quinta-feira, setembro 27, 2007
DE REPENTE A TERRA
De repente a terra. A descoberta das cores que a povoam. Do preto ao ocre. Cada tom a revelar os seus segredos. A passar mensagens. Incipientemente a acordar-me para as dores da luz penetrando forte pela consciência. Afinal só eram sombras o que eu percebia na inocência. Afinal a vida estava lá fora a contorcer-se. Mosaico de futuro a construir-se em cada um dos grãos de areia. A lângua de lama seca a repartir-se ao sol. É um expediente que quebra cada brilho para me arrumar o pensamento.
[281]
quinta-feira, setembro 13, 2007
AUTOBIOGRAFIA
Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato.
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.
E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terrra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidata.
Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.
[280]
quinta-feira, setembro 06, 2007
quinta-feira, agosto 30, 2007
terça-feira, agosto 21, 2007
segunda-feira, agosto 13, 2007
AS MULHERES DO MEU PAI (excerto/4)
«[…] Uma ocasião, já tu tinhas partido há muito, fui a Lourenço Marques, e levaram-me a jantar ao Hotel Polana. Quando entrei no salão o pianista começou a tocar o Muxima. Eras tu, com alguns cabelos brancos, mas sempre jovem e elegante. Disseste-me: “Aqui não entram pretos”, e de facto éramos os dois únicos homens de cor ali dentro. Soltaste uma daquelas tuas gargalhadas cheias de vida, cheias de som e de fúria, e acrescentaste: “Sinto-me como uma gazela a pastar entre leões. O truque é agitar a juba e rugir.” A verdade é que Faustino Manso sempre entrou onde bem quis. Nunca aceitou ficar à porta e nunca ninguém se atreveu a deixá-lo à porta […]»
[276]
sábado, agosto 04, 2007
AS MULHERES DO MEU PAI (excerto/3)
A Ilha de Moçambique está ligada ao continente por uma longuíssima ponte, tão estreita que dois carros não conseguem cruzar-se sobre ela. Torna-se necessário aguardar por um sinal para aceder ao tabuleiro. Ao longe dir-se-ia uma amarra. Caso se rompa, o que, receio, possa acontecer a qualquer instante, há-de afastar-se da costa, à deriva, em direcção a um tempo morto. O casario degradado, as árvores, a estátua de Vasco da Gama, diante do antigo Palácio dos Governadores – tudo isto encontra-se coberto, democraticamente, por um véu de poeira e de esquecimento.
[275]
quarta-feira, julho 25, 2007
AS MULHERES DO MEU PAI (excerto/2)
Georgina garante que ele tem oitenta e dois anos. Custa a acreditar. Parece um jovem que cometeu muitos excessos. Claro que eu já o conhecia – através da obra e da reputação: Ricardo Rangel. Murmura-se este nome e logo alguém avança o rótulo: «Pai da Fotografia Moçambicana.» Implica certa responsabilidade, o raio do rótulo, pois Moçambique possui uma mão-cheia de excelentes fotógrafos. Eu gosto muito do Sérgio Santimano, um tipo meio preto, meio goês, com um espantoso olho lírico. Também gosto do Kok Nam, neste caso um moçambicano de origem chinesa, que acompanhou Rui Knopfli ao aeroporto no dia em que o poeta abandonou o país; isto só tem importância porque Knopfli nos deixou um registo poético do acontecimento: «É o fatídico mês de Março, estou / no piso superior a contemplar o vazio. / Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me, obliquamente, nos olhos: / Não voltas mais? Digo-lhe só que não. // Não voltarei, mas ficarei sempre, / algures em pequenos sinais ilegíveis, / a salvo de todas as futurologias indiscretas, / preservado apenas na exclusividade da memória / privada. Não quero lembrar-me de nada, // só me importa esquecer e esquecer / o impossível de esquecer. Nunca / se esquece, tudo se lembra ocultamente […]» Não sei o poema de cor, é claro, fui visitá-lo à Internet.
[274]
domingo, julho 22, 2007
AS MULHERES DO MEU PAI (excerto/1)
- A Ilha, papá, como é o tempo em Moçambique, nesta altura?
A pergunta não o surpreende. Julgo que se sente aliviado por poder mudar de assunto. Suspira. «Em Janeiro», diz, «costuma fazer muito calor na Ilha. O mar é de um verde luminoso, a água quente, filha, chega aos trinta e cinco graus, uma sopa de esmeraldas.» Tira uma moeda do bolso, «Lembras-te?», eu lembro-me, claro. Seguro na moeda. Vinte réis. Está muito gasta, mas ainda assim consigo ler a data sem dificuldade: «1824». O meu pai encontrou a moeda numa praia da Ilha, no primeiro dia em que lá chegou, o mesmo em que conheceu a minha mãe.
