quinta-feira, maio 10, 2007

Jall Sinth Hussein

BASMA (44)

Faz da tua vida
o teu caminho sem ver
o que vem à frente


[263]

quinta-feira, maio 03, 2007

Sebastião Alba

GOSTO DOS AMIGOS

Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar,
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.


[262]

quarta-feira, abril 25, 2007

Luís Bernardo Honwana

NÓS MATÁMOS O CÃO-TINHOSO (excerto)

O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo, aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama de poeira que não estivesse ocupada.
O Cão-Tinhoso passava o tempo todo a dormir, mas às vezes andava, e então eu gostava de o ver, com os ossos todos à mostra no corpo magro. Eu nunca via o Cão-Tinhoso a correr e nem sei mesmo se ele era capaz disso, porque andava todo a tremer, mesmo sem haver frio, fazendo balanço com a cabeça, como os bois e dando uns passos tão malucos que parecia uma carroça velha.
Houve um dia que ele ficou o tempo todo no portão da Escola a ver os outros cães a brincar no capim do outro lado da estrada, a correr, a correr, e a cheirar debaixo do rabo uns dos outros. Nesse dia o Cão-Tinhoso tremia mais do que nunca, mas foi a única vez que o vi com a cabeça levantada, o rabo direito e longe das pernas e as orelhas espetadas de curiosidade.


[261]

quinta-feira, abril 19, 2007

Nelson Saúte

MUNHUANA BLUES

Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.


[260]


Bibliografia essencial: Nelson Saúte, Maputo Blues, Ndjira, Maputo 2006

segunda-feira, abril 16, 2007

Rui de Noronha

CHUVA MIUDINHA

Cai uma chuva gélida, miudinha,
Que mal soa nos zincos dos telhados.
Chuva que gela o corpo, gela a espinha,
E um dia inteiro deixa-nos gelados.

E cai, cai sem cessar, pó de farinha
Que nos deixa na rua enfarinhados.
Cai sem cessar, eterna ladaínha,
Nos nossos corações ajoelhados...

Um vento agreste as árvores perpassa,
Desenrolando um manto de desgraça
Sobre a paisagem húmida, encolhida...

E a chuva continua triste e mansa,
E na minha alma à mesma semelhança,
Cai-me o Passado em chuva comovida...


[259]

terça-feira, abril 10, 2007

Rui de Noronha

QUINHENTA MAIS QUINHENTA, MAIS QUINHENTA...

Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)...
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.

Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro... e água benta...
-Água lhe dava eu de vontade aos socos...

Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado... Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?

Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?


[258]

domingo, abril 08, 2007

Rui de Noronha

À LUZ DO POENTE

Há pouco
Estando olhando o mar,
Tive um desejo louco
De nele me deitar.

A água tão quieta,
Tão limpa e cintilante,
Punha-me pena de não ser poeta
Um só instante,
Para montar-lhe o dorso e ir o mundo fora
Tangendo as leves ondas;
Cantando a luz da Aurora
As pálidas giocondas,
E a grande desventura
Dos que ela enfeitiçou
E numa noite escura
Sepultou…

Dourando-a de revés,
O sol descia lentamente,
E havia no poente,
De quando em vez
hesitações de ouro
Que punham um brando coro
De nostalgia
Nas folhas mais erquidas do arvoredo
Que oscilando a medo
Olhavam tristemente o fim do dia…

E então
mesmo vestido
Vencido o coração,
Vencido o meu sentido,
Eu fui entrando, pouco a pouco,
Lentamente…
E ali me pus nadando como um louco
À luz do poente…


[257]


Bibliografia essencial: Rui de Noronha, Os Meus Versos, Texto Editores, Maputo 2006

sexta-feira, março 30, 2007

Amin Nordine

NOSSO LAR DA MAFALALA

Nosso íntimo lar, Zé
Meio despedaço de zinco tonto ao cubo
Numa banga de tontono.
Petiscos sons delirando
Nosso íntimo lar da Mafalala, Zé
Nossa a lua macua!
Desmascarada com carícias de m'siro
Nosso íntimo lar da Mafalala, Zé
Por morada
Nossa eterna namorada!


[256]

domingo, março 25, 2007

Luís Bernardo Honwana

ROSITA, ATÉ MORRER


Chiguidela, 17 de Abril de 1961

Manuel do meu coração:

