Ana Mafalda Leite
NATURALIDADE
(UMA CARTA A RUI KNOPFLI)
Eu, meu caro Rui Knopfli, eu caso-me à agrura das micaias e das rosas, ao roxo das noites lentas e às luas do dois hemisférios. Do sul ao norte em espiral me move o coração em índico interior, a intensa lentidão dos sentidos adormecidos por essas aves estranhas que me povoam os sentidos de asas bem reais.
chamem-me europeia ou africana, que fazer senão calar? Meus versos livres, livres xingombelas, livres pomos, voam sem chão, neste chão que trago por dentro da casa móvel que atravessa o sonho. Muito por dentro de todas as paisagens acorda aí esse teu, este meu, quebranto dolente, luz que as tardes em brasa levantam na alma acordada em seu abrupto amanhecer. É provável e é certo ser este meu corpo entrançado de liana e liamba uma trepadeira de nuvens em que o arco íris morde a cauda de muitos céus em desvario, porque a alma sem sossego acasala seres bifrontes, monstros de um hermes apátrida.
que pátria a de um poeta senão uma língua bífida e em fogo, senão um veneno redentor de mamba, enroscada dor nesse corpo babel em chama anunciado?
há no entanto uma terra e uma pátria em que pouso devagar, me reconheço e desconheço, escriba acocorado enrubescendo a língua de amorosos sabores, de vibrados ritmos, é a tua pátria de versos ó Rui, a tua mafalala entumescida José, a tua sensual arquitectura a oriente, Eduardo, ó príncipe dos poetas, o teu rumo silencioso e manso Artur, a escultura maconde da tua voz magoada Noémia, teu rendilhar de pemba azul Glória, a monção elegíaca e trágica, dolorosa dos teus blues, Patraquim, teu mar ao norte em ilhas utópicas Virgílio, e em arca de noé, essa fábula grotesca de Grabato arrebatando os pontos cardeais num chão desgarrado a Filimones, mes em nós crescido até à palma primeira de todos os sons.
Acredita, a terra-mar que em nossas línguas caminha é naturalidade obscena, pátria dividia em crónicas da peste, nascimento incestuoso de múltiplas mães, em nós úbere o som da xipalapala.
lancinado eco do fim das tardes, misterioso som, morro de muchém crescido da terra, desventrando asas em voluta, lento voo em sombra acesa, pátria minha, passaporte,
naturalidade, só uma, a poesia.
[211]
terça-feira, abril 25, 2006
sexta-feira, abril 21, 2006
Carlos Gil
PRINCESA DAS DUAS CIDADES
Lá, naquele tempo em que não se viam capulanas nas varandas das avenidas, garrindo as acácias e os jacarandás usurpadores das cores turísticas, lá naquele tempo em que a naturalização da cidade estava tão longe como distava o terreiro de onde saíam naus com decretos e leis, chiar de madeiras velhas gretadas pela História que a água dos oceanos traçou.
Lá, onde os machimbombos sempre cheios quando não era dia de praia faziam sempre rumo aos subúrbios. Lá, naquele tempo em que havia duas cidades e o cimento duma ganhava fungos quando o caniço e o zinco o confrontavam, Norte e Poente, tanto, que o Sul era dos arranha-céus e a Este o mar chamava.
quando amar era perigoso se, no orgasmo, os pêlos dos amantes não brilhassem ambos em pálido rosa imperial, ou tinha tabela miscigenada em moeda com a prata da esfera armilar, repúblicos vinte escudos. Naquele tempo, lá.
nem tinham sido inventados os chapas, pois as capulanas só vinham ao cimento vender amendoim torrado e maçaroca assada, peixe e papaias no mercado. Lá, princesa das duas cidades...
O tempo caducou-se. Vieram as capulanas às varandas e penduraram-se às janelas, garrida nova flora da cidade que esmagou os jacarandás e as acácias, velho álbum de postais em que a abertura da lente não fora feita em formato technicolor: faltava-lhe a cor das capulanas quando a objectiva se virava aos céus para focar as torres, ou se espraiava colina abaixo no longo rectilíneo das árvores aveninadas. Em baixo, sorria o mar, esse fotogénico amante que a todas beija e ergue maliciosas ondas para lamber, guloso, as cores quentes da sua capulana.
(lá, naquele tempo)
Eu vim de lá. Vivi lá e lá li livros sobre fórmulas alquimísticas do viver, que não podia entender sem perceber primeiro que a areia dourada que nas suas folhas se entranhava, que as manchas das mangas que me sujavam a camisa, essas, eram as primeiras letras a ler, a cartilha da cidade. Das duas cidades... lá, naquele tempo...
– e bastava saber olhar como sabia ler. Se o tivesse feito, então perceberia que as frondosas copas das árvores eram flores dum jardim com amos e empregados, que a areia da praia era grão que só alvas pás moinhavam, pés de longe pois da cidade que raramente os via calçados.
Lá, naquele tempo, eu fartei-me de ler livros e chumbei, não passei o exame: eu não sabia ler o livro d'A Princesa das Duas Cidades. Naquele tempo eu, estando lá, não estava: não via a luz das capulanas ondeando nos prédios, brilho que se lia mais além do vermelho das acácias e do azul dos jacarandás, cores que cegavam.
[210]
PRINCESA DAS DUAS CIDADES
Lá, naquele tempo em que não se viam capulanas nas varandas das avenidas, garrindo as acácias e os jacarandás usurpadores das cores turísticas, lá naquele tempo em que a naturalização da cidade estava tão longe como distava o terreiro de onde saíam naus com decretos e leis, chiar de madeiras velhas gretadas pela História que a água dos oceanos traçou.
Lá, onde os machimbombos sempre cheios quando não era dia de praia faziam sempre rumo aos subúrbios. Lá, naquele tempo em que havia duas cidades e o cimento duma ganhava fungos quando o caniço e o zinco o confrontavam, Norte e Poente, tanto, que o Sul era dos arranha-céus e a Este o mar chamava.
quando amar era perigoso se, no orgasmo, os pêlos dos amantes não brilhassem ambos em pálido rosa imperial, ou tinha tabela miscigenada em moeda com a prata da esfera armilar, repúblicos vinte escudos. Naquele tempo, lá.
nem tinham sido inventados os chapas, pois as capulanas só vinham ao cimento vender amendoim torrado e maçaroca assada, peixe e papaias no mercado. Lá, princesa das duas cidades...
O tempo caducou-se. Vieram as capulanas às varandas e penduraram-se às janelas, garrida nova flora da cidade que esmagou os jacarandás e as acácias, velho álbum de postais em que a abertura da lente não fora feita em formato technicolor: faltava-lhe a cor das capulanas quando a objectiva se virava aos céus para focar as torres, ou se espraiava colina abaixo no longo rectilíneo das árvores aveninadas. Em baixo, sorria o mar, esse fotogénico amante que a todas beija e ergue maliciosas ondas para lamber, guloso, as cores quentes da sua capulana.
(lá, naquele tempo)
Eu vim de lá. Vivi lá e lá li livros sobre fórmulas alquimísticas do viver, que não podia entender sem perceber primeiro que a areia dourada que nas suas folhas se entranhava, que as manchas das mangas que me sujavam a camisa, essas, eram as primeiras letras a ler, a cartilha da cidade. Das duas cidades... lá, naquele tempo...
– e bastava saber olhar como sabia ler. Se o tivesse feito, então perceberia que as frondosas copas das árvores eram flores dum jardim com amos e empregados, que a areia da praia era grão que só alvas pás moinhavam, pés de longe pois da cidade que raramente os via calçados.