[273]
domingo, julho 15, 2007
LETRA PARA UM SOLO DE CHARLIE PARKER
Como estranha ave de presa
que ferida de morte flectisse
a hipérbole do voo na agonia
prolongada, é um canto angular,
terso, mas de arestas poluídas.
Polígono torturado, perturba-o
a iminência adiada de um grito
de socorro. Em sua chama viva
perpassam secretas vozes de rebeldia,
bárbaros sons de tormenta. No clamoroso
incêndio da ira e da raiva
(é preciso saber escutar),
a urgência implorativa
de um pouco de ternura.
[272]
sábado, junho 30, 2007
NA DOR DA TUA MORTE
Se as lágrimas se desprendessem
dos olhos dos poetas
e rosas dos seus dedos
e soluços dos seus lábios,
quem senão nós
derramaria lágrimas
e desfolharia rosas,
a quem senão a nós
rebentaria o coração,
na dor da tua morte
súbita e exacta?
Mas o Poeta, Reinaldo,
o Poeta não chora…
E cada um de nós
sobre o teu corpo
deixará cair
as flores de sangue e de amargura
que são os nossos versos
nesta hora.
[271]
segunda-feira, junho 25, 2007
MAPUTO
Preciso dizer-te com carácter de urgência.
Preciso revelar-te na palavra e no silêncio.
Preciso sublimar a minha solidão na sombra
das palavras e dos gestos acordando
na imensidão dos dias vozes duendes
como se me albergasses na infância
Preciso amar-te com urgência. Amar-te
como palavras. Sussurrar-te minhas ânsias.
Adormecer minha voz no teu ouvido.
Perscrutar o som do silêncio. Dizer-te
com urgência inadiável que te amo.
Preciso amar-te ó meu amor amado.
Preciso amar-te como quem ama
pela última vez. Amar-te como se fosse
um voo agónico. Amar-te na margem
da ausência tua. Amar-te nas canções
que oiço pela manhã. Nas vozes espantadas
das mulheres no Xipamanine. Preciso
de te amar neste trajecto dorido por Maputo
com estas vozes que atravessam a noite.
Preciso amar-te com urgência. Amar-te agora e sempre.
Preciso de te amar somente.
Dizer-te: amo-te, minha musa, meu amor amado.
Preciso de te amar. Amar. Amar-te simplesmente.
[270]
sexta-feira, junho 22, 2007
O QUE PERDI
Perdi a vida
Ganhei a liberdade
Lutei com vontade
E guardei a farda
Não fugi à guarda
Nem vendi a fidelidade
Pra mim nunca era tarde
Merecia sim a vida
Mas foi isso que perdi
Pois injusto é o destino
E ingrata a morte
Mas o fim não ofendi
Confiei na dor e no inferno
Pois a liberdade vem da morte
[269]
Bibliografia essencial: Custódio Vasco Duma, Verdadeira Confissão, Ndjira 2004
sábado, junho 16, 2007
MARRABENTA PARA FANNY MPFUMO
ao Zé Flávio Teixeira
Fanny Mpfumo cantava I love you so
eu era menino e nem sabia o que era tindjombo:
- ó a va sati valomo! –
mas já dizia hodi nos quintais contíguos
do meu Bairro Indígena.
Unga tlhupheque nkata que ouvia na rádio
por sobre o móvel da sala
na casa da minha avó
nomeava todas as mulheres que derrubavam
à passagem os meus inocentes e desprevenidos anos
ali na varanda do Muchina.
O king ya marrabenta era suposto
conviver conosco todos os dias.
Também ouvíamos Elisa gomara saia
nos tempos em que os Djambo 70 conjuravam
e o destino dos meus pais não era só
os míticos bailes da cidade de caniço.
O mufana que eu era também gostava
maningue do Gonzana e de todo o conjunto João Domingos
Massoriana no palato daqueles tempos.
Algumas vezes ouvia o João Wate
e outros que a memória não acautelou.
O Alexandre Langa foi mais tarde
que me empolgou – Rosa Maria.
Tínhamos atravessado
para lá do asfalto e alcandorados estávamos
na Polana onde inaugurávamos a nossa condição
de habitantes de fogos suspensos,
alcançados mais tarde em obscuras escadas
disputadas por bidões de água
acartados do jardim Tunduro.
Minha avó falava naqueles velhos anos
do Artur Garrido, conterrâneo lá de Ressano Garcia.
Mais tarde vi Fanny Mpfumo no Scala
- não muitos anos depois no Estrela Vermelha –
marrabentando uma guitarra eléctrica
no frémito do seu amor por Georgina waka Nwamba.
[268]
domingo, junho 10, 2007
ESTRANHA FORMA
Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre
As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata
Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta da pedreira
impera o tufo pelo maticado
É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas
[267]
sábado, junho 02, 2007
HACKENSACK
Você compreende Thelonious Monk?