Antão como está? Eu está boa brigado com minha mãe que manda os cumprimento, está com doença das costa dela que dói de noite com os sufrimento de idade vançado. Tua filha também manda os cumprimento, está brincar, está crenscer, está pruguntar todos dia onde está papá, onde está papá, depois chora, não quer brincar. Um dia ela é grande mas não vai no escole, pai dela não liga, não screveu nome dela no dimistração, mês Deus que sabe. Sorita com Matilida com as outra manda os cumprimento também, elas está boa obrigado. Elas faz pôco, eu sabe é assim quando mulher tem disgraça, sai uma filha e homam não faz lobolo. Eu não diz nada, Deus que sabe. Eu encontrou Mamana Rita no bazara, ela veio por causa os curandeiro está tratar ela, ela diz mulher que vocé fugiste com ela largou vocé, um infirmero drabou ela, agora tu está sofrer, não trabalha, não come nem nada, não tem ninguém. Eu não esquence: tu drabou, dromiu com mi, eu era menina, vocé encontraste, deixou eu com prenha, fugiste com outra mulher. Eu não esquence mas eu já nem zanga nem nada, minha mãe diz é assim, os homem é maluco. Eu não foi no escole, não tem o estude nem nada, escrever meu nome foi vocé que ensinaste. Só sabe fazer machamba, fazer comida para vocé, lavar teu ropa, gostar vocé. Tratar tua filha também. Mulher çimilado quema os cabelo, veste çapato com vestida bonita, com português que fala tu não guenta drabar ela. Ela que draba vocé. Deixa vocé chorar: O minha mãe, eu mata-lhe, eu mata-lhe! Eu diz: não mata-lhe. Vocé drabaste a mi ela drabou você: você que começaste. Aqui em casa cabrito não pariu cinco nem pariu um com dois cabeça. Não tem fiticero. Nem inveja as pessoa tem com mi não faz nada. Veio chuva. Eu fez machamba grande de mulho com fijão com mandoinha, com mapila. Chegou um dia eu acordou contente, vendeu uma saca mandoinha, comprou vestida bonita com taralatana com çapato incarnado com chapéu para tua filha! Ermelinda que é nome dela mas eu costumou chamar ela Linda, às vezes Nyeleti, tu gosta? Quando tu quer tu vem escançar, só escançar, conhecer tua filha comer os ovo com galinha, com cabrito quando vocé guenta, beber ucanhi nas família da terra, tomar banho no rio, dançar xingombela no casa de N’Dlamini, mais nada. Quer? Vocé vai pruguntar as pessoa que anda aqui a falar assim: O! Manuel tem esta nossa pele mas agora é branco, comprou ser branco nos papel, esquenceu os vovô dele que morreu, esquenceu filha dele que nasceu, esquenceu terra, esquenceu tudo. Eu diz é mentira, Manuel não pode esquencer. As pessoa ri, as pessoa diz eu não sabe, as pessoa diz cada vez eu é polícia também. Vocé é? O, vem dizer mesmo! Depois vocé vai tembora quando não gosta ficar aqui fazer machamba, ensinar as pessoa no escole de noite que voces tinha na casa de Mussá. Vocé vai, eu não vai agarar vocé, só vai chorar mesmo. Quando vocé vai eu dá vocé saca mandoinha que vocé guenta levar no machibomba, pode ser 4, fica muito ainda, eu é pobre mas tem mãos bom para trabalhar também para dar. Vocé vais vender os saca, comer dinheiro sòzinho. Quando vocé quer vir vocé escreve carta, dá chofer de machibomba de Olivera para entregar no cantina do Mohano. Vocé diz eu vai chegar dia assim assim. Eu manda carroça com os meudo esperar vocé. Minha boca não gosta falar cosa que meu coração está dizer, mas minha cabela fica maluco quando minha boca não diz: eu gosta muito vocé. As vez eu pensa vocé foste nos curandero ranjar remeido para eu gostar vocé. Tu faz eu sofrer, eu chora, eu zanga, eu esquence, eu gosta vocé outra vez muito! Tu que não presta: tu gosta mulher çimilado que draba vocé. Sou eu Rosa de teu coraçãoque manda esta carta para teu coração. Chico Mandlate está escrever carta também manda os cumprimento. Chico não vai dizer ninguém coisa que escreveu para vocé.

Rosita,

Até morrer.


[255]

domingo, março 18, 2007

Jall Sinth Hussein

BASMA (42)

Olha para tudo
mas ensina o teu olhar
a ver sem os olhos


[254]

sábado, março 10, 2007

Sebastião Alba

O LIMITE DIÁFANO

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame…
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


[253]

domingo, março 04, 2007

Rui Knopfli

MILES

O que nos dizes de ti
tem a dolorida geometria
das peras de Satie


[252]

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Sebastião Alba

ESTÁ QUEBRADA

Está quebrada a asa do pequeno mocho; os tecidos dilacerados. Fita-me com os olhos de ouro, invisuais, de predador, que eu já vi nos leões. O desamparado espanto de viver de todos os seres, mesmo dos mais ferozes.


[251]

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/5)

A dona Guilhermina, pragmática, pouco interessavam as justificações. Se o Zeca olhasse em volta, se se dispusesse a largar um certo caderno e um certo automóvel (ambos sem préstimo nem solução), se se decidisse enfim a sair à rua como toda a gente, veria que, a par da crise de todos os dias também todos os dias se abriam possibilidades de sair dela.
- Como, possibilidades?
Dona Guilhermina exemplificou uma delas: segundo o Secretário Filimone, o Estado dispunha-se a fornecer barcos de pesca a quem quisesse pescar. O Zeca devia ao menos tentar.
- Como, tentar? – perguntou Ferraz cautelosamente.
Vinha do Chókwè, do interior. Exercia a arte concreta do apertar e desapertar coisas, afinar. Desconfiava da escorregadia superfície do mar, da imprevisibilidade dos seus humores.
- Tentar tentando! – retorquiu ela, agastada.
Adquirindo um dos tais barcos, contratando pescadores, sabia lá! A única coisa que sabia é que o via zanzando por ali enquanto ela própria passava o dia fora, num trabalho, ou melhor, em dois ou três trabalhos propriamente ditos.
E foi assim que o mecânico Ferraz, depois de arrancado à garagem e encostado à parede, foi empurrado para a pesca.


[250]

sábado, fevereiro 10, 2007

Eugénio Lisboa

TRANSPARÊNCIA

Morrer é só não ser visto,
é sair de ao pé de ti,
apagar-me em tudo isto,
deixar de ver o que vi.

Morrer é não estar em ti,
e mais do que não te ver,
é não ser visto por ti,
no deserto do não ser.

Morrer é como apagar-se
a chama que houve em nós,
é uma espécie de ficar-se
vazio da própria voz.

Vive o amor da atenção
que se tem por quem se ama.
Mas a morte atiça em vão
o fio que não dá chama.

Morrer é só não ser visto,
é passar a pertencer
a um livro de registo
que guarda o nosso não-ser.