Lá, naquele tempo, eu fartei-me de ler livros e chumbei, não passei o exame: eu não sabia ler o livro d'A Princesa das Duas Cidades. Naquele tempo eu, estando lá, não estava: não via a luz das capulanas ondeando nos prédios, brilho que se lia mais além do vermelho das acácias e do azul dos jacarandás, cores que cegavam.
[210]
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domingo, abril 09, 2006
Rui Knopfli
POSTERIDADE
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
[209]
POSTERIDADE
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
[209]
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sexta-feira, abril 07, 2006
Brian Tio Ninguas
A JOSINA, HEROÍNA SORRIDENTE
Viajarei até onde a tua heroicidade marchou
e guardarei as palavras para mim como as guardaste
e cantarei o patriotismo como fez o teu pulso
e viverei o amor dos homens como tu o viveste
e arderei em todo o meu fervor humano
e se a terra me cobrir
aves virão desenterrar-me, farão uma roda
e pondo-me no meio dela
entoarão hinos de vida e comerão flores
e eu devorarei estrelas.
[208]
A JOSINA, HEROÍNA SORRIDENTE
Viajarei até onde a tua heroicidade marchou
e guardarei as palavras para mim como as guardaste
e cantarei o patriotismo como fez o teu pulso
e viverei o amor dos homens como tu o viveste
e arderei em todo o meu fervor humano
e se a terra me cobrir
aves virão desenterrar-me, farão uma roda
e pondo-me no meio dela
entoarão hinos de vida e comerão flores
e eu devorarei estrelas.
[208]
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domingo, abril 02, 2006
Carneiro Gonçalves
CONTO DE ACHIRIUA (excerto)
Ora uma vez (contam os achiriuas) havia um penedo mesmo no pino da montanha. Morreu de amor. O penedo era acessível, a escalada fácil. Uma árvore irrompia brusca do seio do penedo, esguedelhada, uma árvore que amava o penedo com força, mais do que um homem ama uma mulher. Amava-o tanto que irrompia, meiga, do seio dele, já aberto, conformado, alegre até com a fúria que o dilacerava, parcelava, dividia. Quando o vento, zoeira de todo, experimentava, rajada após rajada, a solidez invulgar daquele amor estranho, observava por entre assobiadelas os beijos seguidinhos da árvore no peito forte do penedo, inamovível, todo entregue ao cuidado de a defender dos suspiros boémios do vento do vento amalandrado.
[207]
CONTO DE ACHIRIUA (excerto)
Ora uma vez (contam os achiriuas) havia um penedo mesmo no pino da montanha. Morreu de amor. O penedo era acessível, a escalada fácil. Uma árvore irrompia brusca do seio do penedo, esguedelhada, uma árvore que amava o penedo com força, mais do que um homem ama uma mulher. Amava-o tanto que irrompia, meiga, do seio dele, já aberto, conformado, alegre até com a fúria que o dilacerava, parcelava, dividia. Quando o vento, zoeira de todo, experimentava, rajada após rajada, a solidez invulgar daquele amor estranho, observava por entre assobiadelas os beijos seguidinhos da árvore no peito forte do penedo, inamovível, todo entregue ao cuidado de a defender dos suspiros boémios do vento do vento amalandrado.
[207]
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segunda-feira, março 27, 2006
Leite de Vasconcelos
CANTO DO VERBO EM BUSCA DA FORMA
Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui voo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo
[206]
CANTO DO VERBO EM BUSCA DA FORMA
Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui voo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo
[206]
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segunda-feira, março 20, 2006
Glória de Santana
POR ONDE A ESPERANÇA
Para o Eugénio Lisboa
que disse o primeiro verso do poema
Eu quero uma estátua virada ao mar
uma estátua que se encha de sal
quando o vento caminhe.
E que tome o tom verde das águas
e das algas que se lhe enrodilhem
junto às mãos e à face
Porque a única forma de ter uma estátua
é saber de antemão que ninguém
saberá quem ali se desfaz.
[205]
POR ONDE A ESPERANÇA
Para o Eugénio Lisboa
que disse o primeiro verso do poema
Eu quero uma estátua virada ao mar
uma estátua que se encha de sal
quando o vento caminhe.
E que tome o tom verde das águas
e das algas que se lhe enrodilhem
junto às mãos e à face
Porque a única forma de ter uma estátua
é saber de antemão que ninguém
saberá quem ali se desfaz.
[205]
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gloria
terça-feira, março 14, 2006
Alberto de Lacerda
PEREGRINO
Ó alma errante, onde brilha o fulgor
Das perguntas que a terra silencia,
O que buscas? A que estranho vigor
De visão tu aspiras noite e dia?
Porque me trazes o manto rasgado,
E me rasgas a mim, que tu geraste?
Amas ou não este humano traslado,
Arremedo divino, flor só haste?
Porque nos perseguimos sem nos vermos,
De terra em terra, na esperança, no esforço?
Aonde a luz dos invisíveis ermos
Brilhando inteira na luz de um só corpo?
Onde pressentirás o teu começo?
Então descansarás. Nada mais peço.
[204]
PEREGRINO
Ó alma errante, onde brilha o fulgor
Das perguntas que a terra silencia,
O que buscas? A que estranho vigor
De visão tu aspiras noite e dia?
Porque me trazes o manto rasgado,
E me rasgas a mim, que tu geraste?
Amas ou não este humano traslado,
Arremedo divino, flor só haste?
Porque nos perseguimos sem nos vermos,
De terra em terra, na esperança, no esforço?
Aonde a luz dos invisíveis ermos
Brilhando inteira na luz de um só corpo?
Onde pressentirás o teu começo?
Então descansarás. Nada mais peço.
[204]
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lacerda
domingo, março 12, 2006
domingo, março 05, 2006
Guita Jr.
DEIXAR TUDO E PARTIR
deixar tudo e partir
e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir
e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte
[203]
DEIXAR TUDO E PARTIR
deixar tudo e partir
e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir
e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte
[203]
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terça-feira, fevereiro 28, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/2)
Nesse tempo ainda não existia o pontão do cais e as mulheres embarcavam com mil dificuldades, equilibrando trouxas à cabeça e arrastando os filhos nas pontas das capulanas. Primeiro, era a distância interminável com água pelos joelhos até chegarem às canoas. Depois, estas pejadas de gente e carga, ameaçando adornar na sua viagem lenta até encostarem ao casco ferrugento do barco da carreira. Finalmente, o embarque, o povo trepando como podia, as galinhas cacarejando, os cabritos balindo assustados com o transbordo, as crianças chorando, a multidão cansada e irritada como se estivesse terminando e não começando a viagem. E o Nieleti parecia então uma nova arca de Noé, com bichos e plantas, humanos e coisas, diferente da original apenas na medida em que em vez de estar salvando um par de cada, procurava salvar um povo inteiro.
[202]
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/2)
Nesse tempo ainda não existia o pontão do cais e as mulheres embarcavam com mil dificuldades, equilibrando trouxas à cabeça e arrastando os filhos nas pontas das capulanas. Primeiro, era a distância interminável com água pelos joelhos até chegarem às canoas. Depois, estas pejadas de gente e carga, ameaçando adornar na sua viagem lenta até encostarem ao casco ferrugento do barco da carreira. Finalmente, o embarque, o povo trepando como podia, as galinhas cacarejando, os cabritos balindo assustados com o transbordo, as crianças chorando, a multidão cansada e irritada como se estivesse terminando e não começando a viagem. E o Nieleti parecia então uma nova arca de Noé, com bichos e plantas, humanos e coisas, diferente da original apenas na medida em que em vez de estar salvando um par de cada, procurava salvar um povo inteiro.