Não. Você não o entende.
Até lhe desagrada e o inquieta
aquela forma esquisita
de ter o passo oblíquo e trôpego
e de deixar tombar a nota
não quando você a espera,
mas um momento antes ou depois,
sempre depois se a espera antes,
sempre antes se a espera depois.
Não finja. Eu sei que o incomoda
e o irrita o modo impertinente
com que faz rilhar o dente
ao piano, com que pulveriza
as semibreves. De Dinah
a Bolivar blues não se vai
nas cordas doces de um violino;
tem de se ir pisando duro
mas com cautela e precaução
doseando silêncio e som
opondo ao vazio mensuração.
[266]
domingo, maio 27, 2007
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:
De Longe Esta Ilha Parece Pequena (Canção Popular)
Eis o Que É Belo Neste Mundo (Canção Popular)
Alberto de Lacerda - Regresso
Alberto de Lacerda - L'Isle Joyeuse
Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
Alberto de Lacerda - A Minha Ilha
Alberto de Lacerda - Jóias
Alberto de Lacerda - Lourenço Marques Revisited
Alberto de Lacerda - Melancia
Alberto de Lacerda - Mandimba Metónia Vila Cabral
Alberto de Lacerda - A Mouzinho de Albuquerque
Alberto de Lacerda - Pureza
Alberto de Lacerda - Atributos Divinos
Alberto de Lacerda - Outros Sons
Alberto de Lacerda - Moçambique
Alberto de Lacerda - Peregrino
Alberto de Lacerda - Não Encontraste a Rua
Alberto de Lacerda - As Árvores no Parque
Alberto de Lacerda - Falemos de Miosótis
Alberto de Lacerda - Exílio
Albino Magaia - Descolonizámos o Land-Rover
Albino Magaia - No Sul Nada de Novo
Amin Nordine - Chapa
Amin Nordine - Do Lado da Ala-B
Amin Nordine - Nosso Lar da Mafalala
Ana Mafalda Leite - Naturalidade (Carta a Rui Knopfli)
Ana Mafalda Leite - O Vermelho das Acácias na Paisagem
Ana Mafalda Leite - Do Outro Lado a Sul, Trópico de Caprocórnio
Brian Tio Ninguas - A Josina, Heroína Sorridente
Campos Oliveira - O Pescador de Moçambique
Carlos Cardoso - Ruth First
Carlos Gil - Um Bairro
Carlos Gil - Princesa de Duas Cidades
Carneiro Gonçalves - Conto de Achiriua (excerto)
Domi Chirongo - Chimurenga
Eduardo White - O Manual das Mãos (excerto)
Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Eugénio Lisboa - Transparência
Fernando Couto - Verão Africano
Fernando Couto - Impala
Fernando Couto - Pergunta a Paul Robeson
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Fonseca Amaral - Karamchand
Fonseca Amaral - Exílio
Fonseca Amaral - S'Agapo
Fonseca Amaral - Poema
Frei Bartolomeu dos Mártires - Um Caminhar na Cidade de Pedra e Cal
Frei Bartolomeu dos Mártires - As Ruínas Derrotadas
Glória de Santana - Dia Africano
Glória de Santana - Bairro Negro
Glória de Santana - Segundo Poema da Solidão
Glória de Santana - Por Onde a Esperança
Grabato Dias - As Quybyrycas (canto nove - fragmento)
Grabato Dias - Laurentina Cesariniana 2
Grabato Dias - Baixa Laurentina
Grabato Dias - Laurentina Xipamanensis Ronga Maxilar
Grabato Dias - Laurentina Djambular Cafezinho das Dez
Grabato Dias - Laurentina Desagravada
Grabato Dias - Necrologia Laurentina
Guita Jr. - Deixar Tudo e Partir
Gulamo Khan - Xitimela
Gulamo Khan - Moçambicanto I
Hélder Muteia - Presença
Hélder Muteia - Nós e o Destino
Heliodoro Baptista - À Volta das Origens
Heliodoro Baptista - Presságio, Minha Ave
Heliodoro Baptista - T. S. Eliot The Shadows of Rainbow
Heliodoro Baptista - Alegoria
Isabella Oliveira - M. & U. Companhia Ilimitada (excerto)
Isabella Oliveira - Memória da Ilha
Jall Sinth Hussein - Índico
Jall Sinth Hussein - Ilha de Moçambique 1972
Jall Sinth Hussein - Basma (72)
Jall Sinth Hussein - Tangerinas em Redor da Minha Vida
Jall Sinth Hussein - Mar
Jall Sinth Hussein - Moçambique 75 - Praça Mouzinho de Albuquerque
Jall Sinth Hussein - São as coisas e têm alma própria
Jall Sinth Hussein - Basma (51)
Jall Sinth Hussein - Basma (9)
Jall Sinth Hussein - Basma (77)
Jall Sinth Hussein - As coisas importantes
Jall Sinth Hussein - Basma (33)
Jall Sinth Hussein - Basma (42)
Jall Sinth Hussein - Basma (44)
João Dias - Gôdido
João Dias - Indivíduo Preto
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Hotel das Duas Portas (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / As Cores do Nosso Sangue (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Implicações de Um Naufrágio (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / A Força do Mar de Agosto (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Balada da Xefina (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Duas Sombras do Rio (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - As Duas Sombras do Rio (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/4)