[249]

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Ungulani Ba Ka Khosa

UALAPI (excerto / 3)

Uma chuva miúda acompanhou o barco até ao mar alto, fora do horizonte das pessoas que não ia muito além das poucas milhas da costa onde o mar glauco e revolto levantava ondas que se desfaziam nas pedras do pré-câmbrico, despojadas das suas escarpas que forram testemunhas de cenas várias, como a do viajante zarolho que por estas terras aportou com um volumosos manuscrito entre as mãos e que mais versos fez, cantando esta ilha enquanto saciava a sede e a fome que o atormentava, ante o espanto e a comiseração d s negras islamizadas em verem um branco esquálido, longe de saberem que aquele homem magro e famélico relançaria ao mundo uma terra que os pedestres de pés cambados a percorrerem numa semana sem outro esforço que olhar a paisagem.


[248]

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Sebastião Alba

PRECISO DE QUALQUER OBJECTO

Preciso de qualquer objecto dos teus, uma coisa de que possas já desfazer-te, mas tenha sido tua, para trazer comigo, nestes dias.
Não me lembro se já te disse que o escritor norte-americano Ernest Hemingway andava com uma pata de coelho na algibeira. Os antepassados de teu pai, os meus, eram mágicos, bruxos, fetichistas.
Deixa-o à porta, eu hei-de vê-lo, querida.
Virei sempre com uma carta para ti. Quando não vier, é porque os sinos de Braga me estavam a ensurdecer, e fui dar uma volta.
Toma lá o orvalho e a rosa, meu amor.


[247]

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Ungulani Ba Ka Khosa

UALAPI (excerto / 2)

- Crapulosa?
- Não ligues. São palavras do vulgo. Não têm fundamento. Damboia teve a vida mais são que eu conheci.
- Para onde vai o fumo, vai o fogo, Malule.
- Nunca hás-de encontrar água raspando uma pedra. Deixa-me falar. Eu conheço a verdade. Vivi na corte…
- Mas qual é o homem que não tem ranho no nariz, Malule?
- Se Damboia teve erros não foram de grande monta. Ela meteu-se com homens como qualquer mulher. E nisso não nos devemos meter. O tecto da casa conhece o dono.
- Mas o caracol deixa baba por onde passa.
- É tudo mentira o que ouviste por aí. Da boca dessa gente, só saem chifres de caracol. Inventam histórias, fazem correr palavras, dormem com elas, defecam-nas em todo o lado. É tudo mentira. Eu vivi na corte…
- Mesmo que caminhes numa baixa, a corcunda há-de ver-se, Malule.


[246]

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Heliodoro Baptista

ALEGORIA

Em Inhaminga, meu amor,
estão as armas apontadas para o céu
mas só há pássaros.

E como as armas pensam no canudo do seu cérebro
que as aves são inofensivos passarinhos
estes aproveitam a confusão
dos pára-quedistas já cansados.

Por isso cada pássaro que voa pelo céu
(luminoso como uma palavra boa)
deixa cair melancolicamente
o seu depósito de agradecimento
sobre as armas
e a estupidez dos generais.

Vorazmente, meu amor,
o destino da terra passa
e cria-se entre o ventre das armas
e o círculo da esquadrilha voadora
o futuro desta terra
que alarga e fermenta.

Tudo isto em Inhaminga,
com o tamanho deste país,
meu amor.


[245]

quarta-feira, janeiro 10, 2007

À Sombra dos Palmares tem marcadores que permitem fazer a pesquisa por autores. O primeiro autor a ser 'marcado' foi, como não podia deixar de ser, Rui Knopfli. Aos poucos, todos as entradas serão marcadas com a tag dos autores dos textos.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Ungulani Ba Ka Khosa

UALAPI (excerto / 1)

- Podeis matar-me, rei, podeis esquartejar-me. Vós tendes o poder imperial que pesa no vosso corpo desde a nascença. Mas eu, vassalo como todos os que vedes à vossa frente, nada fiz, nada disse a inkonsikazi. É esta a minha verdade. Sei que duvidais dela, pois a palavra de inkonsikazi é sagrada aos vossos ouvidos e a de todos os súbditos. Podeis matar-me, rei, pois há muito que foi dito que morrerei desta forma inocente. Mas antes de me matarem, peço que me submeta ao mondzo para que a minha inocência fique provada perante o seu povo. E mais não disse, pois os olhos, com um brilho indescritível, carregavam toda a verdade que as palavras não conseguiam exprimir. E aqueles que tiveram a coragem de os ver viveram amargurados pelas insónias por se sentirem cúmplices dum crime.
O rei, ante as límpidas palavras de Mputa, teve que virar-se para o conselheiro, porque a dúvida, que nunca devia atingir o soberano em público, penetrou-lhe no corpo de forma tão intensa que as mãos tremeram. O povo, silencioso, não sabia já onde pender a cabeça. O rei outra coisa não fez que aceitar que submetessem Mputa ao mondzo, nome que leva o ordálio venenoso preparado nestas terras do império.
E foi num silêncio sepulcral que Mputa bebeu o mondzo sem pestanejar, sem mexer um músculo do corpo. E assim permaneceu durante minutos infindáveis perante a incredulidade do povo e dos maiores do reino que o olhavam, preto e reluzente na sua tanga de pele, com o sol a bater-lhe, ao fenecer do dia, no tronco, nas veias salientes e no cabelo riçado.
É feiticeiro, disse o rei com uma força jamais ouvida. E os feiticeiros não têm lugar no meu reino. Não o cegarei como queriam que o fizesse, pois os feiticeiros agem na bruma da noite. Matá-lo-ei hoje e agora! E virou-se para os guardas que empurraram Mputa para o meio da multidão.
Domia, com os seus treze anos, viu o pai ser espancado e retalhado pelos guardas reais e por alguns elementos da população, pois os restantes, cientes da inocência de Mputa, retiraram-se da zona, tentando esquecer o que jamais esqueceriam.


