Fernando Couto
PERGUNTA A PAUL ROBESON
Que rios te correm na voz
Paul Robeson?
Que marulhantes graves e longos
rios é o teu canto
Paul Robeson?
É o Congo ou é o Mississipi
com manchas de sangue indissoluto?
Ou são os afrontosos rios
da humilhação impotente
Paul Robeson?
Ou é o Nilo ou o Missouri
cavando às cegas o leito
nas terras da hostilidade?
Ou será a mágoa sem fundo nem tempo
náufraga sem morte dos barcos de negreiros
soluçando nos campos de algodão
dos diversos estados da Carolina do Sul
Paul Robeson?
Ou será a incomparável curva doida do Níger
rompendo a caminho do mar?
Ou será apenas o lento pesado arrastar de pés
dos teus irmãos de raça
Paul Robeson?
rompendo a caminho do mar?
[224]
sexta-feira, julho 28, 2006
quinta-feira, julho 20, 2006
José Craveirinha
A MINHA COMPLACÊNCIA
Podeis homicidar-me com vossos vitupérios.
Meu inato orgulho vai quase à timidez insociável.
O que mais amo não me obceca.
Sou um cobarde do servilismo.
Esgazeados olhos exímios de quizumba ameaçam.
Esses látegos…! Esses látegos…! Esses látegos…!
E os pães omissos nas bocas?
E os dentes em desuso nas maxilas das crianças?
Será que lhes sucede a teoria de Darwin?
Vai caindo envelhecida a minha complacência
Nestes céus africanos amantizados de sombrias nuvens
só fazem sentido vicejantes flores das mandioqueiras
e o neo-realismo só faz literatura nas machambas de milho.
Não existem na história destinos obnóxidos.
O mal é conhecer um pouco os versos de Bertolt Brechet.
Pior seria desconhecer por quem morreu Eduardo Mondlane.
Traição é saber escrever e não escrever nada.
[223]
A MINHA COMPLACÊNCIA
Podeis homicidar-me com vossos vitupérios.
Meu inato orgulho vai quase à timidez insociável.
O que mais amo não me obceca.
Sou um cobarde do servilismo.
Esgazeados olhos exímios de quizumba ameaçam.
Esses látegos…! Esses látegos…! Esses látegos…!
E os pães omissos nas bocas?
E os dentes em desuso nas maxilas das crianças?
Será que lhes sucede a teoria de Darwin?
Vai caindo envelhecida a minha complacência
Nestes céus africanos amantizados de sombrias nuvens
só fazem sentido vicejantes flores das mandioqueiras
e o neo-realismo só faz literatura nas machambas de milho.
Não existem na história destinos obnóxidos.
O mal é conhecer um pouco os versos de Bertolt Brechet.
Pior seria desconhecer por quem morreu Eduardo Mondlane.
Traição é saber escrever e não escrever nada.
[223]
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domingo, julho 09, 2006
Rui Knopfli
O LADRÃO DE VERSOS
Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
[222]
O LADRÃO DE VERSOS
Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
[222]
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sexta-feira, junho 30, 2006
João Paulo Borges Coelho
AS DUAS SOMBRAS DO RIO (excerto/1)
De volta ao leme, o piloto Ricardo pensa agora em vilas e aldeias iguais a tantas outras: Cachomba, Chigango, Mágoè (baptizado de Velho depois de afundado, para o distinguir de um falso Mágoè a que chamam agora Novo), Canquino, Choué, Inhacososo, Carinde, Aveiro. Vilas e aldeias antigas, engolidas pelo lago. Vilas que o Estrela-do.Mar visitava e agora ignora. Que antes escalava e agora sobrevoa. Visto daquelas profundezas é como se o pequeno barco voasse, como se fosse um avião recortado no céu azul e iluminado. E vistas da superfície da água parecem aquelas vilas e aldeias um mistério onde a vida ficou suspensa e os homens e animais se transformaram em peixes, peixes cinzentos de olhos muito abertos – como se para sempre tivessem ficado surpresos com a magnitude daquele milagre.
Imagina o piloto Ricardo como será agora a vida dentro dessas cidades submersas. As casas dos brancos – de pedra – ainda lá estão, na penumbra azulada daqueles fundos aquáticos, tal como os caminhos e os mercados. Casas habitadas e caminhos percorridos por peixes silenciosos, em lentos movimentos. Mercados onde se compra e vende em silêncio. Segredos por toda a parte.
De quando em quando – como agora quando passa o barco – uma onda lenta varre aqueles espaços instalando um vago alvoroço. E os peixes, até aí serenos, disparam rápidos em diversas direcções, entrando uns pela janela da casa que foi de um velho administrador, escondendo-se outros na goteira do seu telhado, lançando-se ainda outros em correrias loucas pelas vastas planícies – hoje planícies submersas. Logo porém se aquietam e regressam ao ponto de partida, como que à procura da razão de tudo aquilo. O mesmo faz Ricardo, aguçando a imaginação e o olhar por cima da amurada, tentando descobrir mais detalhes que o ajudem a compreender aquele mundo fantástico.
[221]
AS DUAS SOMBRAS DO RIO (excerto/1)
De volta ao leme, o piloto Ricardo pensa agora em vilas e aldeias iguais a tantas outras: Cachomba, Chigango, Mágoè (baptizado de Velho depois de afundado, para o distinguir de um falso Mágoè a que chamam agora Novo), Canquino, Choué, Inhacososo, Carinde, Aveiro. Vilas e aldeias antigas, engolidas pelo lago. Vilas que o Estrela-do.Mar visitava e agora ignora. Que antes escalava e agora sobrevoa. Visto daquelas profundezas é como se o pequeno barco voasse, como se fosse um avião recortado no céu azul e iluminado. E vistas da superfície da água parecem aquelas vilas e aldeias um mistério onde a vida ficou suspensa e os homens e animais se transformaram em peixes, peixes cinzentos de olhos muito abertos – como se para sempre tivessem ficado surpresos com a magnitude daquele milagre.
Imagina o piloto Ricardo como será agora a vida dentro dessas cidades submersas. As casas dos brancos – de pedra – ainda lá estão, na penumbra azulada daqueles fundos aquáticos, tal como os caminhos e os mercados. Casas habitadas e caminhos percorridos por peixes silenciosos, em lentos movimentos. Mercados onde se compra e vende em silêncio. Segredos por toda a parte.
De quando em quando – como agora quando passa o barco – uma onda lenta varre aqueles espaços instalando um vago alvoroço. E os peixes, até aí serenos, disparam rápidos em diversas direcções, entrando uns pela janela da casa que foi de um velho administrador, escondendo-se outros na goteira do seu telhado, lançando-se ainda outros em correrias loucas pelas vastas planícies – hoje planícies submersas. Logo porém se aquietam e regressam ao ponto de partida, como que à procura da razão de tudo aquilo. O mesmo faz Ricardo, aguçando a imaginação e o olhar por cima da amurada, tentando descobrir mais detalhes que o ajudem a compreender aquele mundo fantástico.
[221]
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quinta-feira, junho 15, 2006
Heliodoro Baptista
T. S. ELIOT THE SHADOWS OF RAINBOW
(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)
1. The formal word exact without vulgarity
A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos,
e a história somos o molde. Na voz do sangue,
há sempre um negro ou cigano de violão azul.
Há um tempo para as estrelas dormirem
e outro para fazerem amor; quer dizer,
copular de olhos acesos ou já mortiços.
E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá
a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia,
porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)
2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.
Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena
rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos
de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão
de uma balada de tiros, com odor perfeito, único,
do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar
da amizade ou da submissão? As praias e as reservas
devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta,
da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.
And do not think of the fruit of action
3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz
de um encenado morremorrer na Julius Nyerere
ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia
esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali,
de três metros suficientes para um poeta dizê-lo:
"Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"
Into another intensity; o fim é sempre evolução.
[220]
T. S. ELIOT THE SHADOWS OF RAINBOW
(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)
1. The formal word exact without vulgarity
A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos,
e a história somos o molde. Na voz do sangue,
há sempre um negro ou cigano de violão azul.
Há um tempo para as estrelas dormirem
e outro para fazerem amor; quer dizer,
copular de olhos acesos ou já mortiços.
E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá
a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia,
porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)
2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.
Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena
rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos
de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão
de uma balada de tiros, com odor perfeito, único,
do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar
da amizade ou da submissão? As praias e as reservas
devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta,
da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.
And do not think of the fruit of action
3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz
de um encenado morremorrer na Julius Nyerere
ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia
esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali,
de três metros suficientes para um poeta dizê-lo:
"Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"
Into another intensity; o fim é sempre evolução.