[202]
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borges coelho
terça-feira, fevereiro 21, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/1)
(…) Tomé Nhaca sabia de outras searas de peixe maduro, pronto a colher, tão recônditas que haviam sobrevivido à febre da mudança dos nomes; que, de facto, nem sequer haviam tido nomes. Não lhos deu ele também para que ficassem por descobrir. Bastava-lhe localizá-las, o que fazia recorrendo a enigmáticos expedientes: estando-se a certa distância, no mar, sob um certo sol, vendo-se dali em linha recta as duas tetas altas da Inhaca, que continuam à mostra mesmo depois da ilha quase ter desaparecido na distância, deveria o seu barco estar no sítio certo, fazendo sombra a um desconhecido cardume, lá em baixo. E assim era porque, tirado o secreto azimute, o barco ficava a pairar numa ondulação suave sobre tocas de onde espreitavam circunspectas garoupas ou irascíveis moreias, bandos de papagaios coloridos e vaidosos, longas filas de peixes-serra, tubarões vogando em círculos na permanente procura que é a sua. Atiravam-se então as redes e elas vinham cheias dessa massa fervilhante, tão cheias que era um alegre martírio subi-las, um martírio a que homens se submetiam cantando.
[201]
MERIDIÃO / VERDADEIROS PROPÓSITOS (excerto/1)
(…) Tomé Nhaca sabia de outras searas de peixe maduro, pronto a colher, tão recônditas que haviam sobrevivido à febre da mudança dos nomes; que, de facto, nem sequer haviam tido nomes. Não lhos deu ele também para que ficassem por descobrir. Bastava-lhe localizá-las, o que fazia recorrendo a enigmáticos expedientes: estando-se a certa distância, no mar, sob um certo sol, vendo-se dali em linha recta as duas tetas altas da Inhaca, que continuam à mostra mesmo depois da ilha quase ter desaparecido na distância, deveria o seu barco estar no sítio certo, fazendo sombra a um desconhecido cardume, lá em baixo. E assim era porque, tirado o secreto azimute, o barco ficava a pairar numa ondulação suave sobre tocas de onde espreitavam circunspectas garoupas ou irascíveis moreias, bandos de papagaios coloridos e vaidosos, longas filas de peixes-serra, tubarões vogando em círculos na permanente procura que é a sua. Atiravam-se então as redes e elas vinham cheias dessa massa fervilhante, tão cheias que era um alegre martírio subi-las, um martírio a que homens se submetiam cantando.
[201]
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sexta-feira, fevereiro 10, 2006
Rui Knopfli
PRINCÍPIO DO DIA
Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele me responde.
Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.
No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.
E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.
(Amanhã volto a experimentar.)
[200]
PRINCÍPIO DO DIA
Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele me responde.
Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.
No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.
E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.
(Amanhã volto a experimentar.)
[200]
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terça-feira, fevereiro 07, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/3)
Enquanto Herculano pensa e caminha, o capim torna-se ralo e os novelos de micaias, as amálgamas de arbustos retorcidos e sem nome cedem lugar a pequenos exércitos de árvores alinhadas, trabalhadas pelos homens, ao seu gosto afeiçoadas. Abençoadas. Árvores com frutos de cascas finas como peles de mulher, caroços raros, polpa abundante e suculenta. Cremosos como a banana, sumarentos e dourados como os citrinos ou vivendo da fama do cheiro que exalam, como a massala. Acariciou uma laranja sem sequer a arrancar da pequena árvore de onde pendia, apenas para lhe sentir o arredondado da forma, a ténue rugosidade da casca, e para cheirar o leve aroma acidulado. Um pouco adiante, tomou nas mãos uma manga enorme como um coração, vermelha como ele. Arrancou-lhe a casca com os dentes como quem tira pétalas a uma flor. Cheirou-a de várias maneiras, pois são também diversos os aromas que a manga exala – florais, resinosos, aromas roubados até de outras frutas, quentes como as especiarias ou gelados como a lua se lhe pudéssemos tocar – antes de fincar os dentes nela e deixar que o sumo lhe escorresse até ao queixo. Largou-a porque viu ao lado uma goiabeira carregada de frutos maduros. Deixou-se enevoar pela magia da goiaba, pelo seu enigmático perfume, simultaneamente repugnante e irresistível. Se verde, de uma acidez estimulante; se madura, como se comêssemos pequenos novelos granulosos e suculentos. Deteve-se em frente a uma pequena papaieira vergada pelo peso das suas papaias. Irresistíveis para ele como para os pássaros que saltitavam em volta, debicando-as. Pegou no punhal e abriu uma delas a todo o comprimento, ficando por um momento a olhar a fenda oblonga e a carne cor de fogo espreitando de dentro dela, o líquido incolor que a humedecia como um soro vital. Molhou nela a ponta dos dedos, acariciando as sementes negras e contrastantes como grãos de pimenta. Enterrou-lhe os dentes com avidez e sentiu a carne ceder, no seu cerne um sabor a mel. Ébrio, deixou-se finalmente chegar à árvore das árvores, a árvore do ocanho, fruto da terra. Olhou-os ainda verdes, pendurados, ou amadurecendo no chão em volta. Provou a sua polpa boa, e quando sentiu o sabor agridoce na base da língua achou a prova palpável e definitiva de que estava chegando a casa.
[199]
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/3)
Enquanto Herculano pensa e caminha, o capim torna-se ralo e os novelos de micaias, as amálgamas de arbustos retorcidos e sem nome cedem lugar a pequenos exércitos de árvores alinhadas, trabalhadas pelos homens, ao seu gosto afeiçoadas. Abençoadas. Árvores com frutos de cascas finas como peles de mulher, caroços raros, polpa abundante e suculenta. Cremosos como a banana, sumarentos e dourados como os citrinos ou vivendo da fama do cheiro que exalam, como a massala. Acariciou uma laranja sem sequer a arrancar da pequena árvore de onde pendia, apenas para lhe sentir o arredondado da forma, a ténue rugosidade da casca, e para cheirar o leve aroma acidulado. Um pouco adiante, tomou nas mãos uma manga enorme como um coração, vermelha como ele. Arrancou-lhe a casca com os dentes como quem tira pétalas a uma flor. Cheirou-a de várias maneiras, pois são também diversos os aromas que a manga exala – florais, resinosos, aromas roubados até de outras frutas, quentes como as especiarias ou gelados como a lua se lhe pudéssemos tocar – antes de fincar os dentes nela e deixar que o sumo lhe escorresse até ao queixo. Largou-a porque viu ao lado uma goiabeira carregada de frutos maduros. Deixou-se enevoar pela magia da goiaba, pelo seu enigmático perfume, simultaneamente repugnante e irresistível. Se verde, de uma acidez estimulante; se madura, como se comêssemos pequenos novelos granulosos e suculentos. Deteve-se em frente a uma pequena papaieira vergada pelo peso das suas papaias. Irresistíveis para ele como para os pássaros que saltitavam em volta, debicando-as. Pegou no punhal e abriu uma delas a todo o comprimento, ficando por um momento a olhar a fenda oblonga e a carne cor de fogo espreitando de dentro dela, o líquido incolor que a humedecia como um soro vital. Molhou nela a ponta dos dedos, acariciando as sementes negras e contrastantes como grãos de pimenta. Enterrou-lhe os dentes com avidez e sentiu a carne ceder, no seu cerne um sabor a mel. Ébrio, deixou-se finalmente chegar à árvore das árvores, a árvore do ocanho, fruto da terra. Olhou-os ainda verdes, pendurados, ou amadurecendo no chão em volta. Provou a sua polpa boa, e quando sentiu o sabor agridoce na base da língua achou a prova palpável e definitiva de que estava chegando a casa.