[244]

domingo, dezembro 31, 2006

Sebastião Alba

EPÍLOGO

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


[243]

sábado, dezembro 23, 2006

Jall Sinth Hussein

BASMA (33)

Não busques verdade
no que sabes e acreditas
vê antes por fora


[242]

terça-feira, dezembro 19, 2006

Alberto de Lacerda

EXÍLIO

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita


[241]

segunda-feira, dezembro 04, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/4)

O que distinguia a loja de Valgy, mais ainda que os panos, era a arte que o dono tinha, como ele dizia, de dar esses panos a provar (no seu português aproximado e delirante, considerava que pelo tacto e pela vista se conseguia descobrir o sabor). Empunhava uma longa vara de madeira com um gancho na ponta, mergulhava-a na escuridão das alturas e, com um gesto seco sacudia um rolo até aí invisível que, ao soltar-se de onde estava pendurado principiava a descer lentamente, atravessando os ares. A princípio parecia uma mancha de tinta negra, uma fuligem sujando o ar, a asa de um morcego adejando devagar. A meio do voo ganhava os tons cinzento-azulados aos olhos da pasmada clientela, virada para cima a tentar descobrir o que ali vinha. E por fim, uma lenta borboleta colorida brincando com a luz que lhe chegava antes de se desenrolar suavemente no balcão. E Valgy recebia nos braços, como quem recebe uma criança, uma cambraia finíssima de linho ou algodão a que fiapos de teias de aranha que trazia agarrados conferiam ainda maior leveza. Tão fina que não tinha cor, que não podia tê-la uma vez que a cor não teria matéria tangível a que se agarrar. Uma cambraia que se limitava por isso a reflectir a cor das coisas em redor: o castanho-escuro das mãos de Valgy – que a afagavam para melhor fazer ressaltar o seu valor e qualidade – ou a própria cor do olhar das clientes, que a fitavam intrigadas. Quase, já, maravilhadas.


[240]

segunda-feira, novembro 13, 2006

Orlando Mendes

INTERFERÊNCIA NECESSÁRIA

Na peregrina vigília do repouso
enquanto o sono rebelde não vem
retenho a realidade que visita de pé
e abro os olhos armados contra a escuridão, ouso
saber que na planta sã não entra muchém.
E adormeço com o sono acalentado porque é.


[239]

segunda-feira, novembro 06, 2006

Rui Knopfli

WINDS OF CHANGE

Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.


[238]

quinta-feira, novembro 02, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/3)

Judite quer que o diálogo continue acontecendo. E sugere-lhe coisa diferente, que vem pensando e amadurecendo. Ela tem o segredo das bagias e sabe que quanto mais for o trabalho (e vai ser muito, para se poder concluir a revolução), mais os trabalhadores terão fome, fome de bagias. Judite já se vê obrigada a aumentar a produção, transformando a casa que foi de Pestana numa fábrica, com algumas ajudantes cozinhando sob a sua orientação para se poder dar conta do recado. E além de produzir, é também necessário vender. Não só à sombra da acácia de dona Aurora – que ela nunca abandonará, pois foi ali que encontrou a sorte – mas em muitos outros lugares. Entre eles, um posto de venda em frente à Presidência da República Popular de Moçambique. Vê-se já ali sentada, os Mercedes e os Volvos passando velozes, uivando as suas sirenes. De repente, o Mercedes mais comprido estaca com um chiar de pneus em frente ao seu tabuleiro. No ar, um cheiro acre de borracha e gasolina perdendo no confronto com o aroma incomparável das bagias. O camarada Presidente sentira um súbito aperto no estômago, toda aquela trabalheira de pôr o país a andar fazendo com que se tivesse esquecido de almoçar. ‘O que tens aí, mulher?’, ‘São bagias, camarada Presidente’. ‘Dá cá uma para provar!’ Judite oferece prontamente uma bagia com um enigmático sorriso nos lábios, sabendo com certeza que ele pedirá mais uma e outra ainda, sem se conseguir conter. Depois, de estômago aquietado e indicador em riste, ao camarada Presidente volta aquela sua vontade de discursar, e diz: ‘Vejam este exemplo, camaradas Ministros! Moçambicanas e moçambicanos, olhem este exemplo! É aqui, neste simples tabuleiro, que está a nossa criatividade, a garantia do sucesso da revolução moçambicana! Abaixo a dependência dos produtos importados! Contemos com as nossas próprias forças! Viva a revolução moçambicana!’, e todos: ‘Viva! Viva!’ Em seguida, o Presidente ordena ao Ministro das Finanças que regule as contas das bagias que comeu, que a República Popular de Moçambique nunca fica a dever nada a ninguém. E Judite, satisfeita, amarra os lucros na ponta da capulana.


[237]

domingo, outubro 29, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/2)

Tomar banho era outro problema. Faziam-no no quintal, entre quatro paliçadas de caniço com metro e pouco de altura, tirando água do balde e lançando-a sobre o corpo. No fundo, Josefate habituara-se já à situação, agradava-lhe tomar banho apreciando ao mesmo tempo o movimento do bairro, as mulheres a caminho do mercado, as crianças arrastando-se para a escola ainda ensonadas. Mas para Antonieta o banho era coisa mais complicada. Tinha de agachar-se para que os seus volumes não fossem vistos do exterior, e mesmo o facto de não o serem não impedia que fossem adivinhados. A situação não era portanto a melhor para a dignidade dos Mbeves. As suas cabeças emergiam molhadas atrás da paliçada de caniço, denunciando gestos que são sempre íntimos qualquer que seja a cultura, a circunstância e a condição. ‘Lá está um dos Mbeves tomando banho! Ah, gente sem descrição!’, diziam os transeuntes. Depois, sair do banho era outra preocupação. O chão encharcava-se de águas estagnadas, sobretudo se chovia, águas que levavam uma eternidade a escoar-se para as profundezas da terra, nunca secando por completo, ficando sempre uma lama imunda e pestilenta. Um caminho de pedras soltas ligava a paliçada à casa, e lá iam os Mbeves saltitando de pedra em pedra para não sujar os pés, limpos e lavados de fresco, a escorrer água, mas parecendo assaltantes seminus realizando os seus furtivos gestos.