[220]
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heliodoro
domingo, junho 11, 2006
Manuela Sousa Lobo
ANGOLA 11.11.75 (excerto)
(…)
ó meu corpo tão belo em brechas mil
bola que rola neste chão angola em fogo entre
dois olhos a bala da liberdade combatemos
com folhas entrançadas de verde e palmas sombra
somos a mão da gente o braço armado do povo
em armas chorando de alegria e raiva
pela tosse de Katioscka em sangue flor e ossos
mulheres irão sorrindo refazer suas tranças sóis
de arame a deslizar futuro em túnicas laranja
ó pele macia do corpo granulado da esperança
(…)
[219]
ANGOLA 11.11.75 (excerto)
(…)
ó meu corpo tão belo em brechas mil
bola que rola neste chão angola em fogo entre
dois olhos a bala da liberdade combatemos
com folhas entrançadas de verde e palmas sombra
somos a mão da gente o braço armado do povo
em armas chorando de alegria e raiva
pela tosse de Katioscka em sangue flor e ossos
mulheres irão sorrindo refazer suas tranças sóis
de arame a deslizar futuro em túnicas laranja
ó pele macia do corpo granulado da esperança
(…)
[219]
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lobo
sexta-feira, junho 02, 2006
Alberto de Lacerda
FALEMOS DE MIOSÓTIS
Visto que Você não quer que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada
[218]
FALEMOS DE MIOSÓTIS
Visto que Você não quer que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada
[218]
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lacerda
sábado, maio 27, 2006
O primeiro poema apareceu há precisamente três anos.
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:
De Longe Esta Ilha Parece Pequena - (Canção Popular)
Eis o Que É Belo Neste Mundo - (Canção Popular)
Alberto de Lacerda - Regresso
Alberto de Lacerda - L'Isle Joyeuse
Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
Alberto de Lacerda - A Minha Ilha
Alberto de Lacerda - Jóias
Alberto de Lacerda - Lourenço Marques Revisited
Alberto de Lacerda - Melancia
Alberto de Lacerda - Mandimba Metónia Vila Cabral
Alberto de Lacerda - A Mouzinho de Albuquerque
Alberto de Lacerda - Pureza
Alberto de Lacerda - Atributos Divinos
Alberto de Lacerda - Outros Sons
Alberto de Lacerda - Moçambique
Alberto de Lacerda - Peregrino
Alberto de Lacerda - Não Encontraste a Rua
Alberto de Lacerda - As Árvores no Parque
Albino Magaia - Descolonizámos o Land-Rover
Albino Magaia - No Sul Nada de Novo
Amin Nordine - Chapa
Amin Nordine - Do Lado da Ala-B
Ana Mafalda Leite - Naturalidade (Carta a Rui Knopfli)
Ana Mafalda Leite - O Vermelho das Acácias na Paisagem
Brian Tio Ninguas - A Josina, Heroína Sorridente
Campos Oliveira - O Pescador de Moçambique
Carlos Cardoso - Ruth First
Carlos Gil - Um Bairro
Carlos Gil - Princesa de Duas Cidades
Carneiro Gonçalves - Conto de Achiriua (excerto)
Domi Chirongo - Chimurenga
Eduardo White - O Manual das Mãos (excerto)
Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Fernando Couto - Verão Africano
Fernando Couto - Impala
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Fonseca Amaral - Karamchand
Fonseca Amaral - Exílio
Fonseca Amaral - S'Agapo
Frei Bartolomeu dos Mártires - Um Caminhar na Cidade de Pedra e Cal
Frei Bartolomeu dos Mártires - As Ruínas Derrotadas
Glória de Santana - Dia Africano
Glória de Santana - Bairro Negro
Glória de Santana - Segundo Poema da Solidão
Glória de Santana - Por Onde a Esperança
Grabato Dias - As Quybyrycas (canto nove - fragmento)
Grabato Dias - Laurentina Cesariniana 2
Grabato Dias - Baixa Laurentina
Grabato Dias - Laurentina Xipamanensis Ronga Maxilar
Grabato Dias - Laurentina Djambular Cafezinho das Dez
Grabato Dias - Laurentina Desagravada
Grabato Dias - Necrologia Laurentina
Guita Jr. - Deixar Tudo e Partir
Gulamo Khan - Xitimela
Gulamo Khan - Moçambicanto I
Hélder Muteia - Presença
Hélder Muteia - Nós e o Destino
Heliodoro Baptista - À Volta das Origens
Heliodoro Baptista - Presságio, Minha Ave
Isabella Oliveira - M. & U. Companhia Ilimitada (excerto)
Isabella Oliveira - Memória da Ilha
Jall Sinth Hussein - Índico
Jall Sinth Hussein - Ilha de Moçambique 1972
Jall Sinth Hussein - Basma (72)
Jall Sinth Hussein - Tangerinas em Redor da Minha Vida
Jall Sinth Hussein - Mar
Jall Sinth Hussein - Moçambique 75 - Praça Mouzinho de Albuquerque
Jall Sinth Hussein - São as coisas e têm alma própria
Jall Sinth Hussein - Basma (51)
Jall Sinth Hussein - Basma (9)
João Dias - Gôdido
João Dias - Indivíduo Preto
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Hotel das Duas Portas (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / As Cores do Nosso Sangue (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Implicações de Um Naufrágio (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/3)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Verdadeiros Propósitos (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / A Força do Mar de Agosto (excerto)
João Paulo Borges Coelho - Meridião / Balada da Xefina (excerto)
Jorge Viegas - O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas - Do Meu País
Jorge Viegas - Círculo de Sombra
José Craveirinha - Poema de JC Num Dia em que Estava Todo de Negro
José Craveirinha - Aforismo
José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
José Craveirinha - Moçambiquicida
José Craveirinha - Menus
José Craveirinha - Quero Ser Tambor
José Craveirinha - O Bule e O Blue
José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
José Craveirinha - Pátria
José Craveirinha - Anti-Lirismo Inútil
José Craveirinha - A Raiva que se Limita
José Craveirinha - Amanhã
José Craveirinha - Polana
José Craveirinha - Natal
José Craveirinha - Mampsincha
José Craveirinha - João Matangulana
José Craveirinha - Fábula
José Craveirinha - Karingana Ua Karingana
José Pastor - A Pessoa de Josefane Ficou no Massacre…
Júlio Carrilho - Porta de Água
Julius Kazembe - O Girassol
Leite de Vasconcelos - Receita para uma Infracção
Leite de Vasconcelos - Canto do Verbo em Busca da Forma
Luis Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Luis Carlos Patraquim - Moradas
Luis Carlos Patraquim - As Casas
Luis Carlos Patraquim - Lidemburgo Blues 5
Luis Carlos Patraquim - Elegia do Nilo
Luis Carlos Patraquim - Frei Mutimáti Grabato João
Luís de Camões - Os Lusíadas (I, 54)
Marcelino dos Santos - Sonho da Mãe Negra
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Mutimati Barnabé João - Dia 7
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Nelson Saúte - Testamento Para os Meus Filhos
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Noémia de Sousa - Se Me Quiseres Conhecer
Nuno Bermudes - Natal em África
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/1)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/2)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/3)
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Rui Knopfli - Poemazinho Reaccionário Para Uso Particular
Rui Knopfli - Nunca Mais É Sábado!...
