sábado, maio 14, 2005

Grabato Dias

LAURENTINA DJAMBULAR CAFEZINHO DAS DEZ

Tivera eu a certeza
que o deus, que parte e reparte,
se fica co’a melhor parte
em cima de sua mesa…

e faria uma loucura
qualquer coisa de bonito
que dignificasse o aflito
da minha medianura!


[152]

segunda-feira, maio 09, 2005

Luís Carlos Patraquim

FREI MUTIMÁTI GRABATO JOÃO

«Vemos só o que vemos sabendo que há mais
Do outro lado do aquilo, no delá da galba»

P’la estrada de Machava, à esquina da Meseta,
como Rolando sob a última fachada
ou como quem tropeça piqueno
e um Morto muito
lhe deve versos – o cono! –
mai-lo zarolho que lhe deu
claramente visto o Povo,
lá vai Frei João, o Mutimáti,
ao grabato da alma.

Psiu, D. Antónia; João dos barcos
desancorados da infância; Amélia,
múgica guitarra onde sob os cabelos
a voz e tu, menino,
que arado adunco nos mostraste em obra,
visto que o autor é o seu próprio processo,
e dele nem Virgílio o nomeia
em verde prado onde os deuses apascentou;
Psiu, que p’lo caminho de Inhaminga,
p’lo caminho de Santiago com a Rosa na Arca
e a sapata grossa ecoando, cavernosa,
~uas quybyrycas de Barcelos,
lá vai Mutimáti mai-lo cachimbo
de chicaocao e canho adornando ogres,
floresta obscura, parva savana nítida.

D’oiro menino e número ele busca, um zunido,
não de Deucalião a curva da pedra batendo
e a terra ferida e nem os círculos
sobressaltando as águas, tingindo-as
de um cenho triste, mas de puríssimo mel
desenhando o vário Mundo, branco estertor
que da tela golfa e onde pasta
a bela novilha – ou Inês? – sossegada
e Ele sacoleja o tinthohlo
como uma Canção Desesperada.

Haverá odes de haverás e,
no delá da galba, gájaras de Ceres
generosa e um cajueiro em seu júbilo
entesourando a colheita
e os súcios nem o cuspo de um verso teu
merecem onde minucioso te deste à desova
e o Cavré ainda salga os velhos espíritos
e o Rui sangra a sombra ardida e verde
e tu a veres só o que vês
sabendo que há mais do outro lado
do aquilo onde agora estás.


[151]

quarta-feira, maio 04, 2005

Pedro Muiambo

A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/3)

27.

Samora Machel, uma biografia por censurar

Samora Machel tinha nascido marcado pela sina da rebeldia. Por exemplo, o primeiro ano da sua vida durou apenas um ápice. Ele crescia rápido, apressadíssimo, como se tivesse que ir marcar o lugar numa fila de pão. Quando a mãe, sem a autorização paterna, levou-o a baptizar na capela local, ele aprontou uma enormidade: urinou na pia baptismal. E Deus há-de ter ficado de tal forma ofendido, que o condenou quer a não atingir nunca habilitações literárias superiores ao quinto ano, quer a nunca saber falar coreano. O veredicto divino foi traduzido pelo padre, em português corrente:
- Leva-me esse verme daqui para fora!
Mas Samorito ia vivendo a vida que podia.
Punha-se a soluçar quando avistava um colonialista ou, ainda, quando os irmãos mais velhos, invejosos por causa dos mimos que recebia da mãe, beliscavam-lhe as nádegas.
Mas, às vezes, Samora chorava ou dançava ou se ria sem razão aceitável. Certo dia chegou mesmo a chorar horas intermináveis, como sinal de protestocontra o facto de um dos seus irmãos ter-lhe dado a lamber piri-piri. Já adulto, e depois de ascender à presidência da república, Samora veio a ganhar tal sentido de humor que autorizou os serviços da contra-inteligência, o temido SNASP, a investigar qual dos irmãos lhe tinha aprontado tão picante partida; e sentenciou: “Ponham-no o mesmo produto nos olhos”.
Para acabar com aquela choradeira o pai de Samorito, bem disposto, imitou o jeito como os mineiros grampeavam nas minas do Jone, despindo a esposa para o exemplificar…