[199]
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domingo, janeiro 29, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/2)
(…) depois da curva do caminho Herculano deparou com uma pequena manda de bois movendo-se sem destino certo. Magros, procuravam resistir ao calor e à fome da única maneira que os bois conhecem: encostando-se uns aos outros, procurando a inútil protecção desse anonimato, sem saber que é assim que mais se expõem; que é ocupando maior área que ficam mais vulneráveis. Herculano olhou em volta procurando o pastor, mas não havia ali ninguém. Apenas aqueles animais de língua descaída e olhar vago. Não fossem as caudas abanando para afastar insectos sedentos da humidade das suas narinas e olhos, e estariam imóveis como se fizessem parte de um retrato. Não esboçaram o mínimo gesto de resguardo, a mais ténue tentativa de se afastar quando Herculano se aproximou. Além de conformados, estavam também perdidos. Adivinhou-o porque o gado se movimenta sempre na zona de fronteira, tendo nas costas as machambas e casas do povo, na frente o mato. São eles que desbravam esse mato mastigando, e atrás deles anda o povo. Fazem assim porque têm sempre fome, noite e dia, e porque a sua humildade os impede de conhecerem o medo do desconhecido. São vítimas potenciais conformadas com o destino, e por isso não se defendem, por isso morrem sem ter medo nem entender. Só aquele olhar vago, vogando sobre as coisas, e a incapacidade de traduzir o que ele capta num pavor do corpo.
[198]
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/2)
(…) depois da curva do caminho Herculano deparou com uma pequena manda de bois movendo-se sem destino certo. Magros, procuravam resistir ao calor e à fome da única maneira que os bois conhecem: encostando-se uns aos outros, procurando a inútil protecção desse anonimato, sem saber que é assim que mais se expõem; que é ocupando maior área que ficam mais vulneráveis. Herculano olhou em volta procurando o pastor, mas não havia ali ninguém. Apenas aqueles animais de língua descaída e olhar vago. Não fossem as caudas abanando para afastar insectos sedentos da humidade das suas narinas e olhos, e estariam imóveis como se fizessem parte de um retrato. Não esboçaram o mínimo gesto de resguardo, a mais ténue tentativa de se afastar quando Herculano se aproximou. Além de conformados, estavam também perdidos. Adivinhou-o porque o gado se movimenta sempre na zona de fronteira, tendo nas costas as machambas e casas do povo, na frente o mato. São eles que desbravam esse mato mastigando, e atrás deles anda o povo. Fazem assim porque têm sempre fome, noite e dia, e porque a sua humildade os impede de conhecerem o medo do desconhecido. São vítimas potenciais conformadas com o destino, e por isso não se defendem, por isso morrem sem ter medo nem entender. Só aquele olhar vago, vogando sobre as coisas, e a incapacidade de traduzir o que ele capta num pavor do corpo.
[198]
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terça-feira, janeiro 24, 2006
Heliodoro Baptista
PRESSÁGIO, MINHA AVE
(Ao Gringas e à Maria,
Poetas de outro blue-jazz)
Estou doente como um cão
num barco içado pela babugem
no ritmo Índico puro da monção;
O homem que eu disse ser,
inescrupuloso, de rara penugem,
é o capitão deste barco a arder
no seu cachimbo em forma de coração;
Longe, a ilha de seu destino, é vaga ideia
em qualquer privado jardim da consolação:
céu, mar, gaivotas de fogo, o pé-de-meia
de quando eu ainda pensava ter razão.
Este homem recorta-se no vosso céu de aço;
Ventos temporais, estrelas caídas de fronte,
O cachimbo sem tabaco, o declinado horizonte
E o coqueiro híbrido na mão insurrecta, largo o espaço.
Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri.
Mas pela noite áfrica, oceânica, regresso. Renasci.
[197]
PRESSÁGIO, MINHA AVE
(Ao Gringas e à Maria,
Poetas de outro blue-jazz)
Estou doente como um cão
num barco içado pela babugem
no ritmo Índico puro da monção;
O homem que eu disse ser,
inescrupuloso, de rara penugem,
é o capitão deste barco a arder
no seu cachimbo em forma de coração;
Longe, a ilha de seu destino, é vaga ideia
em qualquer privado jardim da consolação:
céu, mar, gaivotas de fogo, o pé-de-meia
de quando eu ainda pensava ter razão.
Este homem recorta-se no vosso céu de aço;
Ventos temporais, estrelas caídas de fronte,
O cachimbo sem tabaco, o declinado horizonte
E o coqueiro híbrido na mão insurrecta, largo o espaço.
Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri.
Mas pela noite áfrica, oceânica, regresso. Renasci.
[197]
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sábado, janeiro 21, 2006
Rui Knopfli
TELEGRAMA
Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.
[196]
TELEGRAMA
Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.
[196]
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sábado, janeiro 14, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/1)
Apesar de se ver de lá a cidade de Maputo – de dia como sombra azulada, quase aguarela, de noite timidamente tremeluzindo como janela de casa de pobre – o Machangulo é uma terra complicada. Terra dos Madindindes, dizem. Assim chamados por semearem enes e dês nas palavras que usam. Não inventam propositadamente novas palavras, antes disfarçam as que existem na tentativa de passarem por inventores sem se darem ao trabalho de o ser. Gente complicada.
A orla conforma-se com essa fama. Põe-se ali o sol do lado do mar, e não de dentro como seria normal. Podia ser praia e não é porque lhe falta areal, sendo o que existe estreito e cinzento. Onde é já francamente mar crescem ainda umas árvores com a mesma desenvoltura que teriam se estivessem em terra seca (navegando, os barcos afagam por vezes os seus ramos como pássaros que voasse, ou amarram neles os cabos de âncora para descansar). Por outro lado, dentro da terra surgem lagoas altivamente encapeladas – Buti, Mandi, Mangalidje e muitas outras – como se fossem ainda elas próprias o mar. Os pequenos rios que na quase praia desaguam entram pelo mar adentro transportando ainda as suas distintas cores de rio, de um acastanhado pardacento, conseguindo com esse artifício continuar a ser rios já bem dentro da baía, quando há muito deixaram de ter margens sólidas que os sustentem. De tal forma que é possível a um pescador desaparecer com o seu xitatarru no horizonte da baía e voltar depois dizendo que não chegou ao mar, que andou apenas pescando dentro desse rio sem margens que se vejam. E fazê-lo sem estar mentindo.
É inegável, portanto, que a natureza se deixou tomar por alguma confusão quando espalhou as suas disposições neste lugar, misturando os ingredientes de forma pouco habitual. Por isso são do Machangulo os maiores caranguejos que há neste mundo, grandes e gordos como mamíferos. O caranguejo é, como se sabe, um bicho amigo da confusão, movendo-se sem direcção como se estivesse fugindo da sombra que cria, pisando com cuidado como se ela queimasse ao invés de refrescar. E girando muito os olhos numa angústia pouco esclarecida, com dentes nas mãos sempre a tentar morder coisa nenhuma. Além de grandes, esses caranguejos do Machangulo são também carrancudos e agressivos, desafiando cães e corvos no areal daquilo que tenta ser praia. Finalmente, depois de cozidos é a sua carne a mais deliciosa, embora também a mais difícil de se deixar comer devido à confusão, ainda ela, entre aquilo que são ossos e aquilo que é já carne e músculo. E a própria carapaça é cinzenta e tristonha enquanto viva, vermelho-alegre quando morta. Manifestando-se portanto ao contrário.
