
a margem flácida
se desaba cada segundo
onde um grão amassa um filho.
[292]
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domingo, dezembro 09, 2007
Eduardo White
TU
Tu
doce acre
linfo possuído
que a terra grita.
Amo-te assim
neste lado do barco.
[291]
TU
Tu
doce acre
linfo possuído
que a terra grita.
Amo-te assim
neste lado do barco.
[291]
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sexta-feira, novembro 30, 2007
Eduardo White
ÉS A VELA IÇADA
És a vela içada
a quilha que contorna
a carne das águas.
És a tempestade
a chuva premeditada
e eu o náufrago
que não se permite afogado.
[290]
ÉS A VELA IÇADA
És a vela içada
a quilha que contorna
a carne das águas.
És a tempestade
a chuva premeditada
e eu o náufrago
que não se permite afogado.
[290]
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terça-feira, novembro 20, 2007
Rui Knopfli
ACHADO SEM VALOR ARQUEOLÓGICO
Emergirei primeiro uma ranhurada
secção da calota, nota de brancura
dissonante espreitando no denso
verde da relva. Crianças, que adivinho,
correrão insuspeitamente do horizonte.
E virão aguaceiros em bátegas fortes
e a relva vicejará lustrosa e tenra.
De noite, nas noites sem luar,
amantes furtivos hão-de estender-se
rente a mim. A epiderme macia
da rapariga loira roçar-me-á,
com um arrepio brusco, a insensibilidade
nua da fronte: náusea imperceptível
de pronto esquecida na febre
dos beijos e afagos. Após a estiagem
a erva mirrará abrindo claros.
Fitarei, então, pela primeira vez,
ao fim de tão longa vigília,
com a escura fenda que outrora
foi o meu olho esquerdo, o céu
de um azul impoluto e brunido.
A breve trecho, o ângulo tristonho
da maxila, pequena mancha clara,
prenderá a atenção de um menino
de grandes olhos serenos, que há-de
pousar em mim, sem horror, a mansa
e grave curiosidade de seu olhar sonhador.
[289]
ACHADO SEM VALOR ARQUEOLÓGICO
Emergirei primeiro uma ranhurada
secção da calota, nota de brancura
dissonante espreitando no denso
verde da relva. Crianças, que adivinho,
correrão insuspeitamente do horizonte.
E virão aguaceiros em bátegas fortes
e a relva vicejará lustrosa e tenra.
De noite, nas noites sem luar,
amantes furtivos hão-de estender-se
rente a mim. A epiderme macia
da rapariga loira roçar-me-á,
com um arrepio brusco, a insensibilidade
nua da fronte: náusea imperceptível
de pronto esquecida na febre
dos beijos e afagos. Após a estiagem
a erva mirrará abrindo claros.
Fitarei, então, pela primeira vez,
ao fim de tão longa vigília,
com a escura fenda que outrora
foi o meu olho esquerdo, o céu
de um azul impoluto e brunido.
A breve trecho, o ângulo tristonho
da maxila, pequena mancha clara,
prenderá a atenção de um menino
de grandes olhos serenos, que há-de
pousar em mim, sem horror, a mansa
e grave curiosidade de seu olhar sonhador.
[289]
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domingo, novembro 11, 2007
Armando Artur
(AO RUI NOGAR)
Escrevo-te, melancólico,
estas palavras reverberadas
nas folhas das palmeiras.
A tua ausência ganha,
em mim, a forma dum poema
subitamente inacabado.
O nojo e o frio do teu silêncio
apaga a lógica poética
em que me fundo.
A bordo do teu nome vazio
escrevo-te estes versos
com a azul absurdo deste dia.
[288]
(AO RUI NOGAR)
Escrevo-te, melancólico,
estas palavras reverberadas
nas folhas das palmeiras.
A tua ausência ganha,
em mim, a forma dum poema
subitamente inacabado.
O nojo e o frio do teu silêncio
apaga a lógica poética
em que me fundo.
A bordo do teu nome vazio
escrevo-te estes versos
com a azul absurdo deste dia.
[288]
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domingo, novembro 04, 2007
Mia Couto
VERSOS DO PRISIONEIRO (6)
O prisioneiro sabe
como são leves as paredes.
E como, de olhos cerrados,
se atravessam os tectos.
Todo o preso
sabe que o carcereiro
padece de mais pesada pena.
[287]
VERSOS DO PRISIONEIRO (6)
O prisioneiro sabe
como são leves as paredes.
E como, de olhos cerrados,
se atravessam os tectos.
Todo o preso
sabe que o carcereiro
padece de mais pesada pena.
[287]
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terça-feira, outubro 30, 2007
Eduardo White
MASTRO
Mastro.
Mastro.
Eis que dentro deste instante
o mundo se principia a iniciar.
Musgo verde
sal das praias
resto que nutro
no hálito quente dos animais.
[286]
MASTRO
Mastro.
Mastro.
Eis que dentro deste instante
o mundo se principia a iniciar.
Musgo verde
sal das praias
resto que nutro
no hálito quente dos animais.
[286]
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quinta-feira, outubro 25, 2007
Mia Couto
VERSOS DO PRISIONEIRO – ÚLTIMA CARTA DO PRESO AO POETA
Durmo sem corpo
como um cão
que, em si mesmo,
inventa um travesseiro.