Samorito gostava muito das formigas.
Um dos hobbies preferidos de Samorito consistia em contemplar as formigas na sua labuta.
Tão cedo abandonava a esteira, dirigia-se a correr para um formigueiro nas traseiras do curral de cabritos e deixava-se ali ficar, esquecido de si próprio e do cheiro nauseabundo, esperando que as formigas assomasse. Era o primeiro a saudá-las com um awuxeni vamakweru.
Até já as conhecia pelos nomes! Elas também o conheciam pelo nome, mas por qualquer razão misteriosa nunca pronunciavam em voz alta.
Adorava também vê-las, as formigas, a trabalhar, ou mais concretamente, a arrastar bichinhos. Aliás, foi nessa época que aprendeu as suas primeiras lições sobre como a união faz a força. Há, inclusive, quem acredite que tenha sido uma formiga que lhe recomendou a organização das jornadas colectivas de trabalho implementadas a seu mando muito mais tarde, após o alcance da independência nacional.
Quando o sol se aprumava e queimava o chão, as formigas viam-se à nora para fazer o seu trabalho. Samorito, cheio de compaixão, pegava no chapéu de palha do pai e, todo bonacheirão, fornecia-lhes sombra. Era o prenúncio do seu “internacionalismo militante”.
Até se dava bem com as temidíssimas formigas vermelhas que moravam, e, para nossa felicidade, continuam a morar, nas árvores (imaginem se morassem debaixo dos colchões), e levam o nome xishangana de swinhonho. Certa vez, mobilizadas por Samorito, quarenta mil e três formigas, e mais uma pequenina – mas muito espertinha -, foram visitar o régulo na sua palhota e puseram-se a mordiscá-lo na abertura entre as nádegas. O régulo despojou-se completamente das vestes, saiu de casa a correr como uma flecha e gritando nyandayeyo!
Em pleno meio da tarde!
Assim ficou a povoação a saber que o seu responsável tradicional máximo tinha as nádegas muito mais escuras do que o resto do corpo, o que deu lugar a um riso comunitário…

Samorito tinha ficado na árvore onde morava o exército formigueiro em nichos feitos com base em folhas verdes, a fazer de babysitter, isto é, a cuidar das crias das formigas.
Humilhado, o régulo da povoação de Samorito procurou vingar-se ordenando aos sipaios que cuspissem sobre todas as árvores da aldeia em sinal de desprezo para com as swinhonho…
Nessa semana, morreram dez sipaios desidratados.
As formigas?
Essas ficaram de facto envergonhadas, de tal forma que se puseram em pranto e não queriam mais abandonar o recôndito dos seus nichos. Mas Samorito apressou-se a consolá-las, dedicando-lhes palavras meigas tais como: “aliadas naturais”, e até ofereceu-se a ajudá-las quando se decidissem por organizar uma aldeia comunal.