[195]
MERIDIÃO / OS SAPATOS NOVOS DE JOSEFATE NGWETANA (excerto/1)
Apesar de se ver de lá a cidade de Maputo – de dia como sombra azulada, quase aguarela, de noite timidamente tremeluzindo como janela de casa de pobre – o Machangulo é uma terra complicada. Terra dos Madindindes, dizem. Assim chamados por semearem enes e dês nas palavras que usam. Não inventam propositadamente novas palavras, antes disfarçam as que existem na tentativa de passarem por inventores sem se darem ao trabalho de o ser. Gente complicada.
A orla conforma-se com essa fama. Põe-se ali o sol do lado do mar, e não de dentro como seria normal. Podia ser praia e não é porque lhe falta areal, sendo o que existe estreito e cinzento. Onde é já francamente mar crescem ainda umas árvores com a mesma desenvoltura que teriam se estivessem em terra seca (navegando, os barcos afagam por vezes os seus ramos como pássaros que voasse, ou amarram neles os cabos de âncora para descansar). Por outro lado, dentro da terra surgem lagoas altivamente encapeladas – Buti, Mandi, Mangalidje e muitas outras – como se fossem ainda elas próprias o mar. Os pequenos rios que na quase praia desaguam entram pelo mar adentro transportando ainda as suas distintas cores de rio, de um acastanhado pardacento, conseguindo com esse artifício continuar a ser rios já bem dentro da baía, quando há muito deixaram de ter margens sólidas que os sustentem. De tal forma que é possível a um pescador desaparecer com o seu xitatarru no horizonte da baía e voltar depois dizendo que não chegou ao mar, que andou apenas pescando dentro desse rio sem margens que se vejam. E fazê-lo sem estar mentindo.
É inegável, portanto, que a natureza se deixou tomar por alguma confusão quando espalhou as suas disposições neste lugar, misturando os ingredientes de forma pouco habitual. Por isso são do Machangulo os maiores caranguejos que há neste mundo, grandes e gordos como mamíferos. O caranguejo é, como se sabe, um bicho amigo da confusão, movendo-se sem direcção como se estivesse fugindo da sombra que cria, pisando com cuidado como se ela queimasse ao invés de refrescar. E girando muito os olhos numa angústia pouco esclarecida, com dentes nas mãos sempre a tentar morder coisa nenhuma. Além de grandes, esses caranguejos do Machangulo são também carrancudos e agressivos, desafiando cães e corvos no areal daquilo que tenta ser praia. Finalmente, depois de cozidos é a sua carne a mais deliciosa, embora também a mais difícil de se deixar comer devido à confusão, ainda ela, entre aquilo que são ossos e aquilo que é já carne e músculo. E a própria carapaça é cinzenta e tristonha enquanto viva, vermelho-alegre quando morta. Manifestando-se portanto ao contrário.
[195]
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terça-feira, janeiro 10, 2006
João Paulo Borges Coelho
MERIDIÃO / IMPLICAÇÕES DE UM NAUFRÁGIO (excerto)
Soshana correra tanto quanto uma gazela das que eles costumavam perseguir, contornando a lagoa, atravessando o areal das suas margens, galgando o capinzal que lhes cresce junto, invadindo terreiros que se lhe atravessavam no caminho e punha em alvoroço, com porcos pretos grunhindo, cabritos bodejando, galinhas cacarejando e fugindo sem direcção, pilões tombados derramando o grão, peneiras entornando a farinha pelas esteiras e pelo chão. Continuara sem parar, perseguido pelos insultos dos prejudicados, até chegar finalmente à porta de Totwane, que dormitava sentado e com o ar aprofundado de sempre. Levou tempo até que o miúdo recuperasse o fôlego e pudesse explicar ao que vinha, o que fez entrecortando arquejos aflitivos com um fantasioso relato. Totwane, resmungão como ficava sempre que lhe interrompiam as sestas, a curiosidade crescendo-lhe porém, deu o desconto normal aos exageros juvenis a que há muito se acostumara por lidar bastante com a rapaziada, quer explicando-lhes lições quer divertindo-se. Mas o que sobrava, dados os descontos, era suficiente para lhe fazer sentir que valia a pena a caminhada. A tal fera mordendo-lhe por dentro.
[194]
MERIDIÃO / IMPLICAÇÕES DE UM NAUFRÁGIO (excerto)
Soshana correra tanto quanto uma gazela das que eles costumavam perseguir, contornando a lagoa, atravessando o areal das suas margens, galgando o capinzal que lhes cresce junto, invadindo terreiros que se lhe atravessavam no caminho e punha em alvoroço, com porcos pretos grunhindo, cabritos bodejando, galinhas cacarejando e fugindo sem direcção, pilões tombados derramando o grão, peneiras entornando a farinha pelas esteiras e pelo chão. Continuara sem parar, perseguido pelos insultos dos prejudicados, até chegar finalmente à porta de Totwane, que dormitava sentado e com o ar aprofundado de sempre. Levou tempo até que o miúdo recuperasse o fôlego e pudesse explicar ao que vinha, o que fez entrecortando arquejos aflitivos com um fantasioso relato. Totwane, resmungão como ficava sempre que lhe interrompiam as sestas, a curiosidade crescendo-lhe porém, deu o desconto normal aos exageros juvenis a que há muito se acostumara por lidar bastante com a rapaziada, quer explicando-lhes lições quer divertindo-se. Mas o que sobrava, dados os descontos, era suficiente para lhe fazer sentir que valia a pena a caminhada. A tal fera mordendo-lhe por dentro.
[194]
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sábado, janeiro 07, 2006
Rui Knopfli
PAISAGEM
Acordando a densa folhagem
da mafurreira,
rouco, o grito da soa
rasga o ar parado.
Gorgolejando
responde o lagarto
humilde das pedras:
Dois tons
Na imensa orquestra do plaino.
Com fragmentados,
distantes murmúrios
de povoações algures,
paralelo, corre nas lonjuras
do sol mordente, um coro
fanhoso de cigarras.
Sob a comprida sombra de meus olhos
dormita uma adolescente negra,
finos, dengosos músculos
arquejando leve sob a pele lustrosa.
Nos confins da tarde
ri estridente um bêbedo
e mil vidas vibram poderosas
na falsa quietude dos matos.
De estranho metal,
nos espaços, cintilam agulhas.
Então,
uma brisa morna
arrasta as últimas folhas secas
por sobre
o rio e a foz.
[193]
PAISAGEM
Acordando a densa folhagem
da mafurreira,
rouco, o grito da soa
rasga o ar parado.
Gorgolejando
responde o lagarto
humilde das pedras:
Dois tons
Na imensa orquestra do plaino.
Com fragmentados,
distantes murmúrios
de povoações algures,
paralelo, corre nas lonjuras
do sol mordente, um coro
fanhoso de cigarras.
Sob a comprida sombra de meus olhos
dormita uma adolescente negra,
finos, dengosos músculos
arquejando leve sob a pele lustrosa.
Nos confins da tarde
ri estridente um bêbedo
e mil vidas vibram poderosas
na falsa quietude dos matos.
De estranho metal,
nos espaços, cintilam agulhas.
Então,
uma brisa morna
arrasta as últimas folhas secas
por sobre
o rio e a foz.