Rui Knopfli - Certidão de Óbito
Rui Knopfli - Epigrama
Rui Knopfli - Auto-Retrato
Rui Knopfli - Praça Sete de Março
Rui Knopfli - A Pedra no Caminho
Rui Knopfli - Visitação (1)
Rui Knopfli - Sem Nada de Meu
Rui Knopfli - S. Paulo
Rui Knopfli - Cão do Nilo
Rui Knopfli - A Descoberta da Rosa
Rui Knopfli - Navio no Porto
Rui Knopfli - Pirâmide .7
Rui Knopfli - Música de Fim de Dia
Rui Knopfli - Paisagem
Rui Knopfli - Telegrama
Rui Knopfli - Princípio do Dia
Rui Knopfli - Posteridade
Rui Knopfli - Lembranças do Futuro
Ruy Guerra - A Morte do Velho Guerreiro Swazi
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Sebastião Alba - Ninguém Meu Amor
Sebastião Alba - O Navegador
Sebastião Alba - Como os Outros
Sebastião Alba - Natal no Cárcere
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Victor Matos e Sá - A Rui de Noronha
Virgílio de Lemos - Ouamisi
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:
De Longe Esta Ilha Parece Pequena - (Canção Popular)
Eis o Que É Belo Neste Mundo - (Canção Popular)
Alberto de Lacerda - Regresso
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Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
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Domi Chirongo - Chimurenga
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Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Fernando Couto - Verão Africano
Fernando Couto - Impala
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Fonseca Amaral - Karamchand
Fonseca Amaral - Exílio
Fonseca Amaral - S'Agapo
Frei Bartolomeu dos Mártires - Um Caminhar na Cidade de Pedra e Cal
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Jall Sinth Hussein - Basma (72)
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João Paulo Borges Coelho - As Visitas do Dr. Valdez (excerto)
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João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/1)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Pano Encarnado (excerto/2)
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João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Casas de Ferro (excerto/2)
João Paulo Borges Coelho - Setentrião / O Hotel das Duas Portas (excerto)
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João Paulo Borges Coelho - Setentrião / Ibo Azul (excerto/2)
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João Paulo Borges Coelho - Meridião / Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana (excerto/2)
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José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
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José Craveirinha - Quero Ser Tambor
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José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
José Craveirinha - Pátria
José Craveirinha - Anti-Lirismo Inútil
José Craveirinha - A Raiva que se Limita
José Craveirinha - Amanhã
José Craveirinha - Polana
José Craveirinha - Natal
José Craveirinha - Mampsincha
José Craveirinha - João Matangulana
José Craveirinha - Fábula
José Craveirinha - Karingana Ua Karingana
José Pastor - A Pessoa de Josefane Ficou no Massacre…
Júlio Carrilho - Porta de Água
Julius Kazembe - O Girassol
Leite de Vasconcelos - Receita para uma Infracção
Leite de Vasconcelos - Canto do Verbo em Busca da Forma
Luis Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Luis Carlos Patraquim - Moradas
Luis Carlos Patraquim - As Casas
Luis Carlos Patraquim - Lidemburgo Blues 5
Luis Carlos Patraquim - Elegia do Nilo
Luis Carlos Patraquim - Frei Mutimáti Grabato João
Luís de Camões - Os Lusíadas (I, 54)
Marcelino dos Santos - Sonho da Mãe Negra
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Mutimati Barnabé João - Dia 7
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Nelson Saúte - Testamento Para os Meus Filhos
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Noémia de Sousa - Se Me Quiseres Conhecer
Nuno Bermudes - Natal em África
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/1)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/2)
Pedro Muiambo - A Enfermeira da Bata Negra (excerto/3)
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Rui Knopfli - Poemazinho Reaccionário Para Uso Particular
Rui Knopfli - Nunca Mais É Sábado!...
Rui Knopfli - Certidão de Óbito
Rui Knopfli - Epigrama
Rui Knopfli - Auto-Retrato
Rui Knopfli - Praça Sete de Março
Rui Knopfli - A Pedra no Caminho
Rui Knopfli - Visitação (1)
Rui Knopfli - Sem Nada de Meu
Rui Knopfli - S. Paulo
Rui Knopfli - Cão do Nilo
Rui Knopfli - A Descoberta da Rosa
Rui Knopfli - Navio no Porto
Rui Knopfli - Pirâmide .7
Rui Knopfli - Música de Fim de Dia
Rui Knopfli - Paisagem
Rui Knopfli - Telegrama
Rui Knopfli - Princípio do Dia
Rui Knopfli - Posteridade
Rui Knopfli - Lembranças do Futuro
Ruy Guerra - A Morte do Velho Guerreiro Swazi
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Sebastião Alba - Ninguém Meu Amor
Sebastião Alba - O Navegador
Sebastião Alba - Como os Outros
Sebastião Alba - Natal no Cárcere
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Victor Matos e Sá - A Rui de Noronha
Virgílio de Lemos - Ouamisi
quarta-feira, maio 24, 2006
Rui Knopfli
LEMBRANÇAS DO FUTURO
Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.
O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:
só os poetas têm lembranças do futuro.
[217]
LEMBRANÇAS DO FUTURO
Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.
O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:
só os poetas têm lembranças do futuro.
[217]
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sábado, maio 20, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / BALADA DA XEFINA (excerto)
Eu, Mustafa Issufo, vejo bem desde pequeno. Vejo tudo, a longas distâncias. Se assim não fosse não seria capaz de vos dar conta do que se segue. Daqui, deste buraco enterrado no chão onde me encontro, vejo a cidade quase inteira, ou pelo menos aquilo que ela tem de apresentável. Na ponta esquerda e mais distante, atrás do cabeço do Caracol – de onde os casarões espreitam o Clube Naval lá em baixo, e atrás dele a baía – imaginam-se os guindastes do porto que antes rangiam submissos sob pesados fardos, depois mais ociosos, dedos sem anéis espetados no céu. Não se vêem daqui do meu buraco, como disse, mas imaginam-se, porque na condição que é a nossa vos garanto que se solta a imaginação. Foi desta floresta metálica, rente a uma água de breu quieta e oleosa, que partimos no pior dia que a minha vida teve.
[216]
MERIDIÃO / BALADA DA XEFINA (excerto)
Eu, Mustafa Issufo, vejo bem desde pequeno. Vejo tudo, a longas distâncias. Se assim não fosse não seria capaz de vos dar conta do que se segue. Daqui, deste buraco enterrado no chão onde me encontro, vejo a cidade quase inteira, ou pelo menos aquilo que ela tem de apresentável. Na ponta esquerda e mais distante, atrás do cabeço do Caracol – de onde os casarões espreitam o Clube Naval lá em baixo, e atrás dele a baía – imaginam-se os guindastes do porto que antes rangiam submissos sob pesados fardos, depois mais ociosos, dedos sem anéis espetados no céu. Não se vêem daqui do meu buraco, como disse, mas imaginam-se, porque na condição que é a nossa vos garanto que se solta a imaginação. Foi desta floresta metálica, rente a uma água de breu quieta e oleosa, que partimos no pior dia que a minha vida teve.
[216]
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domingo, maio 14, 2006
Alberto de Lacerda
AS ÁRVORES NO PARQUE
As árvores no parque
A relva
Cada vez mais verde
A tua voz
Ontem
[215]
AS ÁRVORES NO PARQUE
As árvores no parque
A relva
Cada vez mais verde
A tua voz
Ontem
[215]
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quinta-feira, maio 11, 2006
Ana Mafalda Leite
O VERMELHO DAS ACÁCIAS NA PAISAGEM
cai ao chão a mais íntima aurora
há-de vestir-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra
este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama
arde em lábios audaciosos
neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer um dom de mansidão
em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chão
[214]
O VERMELHO DAS ACÁCIAS NA PAISAGEM
cai ao chão a mais íntima aurora
há-de vestir-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra
este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama
arde em lábios audaciosos
neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer um dom de mansidão
em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chão
[214]
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quinta-feira, maio 04, 2006
Alberto de Lacerda
NÃO ENCONTRASTE A RUA
Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.
Mas a cidade é esta
E não outra
Não encontraste o rosto
O anel caiu
Ninguém sabe aonde.
[213]
NÃO ENCONTRASTE A RUA
Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.
Mas a cidade é esta
E não outra
Não encontraste o rosto
O anel caiu
Ninguém sabe aonde.
[213]
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domingo, abril 30, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / A FORÇA DO MAR DE AGOSTO (excerto)
(…) e quando o primeiro pescador empurrou o seu xitatarru pela areia da praia, ainda a azulava a madrugada, verificou com surpresa que esse peixe de pau não ganhava a leveza que normalmente ganha no contacto com a onda. Pelo contrário, continuava a pesar, apesar de irem já longe os dois pela dita onda fora, deixando nela o rasto contínuo do barco pontilhado nos lados pelos gatafunhos que os pés do dito pescador deixavam, no esforço de empurrar. Notou também que a sua pele não brilhava como normalmente o faz quando é lambida pela água. Continuava baça como acorda todos os dias, antes que o trabalho a aqueça e abrilhante.
[212]
MERIDIÃO / A FORÇA DO MAR DE AGOSTO (excerto)
(…) e quando o primeiro pescador empurrou o seu xitatarru pela areia da praia, ainda a azulava a madrugada, verificou com surpresa que esse peixe de pau não ganhava a leveza que normalmente ganha no contacto com a onda. Pelo contrário, continuava a pesar, apesar de irem já longe os dois pela dita onda fora, deixando nela o rasto contínuo do barco pontilhado nos lados pelos gatafunhos que os pés do dito pescador deixavam, no esforço de empurrar. Notou também que a sua pele não brilhava como normalmente o faz quando é lambida pela água. Continuava baça como acorda todos os dias, antes que o trabalho a aqueça e abrilhante.