João Paulo Borges Coelho - Crónica da Rua 513.2 (excerto/5)
Jorge Viegas - O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas - Do Meu País
Jorge Viegas - Círculo de Sombra
José Craveirinha - Poema de JC Num Dia em que Estava Todo de Negro
José Craveirinha - Aforismo
José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
José Craveirinha - Moçambiquicida
José Craveirinha - Menus
José Craveirinha - Quero Ser Tambor
José Craveirinha - O Bule e O Blue
José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
José Craveirinha - Pátria
José Craveirinha - Anti-Lirismo Inútil
José Craveirinha - A Raiva que se Limita
José Craveirinha - Amanhã
José Craveirinha - Polana
José Craveirinha - Natal
José Craveirinha - Mampsincha
José Craveirinha - João Matangulana
José Craveirinha - Fábula
José Craveirinha - Karingana Ua Karingana
José Craveirinha - A Minha Complacência
José Craveirinha - Café Frio
José Pastor - A Pessoa de Josefane Ficou no Massacre…
Júlio Carrilho - Porta de Água
Júlio Carrilho - (casquinha)
Julius Kazembe - O Girassol
Leite de Vasconcelos - Receita para uma Infracção
Leite de Vasconcelos - Canto do Verbo em Busca da Forma
Luís Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luís Bernardo Honwana - Rosita, Até Morrer
Luís Bernardo Honwana - Nós Matámos o Cão-Tinhoso (excerto)
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Luis Carlos Patraquim - Moradas
Luis Carlos Patraquim - As Casas
Luis Carlos Patraquim - Lidemburgo Blues 5
Luis Carlos Patraquim - Elegia do Nilo
Luis Carlos Patraquim - Frei Mutimáti Grabato João
Luís de Camões - Os Lusíadas (I, 54)
Manuela Sousa Lobo - Angola 11.11.75 (excerto)
Marcelino dos Santos - Sonho da Mãe Negra
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Mutimati Barnabé João - Dia 7
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Nelson Saúte - Testamento Para os Meus Filhos
Nelson Saúte - Munhuana Blues
Nelson Saúte - Costa do Sol
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Noémia de Sousa - Se Me Quiseres Conhecer
Nuno Bermudes - Natal em África
Nuno Bermudes - Domingo
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Orlando Mendes - Ponte Pênsil
Orlando Mendes - A Chamada Inspiração
Orlando Mendes - Interferência Necessária
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/1)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/2)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/3)
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui de Noronha - Soneto
Rui de Noronha - À Luz do Poente
Rui de Noronha - Quinhenta Mais Quinhenta, Mais Quinhenta...
Rui de Noronha - Chuva Miudinha
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Rui Knopfli - Poemazinho Reaccionário Para Uso Particular
Rui Knopfli - Nunca Mais É Sábado!...
Rui Knopfli - Certidão de Óbito
Rui Knopfli - Epigrama
Rui Knopfli - Auto-Retrato
Rui Knopfli - Praça Sete de Março
Rui Knopfli - A Pedra no Caminho
Rui Knopfli - Visitação (1)
Rui Knopfli - Sem Nada de Meu
Rui Knopfli - S. Paulo
Rui Knopfli - Cão do Nilo
Rui Knopfli - A Descoberta da Rosa
Rui Knopfli - Navio no Porto
Rui Knopfli - Pirâmide .7
Rui Knopfli - Música de Fim de Dia
Rui Knopfli - Paisagem
Rui Knopfli - Telegrama
Rui Knopfli - Princípio do Dia
Rui Knopfli - Posteridade
Rui Knopfli - Lembranças do Futuro
Rui Knopfli - O Ladrão de Versos
Rui Knopfli - Winds of Change
Rui Knopfli - Miles
Ruy Guerra - A Morte do Velho Guerreiro Swazi
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Sebastião Alba - Ninguém Meu Amor
Sebastião Alba - O Navegador
Sebastião Alba - Como os Outros
Sebastião Alba - Natal no Cárcere
Sebastião Alba - Epílogo
Sebastião Alba - Preciso de qualquer objecto
Sebastião Alba - Está Quebrada
Sebastião Alba - O Limite Diáfano
Sebastião Alba - Gosto dos Amigos
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 1)
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 2)
Ungulani Ba Ka Khosa - Ualapi (excerto / 3)
Victor Matos e Sá - A Rui de Noronha
Virgílio de Lemos - Ouamisi
quarta-feira, maio 23, 2007
(CASQUINHA)
Um vulto emerso na casquinha
tem asas de pau a equilibrar o tronco
como cintura numa dança de água
vasado tronco de árvore a nadar
Se um sobressalto de ar lhe enfuna o
pensamento
a concha de tecido apressa-o
na onda a respigar
[265]
Bibliografia essencial: Júlio Carrilho, NónuMar, Ndjira 2001
segunda-feira, maio 14, 2007
COSTA DO SOL
À mesa enquanto o cachucho me não desmente
a incerteza sobre o blues que prolonga
a minha solidão sobre a esparsa quietude da tarde
ausento-me desta varanda e meu olhar
intenta alcançar a fronteira entre o mar e a ilha.