[193]
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sábado, dezembro 31, 2005
José Craveirinha
KARINGANA UA KARINGANA
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana –
é que faz o poeta sentir-se
gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão que parece impossível
em sonho do que vai ser.
- Karingana!
[192]
KARINGANA UA KARINGANA
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana –
é que faz o poeta sentir-se
gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão que parece impossível
em sonho do que vai ser.
- Karingana!
[192]
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craveirinha
sábado, dezembro 24, 2005
Sebastião Alba
NATAL NO CÁRCERE
O menino que, ao domingo, recebe na língua a hóstia que nela depõe o tio-avô, pároco da aldeia, é o garoto que, à tarde, observará, deitado na relva, a chegada dum pássaro ao seu ninho. Entre os dois trava-se ainda uma luta de morte. Mas é o segundo, quarenta anos mais tarde, quem escreve estas linhas.
Porque te vês agir, a falar, o fulcro do teu pensamento, durante o dia, é fazer sem denodo o esforço de caminhar entre estas sombras como se fosses uma delas. Não te distancies.
Gambiarras, lâmpadas miniaturais, pinheiros factícios. O mito já não tem “dentro”.
[191]
NATAL NO CÁRCERE
O menino que, ao domingo, recebe na língua a hóstia que nela depõe o tio-avô, pároco da aldeia, é o garoto que, à tarde, observará, deitado na relva, a chegada dum pássaro ao seu ninho. Entre os dois trava-se ainda uma luta de morte. Mas é o segundo, quarenta anos mais tarde, quem escreve estas linhas.
Porque te vês agir, a falar, o fulcro do teu pensamento, durante o dia, é fazer sem denodo o esforço de caminhar entre estas sombras como se fosses uma delas. Não te distancies.
Gambiarras, lâmpadas miniaturais, pinheiros factícios. O mito já não tem “dentro”.
[191]
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quarta-feira, dezembro 21, 2005
Fernando Couto
IMPALA
Elegância devia ser o teu nome
ou mesmo graça e harmonia
ou ainda leveza, etérea leveza.
Saltas e o arco nasce da terra
com o fulgor do voo do colibri.
O airoso ganha todo o esplendor
no diáfano contorno do teu corpo.
Vestem-se os reflexos do sol
nos vários areais desertos,
os seus variados reflexos.
[190]
IMPALA
Elegância devia ser o teu nome
ou mesmo graça e harmonia
ou ainda leveza, etérea leveza.
Saltas e o arco nasce da terra
com o fulgor do voo do colibri.
O airoso ganha todo o esplendor
no diáfano contorno do teu corpo.
Vestem-se os reflexos do sol
nos vários areais desertos,
os seus variados reflexos.
[190]
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couto
sexta-feira, dezembro 16, 2005
Glória de Santana
SEGUNDO POEMA DA SOLIDÃO
Serei tão secreta
como o tecido da água
e tão leve
e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem
e todo o alheio pecado
do gesto, da presença ou da palavra
que logo que a tua mão me prenda
me não acharás:
serei de água
[189]
SEGUNDO POEMA DA SOLIDÃO
Serei tão secreta
como o tecido da água
e tão leve
e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem
e todo o alheio pecado
do gesto, da presença ou da palavra
que logo que a tua mão me prenda
me não acharás:
serei de água
[189]
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gloria
domingo, dezembro 11, 2005
Fernando Couto
VERÃO AFRICANO
A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar – um velho cão adormecido.
[188]
VERÃO AFRICANO
A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar – um velho cão adormecido.
[188]
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couto
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Alberto de Lacerda
MOÇAMBIQUE
Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar
[187]
MOÇAMBIQUE
Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar
[187]
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domingo, novembro 27, 2005
Rui Knopfli
MÚSICA DE FIM DE DIA
Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(outros tomas estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:
Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:
Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra…
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.
[186]
MÚSICA DE FIM DE DIA
Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(outros tomas estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:
Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:
Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra…
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.
[186]
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segunda-feira, novembro 21, 2005
Alberto de Lacerda
OUTROS SONS
Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas
Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço
[185]
OUTROS SONS
Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas
Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço
[185]
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terça-feira, novembro 15, 2005
Alberto de Lacerda
ATRIBUTOS DIVINOS
O pudor é um atributo divino
O impudor selvagem também
E o riso aberto e o choro alto
E a lágrima recolhida nas mãos solitárias da noite
E o sorrir para si próprio que ninguém mais entende
Tudo isso são atributos divinos
São as estações do ano
Próprias do amor
[184]
ATRIBUTOS DIVINOS
O pudor é um atributo divino
O impudor selvagem também
E o riso aberto e o choro alto
E a lágrima recolhida nas mãos solitárias da noite
E o sorrir para si próprio que ninguém mais entende
Tudo isso são atributos divinos
São as estações do ano
Próprias do amor
[184]
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quarta-feira, novembro 09, 2005
quinta-feira, novembro 03, 2005
Alberto de Lacerda
A MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância
[182]
A MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância
[182]
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sexta-feira, outubro 28, 2005
Alberto de Lacerda
MANDIMBA METÓNIA VILA CABRAL
Infância triste mas encantada
Em casas grandes muito sombrias
Outras crianças não as havia
Os meus amigos? Dois grandes gatos
A luz o vento a água a água
Se alguém tocava velho e roufenho
O gramofone de manivela
Eu perturbava-me e a quem me via
Com lágrimas que não entendia
Havia festas de vez em quando
Eram janelas do paraíso
Lembro os adultos. Como eram estranhos
Como eram estranhos e imprevistos
Como eu sentia que não sei onde
Um outro reino de festa e luz
Inteiramente me pertencia
E só de longe naquelas casas
Naquela gente que me era fria
Muito por alto se reflectia
[181]
MANDIMBA METÓNIA VILA CABRAL
Infância triste mas encantada
Em casas grandes muito sombrias
Outras crianças não as havia
Os meus amigos? Dois grandes gatos
A luz o vento a água a água
Se alguém tocava velho e roufenho
O gramofone de manivela
Eu perturbava-me e a quem me via
Com lágrimas que não entendia
Havia festas de vez em quando
Eram janelas do paraíso
Lembro os adultos. Como eram estranhos
Como eram estranhos e imprevistos
Como eu sentia que não sei onde
Um outro reino de festa e luz
Inteiramente me pertencia
E só de longe naquelas casas
Naquela gente que me era fria
Muito por alto se reflectia
[181]
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quarta-feira, outubro 19, 2005
Grabato Dias
NECROLOGIA LAURENTINA
Só netos eram quarenta
sonetos pr’aí uns vinte
bolotos plantou alguns
o patriarca aos oitenta
sabe que bateu no vinte
e é homem como nenhum.
Tem o pelinho na venta
(digo-o sem nenhum acinte…)
E é filiado na un.
[180]
NECROLOGIA LAURENTINA
Só netos eram quarenta
sonetos pr’aí uns vinte
bolotos plantou alguns
o patriarca aos oitenta
sabe que bateu no vinte
e é homem como nenhum.
Tem o pelinho na venta
(digo-o sem nenhum acinte…)
E é filiado na un.
[180]
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quinta-feira, outubro 13, 2005
Rui Knopfli
PIRÂMIDE. 7
Salvo o recorte da cidade,
ângulos e linhas secas,
arestas cinzentas cortando
a palidez indecisa.
Salvo com nitidez
isso e nada mais:
Um perfil rígido
de tristes tons esmaecidos.
Salvo esse desenho morto,
esses silêncios desabitados,
sem cores, sem vozes,
sem árvores. Isso guardo
e nada mais, a imagem
doente do espaço
outrora habitado.