[212]
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terça-feira, abril 25, 2006
Ana Mafalda Leite
NATURALIDADE
(UMA CARTA A RUI KNOPFLI)
Eu, meu caro Rui Knopfli, eu caso-me à agrura das micaias e das rosas, ao roxo das noites lentas e às luas do dois hemisférios. Do sul ao norte em espiral me move o coração em índico interior, a intensa lentidão dos sentidos adormecidos por essas aves estranhas que me povoam os sentidos de asas bem reais.
chamem-me europeia ou africana, que fazer senão calar? Meus versos livres, livres xingombelas, livres pomos, voam sem chão, neste chão que trago por dentro da casa móvel que atravessa o sonho. Muito por dentro de todas as paisagens acorda aí esse teu, este meu, quebranto dolente, luz que as tardes em brasa levantam na alma acordada em seu abrupto amanhecer. É provável e é certo ser este meu corpo entrançado de liana e liamba uma trepadeira de nuvens em que o arco íris morde a cauda de muitos céus em desvario, porque a alma sem sossego acasala seres bifrontes, monstros de um hermes apátrida.
que pátria a de um poeta senão uma língua bífida e em fogo, senão um veneno redentor de mamba, enroscada dor nesse corpo babel em chama anunciado?
há no entanto uma terra e uma pátria em que pouso devagar, me reconheço e desconheço, escriba acocorado enrubescendo a língua de amorosos sabores, de vibrados ritmos, é a tua pátria de versos ó Rui, a tua mafalala entumescida José, a tua sensual arquitectura a oriente, Eduardo, ó príncipe dos poetas, o teu rumo silencioso e manso Artur, a escultura maconde da tua voz magoada Noémia, teu rendilhar de pemba azul Glória, a monção elegíaca e trágica, dolorosa dos teus blues, Patraquim, teu mar ao norte em ilhas utópicas Virgílio, e em arca de noé, essa fábula grotesca de Grabato arrebatando os pontos cardeais num chão desgarrado a Filimones, mes em nós crescido até à palma primeira de todos os sons.
Acredita, a terra-mar que em nossas línguas caminha é naturalidade obscena, pátria dividia em crónicas da peste, nascimento incestuoso de múltiplas mães, em nós úbere o som da xipalapala.
lancinado eco do fim das tardes, misterioso som, morro de muchém crescido da terra, desventrando asas em voluta, lento voo em sombra acesa, pátria minha, passaporte,
naturalidade, só uma, a poesia.
[211]
NATURALIDADE
(UMA CARTA A RUI KNOPFLI)
Eu, meu caro Rui Knopfli, eu caso-me à agrura das micaias e das rosas, ao roxo das noites lentas e às luas do dois hemisférios. Do sul ao norte em espiral me move o coração em índico interior, a intensa lentidão dos sentidos adormecidos por essas aves estranhas que me povoam os sentidos de asas bem reais.
chamem-me europeia ou africana, que fazer senão calar? Meus versos livres, livres xingombelas, livres pomos, voam sem chão, neste chão que trago por dentro da casa móvel que atravessa o sonho. Muito por dentro de todas as paisagens acorda aí esse teu, este meu, quebranto dolente, luz que as tardes em brasa levantam na alma acordada em seu abrupto amanhecer. É provável e é certo ser este meu corpo entrançado de liana e liamba uma trepadeira de nuvens em que o arco íris morde a cauda de muitos céus em desvario, porque a alma sem sossego acasala seres bifrontes, monstros de um hermes apátrida.
que pátria a de um poeta senão uma língua bífida e em fogo, senão um veneno redentor de mamba, enroscada dor nesse corpo babel em chama anunciado?
há no entanto uma terra e uma pátria em que pouso devagar, me reconheço e desconheço, escriba acocorado enrubescendo a língua de amorosos sabores, de vibrados ritmos, é a tua pátria de versos ó Rui, a tua mafalala entumescida José, a tua sensual arquitectura a oriente, Eduardo, ó príncipe dos poetas, o teu rumo silencioso e manso Artur, a escultura maconde da tua voz magoada Noémia, teu rendilhar de pemba azul Glória, a monção elegíaca e trágica, dolorosa dos teus blues, Patraquim, teu mar ao norte em ilhas utópicas Virgílio, e em arca de noé, essa fábula grotesca de Grabato arrebatando os pontos cardeais num chão desgarrado a Filimones, mes em nós crescido até à palma primeira de todos os sons.
Acredita, a terra-mar que em nossas línguas caminha é naturalidade obscena, pátria dividia em crónicas da peste, nascimento incestuoso de múltiplas mães, em nós úbere o som da xipalapala.
lancinado eco do fim das tardes, misterioso som, morro de muchém crescido da terra, desventrando asas em voluta, lento voo em sombra acesa, pátria minha, passaporte,
naturalidade, só uma, a poesia.
[211]
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sexta-feira, abril 21, 2006
Carlos Gil
PRINCESA DAS DUAS CIDADES
Lá, naquele tempo em que não se viam capulanas nas varandas das avenidas, garrindo as acácias e os jacarandás usurpadores das cores turísticas, lá naquele tempo em que a naturalização da cidade estava tão longe como distava o terreiro de onde saíam naus com decretos e leis, chiar de madeiras velhas gretadas pela História que a água dos oceanos traçou.
Lá, onde os machimbombos sempre cheios quando não era dia de praia faziam sempre rumo aos subúrbios. Lá, naquele tempo em que havia duas cidades e o cimento duma ganhava fungos quando o caniço e o zinco o confrontavam, Norte e Poente, tanto, que o Sul era dos arranha-céus e a Este o mar chamava.
quando amar era perigoso se, no orgasmo, os pêlos dos amantes não brilhassem ambos em pálido rosa imperial, ou tinha tabela miscigenada em moeda com a prata da esfera armilar, repúblicos vinte escudos. Naquele tempo, lá.
nem tinham sido inventados os chapas, pois as capulanas só vinham ao cimento vender amendoim torrado e maçaroca assada, peixe e papaias no mercado. Lá, princesa das duas cidades...
O tempo caducou-se. Vieram as capulanas às varandas e penduraram-se às janelas, garrida nova flora da cidade que esmagou os jacarandás e as acácias, velho álbum de postais em que a abertura da lente não fora feita em formato technicolor: faltava-lhe a cor das capulanas quando a objectiva se virava aos céus para focar as torres, ou se espraiava colina abaixo no longo rectilíneo das árvores aveninadas. Em baixo, sorria o mar, esse fotogénico amante que a todas beija e ergue maliciosas ondas para lamber, guloso, as cores quentes da sua capulana.
(lá, naquele tempo)
Eu vim de lá. Vivi lá e lá li livros sobre fórmulas alquimísticas do viver, que não podia entender sem perceber primeiro que a areia dourada que nas suas folhas se entranhava, que as manchas das mangas que me sujavam a camisa, essas, eram as primeiras letras a ler, a cartilha da cidade. Das duas cidades... lá, naquele tempo...
– e bastava saber olhar como sabia ler. Se o tivesse feito, então perceberia que as frondosas copas das árvores eram flores dum jardim com amos e empregados, que a areia da praia era grão que só alvas pás moinhavam, pés de longe pois da cidade que raramente os via calçados.
Lá, naquele tempo, eu fartei-me de ler livros e chumbei, não passei o exame: eu não sabia ler o livro d'A Princesa das Duas Cidades. Naquele tempo eu, estando lá, não estava: não via a luz das capulanas ondeando nos prédios, brilho que se lia mais além do vermelho das acácias e do azul dos jacarandás, cores que cegavam.
[210]
PRINCESA DAS DUAS CIDADES
Lá, naquele tempo em que não se viam capulanas nas varandas das avenidas, garrindo as acácias e os jacarandás usurpadores das cores turísticas, lá naquele tempo em que a naturalização da cidade estava tão longe como distava o terreiro de onde saíam naus com decretos e leis, chiar de madeiras velhas gretadas pela História que a água dos oceanos traçou.
Lá, onde os machimbombos sempre cheios quando não era dia de praia faziam sempre rumo aos subúrbios. Lá, naquele tempo em que havia duas cidades e o cimento duma ganhava fungos quando o caniço e o zinco o confrontavam, Norte e Poente, tanto, que o Sul era dos arranha-céus e a Este o mar chamava.
quando amar era perigoso se, no orgasmo, os pêlos dos amantes não brilhassem ambos em pálido rosa imperial, ou tinha tabela miscigenada em moeda com a prata da esfera armilar, repúblicos vinte escudos. Naquele tempo, lá.
nem tinham sido inventados os chapas, pois as capulanas só vinham ao cimento vender amendoim torrado e maçaroca assada, peixe e papaias no mercado. Lá, princesa das duas cidades...
O tempo caducou-se. Vieram as capulanas às varandas e penduraram-se às janelas, garrida nova flora da cidade que esmagou os jacarandás e as acácias, velho álbum de postais em que a abertura da lente não fora feita em formato technicolor: faltava-lhe a cor das capulanas quando a objectiva se virava aos céus para focar as torres, ou se espraiava colina abaixo no longo rectilíneo das árvores aveninadas. Em baixo, sorria o mar, esse fotogénico amante que a todas beija e ergue maliciosas ondas para lamber, guloso, as cores quentes da sua capulana.