Enroscado como o feto
que adia o dia
e procura a luz
na raiz do próprio ventre.
Aqui se dorme como se vive:
com pouca pátria e muita insónia.
Dormirei tudo, sim,
quando valer a pena despertar.
No enquanto da espera,
me vou, por vezes, suicidando.
Nesses dias, não risco o tempo das paredes.
E é tanto o desejo de desviver
que já não me basta morrer.
A morte perdeu a validade,
de tanto nela me aconchegar.
A ausência que desejo
é a da viagem sem distância,
sombra sem tecto nem parede.
Onde reine, não o silêncio,
mas a palavra emudecida.
Que eu sonho a morte
como o poeta quer o poema:
um falso morrer
de quem não quer viver em falso.
[285]
VERSOS DO PRISIONEIRO – ÚLTIMA CARTA DO PRESO AO POETA
Durmo sem corpo
como um cão
que, em si mesmo,
inventa um travesseiro.
Enroscado como o feto
que adia o dia
e procura a luz
na raiz do próprio ventre.
Aqui se dorme como se vive:
com pouca pátria e muita insónia.
Dormirei tudo, sim,
quando valer a pena despertar.
No enquanto da espera,
me vou, por vezes, suicidando.
Nesses dias, não risco o tempo das paredes.
E é tanto o desejo de desviver
que já não me basta morrer.
A morte perdeu a validade,
de tanto nela me aconchegar.
A ausência que desejo
é a da viagem sem distância,
sombra sem tecto nem parede.
Onde reine, não o silêncio,
mas a palavra emudecida.
Que eu sonho a morte
como o poeta quer o poema:
um falso morrer
de quem não quer viver em falso.
[285]
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domingo, outubro 21, 2007
Mia Couto
ILHA DE MOÇAMBIQUE
Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
[284]
Bibliografia essencial: Mia Couto, idades cidades divindades, Caminho
ILHA DE MOÇAMBIQUE
Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
[284]
Bibliografia essencial: Mia Couto, idades cidades divindades, Caminho
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domingo, outubro 14, 2007
Armando Artur
INFÂNCIA
Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…
mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?
(ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)
[283]
INFÂNCIA
Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…
mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?
(ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)
[283]
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domingo, setembro 30, 2007
Armando Artur
URGÊNCIA
Eu sou das noites
mais negras…
não sei dizer «sim»
quando quero dizer «não».
porque é longa, deveras,
esta contenda
que é necessário vencer.
eu sou das galerias
mais profundas…
não sei dizer «amanhã»
quando quero dizer «hoje».
porque sou todo urgência
urgência de chegar
urgência de partir.
eu sou dos rios
mais longínquos…
não sei percorrer
o inverso dos caminhos
porque o tempo é-me escasso
nesta caminhada sem apeadeiros.
[282]
URGÊNCIA
Eu sou das noites
mais negras…
não sei dizer «sim»
quando quero dizer «não».
porque é longa, deveras,
esta contenda
que é necessário vencer.
eu sou das galerias
mais profundas…
não sei dizer «amanhã»
quando quero dizer «hoje».
porque sou todo urgência
urgência de chegar
urgência de partir.
eu sou dos rios
mais longínquos…
não sei percorrer
o inverso dos caminhos
porque o tempo é-me escasso
nesta caminhada sem apeadeiros.
[282]
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armando
quinta-feira, setembro 27, 2007
Júlio Carrilho
DE REPENTE A TERRA
De repente a terra. A descoberta das cores que a povoam. Do preto ao ocre. Cada tom a revelar os seus segredos. A passar mensagens. Incipientemente a acordar-me para as dores da luz penetrando forte pela consciência. Afinal só eram sombras o que eu percebia na inocência. Afinal a vida estava lá fora a contorcer-se. Mosaico de futuro a construir-se em cada um dos grãos de areia. A lângua de lama seca a repartir-se ao sol. É um expediente que quebra cada brilho para me arrumar o pensamento.
[281]
DE REPENTE A TERRA
De repente a terra. A descoberta das cores que a povoam. Do preto ao ocre. Cada tom a revelar os seus segredos. A passar mensagens. Incipientemente a acordar-me para as dores da luz penetrando forte pela consciência. Afinal só eram sombras o que eu percebia na inocência. Afinal a vida estava lá fora a contorcer-se. Mosaico de futuro a construir-se em cada um dos grãos de areia. A lângua de lama seca a repartir-se ao sol. É um expediente que quebra cada brilho para me arrumar o pensamento.
[281]
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quinta-feira, setembro 13, 2007
José Craveirinha
AUTOBIOGRAFIA
Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato.
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.
E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terrra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidata.
Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.
[280]
AUTOBIOGRAFIA
Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato.
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.
E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terrra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidata.
Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.
[280]
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quinta-feira, setembro 06, 2007
Alberto de Lacerda
DIR-SE-IA DE REPENTE
Dir-se-ia de repente
O horizonte é mais vasto e generoso
O coração repousa
Um pouco
Distende as asas
Mas sem levantar voo
[279]
DIR-SE-IA DE REPENTE
Dir-se-ia de repente
O horizonte é mais vasto e generoso
O coração repousa
Um pouco
Distende as asas
Mas sem levantar voo
[279]
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