[236]

segunda-feira, outubro 23, 2006

Rui de Noronha

SONETO

Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim…

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!


[235]

domingo, outubro 15, 2006

João Paulo Borges Coelho

CRÓNICA DA RUA 513.2 (excerto/1)

Onde já se viu o despautério de chamar Salazar a uma vila que o velho ditador nunca sequer visitou? Despautério de lhe dar o nome de quem nunca por ela se interessou a não ser talvez fugazmente, quando um funcionário zeloso lhe disse: ‘Excelência, demos o seu nome a tal longínquo local’. E ele, modesto, na sua voz de falsete: ‘Não era preciso tanto, mas está bem: o que está feito, não vamos agora voltar atrás que é sinal de titubeação’. Uma vila tão bela e feia quanto as demais, Mas olha-se para ela e salta à vista que só podia ser Matola, nunca Salazar.


[234]

sábado, setembro 30, 2006

José Craveirinha

CAFÉ FRIO

Com ninguém reparto meus sentimentos.
Nas cacimbentas manhãs de Inverno
egocêntrico vou digerindo
meu melancólico
café frio.


[233]

sábado, setembro 23, 2006

Ana Mafalda Leite

DO OUTRO LADO, A SUL
TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO

à Luísa Petris e ao Luís Cezerilo

por aqui arrefece com o Inverno, meu amigo, e quase apetece fazer um poema. do lado de lá a paisagem é só silêncio e a alma voa descompassada.
perguntamos se o trópico de capricórnio está para chegar, pois o signo roda ao ritmo das estações. aí será verão e eu coloco nos ombros esta mágoa encasacada que me pesa e não aquece.
voltam-se as páginas dos dias uma a uma. as notícias vêm de longe em trinta e três rotações. não haverá uma canção solta na vossa pressa de votar o coração que nos prende?

estamos quietos. quase parece que hibernámos neste azul vivo que corta como o gelo num dia de sol.
pedem-nos que habitemos essa língua que aí se desmancha em arco-íris, que temperamos com gengibre esta insossa maneira de comunicar.
onde se despem afectos e se escondem charcos de solidão. tenho de atravessar o oceano e ir banhar-me dessa luz austral que me renasce.
tenho medo de morrer aqui. enregelada. atravessa-se na minha cabeça uma espécie de neve insuportável e os ossos sinto-os a estalar.
Não escolhi o trópico de câncer, não desejo andar às arrecuas. na verdade não escolhi o mapa e detesto que os lugares me prendam ao chão.
a minha natureza é andarilha e precisa de calor para crescer. não me peçam palavras que vistam a garganta de quem canta longe.
eu não posso traduzir a alma ou travesti-la. preciso de um pote cheio de xicuembos, incensos, ervas aromáticas, em que aspire a terra vermelha que trago sempre a nascer dentro de mim.
desço os olhos para o trópico de capricórnio, abro as cortinas da imaginação e o sul desenha-se por entre os dedos açafrânicos.
dizes-me então que te apaixonaste por uma jovem muçulmana que dança a dança do ventre e súbitos saris esvoaçam entre nós.
levada numa miragem, esqueço a origem dos nomes
peço à raiz do tempo que o amor nos povoe do pó das estrelas
e encantada a voz me dance nesse ventre que abraça o teu olhar maravilhado


[232]

segunda-feira, setembro 11, 2006

Jall Sinth Hussein

AS COISAS IMPORTANTES

As coisas importantes só olhas uma vez
mas sua imagem se repete muitas vezes dentro de ti
como um eco.

As coisas importantes que estão dentro de ti
e se repetem constantemente
já não estão presas ao que olhaste atento
mas no silêncio que tens dentro
se libertaram e tornaram incertas.

As coisas importantes no teu dentro
só já a ti pertencem
e nada do que está fora de ti as lembra agora.

As coisas importantes metes numa caixa
que com paciência vais abrindo aos poucos
para esqueceres as muralhas de outro tempo.


[231]

quarta-feira, setembro 06, 2006

Nuno Bermudes

DOMINGO

Em cada praça um aceno,
em cada rua um sorriso,
em cada esquina uma esperança.
O Pungué lembra-me o Reno,
Europeu é o chão que piso,
caminho como quem dança,
amo a vida porque sim.

Mas nem todos os domingos
são assim.


[230]

terça-feira, agosto 29, 2006

Orlando Mendes

A CHAMADA INSPIRAÇÃO

Gotas quase poeira de cacimba
caindo sobre as palmas das mãos
como em floresta desvirginada
e exposta nua de memórias
ao sol da primeira lavra.

Não queima nem lacera nem alivia.

Percute a descoberta palavra
para ser primitivo rastilho
do poema vivo candente.
E cresce na voz que temos
nas veias desde sempre.


[229]

segunda-feira, agosto 21, 2006

João Paulo Borges Coelho

AS DUAS SOMBRAS DO RIO (excerto/2)