[179]
PIRÂMIDE. 7
Salvo o recorte da cidade,
ângulos e linhas secas,
arestas cinzentas cortando
a palidez indecisa.
Salvo com nitidez
isso e nada mais:
Um perfil rígido
de tristes tons esmaecidos.
Salvo esse desenho morto,
esses silêncios desabitados,
sem cores, sem vozes,
sem árvores. Isso guardo
e nada mais, a imagem
doente do espaço
outrora habitado.
[179]
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quinta-feira, outubro 06, 2005
João Paulo Borges Coelho
SETENTRIÃO / IBO AZUL (excerto/2)
Mais adiante, o quintal de njungo Santinho waMucojo, onde gerações de maçanicas amarelas e vermelhas se deixavam engelhar ao sol como a pele que esse velho teria se hoje fosse vivo, espalhadas sobre as esteiras, exalando a luxúria do seu cheiro. E onde castanhas de caju polidas como pedras preciosas se alinhavam nos tabuleiros, pequeno exército disciplinado e brilhante. Uma banca à porta, onde o povo vinha comprar o lanho ao preço que fosse, o aroma das mangueiras manchando o ar, as galinhas debicando ou dormitando nos ramos baixos das árvores, o bico escondido entre as asas. As vozes soltas das mulheres, as gargalhadas sacudindo-se, os chamados golpeando. Gente ordenando e acatando em português antigo ou em kimwane límpido como a água da cisterna. Fresco e escuro como ela.
[178]
SETENTRIÃO / IBO AZUL (excerto/2)
Mais adiante, o quintal de njungo Santinho waMucojo, onde gerações de maçanicas amarelas e vermelhas se deixavam engelhar ao sol como a pele que esse velho teria se hoje fosse vivo, espalhadas sobre as esteiras, exalando a luxúria do seu cheiro. E onde castanhas de caju polidas como pedras preciosas se alinhavam nos tabuleiros, pequeno exército disciplinado e brilhante. Uma banca à porta, onde o povo vinha comprar o lanho ao preço que fosse, o aroma das mangueiras manchando o ar, as galinhas debicando ou dormitando nos ramos baixos das árvores, o bico escondido entre as asas. As vozes soltas das mulheres, as gargalhadas sacudindo-se, os chamados golpeando. Gente ordenando e acatando em português antigo ou em kimwane límpido como a água da cisterna. Fresco e escuro como ela.
[178]
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domingo, setembro 25, 2005
João Paulo Borges Coelho
SETENTRIÃO / IBO AZUL (excerto/1)
Tudo o que o homem traz são vantagens. Detém conhecimentos universais enquanto que à mulher só lhe foram revelados os pequenos segredos da roda das avós, segredos fermentados na repetição do viver diário, máximas vulgares e todavia poderosas, pela idade que já levam. Será mais previsível ser ele a inquirir, ela a responder com monossilábicos pudores ou abertas gargalhadas. É ele que avança, ela espera. No entanto, e sem que o homem o saiba ainda, quando se encontrarem os dois todas as vantagens que ele traz se desmoronarão. Porque quem pergunta tem necessidades, quem responde dá. A fragilidade da sua posição só a descobrirá contudo quando dobrar o velho pontão para lá, ou ela o fizer para cá, dependendo de qual dos dois ali chegar primeiro, e se encontrarem enfim cara a cara. Ele detém a vantagem da idade e das ideias, ela a da terra sobre a qual assentam as suas pernas vigorosas, do fervilhar dessa terra e daquilo que lhe falta ainda descobrir na vida que vai viver.
[177]
SETENTRIÃO / IBO AZUL (excerto/1)
Tudo o que o homem traz são vantagens. Detém conhecimentos universais enquanto que à mulher só lhe foram revelados os pequenos segredos da roda das avós, segredos fermentados na repetição do viver diário, máximas vulgares e todavia poderosas, pela idade que já levam. Será mais previsível ser ele a inquirir, ela a responder com monossilábicos pudores ou abertas gargalhadas. É ele que avança, ela espera. No entanto, e sem que o homem o saiba ainda, quando se encontrarem os dois todas as vantagens que ele traz se desmoronarão. Porque quem pergunta tem necessidades, quem responde dá. A fragilidade da sua posição só a descobrirá contudo quando dobrar o velho pontão para lá, ou ela o fizer para cá, dependendo de qual dos dois ali chegar primeiro, e se encontrarem enfim cara a cara. Ele detém a vantagem da idade e das ideias, ela a da terra sobre a qual assentam as suas pernas vigorosas, do fervilhar dessa terra e daquilo que lhe falta ainda descobrir na vida que vai viver.
[177]
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domingo, setembro 18, 2005
PEIXE SECO COM ÓLEO DE AMENDOIM
1 kg de peixe seco cortado aos bocados
2 cebolas cortadas aos bocados
3 tomates cortados aos bocados
4 colheres de sopa de óleo de amendoim
O peixe tem de ser demolhado para se extrair o sal e em seguida lavado com água quente. Ferve-se o óleo de amendoim e junta-se a cebola, o tomate e o peixe. Deixe cozer durante vinte minutos. Serve-se quente.
1 kg de peixe seco cortado aos bocados
2 cebolas cortadas aos bocados
3 tomates cortados aos bocados
4 colheres de sopa de óleo de amendoim
O peixe tem de ser demolhado para se extrair o sal e em seguida lavado com água quente. Ferve-se o óleo de amendoim e junta-se a cebola, o tomate e o peixe. Deixe cozer durante vinte minutos. Serve-se quente.
domingo, setembro 11, 2005
Hélder Muteia
NÓS E O DESTINO
Ao Patraquim
O tempo sacode na areia o musgo dos pés
no plasma do orvalho lava o rancor das mãos,
somos pó e pólvora na combustão da História
medimos aos milhões o fragor de cada acto consumado
e entre nós e o destino vai um palmo de esperança
que por sorte marcha a pé.
É o silêncio o mártir predilecto desse gesto
quando a fome não satisfaz a míngua da boca
e as migalhas fermentam o cuspo de cada um
pois é então cruel o nosso grito inevitável
e ardem em brasa os braços cálidos de vontade.
No mesmo chão em que brindamos os sacrifícios
cremos ter semeado a sílaba mágica
dessa oração de manter a mão de outro irmão
lacrada à nossa;
e só na hora de adorar o luar e os batuques frenéticos
nos desfazemos em êxtase
triturando o mesmo pó de que somos feitos.
[176]
NÓS E O DESTINO
Ao Patraquim
O tempo sacode na areia o musgo dos pés
no plasma do orvalho lava o rancor das mãos,
somos pó e pólvora na combustão da História
medimos aos milhões o fragor de cada acto consumado
e entre nós e o destino vai um palmo de esperança
que por sorte marcha a pé.
É o silêncio o mártir predilecto desse gesto
quando a fome não satisfaz a míngua da boca
e as migalhas fermentam o cuspo de cada um
pois é então cruel o nosso grito inevitável
e ardem em brasa os braços cálidos de vontade.
No mesmo chão em que brindamos os sacrifícios
cremos ter semeado a sílaba mágica
dessa oração de manter a mão de outro irmão
lacrada à nossa;
e só na hora de adorar o luar e os batuques frenéticos
nos desfazemos em êxtase
triturando o mesmo pó de que somos feitos.
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domingo, setembro 04, 2005
Grabato Dias
LAURENTINA DESAGRAVADA
Termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz turbada,
já de si mesmo etc. … bom!
estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.
O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.
e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado
[175]
LAURENTINA DESAGRAVADA
Termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz turbada,
já de si mesmo etc. … bom!
estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.