Quando regresso de Xefina me dou conta
de que tenho companheiros que falam
com abundância e se riem às gargalhadas
tecem elogios ao caril de camarão
e ainda são capazes de falar línguas estrangeiras.
[264]
quinta-feira, maio 10, 2007
quinta-feira, maio 03, 2007
GOSTO DOS AMIGOS
Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar,
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.
[262]
quarta-feira, abril 25, 2007
NÓS MATÁMOS O CÃO-TINHOSO (excerto)
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo, aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama de poeira que não estivesse ocupada.
O Cão-Tinhoso passava o tempo todo a dormir, mas às vezes andava, e então eu gostava de o ver, com os ossos todos à mostra no corpo magro. Eu nunca via o Cão-Tinhoso a correr e nem sei mesmo se ele era capaz disso, porque andava todo a tremer, mesmo sem haver frio, fazendo balanço com a cabeça, como os bois e dando uns passos tão malucos que parecia uma carroça velha.
Houve um dia que ele ficou o tempo todo no portão da Escola a ver os outros cães a brincar no capim do outro lado da estrada, a correr, a correr, e a cheirar debaixo do rabo uns dos outros. Nesse dia o Cão-Tinhoso tremia mais do que nunca, mas foi a única vez que o vi com a cabeça levantada, o rabo direito e longe das pernas e as orelhas espetadas de curiosidade.
[261]
quinta-feira, abril 19, 2007
MUNHUANA BLUES
Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.
[260]
Bibliografia essencial: Nelson Saúte, Maputo Blues, Ndjira, Maputo 2006
segunda-feira, abril 16, 2007
CHUVA MIUDINHA
Cai uma chuva gélida, miudinha,
Que mal soa nos zincos dos telhados.
Chuva que gela o corpo, gela a espinha,
E um dia inteiro deixa-nos gelados.
E cai, cai sem cessar, pó de farinha
Que nos deixa na rua enfarinhados.
Cai sem cessar, eterna ladaínha,
Nos nossos corações ajoelhados...
Um vento agreste as árvores perpassa,
Desenrolando um manto de desgraça
Sobre a paisagem húmida, encolhida...
E a chuva continua triste e mansa,
E na minha alma à mesma semelhança,
Cai-me o Passado em chuva comovida...
[259]
terça-feira, abril 10, 2007
QUINHENTA MAIS QUINHENTA, MAIS QUINHENTA...
Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)...
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.
Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro... e água benta...
-Água lhe dava eu de vontade aos socos...
Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado... Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?
Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?
[258]
domingo, abril 08, 2007
À LUZ DO POENTE
Há pouco
Estando olhando o mar,
Tive um desejo louco
De nele me deitar.
A água tão quieta,
Tão limpa e cintilante,
Punha-me pena de não ser poeta
Um só instante,
Para montar-lhe o dorso e ir o mundo fora
Tangendo as leves ondas;
Cantando a luz da Aurora
As pálidas giocondas,
E a grande desventura
Dos que ela enfeitiçou
E numa noite escura
Sepultou…
Dourando-a de revés,
O sol descia lentamente,
E havia no poente,
De quando em vez
hesitações de ouro
Que punham um brando coro
De nostalgia
Nas folhas mais erquidas do arvoredo
Que oscilando a medo
Olhavam tristemente o fim do dia…
E então
mesmo vestido
Vencido o coração,
Vencido o meu sentido,
Eu fui entrando, pouco a pouco,
Lentamente…
E ali me pus nadando como um louco
À luz do poente…
[257]
Bibliografia essencial: Rui de Noronha, Os Meus Versos, Texto Editores, Maputo 2006
sexta-feira, março 30, 2007
domingo, março 25, 2007
ROSITA, ATÉ MORRER
Manuel do meu coração:
Até morrer.