(lá, naquele tempo)
Eu vim de lá. Vivi lá e lá li livros sobre fórmulas alquimísticas do viver, que não podia entender sem perceber primeiro que a areia dourada que nas suas folhas se entranhava, que as manchas das mangas que me sujavam a camisa, essas, eram as primeiras letras a ler, a cartilha da cidade. Das duas cidades... lá, naquele tempo...
– e bastava saber olhar como sabia ler. Se o tivesse feito, então perceberia que as frondosas copas das árvores eram flores dum jardim com amos e empregados, que a areia da praia era grão que só alvas pás moinhavam, pés de longe pois da cidade que raramente os via calçados.
Lá, naquele tempo, eu fartei-me de ler livros e chumbei, não passei o exame: eu não sabia ler o livro d'A Princesa das Duas Cidades. Naquele tempo eu, estando lá, não estava: não via a luz das capulanas ondeando nos prédios, brilho que se lia mais além do vermelho das acácias e do azul dos jacarandás, cores que cegavam.
[210]
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domingo, abril 09, 2006
Rui Knopfli
POSTERIDADE
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
[209]
POSTERIDADE
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
[209]
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sexta-feira, abril 07, 2006
Brian Tio Ninguas
A JOSINA, HEROÍNA SORRIDENTE
Viajarei até onde a tua heroicidade marchou
e guardarei as palavras para mim como as guardaste
e cantarei o patriotismo como fez o teu pulso
e viverei o amor dos homens como tu o viveste
e arderei em todo o meu fervor humano
e se a terra me cobrir
aves virão desenterrar-me, farão uma roda
e pondo-me no meio dela
entoarão hinos de vida e comerão flores
e eu devorarei estrelas.
[208]
A JOSINA, HEROÍNA SORRIDENTE
Viajarei até onde a tua heroicidade marchou
e guardarei as palavras para mim como as guardaste
e cantarei o patriotismo como fez o teu pulso
e viverei o amor dos homens como tu o viveste
e arderei em todo o meu fervor humano
e se a terra me cobrir
aves virão desenterrar-me, farão uma roda
e pondo-me no meio dela
entoarão hinos de vida e comerão flores
e eu devorarei estrelas.
[208]
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domingo, abril 02, 2006
Carneiro Gonçalves
CONTO DE ACHIRIUA (excerto)
Ora uma vez (contam os achiriuas) havia um penedo mesmo no pino da montanha. Morreu de amor. O penedo era acessível, a escalada fácil. Uma árvore irrompia brusca do seio do penedo, esguedelhada, uma árvore que amava o penedo com força, mais do que um homem ama uma mulher. Amava-o tanto que irrompia, meiga, do seio dele, já aberto, conformado, alegre até com a fúria que o dilacerava, parcelava, dividia. Quando o vento, zoeira de todo, experimentava, rajada após rajada, a solidez invulgar daquele amor estranho, observava por entre assobiadelas os beijos seguidinhos da árvore no peito forte do penedo, inamovível, todo entregue ao cuidado de a defender dos suspiros boémios do vento do vento amalandrado.
[207]
CONTO DE ACHIRIUA (excerto)
Ora uma vez (contam os achiriuas) havia um penedo mesmo no pino da montanha. Morreu de amor. O penedo era acessível, a escalada fácil. Uma árvore irrompia brusca do seio do penedo, esguedelhada, uma árvore que amava o penedo com força, mais do que um homem ama uma mulher. Amava-o tanto que irrompia, meiga, do seio dele, já aberto, conformado, alegre até com a fúria que o dilacerava, parcelava, dividia. Quando o vento, zoeira de todo, experimentava, rajada após rajada, a solidez invulgar daquele amor estranho, observava por entre assobiadelas os beijos seguidinhos da árvore no peito forte do penedo, inamovível, todo entregue ao cuidado de a defender dos suspiros boémios do vento do vento amalandrado.
[207]
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segunda-feira, março 27, 2006
Leite de Vasconcelos
CANTO DO VERBO EM BUSCA DA FORMA
Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui voo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo
[206]
CANTO DO VERBO EM BUSCA DA FORMA
Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui voo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo
[206]
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segunda-feira, março 20, 2006
Glória de Santana
POR ONDE A ESPERANÇA
Para o Eugénio Lisboa
que disse o primeiro verso do poema
Eu quero uma estátua virada ao mar
uma estátua que se encha de sal
quando o vento caminhe.
E que tome o tom verde das águas
e das algas que se lhe enrodilhem
junto às mãos e à face
Porque a única forma de ter uma estátua
é saber de antemão que ninguém
saberá quem ali se desfaz.
[205]
POR ONDE A ESPERANÇA
Para o Eugénio Lisboa
que disse o primeiro verso do poema
Eu quero uma estátua virada ao mar
uma estátua que se encha de sal
quando o vento caminhe.
E que tome o tom verde das águas
e das algas que se lhe enrodilhem
junto às mãos e à face
Porque a única forma de ter uma estátua
é saber de antemão que ninguém
saberá quem ali se desfaz.
[205]
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terça-feira, março 14, 2006
Alberto de Lacerda
PEREGRINO
Ó alma errante, onde brilha o fulgor
Das perguntas que a terra silencia,
O que buscas? A que estranho vigor
De visão tu aspiras noite e dia?
Porque me trazes o manto rasgado,
E me rasgas a mim, que tu geraste?
Amas ou não este humano traslado,
Arremedo divino, flor só haste?
Porque nos perseguimos sem nos vermos,
De terra em terra, na esperança, no esforço?
Aonde a luz dos invisíveis ermos
Brilhando inteira na luz de um só corpo?
Onde pressentirás o teu começo?
Então descansarás. Nada mais peço.
[204]
PEREGRINO
Ó alma errante, onde brilha o fulgor
Das perguntas que a terra silencia,
O que buscas? A que estranho vigor
De visão tu aspiras noite e dia?
Porque me trazes o manto rasgado,
E me rasgas a mim, que tu geraste?
Amas ou não este humano traslado,
Arremedo divino, flor só haste?
Porque nos perseguimos sem nos vermos,
De terra em terra, na esperança, no esforço?
Aonde a luz dos invisíveis ermos
Brilhando inteira na luz de um só corpo?
Onde pressentirás o teu começo?
Então descansarás. Nada mais peço.
[204]
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domingo, março 12, 2006
domingo, março 05, 2006
Guita Jr.
DEIXAR TUDO E PARTIR
deixar tudo e partir
e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir
e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte
[203]
DEIXAR TUDO E PARTIR
deixar tudo e partir
e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir
e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte
[203]
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terça-feira, fevereiro 28, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/2)
Nesse tempo ainda não existia o pontão do cais e as mulheres embarcavam com mil dificuldades, equilibrando trouxas à cabeça e arrastando os filhos nas pontas das capulanas. Primeiro, era a distância interminável com água pelos joelhos até chegarem às canoas. Depois, estas pejadas de gente e carga, ameaçando adornar na sua viagem lenta até encostarem ao casco ferrugento do barco da carreira. Finalmente, o embarque, o povo trepando como podia, as galinhas cacarejando, os cabritos balindo assustados com o transbordo, as crianças chorando, a multidão cansada e irritada como se estivesse terminando e não começando a viagem. E o Nieleti parecia então uma nova arca de Noé, com bichos e plantas, humanos e coisas, diferente da original apenas na medida em que em vez de estar salvando um par de cada, procurava salvar um povo inteiro.
[202]
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/2)
Nesse tempo ainda não existia o pontão do cais e as mulheres embarcavam com mil dificuldades, equilibrando trouxas à cabeça e arrastando os filhos nas pontas das capulanas. Primeiro, era a distância interminável com água pelos joelhos até chegarem às canoas. Depois, estas pejadas de gente e carga, ameaçando adornar na sua viagem lenta até encostarem ao casco ferrugento do barco da carreira. Finalmente, o embarque, o povo trepando como podia, as galinhas cacarejando, os cabritos balindo assustados com o transbordo, as crianças chorando, a multidão cansada e irritada como se estivesse terminando e não começando a viagem. E o Nieleti parecia então uma nova arca de Noé, com bichos e plantas, humanos e coisas, diferente da original apenas na medida em que em vez de estar salvando um par de cada, procurava salvar um povo inteiro.
[202]
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terça-feira, fevereiro 21, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/1)
(…) Tomé Nhaca sabia de outras searas de peixe maduro, pronto a colher, tão recônditas que haviam sobrevivido à febre da mudança dos nomes; que, de facto, nem sequer haviam tido nomes. Não lhos deu ele também para que ficassem por descobrir. Bastava-lhe localizá-las, o que fazia recorrendo a enigmáticos expedientes: estando-se a certa distância, no mar, sob um certo sol, vendo-se dali em linha recta as duas tetas altas da Inhaca, que continuam à mostra mesmo depois da ilha quase ter desaparecido na distância, deveria o seu barco estar no sítio certo, fazendo sombra a um desconhecido cardume, lá em baixo. E assim era porque, tirado o secreto azimute, o barco ficava a pairar numa ondulação suave sobre tocas de onde espreitavam circunspectas garoupas ou irascíveis moreias, bandos de papagaios coloridos e vaidosos, longas filas de peixes-serra, tubarões vogando em círculos na permanente procura que é a sua. Atiravam-se então as redes e elas vinham cheias dessa massa fervilhante, tão cheias que era um alegre martírio subi-las, um martírio a que homens se submetiam cantando.