No dia seguinte, o lojista chegou como de costume. Vinha preocupado com um ligeiro atraso e por isso achou estranho que a porta estivesse fechada e as gelosias das janelas cerradas. Hesitou, bateu à porta e acabou por ir sentar-se junto dos outros criados, debaixo do alpendre, aguardando. Era uma situação inédita, aquela, e eles, habituados à rotina e à obediência, não sabiam o que fazer. Comentavam uns com os outros, falavam de coisas pequenas, esperavam. Mas a responsabilidade roía o lojista que não se sentia bem desconversando com o tempo, esperando que as coisas se resolvessem por si próprias. Por isso juntou coragem e deu a volta à casa, espreitando à procura de um sinal. Subiu os três degraus da varanda, do outro lado, batendo as palmas bem alto para pedir licença. Foi então que deparou com a patroa ao fundo da varanda, quieta, olhando o rio.
- Bom dia, patroa. Estamos já lá fora à espera de entrar. Há também alguns clientes.
Teve como resposta o silêncio. Mame Mère desinteressa-se dele, envolvida agora em assunto mais interior e fundamental. Passou a noite naquela mesmíssima posição, a mão esquerda pousada no colo e a direita no cabo do punhal, erecta, olhando o rio com os seus grandes olhos abertos. O xaile descaiu-lhe para a cintura já há muito tempo, o que de restou pouco importa: o cacimbo não molesta os mortos da mesma maneira que molesta os vivos. O sol matinal espalha-se pelo soalho da varanda e daqui a pouco chegará aos pés da congolesa e começará a trepar-lhe pelas pernas, iluminando-a.
O lojista esperou ainda um pouco, respeitoso. Mas intrigado com aquele alheamento, acabou por aproximar-se. Pigarreou primeiro, falou depois, tentando convencê-la a reagir, sem saber que Mama Mère estava já muito longe dali. Deu-se por fim conta de que o mundo desabava (quem depende daquela maneira, como o lojista e os criados, deposita sempre no protector o segredo da ordem das coisas). Deu vários passos na varanda sem se decidir por uma direcção, falou sozinho durante um bocado e acabou por fugir dali, gritando alto. De volta ao alpendre, levou ainda um tempo a fazer-se entender pelos restantes. Desataram então a falar muito alto uns com os outros, lamentando e inquirindo, descoordenados. Uns saíam do confuso círculo e iam espreitar à varanda. Voltavam depois gesticulando e bradando coisas incompreensíveis, como se visão do vulto induzisse a loucura.


[228]

terça-feira, agosto 15, 2006

Jall Sinth Hussein

BASMA (77)

Não faças que vives
mergulha na capulana
com todas as cores


[227]

segunda-feira, agosto 07, 2006

Fonseca Amaral

POEMA

Para o R.G.

Na carteira, junto ao peito,
«a mais maravilhosa fotografia da nossa adolescência»:
é o mar ao fundo, as casuarinas de religioso jeito
e a nossa juvenil independência

Estranhos hoje se sentam à mesa,
bebem o vinho e mancham a toalha:
não há novidade que apague e valha
o tecido sagrado da firmeza
O ruído insidioso não conseguiu varrer
os estilhaços de vidro na memória
e a picada fina da distância, já história,
é a cidade-flor-areia,
por esquecer

Do ímpeto e da delicadeza
trazes fotografia por medalha:
é óleo puro, serena certeza,
contido em firme, bem humana talha.


[226]

terça-feira, agosto 01, 2006

Orlando Mendes

PONTE PÊNSIL

O menino branco nasceu numa ilha do Índico
Na rota dos navios cargueiros de especiarias.
A mãe negra o embalou silenciosa
Nas horas mornas vagarosas da solidão.
Cresceu brincando com os meninos negros
As saudades dos dias de São Vapor
(A mãe branca sonhava meninos negros regenerados
Navegando felizes em barquinhos à vela
Com o seu menino de cabelos soltos na proa…)
Hoje o menino branco negoceia especiarias
E os negros carregam especiarias
Nos dias que foram de São Vapor.
(Pesadelos que se infiltram no corpo da mãe negra
Antes de fecundado seu ventre são)
Bacharéis discutem na sonolenta academia dos bons costumes
O casamento sem registo nem confissão
Anseiam pela caça aos bichos que espreitam nos limites da queimada
E sabem dum mistério que arrepia e atrai e é preciso anular.
Os turistas filmam a inédita nudez
Para documentação dos arquivos familiares
E só o vento da floresta uiva por ti menino negro
Nesta longa noite velada sem poesia…


[225]

sexta-feira, julho 28, 2006

Fernando Couto

PERGUNTA A PAUL ROBESON

Que rios te correm na voz
Paul Robeson?
Que marulhantes graves e longos
rios é o teu canto
Paul Robeson?
É o Congo ou é o Mississipi
com manchas de sangue indissoluto?
Ou são os afrontosos rios
da humilhação impotente
Paul Robeson?
Ou é o Nilo ou o Missouri
cavando às cegas o leito
nas terras da hostilidade?
Ou será a mágoa sem fundo nem tempo
náufraga sem morte dos barcos de negreiros
soluçando nos campos de algodão
dos diversos estados da Carolina do Sul
Paul Robeson?
Ou será a incomparável curva doida do Níger
rompendo a caminho do mar?
Ou será apenas o lento pesado arrastar de pés
dos teus irmãos de raça
Paul Robeson?
rompendo a caminho do mar?


[224]

quinta-feira, julho 20, 2006

José Craveirinha

A MINHA COMPLACÊNCIA

Podeis homicidar-me com vossos vitupérios.
Meu inato orgulho vai quase à timidez insociável.
O que mais amo não me obceca.
Sou um cobarde do servilismo.

Esgazeados olhos exímios de quizumba ameaçam.
Esses látegos…! Esses látegos…! Esses látegos…!
E os pães omissos nas bocas?
E os dentes em desuso nas maxilas das crianças?
Será que lhes sucede a teoria de Darwin?

Vai caindo envelhecida a minha complacência
Nestes céus africanos amantizados de sombrias nuvens
só fazem sentido vicejantes flores das mandioqueiras
e o neo-realismo só faz literatura nas machambas de milho.

Não existem na história destinos obnóxidos.
O mal é conhecer um pouco os versos de Bertolt Brechet.
Pior seria desconhecer por quem morreu Eduardo Mondlane.
Traição é saber escrever e não escrever nada.


[223]

domingo, julho 09, 2006

Rui Knopfli

O LADRÃO DE VERSOS

Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.