[255]
domingo, março 18, 2007
sábado, março 10, 2007
O LIMITE DIÁFANO
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame…
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
[253]
domingo, março 04, 2007
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/5)
A dona Guilhermina, pragmática, pouco interessavam as justificações. Se o Zeca olhasse em volta, se se dispusesse a largar um certo caderno e um certo automóvel (ambos sem préstimo nem solução), se se decidisse enfim a sair à rua como toda a gente, veria que, a par da crise de todos os dias também todos os dias se abriam possibilidades de sair dela.
- Como, possibilidades?
Dona Guilhermina exemplificou uma delas: segundo o Secretário Filimone, o Estado dispunha-se a fornecer barcos de pesca a quem quisesse pescar. O Zeca devia ao menos tentar.
- Como, tentar? – perguntou Ferraz cautelosamente.
Vinha do Chókwè, do interior. Exercia a arte concreta do apertar e desapertar coisas, afinar. Desconfiava da escorregadia superfície do mar, da imprevisibilidade dos seus humores.
- Tentar tentando! – retorquiu ela, agastada.
Adquirindo um dos tais barcos, contratando pescadores, sabia lá! A única coisa que sabia é que o via zanzando por ali enquanto ela própria passava o dia fora, num trabalho, ou melhor, em dois ou três trabalhos propriamente ditos.
E foi assim que o mecânico Ferraz, depois de arrancado à garagem e encostado à parede, foi empurrado para a pesca.
[250]
sábado, fevereiro 10, 2007
TRANSPARÊNCIA
Morrer é só não ser visto,
é sair de ao pé de ti,
apagar-me em tudo isto,
deixar de ver o que vi.
Morrer é não estar em ti,
e mais do que não te ver,
é não ser visto por ti,
no deserto do não ser.
Morrer é como apagar-se
a chama que houve em nós,
é uma espécie de ficar-se
vazio da própria voz.
Vive o amor da atenção
que se tem por quem se ama.
Mas a morte atiça em vão
o fio que não dá chama.
Morrer é só não ser visto,
é passar a pertencer
a um livro de registo
que guarda o nosso não-ser.
[249]
quarta-feira, janeiro 31, 2007
UALAPI (excerto / 3)
Uma chuva miúda acompanhou o barco até ao mar alto, fora do horizonte das pessoas que não ia muito além das poucas milhas da costa onde o mar glauco e revolto levantava ondas que se desfaziam nas pedras do pré-câmbrico, despojadas das suas escarpas que forram testemunhas de cenas várias, como a do viajante zarolho que por estas terras aportou com um volumosos manuscrito entre as mãos e que mais versos fez, cantando esta ilha enquanto saciava a sede e a fome que o atormentava, ante o espanto e a comiseração d s negras islamizadas em verem um branco esquálido, longe de saberem que aquele homem magro e famélico relançaria ao mundo uma terra que os pedestres de pés cambados a percorrerem numa semana sem outro esforço que olhar a paisagem.
[248]
sexta-feira, janeiro 26, 2007
PRECISO DE QUALQUER OBJECTO
Preciso de qualquer objecto dos teus, uma coisa de que possas já desfazer-te, mas tenha sido tua, para trazer comigo, nestes dias.
Não me lembro se já te disse que o escritor norte-americano Ernest Hemingway andava com uma pata de coelho na algibeira. Os antepassados de teu pai, os meus, eram mágicos, bruxos, fetichistas.
Deixa-o à porta, eu hei-de vê-lo, querida.
Virei sempre com uma carta para ti. Quando não vier, é porque os sinos de Braga me estavam a ensurdecer, e fui dar uma volta.
Toma lá o orvalho e a rosa, meu amor.
[247]
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Ungulani Ba Ka Khosa
- Não ligues. São palavras do vulgo. Não têm fundamento. Damboia teve a vida mais são que eu conheci.
- Para onde vai o fumo, vai o fogo, Malule.
- Nunca hás-de encontrar água raspando uma pedra. Deixa-me falar. Eu conheço a verdade. Vivi na corte…
- Mas qual é o homem que não tem ranho no nariz, Malule?
- Se Damboia teve erros não foram de grande monta. Ela meteu-se com homens como qualquer mulher. E nisso não nos devemos meter. O tecto da casa conhece o dono.
- Mas o caracol deixa baba por onde passa.
- É tudo mentira o que ouviste por aí. Da boca dessa gente, só saem chifres de caracol. Inventam histórias, fazem correr palavras, dormem com elas, defecam-nas em todo o lado. É tudo mentira. Eu vivi na corte…
- Mesmo que caminhes numa baixa, a corcunda há-de ver-se, Malule.
[246]
sexta-feira, janeiro 12, 2007
ALEGORIA
Em Inhaminga, meu amor,
estão as armas apontadas para o céu
mas só há pássaros.