[201]
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/1)
(…) Tomé Nhaca sabia de outras searas de peixe maduro, pronto a colher, tão recônditas que haviam sobrevivido à febre da mudança dos nomes; que, de facto, nem sequer haviam tido nomes. Não lhos deu ele também para que ficassem por descobrir. Bastava-lhe localizá-las, o que fazia recorrendo a enigmáticos expedientes: estando-se a certa distância, no mar, sob um certo sol, vendo-se dali em linha recta as duas tetas altas da Inhaca, que continuam à mostra mesmo depois da ilha quase ter desaparecido na distância, deveria o seu barco estar no sítio certo, fazendo sombra a um desconhecido cardume, lá em baixo. E assim era porque, tirado o secreto azimute, o barco ficava a pairar numa ondulação suave sobre tocas de onde espreitavam circunspectas garoupas ou irascíveis moreias, bandos de papagaios coloridos e vaidosos, longas filas de peixes-serra, tubarões vogando em círculos na permanente procura que é a sua. Atiravam-se então as redes e elas vinham cheias dessa massa fervilhante, tão cheias que era um alegre martírio subi-las, um martírio a que homens se submetiam cantando.
[201]
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sexta-feira, fevereiro 10, 2006
Rui Knopfli
PRINCÍPIO DO DIA
Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele me responde.
Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.
No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.
E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.
(Amanhã volto a experimentar.)
[200]
PRINCÍPIO DO DIA
Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele me responde.
Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.
No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.
E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.
(Amanhã volto a experimentar.)
[200]
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terça-feira, fevereiro 07, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/3)
Enquanto Herculano pensa e caminha, o capim torna-se ralo e os novelos de micaias, as amálgamas de arbustos retorcidos e sem nome cedem lugar a pequenos exércitos de árvores alinhadas, trabalhadas pelos homens, ao seu gosto afeiçoadas. Abençoadas. Árvores com frutos de cascas finas como peles de mulher, caroços raros, polpa abundante e suculenta. Cremosos como a banana, sumarentos e dourados como os citrinos ou vivendo da fama do cheiro que exalam, como a massala. Acariciou uma laranja sem sequer a arrancar da pequena árvore de onde pendia, apenas para lhe sentir o arredondado da forma, a ténue rugosidade da casca, e para cheirar o leve aroma acidulado. Um pouco adiante, tomou nas mãos uma manga enorme como um coração, vermelha como ele. Arrancou-lhe a casca com os dentes como quem tira pétalas a uma flor. Cheirou-a de várias maneiras, pois são também diversos os aromas que a manga exala – florais, resinosos, aromas roubados até de outras frutas, quentes como as especiarias ou gelados como a lua se lhe pudéssemos tocar – antes de fincar os dentes nela e deixar que o sumo lhe escorresse até ao queixo. Largou-a porque viu ao lado uma goiabeira carregada de frutos maduros. Deixou-se enevoar pela magia da goiaba, pelo seu enigmático perfume, simultaneamente repugnante e irresistível. Se verde, de uma acidez estimulante; se madura, como se comêssemos pequenos novelos granulosos e suculentos. Deteve-se em frente a uma pequena papaieira vergada pelo peso das suas papaias. Irresistíveis para ele como para os pássaros que saltitavam em volta, debicando-as. Pegou no punhal e abriu uma delas a todo o comprimento, ficando por um momento a olhar a fenda oblonga e a carne cor de fogo espreitando de dentro dela, o líquido incolor que a humedecia como um soro vital. Molhou nela a ponta dos dedos, acariciando as sementes negras e contrastantes como grãos de pimenta. Enterrou-lhe os dentes com avidez e sentiu a carne ceder, no seu cerne um sabor a mel. Ébrio, deixou-se finalmente chegar à árvore das árvores, a árvore do ocanho, fruto da terra. Olhou-os ainda verdes, pendurados, ou amadurecendo no chão em volta. Provou a sua polpa boa, e quando sentiu o sabor agridoce na base da língua achou a prova palpável e definitiva de que estava chegando a casa.
[199]
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/3)
Enquanto Herculano pensa e caminha, o capim torna-se ralo e os novelos de micaias, as amálgamas de arbustos retorcidos e sem nome cedem lugar a pequenos exércitos de árvores alinhadas, trabalhadas pelos homens, ao seu gosto afeiçoadas. Abençoadas. Árvores com frutos de cascas finas como peles de mulher, caroços raros, polpa abundante e suculenta. Cremosos como a banana, sumarentos e dourados como os citrinos ou vivendo da fama do cheiro que exalam, como a massala. Acariciou uma laranja sem sequer a arrancar da pequena árvore de onde pendia, apenas para lhe sentir o arredondado da forma, a ténue rugosidade da casca, e para cheirar o leve aroma acidulado. Um pouco adiante, tomou nas mãos uma manga enorme como um coração, vermelha como ele. Arrancou-lhe a casca com os dentes como quem tira pétalas a uma flor. Cheirou-a de várias maneiras, pois são também diversos os aromas que a manga exala – florais, resinosos, aromas roubados até de outras frutas, quentes como as especiarias ou gelados como a lua se lhe pudéssemos tocar – antes de fincar os dentes nela e deixar que o sumo lhe escorresse até ao queixo. Largou-a porque viu ao lado uma goiabeira carregada de frutos maduros. Deixou-se enevoar pela magia da goiaba, pelo seu enigmático perfume, simultaneamente repugnante e irresistível. Se verde, de uma acidez estimulante; se madura, como se comêssemos pequenos novelos granulosos e suculentos. Deteve-se em frente a uma pequena papaieira vergada pelo peso das suas papaias. Irresistíveis para ele como para os pássaros que saltitavam em volta, debicando-as. Pegou no punhal e abriu uma delas a todo o comprimento, ficando por um momento a olhar a fenda oblonga e a carne cor de fogo espreitando de dentro dela, o líquido incolor que a humedecia como um soro vital. Molhou nela a ponta dos dedos, acariciando as sementes negras e contrastantes como grãos de pimenta. Enterrou-lhe os dentes com avidez e sentiu a carne ceder, no seu cerne um sabor a mel. Ébrio, deixou-se finalmente chegar à árvore das árvores, a árvore do ocanho, fruto da terra. Olhou-os ainda verdes, pendurados, ou amadurecendo no chão em volta. Provou a sua polpa boa, e quando sentiu o sabor agridoce na base da língua achou a prova palpável e definitiva de que estava chegando a casa.
[199]
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domingo, janeiro 29, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/2)
(…) depois da curva do caminho Herculano deparou com uma pequena manda de bois movendo-se sem destino certo. Magros, procuravam resistir ao calor e à fome da única maneira que os bois conhecem: encostando-se uns aos outros, procurando a inútil protecção desse anonimato, sem saber que é assim que mais se expõem; que é ocupando maior área que ficam mais vulneráveis. Herculano olhou em volta procurando o pastor, mas não havia ali ninguém. Apenas aqueles animais de língua descaída e olhar vago. Não fossem as caudas abanando para afastar insectos sedentos da humidade das suas narinas e olhos, e estariam imóveis como se fizessem parte de um retrato. Não esboçaram o mínimo gesto de resguardo, a mais ténue tentativa de se afastar quando Herculano se aproximou. Além de conformados, estavam também perdidos. Adivinhou-o porque o gado se movimenta sempre na zona de fronteira, tendo nas costas as machambas e casas do povo, na frente o mato. São eles que desbravam esse mato mastigando, e atrás deles anda o povo. Fazem assim porque têm sempre fome, noite e dia, e porque a sua humildade os impede de conhecerem o medo do desconhecido. São vítimas potenciais conformadas com o destino, e por isso não se defendem, por isso morrem sem ter medo nem entender. Só aquele olhar vago, vogando sobre as coisas, e a incapacidade de traduzir o que ele capta num pavor do corpo.