O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.
e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado
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quarta-feira, agosto 31, 2005
Alberto de Lacerda
MELANCIA
Uma talhada de melancia
É uma rosa com pintas negras
Traz o deleite de quem cicia
Líquidos cantos por entre pedras
É uma frescura é uma cor
Que se dissolve ou se evapora?
É um vento doce sobre o calor
É flor que beja quem a devora
Devora não Tão manso e fundo
Prazer é dado na melancia
Que é brandamente que ela se funde
Na nossa boca que a acaricia
[174]
MELANCIA
Uma talhada de melancia
É uma rosa com pintas negras
Traz o deleite de quem cicia
Líquidos cantos por entre pedras
É uma frescura é uma cor
Que se dissolve ou se evapora?
É um vento doce sobre o calor
É flor que beja quem a devora
Devora não Tão manso e fundo
Prazer é dado na melancia
Que é brandamente que ela se funde
Na nossa boca que a acaricia
[174]
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domingo, agosto 28, 2005
Alberto de Lacerda
LOURENÇO MARQUES REVISITED
A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que persorrem
Trinta e quatro anos
[173]
LOURENÇO MARQUES REVISITED
A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que persorrem
Trinta e quatro anos
[173]
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terça-feira, agosto 23, 2005
João Paulo Borges Coelho
SETENTRIÃO / AS CORES DO NOSSO SANGUE (excerto)
Entrem. Façam de conta que estão em vossa casa. Eis a Zambézia, terra do chá e do coco, terra da fertilidade. Terra das donas belas e autoritárias, e dos pratos suculentos. Terra do camarão. Diziam isso antes, continuaram a dizê-lo depois. Não sabemos, no entanto, se tudo isso será de fiar. E para que serve. É que temos também cá uma pobreza antiga e arreigada que não sabemos mais o que fazer para nos vermos livres dela. Uma pobreza que só tem vindo a piorar. Uma pobreza que cada um vê e sente de maneira diferente: no Alto Molócuè acenando subservientemente a quem passa, no Alto Ligonha ignorando sobranceiramente quem nos acena. O problema é das estradas, dizem. Houvesse estradas e essa pobreza tomaria uma delas e iria para bem longe daqui. Talvez sim, respondemos nós, e talvez não. É que havendo estradas, e escoando-se por elas os nossos males, pode ser que por elas venham também os males dos outros que ainda não conhecemos. Deixemo-nos portanto ficar assim mais um pouco, a reflectir. Deixemo-nos ficar assim mais um pouco, cada qual no seu lugar. Pensando duas vezes antes de pôr o pé na nuvem de pó se é em Agosto, no mar de lama se em Fevereiro. Ai de nós, que padecemos da doença de ter de caminhar! Ai de nós, que aos espíritos que nos assolam e agitam não há obstáculo – lama ou pó – que os detenha!
[172]
SETENTRIÃO / AS CORES DO NOSSO SANGUE (excerto)
Entrem. Façam de conta que estão em vossa casa. Eis a Zambézia, terra do chá e do coco, terra da fertilidade. Terra das donas belas e autoritárias, e dos pratos suculentos. Terra do camarão. Diziam isso antes, continuaram a dizê-lo depois. Não sabemos, no entanto, se tudo isso será de fiar. E para que serve. É que temos também cá uma pobreza antiga e arreigada que não sabemos mais o que fazer para nos vermos livres dela. Uma pobreza que só tem vindo a piorar. Uma pobreza que cada um vê e sente de maneira diferente: no Alto Molócuè acenando subservientemente a quem passa, no Alto Ligonha ignorando sobranceiramente quem nos acena. O problema é das estradas, dizem. Houvesse estradas e essa pobreza tomaria uma delas e iria para bem longe daqui. Talvez sim, respondemos nós, e talvez não. É que havendo estradas, e escoando-se por elas os nossos males, pode ser que por elas venham também os males dos outros que ainda não conhecemos. Deixemo-nos portanto ficar assim mais um pouco, a reflectir. Deixemo-nos ficar assim mais um pouco, cada qual no seu lugar. Pensando duas vezes antes de pôr o pé na nuvem de pó se é em Agosto, no mar de lama se em Fevereiro. Ai de nós, que padecemos da doença de ter de caminhar! Ai de nós, que aos espíritos que nos assolam e agitam não há obstáculo – lama ou pó – que os detenha!
[172]
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sexta-feira, agosto 19, 2005
Hélder Muteia
PRESENÇA
Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentira
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas…
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
[171]
PRESENÇA
Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentira
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas…
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
[171]
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segunda-feira, agosto 15, 2005
José Craveirinha
FÁBULA
Menino gordo comprou um balão
e assumou
assoprou com força o balão amarelo.
Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!
Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.
[170]
FÁBULA
Menino gordo comprou um balão
e assumou
assoprou com força o balão amarelo.
Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!
Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.
[170]
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sábado, agosto 06, 2005
João Paulo Borges Coelho
SETENTRIÃO / O HOTEL DAS DUAS PORTAS (excerto)
As minhas colegas andam sempre com revistas: a Jours de France se são snobs, o Paris Match se preocupadas com o mundo, o Reader’s Digest se têm a mania que lêem, o Capricho ou o Grande Hotel se ainda são sensíveis ao romance e esperam uma vida melhor; enfim, a Plateia ou a Crónica Feminina se são recém-chegadas, saloias, com saudades da terra de onde vieram. Quanto a mim, gosto de literatura.
Lia o Bonjour Tristesse (não sei se conhecem), que lamentavelmente nunca cheguei a acabar e agora nunca mais terei oportunidade de o fazer. Lembro-me de que achei curiosa a coincidência do enredo também se tecer numa praia, envolvendo uma rapariga que, guardadas as distâncias, até era parecida comigo. Ou, mais exactamente, de quem eu me sentia próxima. O mesmo mar imutável no seu repetido movimento; a mesma areia pesada, imune ao tempo; o mesmo sol lento e monótono. E, todavia, tudo se transformando velozmente em redor da rapariga e dentro dela. Também eu sentia uma transformação intenso fermentando dentro de mim, embora, ao contrário dela, não soubesse ainda definir-lhe os contornos. Nem suspeitasse quão radical acabaria por ser.
[169]
SETENTRIÃO / O HOTEL DAS DUAS PORTAS (excerto)
As minhas colegas andam sempre com revistas: a Jours de France se são snobs, o Paris Match se preocupadas com o mundo, o Reader’s Digest se têm a mania que lêem, o Capricho ou o Grande Hotel se ainda são sensíveis ao romance e esperam uma vida melhor; enfim, a Plateia ou a Crónica Feminina se são recém-chegadas, saloias, com saudades da terra de onde vieram. Quanto a mim, gosto de literatura.
Lia o Bonjour Tristesse (não sei se conhecem), que lamentavelmente nunca cheguei a acabar e agora nunca mais terei oportunidade de o fazer. Lembro-me de que achei curiosa a coincidência do enredo também se tecer numa praia, envolvendo uma rapariga que, guardadas as distâncias, até era parecida comigo. Ou, mais exactamente, de quem eu me sentia próxima. O mesmo mar imutável no seu repetido movimento; a mesma areia pesada, imune ao tempo; o mesmo sol lento e monótono. E, todavia, tudo se transformando velozmente em redor da rapariga e dentro dela. Também eu sentia uma transformação intenso fermentando dentro de mim, embora, ao contrário dela, não soubesse ainda definir-lhe os contornos. Nem suspeitasse quão radical acabaria por ser.
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