[222]

sexta-feira, junho 30, 2006

João Paulo Borges Coelho

AS DUAS SOMBRAS DO RIO (excerto/1)

De volta ao leme, o piloto Ricardo pensa agora em vilas e aldeias iguais a tantas outras: Cachomba, Chigango, Mágoè (baptizado de Velho depois de afundado, para o distinguir de um falso Mágoè a que chamam agora Novo), Canquino, Choué, Inhacososo, Carinde, Aveiro. Vilas e aldeias antigas, engolidas pelo lago. Vilas que o Estrela-do.Mar visitava e agora ignora. Que antes escalava e agora sobrevoa. Visto daquelas profundezas é como se o pequeno barco voasse, como se fosse um avião recortado no céu azul e iluminado. E vistas da superfície da água parecem aquelas vilas e aldeias um mistério onde a vida ficou suspensa e os homens e animais se transformaram em peixes, peixes cinzentos de olhos muito abertos – como se para sempre tivessem ficado surpresos com a magnitude daquele milagre.
Imagina o piloto Ricardo como será agora a vida dentro dessas cidades submersas. As casas dos brancos – de pedra – ainda lá estão, na penumbra azulada daqueles fundos aquáticos, tal como os caminhos e os mercados. Casas habitadas e caminhos percorridos por peixes silenciosos, em lentos movimentos. Mercados onde se compra e vende em silêncio. Segredos por toda a parte.
De quando em quando – como agora quando passa o barco – uma onda lenta varre aqueles espaços instalando um vago alvoroço. E os peixes, até aí serenos, disparam rápidos em diversas direcções, entrando uns pela janela da casa que foi de um velho administrador, escondendo-se outros na goteira do seu telhado, lançando-se ainda outros em correrias loucas pelas vastas planícies – hoje planícies submersas. Logo porém se aquietam e regressam ao ponto de partida, como que à procura da razão de tudo aquilo. O mesmo faz Ricardo, aguçando a imaginação e o olhar por cima da amurada, tentando descobrir mais detalhes que o ajudem a compreender aquele mundo fantástico.


[221]

quinta-feira, junho 15, 2006

Heliodoro Baptista

T. S. ELIOT THE SHADOWS OF RAINBOW

(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)

1. The formal word exact without vulgarity
A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos,
e a história somos o molde. Na voz do sangue,
há sempre um negro ou cigano de violão azul.

Há um tempo para as estrelas dormirem
e outro para fazerem amor; quer dizer,
copular de olhos acesos ou já mortiços.

E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá
a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia,
porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)

2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.
Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena
rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos
de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão
de uma balada de tiros, com odor perfeito, único,
do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar
da amizade ou da submissão? As praias e as reservas
devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta,
da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.

And do not think of the fruit of action

3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz
de um encenado morremorrer na Julius Nyerere
ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia
esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali,
de três metros suficientes para um poeta dizê-lo:
"Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"

Into another intensity; o fim é sempre evolução.


[220]

domingo, junho 11, 2006

Manuela Sousa Lobo

ANGOLA 11.11.75 (excerto)

(…)
ó meu corpo tão belo em brechas mil
bola que rola neste chão angola em fogo entre
dois olhos a bala da liberdade combatemos
com folhas entrançadas de verde e palmas sombra

somos a mão da gente o braço armado do povo
em armas chorando de alegria e raiva
pela tosse de Katioscka em sangue flor e ossos

mulheres irão sorrindo refazer suas tranças sóis
de arame a deslizar futuro em túnicas laranja
ó pele macia do corpo granulado da esperança
(…)


[219]

sexta-feira, junho 02, 2006

Alberto de Lacerda

FALEMOS DE MIOSÓTIS

Visto que Você não quer que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada


[218]

sábado, maio 27, 2006

O primeiro poema apareceu há precisamente três anos.
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:

De Longe Esta Ilha Parece Pequena - (Canção Popular)
Eis o Que É Belo Neste Mundo - (Canção Popular)
Alberto de Lacerda - Regresso
Alberto de Lacerda - L'Isle Joyeuse
Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
Alberto de Lacerda - A Minha Ilha
Alberto de Lacerda - Jóias
Alberto de Lacerda - Lourenço Marques Revisited
Alberto de Lacerda - Melancia
Alberto de Lacerda - Mandimba Metónia Vila Cabral
Alberto de Lacerda - A Mouzinho de Albuquerque
Alberto de Lacerda - Pureza
Alberto de Lacerda - Atributos Divinos
Alberto de Lacerda - Outros Sons
Alberto de Lacerda - Moçambique
Alberto de Lacerda - Peregrino
Alberto de Lacerda - Não Encontraste a Rua
Alberto de Lacerda - As Árvores no Parque
Albino Magaia - Descolonizámos o Land-Rover
Albino Magaia - No Sul Nada de Novo
Amin Nordine - Chapa
Amin Nordine - Do Lado da Ala-B
Ana Mafalda Leite - Naturalidade (Carta a Rui Knopfli)
Ana Mafalda Leite - O Vermelho das Acácias na Paisagem
Brian Tio Ninguas - A Josina, Heroína Sorridente
Campos Oliveira - O Pescador de Moçambique
Carlos Cardoso - Ruth First
Carlos Gil - Um Bairro
Carlos Gil - Princesa de Duas Cidades
Carneiro Gonçalves - Conto de Achiriua (excerto)
Domi Chirongo - Chimurenga
Eduardo White - O Manual das Mãos (excerto)
Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Fernando Couto - Verão Africano
Fernando Couto - Impala
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Fonseca Amaral - Karamchand
Fonseca Amaral - Exílio
Fonseca Amaral - S'Agapo
Frei Bartolomeu dos Mártires - Um Caminhar na Cidade de Pedra e Cal
Frei Bartolomeu dos Mártires - As Ruínas Derrotadas
Glória de Santana - Dia Africano
Glória de Santana - Bairro Negro
Glória de Santana - Segundo Poema da Solidão
Glória de Santana - Por Onde a Esperança
Grabato Dias - As Quybyrycas (canto nove - fragmento)
Grabato Dias - Laurentina Cesariniana 2
Grabato Dias - Baixa Laurentina
Grabato Dias - Laurentina Xipamanensis Ronga Maxilar
Grabato Dias - Laurentina Djambular Cafezinho das Dez
Grabato Dias - Laurentina Desagravada
Grabato Dias - Necrologia Laurentina
Guita Jr. - Deixar Tudo e Partir
Gulamo Khan - Xitimela
Gulamo Khan - Moçambicanto I
Hélder Muteia - Presença
Hélder Muteia - Nós e o Destino
Heliodoro Baptista - À Volta das Origens
Heliodoro Baptista - Presságio, Minha Ave
Isabella Oliveira - M. & U. Companhia Ilimitada (excerto)
Isabella Oliveira - Memória da Ilha
Jall Sinth Hussein - Índico
Jall Sinth Hussein - Ilha de Moçambique 1972
Jall Sinth Hussein - Basma (72)
Jall Sinth Hussein - Tangerinas em Redor da Minha Vida
Jall Sinth Hussein - Mar
Jall Sinth Hussein - Moçambique 75 - Praça Mouzinho de Albuquerque
Jall Sinth Hussein - São as coisas e têm alma própria
Jall Sinth Hussein - Basma (51)
Jall Sinth Hussein - Basma (9)
João Dias - Gôdido
João Dias - Indivíduo Preto
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Hotel das Duas Portas (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / As Cores do Nosso Sangue (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Implicações de Um Naufrágio (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / A Força do Mar de Agosto (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Balada da Xefina (excerto)
Jorge Viegas - O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas - Do Meu País
Jorge Viegas - Círculo de Sombra
José Craveirinha - Poema de JC Num Dia em que Estava Todo de Negro
José Craveirinha - Aforismo
José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
José Craveirinha - Moçambiquicida
José Craveirinha - Menus
José Craveirinha - Quero Ser Tambor
José Craveirinha - O Bule e O Blue
José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
José Craveirinha - Pátria
José Craveirinha - Anti-Lirismo Inútil
José Craveirinha - A Raiva que se Limita
José Craveirinha - Amanhã
José Craveirinha - Polana
José Craveirinha - Natal
José Craveirinha - Mampsincha
José Craveirinha - João Matangulana
José Craveirinha - Fábula
José Craveirinha - Karingana Ua Karingana
José Pastor - A Pessoa de Josefane Ficou no Massacre…
Júlio Carrilho - Porta de Água
Julius Kazembe - O Girassol
Leite de Vasconcelos - Receita para uma Infracção
Leite de Vasconcelos - Canto do Verbo em Busca da Forma
Luis Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Luis Carlos Patraquim - Moradas
Luis Carlos Patraquim - As Casas
Luis Carlos Patraquim - Lidemburgo Blues 5
Luis Carlos Patraquim - Elegia do Nilo
Luis Carlos Patraquim - Frei Mutimáti Grabato João
Luís de Camões - Os Lusíadas (I, 54)
Marcelino dos Santos - Sonho da Mãe Negra
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Mutimati Barnabé João - Dia 7
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Nelson Saúte - Testamento Para os Meus Filhos
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Noémia de Sousa - Se Me Quiseres Conhecer
Nuno Bermudes - Natal em África
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/1)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/2)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/3)
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Rui Knopfli - Poemazinho Reaccionário Para Uso Particular
Rui Knopfli - Nunca Mais É Sábado!...
Rui Knopfli - Certidão de Óbito
Rui Knopfli - Epigrama
Rui Knopfli - Auto-Retrato
Rui Knopfli - Praça Sete de Março
Rui Knopfli - A Pedra no Caminho
Rui Knopfli - Visitação (1)
Rui Knopfli - Sem Nada de Meu
Rui Knopfli - S. Paulo
Rui Knopfli - Cão do Nilo
Rui Knopfli - A Descoberta da Rosa
Rui Knopfli - Navio no Porto
Rui Knopfli - Pirâmide .7
Rui Knopfli - Música de Fim de Dia
Rui Knopfli - Paisagem
Rui Knopfli - Telegrama
Rui Knopfli - Princípio do Dia
Rui Knopfli - Posteridade
Rui Knopfli - Lembranças do Futuro
Ruy Guerra - A Morte do Velho Guerreiro Swazi
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Sebastião Alba - Ninguém Meu Amor
Sebastião Alba - O Navegador
Sebastião Alba - Como os Outros
Sebastião Alba - Natal no Cárcere
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Victor Matos e Sá - A Rui de Noronha
Virgílio de Lemos - Ouamisi

quarta-feira, maio 24, 2006

Rui Knopfli

LEMBRANÇAS DO FUTURO

Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.

O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:

só os poetas têm lembranças do futuro.


[217]

sábado, maio 20, 2006

João Paulo Borges Coelho

MERIDIÃO / BALADA DA XEFINA (excerto)

Eu, Mustafa Issufo, vejo bem desde pequeno. Vejo tudo, a longas distâncias. Se assim não fosse não seria capaz de vos dar conta do que se segue. Daqui, deste buraco enterrado no chão onde me encontro, vejo a cidade quase inteira, ou pelo menos aquilo que ela tem de apresentável. Na ponta esquerda e mais distante, atrás do cabeço do Caracol – de onde os casarões espreitam o Clube Naval lá em baixo, e atrás dele a baía – imaginam-se os guindastes do porto que antes rangiam submissos sob pesados fardos, depois mais ociosos, dedos sem anéis espetados no céu. Não se vêem daqui do meu buraco, como disse, mas imaginam-se, porque na condição que é a nossa vos garanto que se solta a imaginação. Foi desta floresta metálica, rente a uma água de breu quieta e oleosa, que partimos no pior dia que a minha vida teve.


[216]