E como as armas pensam no canudo do seu cérebro
que as aves são inofensivos passarinhos
estes aproveitam a confusão
dos pára-quedistas já cansados.
Por isso cada pássaro que voa pelo céu
(luminoso como uma palavra boa)
deixa cair melancolicamente
o seu depósito de agradecimento
sobre as armas
e a estupidez dos generais.
Vorazmente, meu amor,
o destino da terra passa
e cria-se entre o ventre das armas
e o círculo da esquadrilha voadora
o futuro desta terra
que alarga e fermenta.
Tudo isto em Inhaminga,
com o tamanho deste país,
meu amor.
[245]
quarta-feira, janeiro 10, 2007
sexta-feira, janeiro 05, 2007
UALAPI (excerto / 1)
- Podeis matar-me, rei, podeis esquartejar-me. Vós tendes o poder imperial que pesa no vosso corpo desde a nascença. Mas eu, vassalo como todos os que vedes à vossa frente, nada fiz, nada disse a inkonsikazi. É esta a minha verdade. Sei que duvidais dela, pois a palavra de inkonsikazi é sagrada aos vossos ouvidos e a de todos os súbditos. Podeis matar-me, rei, pois há muito que foi dito que morrerei desta forma inocente. Mas antes de me matarem, peço que me submeta ao mondzo para que a minha inocência fique provada perante o seu povo. E mais não disse, pois os olhos, com um brilho indescritível, carregavam toda a verdade que as palavras não conseguiam exprimir. E aqueles que tiveram a coragem de os ver viveram amargurados pelas insónias por se sentirem cúmplices dum crime.
O rei, ante as límpidas palavras de Mputa, teve que virar-se para o conselheiro, porque a dúvida, que nunca devia atingir o soberano em público, penetrou-lhe no corpo de forma tão intensa que as mãos tremeram. O povo, silencioso, não sabia já onde pender a cabeça. O rei outra coisa não fez que aceitar que submetessem Mputa ao mondzo, nome que leva o ordálio venenoso preparado nestas terras do império.
E foi num silêncio sepulcral que Mputa bebeu o mondzo sem pestanejar, sem mexer um músculo do corpo. E assim permaneceu durante minutos infindáveis perante a incredulidade do povo e dos maiores do reino que o olhavam, preto e reluzente na sua tanga de pele, com o sol a bater-lhe, ao fenecer do dia, no tronco, nas veias salientes e no cabelo riçado.
É feiticeiro, disse o rei com uma força jamais ouvida. E os feiticeiros não têm lugar no meu reino. Não o cegarei como queriam que o fizesse, pois os feiticeiros agem na bruma da noite. Matá-lo-ei hoje e agora! E virou-se para os guardas que empurraram Mputa para o meio da multidão.
Domia, com os seus treze anos, viu o pai ser espancado e retalhado pelos guardas reais e por alguns elementos da população, pois os restantes, cientes da inocência de Mputa, retiraram-se da zona, tentando esquecer o que jamais esqueceriam.
[244]
domingo, dezembro 31, 2006
EPÍLOGO
Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.
O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.
Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.
[243]
sábado, dezembro 23, 2006
terça-feira, dezembro 19, 2006
segunda-feira, dezembro 04, 2006
CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/4)
O que distinguia a loja de Valgy, mais ainda que os panos, era a arte que o dono tinha, como ele dizia, de dar esses panos a provar (no seu português aproximado e delirante, considerava que pelo tacto e pela vista se conseguia descobrir o sabor). Empunhava uma longa vara de madeira com um gancho na ponta, mergulhava-a na escuridão das alturas e, com um gesto seco sacudia um rolo até aí invisível que, ao soltar-se de onde estava pendurado principiava a descer lentamente, atravessando os ares. A princípio parecia uma mancha de tinta negra, uma fuligem sujando o ar, a asa de um morcego adejando devagar. A meio do voo ganhava os tons cinzento-azulados aos olhos da pasmada clientela, virada para cima a tentar descobrir o que ali vinha. E por fim, uma lenta borboleta colorida brincando com a luz que lhe chegava antes de se desenrolar suavemente no balcão. E Valgy recebia nos braços, como quem recebe uma criança, uma cambraia finíssima de linho ou algodão a que fiapos de teias de aranha que trazia agarrados conferiam ainda maior leveza. Tão fina que não tinha cor, que não podia tê-la uma vez que a cor não teria matéria tangível a que se agarrar. Uma cambraia que se limitava por isso a reflectir a cor das coisas em redor: o castanho-escuro das mãos de Valgy – que a afagavam para melhor fazer ressaltar o seu valor e qualidade – ou a própria cor do olhar das clientes, que a fitavam intrigadas. Quase, já, maravilhadas.