[198]
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/2)
(…) depois da curva do caminho Herculano deparou com uma pequena manda de bois movendo-se sem destino certo. Magros, procuravam resistir ao calor e à fome da única maneira que os bois conhecem: encostando-se uns aos outros, procurando a inútil protecção desse anonimato, sem saber que é assim que mais se expõem; que é ocupando maior área que ficam mais vulneráveis. Herculano olhou em volta procurando o pastor, mas não havia ali ninguém. Apenas aqueles animais de língua descaída e olhar vago. Não fossem as caudas abanando para afastar insectos sedentos da humidade das suas narinas e olhos, e estariam imóveis como se fizessem parte de um retrato. Não esboçaram o mínimo gesto de resguardo, a mais ténue tentativa de se afastar quando Herculano se aproximou. Além de conformados, estavam também perdidos. Adivinhou-o porque o gado se movimenta sempre na zona de fronteira, tendo nas costas as machambas e casas do povo, na frente o mato. São eles que desbravam esse mato mastigando, e atrás deles anda o povo. Fazem assim porque têm sempre fome, noite e dia, e porque a sua humildade os impede de conhecerem o medo do desconhecido. São vítimas potenciais conformadas com o destino, e por isso não se defendem, por isso morrem sem ter medo nem entender. Só aquele olhar vago, vogando sobre as coisas, e a incapacidade de traduzir o que ele capta num pavor do corpo.
[198]
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terça-feira, janeiro 24, 2006
Heliodoro Baptista
PRESSÁGIO, MINHA AVE
(Ao Gringas e à Maria,
Poetas de outro blue-jazz)
Estou doente como um cão
num barco içado pela babugem
no ritmo Índico puro da monção;
O homem que eu disse ser,
inescrupuloso, de rara penugem,
é o capitão deste barco a arder
no seu cachimbo em forma de coração;
Longe, a ilha de seu destino, é vaga ideia
em qualquer privado jardim da consolação:
céu, mar, gaivotas de fogo, o pé-de-meia
de quando eu ainda pensava ter razão.
Este homem recorta-se no vosso céu de aço;
Ventos temporais, estrelas caídas de fronte,
O cachimbo sem tabaco, o declinado horizonte
E o coqueiro híbrido na mão insurrecta, largo o espaço.
Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri.
Mas pela noite áfrica, oceânica, regresso. Renasci.
[197]
PRESSÁGIO, MINHA AVE
(Ao Gringas e à Maria,
Poetas de outro blue-jazz)
Estou doente como um cão
num barco içado pela babugem
no ritmo Índico puro da monção;
O homem que eu disse ser,
inescrupuloso, de rara penugem,
é o capitão deste barco a arder
no seu cachimbo em forma de coração;
Longe, a ilha de seu destino, é vaga ideia
em qualquer privado jardim da consolação:
céu, mar, gaivotas de fogo, o pé-de-meia
de quando eu ainda pensava ter razão.
Este homem recorta-se no vosso céu de aço;
Ventos temporais, estrelas caídas de fronte,
O cachimbo sem tabaco, o declinado horizonte
E o coqueiro híbrido na mão insurrecta, largo o espaço.
Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri.
Mas pela noite áfrica, oceânica, regresso. Renasci.
[197]
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sábado, janeiro 21, 2006
Rui Knopfli
TELEGRAMA
Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.
[196]
TELEGRAMA
Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.
[196]
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sábado, janeiro 14, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/1)
Apesar de se ver de lá a cidade de Maputo – de dia como sombra azulada, quase aguarela, de noite timidamente tremeluzindo como janela de casa de pobre – o Machangulo é uma terra complicada. Terra dos Madindindes, dizem. Assim chamados por semearem enes e dês nas palavras que usam. Não inventam propositadamente novas palavras, antes disfarçam as que existem na tentativa de passarem por inventores sem se darem ao trabalho de o ser. Gente complicada.
A orla conforma-se com essa fama. Põe-se ali o sol do lado do mar, e não de dentro como seria normal. Podia ser praia e não é porque lhe falta areal, sendo o que existe estreito e cinzento. Onde é já francamente mar crescem ainda umas árvores com a mesma desenvoltura que teriam se estivessem em terra seca (navegando, os barcos afagam por vezes os seus ramos como pássaros que voasse, ou amarram neles os cabos de âncora para descansar). Por outro lado, dentro da terra surgem lagoas altivamente encapeladas – Buti, Mandi, Mangalidje e muitas outras – como se fossem ainda elas próprias o mar. Os pequenos rios que na quase praia desaguam entram pelo mar adentro transportando ainda as suas distintas cores de rio, de um acastanhado pardacento, conseguindo com esse artifício continuar a ser rios já bem dentro da baía, quando há muito deixaram de ter margens sólidas que os sustentem. De tal forma que é possível a um pescador desaparecer com o seu xitatarru no horizonte da baía e voltar depois dizendo que não chegou ao mar, que andou apenas pescando dentro desse rio sem margens que se vejam. E fazê-lo sem estar mentindo.
É inegável, portanto, que a natureza se deixou tomar por alguma confusão quando espalhou as suas disposições neste lugar, misturando os ingredientes de forma pouco habitual. Por isso são do Machangulo os maiores caranguejos que há neste mundo, grandes e gordos como mamíferos. O caranguejo é, como se sabe, um bicho amigo da confusão, movendo-se sem direcção como se estivesse fugindo da sombra que cria, pisando com cuidado como se ela queimasse ao invés de refrescar. E girando muito os olhos numa angústia pouco esclarecida, com dentes nas mãos sempre a tentar morder coisa nenhuma. Além de grandes, esses caranguejos do Machangulo são também carrancudos e agressivos, desafiando cães e corvos no areal daquilo que tenta ser praia. Finalmente, depois de cozidos é a sua carne a mais deliciosa, embora também a mais difícil de se deixar comer devido à confusão, ainda ela, entre aquilo que são ossos e aquilo que é já carne e músculo. E a própria carapaça é cinzenta e tristonha enquanto viva, vermelho-alegre quando morta. Manifestando-se portanto ao contrário.
[195]
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/1)
Apesar de se ver de lá a cidade de Maputo – de dia como sombra azulada, quase aguarela, de noite timidamente tremeluzindo como janela de casa de pobre – o Machangulo é uma terra complicada. Terra dos Madindindes, dizem. Assim chamados por semearem enes e dês nas palavras que usam. Não inventam propositadamente novas palavras, antes disfarçam as que existem na tentativa de passarem por inventores sem se darem ao trabalho de o ser. Gente complicada.
A orla conforma-se com essa fama. Põe-se ali o sol do lado do mar, e não de dentro como seria normal. Podia ser praia e não é porque lhe falta areal, sendo o que existe estreito e cinzento. Onde é já francamente mar crescem ainda umas árvores com a mesma desenvoltura que teriam se estivessem em terra seca (navegando, os barcos afagam por vezes os seus ramos como pássaros que voasse, ou amarram neles os cabos de âncora para descansar). Por outro lado, dentro da terra surgem lagoas altivamente encapeladas – Buti, Mandi, Mangalidje e muitas outras – como se fossem ainda elas próprias o mar. Os pequenos rios que na quase praia desaguam entram pelo mar adentro transportando ainda as suas distintas cores de rio, de um acastanhado pardacento, conseguindo com esse artifício continuar a ser rios já bem dentro da baía, quando há muito deixaram de ter margens sólidas que os sustentem. De tal forma que é possível a um pescador desaparecer com o seu xitatarru no horizonte da baía e voltar depois dizendo que não chegou ao mar, que andou apenas pescando dentro desse rio sem margens que se vejam. E fazê-lo sem estar mentindo.
É inegável, portanto, que a natureza se deixou tomar por alguma confusão quando espalhou as suas disposições neste lugar, misturando os ingredientes de forma pouco habitual. Por isso são do Machangulo os maiores caranguejos que há neste mundo, grandes e gordos como mamíferos. O caranguejo é, como se sabe, um bicho amigo da confusão, movendo-se sem direcção como se estivesse fugindo da sombra que cria, pisando com cuidado como se ela queimasse ao invés de refrescar. E girando muito os olhos numa angústia pouco esclarecida, com dentes nas mãos sempre a tentar morder coisa nenhuma. Além de grandes, esses caranguejos do Machangulo são também carrancudos e agressivos, desafiando cães e corvos no areal daquilo que tenta ser praia. Finalmente, depois de cozidos é a sua carne a mais deliciosa, embora também a mais difícil de se deixar comer devido à confusão, ainda ela, entre aquilo que são ossos e aquilo que é já carne e músculo. E a própria carapaça é cinzenta e tristonha enquanto viva, vermelho-alegre quando morta. Manifestando-se portanto ao contrário.
[195]
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terça-feira, janeiro 10, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / IMPLICAÇÕES DE UM NAUFRÁGIO (excerto)
Soshana correra tanto quanto uma gazela das que eles costumavam perseguir, contornando a lagoa, atravessando o areal das suas margens, galgando o capinzal que lhes cresce junto, invadindo terreiros que se lhe atravessavam no caminho e punha em alvoroço, com porcos pretos grunhindo, cabritos bodejando, galinhas cacarejando e fugindo sem direcção, pilões tombados derramando o grão, peneiras entornando a farinha pelas esteiras e pelo chão. Continuara sem parar, perseguido pelos insultos dos prejudicados, até chegar finalmente à porta de Totwane, que dormitava sentado e com o ar aprofundado de sempre. Levou tempo até que o miúdo recuperasse o fôlego e pudesse explicar ao que vinha, o que fez entrecortando arquejos aflitivos com um fantasioso relato. Totwane, resmungão como ficava sempre que lhe interrompiam as sestas, a curiosidade crescendo-lhe porém, deu o desconto normal aos exageros juvenis a que há muito se acostumara por lidar bastante com a rapaziada, quer explicando-lhes lições quer divertindo-se. Mas o que sobrava, dados os descontos, era suficiente para lhe fazer sentir que valia a pena a caminhada. A tal fera mordendo-lhe por dentro.
[194]
MERIDIÃO / IMPLICAÇÕES DE UM NAUFRÁGIO (excerto)
Soshana correra tanto quanto uma gazela das que eles costumavam perseguir, contornando a lagoa, atravessando o areal das suas margens, galgando o capinzal que lhes cresce junto, invadindo terreiros que se lhe atravessavam no caminho e punha em alvoroço, com porcos pretos grunhindo, cabritos bodejando, galinhas cacarejando e fugindo sem direcção, pilões tombados derramando o grão, peneiras entornando a farinha pelas esteiras e pelo chão. Continuara sem parar, perseguido pelos insultos dos prejudicados, até chegar finalmente à porta de Totwane, que dormitava sentado e com o ar aprofundado de sempre. Levou tempo até que o miúdo recuperasse o fôlego e pudesse explicar ao que vinha, o que fez entrecortando arquejos aflitivos com um fantasioso relato. Totwane, resmungão como ficava sempre que lhe interrompiam as sestas, a curiosidade crescendo-lhe porém, deu o desconto normal aos exageros juvenis a que há muito se acostumara por lidar bastante com a rapaziada, quer explicando-lhes lições quer divertindo-se. Mas o que sobrava, dados os descontos, era suficiente para lhe fazer sentir que valia a pena a caminhada. A tal fera mordendo-lhe por dentro.
[194]
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sábado, janeiro 07, 2006
Rui Knopfli
PAISAGEM
Acordando a densa folhagem
da mafurreira,
rouco, o grito da soa
rasga o ar parado.
Gorgolejando
responde o lagarto
humilde das pedras:
Dois tons
Na imensa orquestra do plaino.
Com fragmentados,
distantes murmúrios
de povoações algures,
paralelo, corre nas lonjuras
do sol mordente, um coro
fanhoso de cigarras.
Sob a comprida sombra de meus olhos
dormita uma adolescente negra,
finos, dengosos músculos
arquejando leve sob a pele lustrosa.
Nos confins da tarde
ri estridente um bêbedo
e mil vidas vibram poderosas
na falsa quietude dos matos.
De estranho metal,
nos espaços, cintilam agulhas.
Então,
uma brisa morna
arrasta as últimas folhas secas
por sobre
o rio e a foz.
[193]
PAISAGEM
Acordando a densa folhagem
da mafurreira,
rouco, o grito da soa
rasga o ar parado.
Gorgolejando
responde o lagarto
humilde das pedras:
Dois tons
Na imensa orquestra do plaino.
Com fragmentados,
distantes murmúrios
de povoações algures,
paralelo, corre nas lonjuras
do sol mordente, um coro
fanhoso de cigarras.
Sob a comprida sombra de meus olhos
dormita uma adolescente negra,
finos, dengosos músculos
arquejando leve sob a pele lustrosa.
Nos confins da tarde
ri estridente um bêbedo
e mil vidas vibram poderosas
na falsa quietude dos matos.
De estranho metal,
nos espaços, cintilam agulhas.
Então,
uma brisa morna
arrasta as últimas folhas secas
por sobre
o rio e a foz.
[193]
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sábado, dezembro 31, 2005
José Craveirinha
KARINGANA UA KARINGANA
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana –
é que faz o poeta sentir-se
gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão que parece impossível
em sonho do que vai ser.
- Karingana!
[192]
KARINGANA UA KARINGANA
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana –
é que faz o poeta sentir-se
gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão que parece impossível
em sonho do que vai ser.
- Karingana!
[192]
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craveirinha
sábado, dezembro 24, 2005
Sebastião Alba
NATAL NO CÁRCERE
O menino que, ao domingo, recebe na língua a hóstia que nela depõe o tio-avô, pároco da aldeia, é o garoto que, à tarde, observará, deitado na relva, a chegada dum pássaro ao seu ninho. Entre os dois trava-se ainda uma luta de morte. Mas é o segundo, quarenta anos mais tarde, quem escreve estas linhas.
Porque te vês agir, a falar, o fulcro do teu pensamento, durante o dia, é fazer sem denodo o esforço de caminhar entre estas sombras como se fosses uma delas. Não te distancies.
Gambiarras, lâmpadas miniaturais, pinheiros factícios. O mito já não tem “dentro”.
[191]
NATAL NO CÁRCERE
O menino que, ao domingo, recebe na língua a hóstia que nela depõe o tio-avô, pároco da aldeia, é o garoto que, à tarde, observará, deitado na relva, a chegada dum pássaro ao seu ninho. Entre os dois trava-se ainda uma luta de morte. Mas é o segundo, quarenta anos mais tarde, quem escreve estas linhas.
Porque te vês agir, a falar, o fulcro do teu pensamento, durante o dia, é fazer sem denodo o esforço de caminhar entre estas sombras como se fosses uma delas. Não te distancies.
Gambiarras, lâmpadas miniaturais, pinheiros factícios. O mito já não tem “dentro”.
[191]
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quarta-feira, dezembro 21, 2005
Fernando Couto
IMPALA
Elegância devia ser o teu nome
ou mesmo graça e harmonia
ou ainda leveza, etérea leveza.
Saltas e o arco nasce da terra
com o fulgor do voo do colibri.
O airoso ganha todo o esplendor
no diáfano contorno do teu corpo.
Vestem-se os reflexos do sol
nos vários areais desertos,
os seus variados reflexos.
[190]
IMPALA
Elegância devia ser o teu nome
ou mesmo graça e harmonia
ou ainda leveza, etérea leveza.
Saltas e o arco nasce da terra
com o fulgor do voo do colibri.
O airoso ganha todo o esplendor
no diáfano contorno do teu corpo.
Vestem-se os reflexos do sol
nos vários areais desertos,
os seus variados reflexos.
[190]
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sexta-feira, dezembro 16, 2005
Glória de Santana
SEGUNDO POEMA DA SOLIDÃO
Serei tão secreta
como o tecido da água
e tão leve
e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem
e todo o alheio pecado
do gesto, da presença ou da palavra
que logo que a tua mão me prenda
me não acharás:
serei de água
[189]
SEGUNDO POEMA DA SOLIDÃO
Serei tão secreta
como o tecido da água
e tão leve
e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem
e todo o alheio pecado
do gesto, da presença ou da palavra
que logo que a tua mão me prenda
me não acharás:
serei de água
[189]
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domingo, dezembro 11, 2005
Fernando Couto
VERÃO AFRICANO
A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar – um velho cão adormecido.
[188]
VERÃO AFRICANO
A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar – um velho cão adormecido.
[188]
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segunda-feira, dezembro 05, 2005
Alberto de Lacerda
MOÇAMBIQUE
Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar
[187]
MOÇAMBIQUE
Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar
[187]
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domingo, novembro 27, 2005
Rui Knopfli
MÚSICA DE FIM DE DIA
Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(outros tomas estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:
Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:
Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra…
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.
[186]
MÚSICA DE FIM DE DIA
Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(outros tomas estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:
Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:
Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra…
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.
[186]
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segunda-feira, novembro 21, 2005
Alberto de Lacerda
OUTROS SONS
Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas
Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço
[185]
OUTROS SONS
Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas
Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço
[185]
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terça-feira, novembro 15, 2005
Alberto de Lacerda
ATRIBUTOS DIVINOS
O pudor é um atributo divino
O impudor selvagem também
E o riso aberto e o choro alto
E a lágrima recolhida nas mãos solitárias da noite
E o sorrir para si próprio que ninguém mais entende
Tudo isso são atributos divinos
São as estações do ano
Próprias do amor
[184]
ATRIBUTOS DIVINOS
O pudor é um atributo divino
O impudor selvagem também
E o riso aberto e o choro alto
E a lágrima recolhida nas mãos solitárias da noite
E o sorrir para si próprio que ninguém mais entende
Tudo isso são atributos divinos
São as estações do ano
Próprias do amor
[184]
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quarta-feira, novembro 09, 2005
quinta-feira, novembro 03, 2005
Alberto de Lacerda
A MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância
[182]
A MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância
[182]
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