[240]
segunda-feira, novembro 13, 2006
segunda-feira, novembro 06, 2006
WINDS OF CHANGE
Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.
[238]
quinta-feira, novembro 02, 2006
CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/3)
Judite quer que o diálogo continue acontecendo. E sugere-lhe coisa diferente, que vem pensando e amadurecendo. Ela tem o segredo das bagias e sabe que quanto mais for o trabalho (e vai ser muito, para se poder concluir a revolução), mais os trabalhadores terão fome, fome de bagias. Judite já se vê obrigada a aumentar a produção, transformando a casa que foi de Pestana numa fábrica, com algumas ajudantes cozinhando sob a sua orientação para se poder dar conta do recado. E além de produzir, é também necessário vender. Não só à sombra da acácia de dona Aurora – que ela nunca abandonará, pois foi ali que encontrou a sorte – mas em muitos outros lugares. Entre eles, um posto de venda em frente à Presidência da República Popular de Moçambique. Vê-se já ali sentada, os Mercedes e os Volvos passando velozes, uivando as suas sirenes. De repente, o Mercedes mais comprido estaca com um chiar de pneus em frente ao seu tabuleiro. No ar, um cheiro acre de borracha e gasolina perdendo no confronto com o aroma incomparável das bagias. O camarada Presidente sentira um súbito aperto no estômago, toda aquela trabalheira de pôr o país a andar fazendo com que se tivesse esquecido de almoçar. ‘O que tens aí, mulher?’, ‘São bagias, camarada Presidente’. ‘Dá cá uma para provar!’ Judite oferece prontamente uma bagia com um enigmático sorriso nos lábios, sabendo com certeza que ele pedirá mais uma e outra ainda, sem se conseguir conter. Depois, de estômago aquietado e indicador em riste, ao camarada Presidente volta aquela sua vontade de discursar, e diz: ‘Vejam este exemplo, camaradas Ministros! Moçambicanas e moçambicanos, olhem este exemplo! É aqui, neste simples tabuleiro, que está a nossa criatividade, a garantia do sucesso da revolução moçambicana! Abaixo a dependência dos produtos importados! Contemos com as nossas próprias forças! Viva a revolução moçambicana!’, e todos: ‘Viva! Viva!’ Em seguida, o Presidente ordena ao Ministro das Finanças que regule as contas das bagias que comeu, que a República Popular de Moçambique nunca fica a dever nada a ninguém. E Judite, satisfeita, amarra os lucros na ponta da capulana.
[237]
domingo, outubro 29, 2006
CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/2)
Tomar banho era outro problema. Faziam-no no quintal, entre quatro paliçadas de caniço com metro e pouco de altura, tirando água do balde e lançando-a sobre o corpo. No fundo, Josefate habituara-se já à situação, agradava-lhe tomar banho apreciando ao mesmo tempo o movimento do bairro, as mulheres a caminho do mercado, as crianças arrastando-se para a escola ainda ensonadas. Mas para Antonieta o banho era coisa mais complicada. Tinha de agachar-se para que os seus volumes não fossem vistos do exterior, e mesmo o facto de não o serem não impedia que fossem adivinhados. A situação não era portanto a melhor para a dignidade dos Mbeves. As suas cabeças emergiam molhadas atrás da paliçada de caniço, denunciando gestos que são sempre íntimos qualquer que seja a cultura, a circunstância e a condição. ‘Lá está um dos Mbeves tomando banho! Ah, gente sem descrição!’, diziam os transeuntes. Depois, sair do banho era outra preocupação. O chão encharcava-se de águas estagnadas, sobretudo se chovia, águas que levavam uma eternidade a escoar-se para as profundezas da terra, nunca secando por completo, ficando sempre uma lama imunda e pestilenta. Um caminho de pedras soltas ligava a paliçada à casa, e lá iam os Mbeves saltitando de pedra em pedra para não sujar os pés, limpos e lavados de fresco, a escorrer água, mas parecendo assaltantes seminus realizando os seus furtivos gestos.
[236]
segunda-feira, outubro 23, 2006
SONETO
Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.
E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.
E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim…
E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!
[235]
domingo, outubro 15, 2006
CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/1)
Onde já se viu o despautério de chamar Salazar a uma vila que o velho ditador nunca sequer visitou? Despautério de lhe dar o nome de quem nunca por ela se interessou a não ser talvez fugazmente, quando um funcionário zeloso lhe disse: ‘Excelência, demos o seu nome a tal longínquo local’. E ele, modesto, na sua voz de falsete: ‘Não era preciso tanto, mas está bem: o que está feito, não vamos agora voltar atrás que é sinal de titubeação’. Uma vila tão bela e feia quanto as demais, Mas olha-se para ela e salta à vista que só podia ser Matola, nunca Salazar.
[234]