Mas estava escrito que o pequeno Samora aprontaria uma “boa” para consigo próprio.
Foi assim: na casa de Samorito gingavam duas goiabeiras muito férteis. O menino, apesar das constantes advertências da mãe, punha-se a devorar desalmadamente as goiabas verdes.
Eis que um belo dia as goiabas decidem fazer uma greve, endurecendo no seu estômago, e impossibilitando-lhe de fazer a caca. Mesmo sentindo uma grande vontade de se aliviar, o esperado cocó não fazia pum. Não conseguia sequer levantar a barriga e, por extensão, todo o seu corpo. E ele, coitadinho, que não sabia o que fazer nessas “desemergências”! Como é que um garoto de cinco anos pode saber, verdade seja perguntada, que um probleminha desses se resolve, por exemplo, tyocoletelando o interior do ânus com um pauzinho? Deixou-se simplesmente ficar onde estava, genuflectido, a soluçar, o pobre coitado.
Na verdade, nem chorar correctamente ele conseguia. O seu era um choro hilariante, que teve, inclusivamente, o condão de fazer rir um dos mais amargos habitantes da povoação, o tal Aquele-que-se-ri-uma-vez-só-por-ano, que coincidentemente transitava por perto. Era um choro assim: ha hem, ha heemu hom haa ha heemu hom haa hem hem hem heemuuuuu…
Só lá ao fim do dia, quando o pai e a mãe regressaram da machamba, é que o seu problema foi finalmente solucionado, mas mesmo eles tiveram que recorrer ao extremoso método do pedacinho de sabão no ânus…
Mas o menino ficara definitivamente traumatizado. Nunca mais na vida conseguiria aproximar-se de uma goiabeira.
Mais tarde, durante a guerra de libertação nacional, instantes antes de os guerrilheiros da FRELIMO atacarem uma base, ele dava orientações terminantes aos seus homens de reconhecimento para localizarem, antes do resto, a posição das goiabeiras.
Oiçamos um depoimento de um guerrilheiro que combateu às suas ordens:
- O comandante Samora Machel era um tipo temerário, menos quando lembrava-se das goiabas. Quando isso acontecia era um “acudam-me os espíritos”: punha-se todo a tremer como uma vara de caniço e corria de um lado para o outro até esconder-se debaixo de uma saia qualquer no destacamento feminino! Aliás, foi assim que ele conheceu a sua primeira namorada. Inclusivamente, quando lhe atacava uma onda de romantismo, costumava dizer-lhe: “o nosso foi um amor ao primeiro cheiro”. Se tivesse tido algum motivo para trair a FRELIMO, como agora tenho, teria aconselhado ao Kaúlza de Arriaga a bombardear a frente de Tete com goiabas aquando da operação “Nó Górdio”.
Depois do triste incidente, o nosso pequeno herói ficou sombrio. Já não se reconhecia nele aquele rebelde temporão infinitamente comprometido com a causa do seu povo. O seu ar fazia até prever o dia em que, já presidente, assinaria um acordo de boa vizinhança e não agressão com os boers, o Acordo de Nkomati, cujo maior, senão exclusivo, proveito para os moçambicanos foi a oportunidade de inaugurar os dentes na polpa do fruto europeu do pecado (a maçã) oferecido em toneladas por Peter Botha, em sinal da suas “boas intenções”, e distribuído pelos hospitais e escolas do país.
Por outro lado, Samorito sofreu também uma profunda perturbação psicológica, caracterizada por dificuldades afectivas, nomeadamente, no relacionamento com os seus irmãos cujos testículos faziam-lhe recordar as malfadadas goiabas.
Como corolário dessa inquietante situação, ele continuou a urinar na esteira mesmo após completar os 10 anos de idade.

Samorito sofria de enurese!
É verdade que, desde os dezoito meses, se fora paulatinamente asseando. Começara pelo cocó. E quando se pensava que, completados os cinco anos, e como é normal na província de Gaza, ele passasse para o asseio nocturno, em termos urinários, eis que a sua estabilidade psicológica conhece o abalo relacionado com o episódio das goiabas revoltadas.
Quem regressasse a sua casa, não tinha como evitar a enjoativa imagem: mantas e esteiras estendidas ao sol, bem destacadas nas faces, grandes manchas negras provocadas pela persistente exposição à urina. E o cheiro, meu Deus! Era o caso de pensar – como, certo dia, calhou a certo transeunte – que naquela casa se vendia whisky, essa bebida decadente dos capitalistas.
Escusado é dizer o quanto esse fenómeno por muita gente tido como banal – assim nos reportam as revistas que estudam a enurese em Portugal – deixou os pais de Samora inquietos e irrequietos.
Começaram por dedicar longas sessões de piparotes ao pénis do miúdo de cada vez (sempre) que as micções involuntárias sucediam. Mas, curiosamente, essa terapia não foi bem sucedida.
Seguidamente adoptaram o sistema de acordá-la no meio da noite, convidando-o a aliviar-se no penico. Mas, invariavelmente, por essas alturas, a bexiga do menino apresentava-se vazia. Ele, intempestivo, já se tinha aliviado nos cobertores.
Foi então que se decidiram por cortar o… cortar com a ingestão de líquidos nas horas vespertinas, mas tiveram que desistir da ideia, pois o pequeno ameaçou-lhes trocar o chichi pelo cocó.
- Passo a fazer a caca na cama, eu – esgrimiu.
Mas quando os piolhos tomaram de assalto a casa, a ponto de aparecerem como ingredientes nos pratos confeccionados pela avó de Samorito, aí então os seus pais tomaram a decisão de o levar ao curandeiro onde ficou internado durante uma semana. O curandeiro prescreveu-lhe uma terapia muito original: sempre que o menino urinava na cama, arranjava as coisas de modo que ele encontrasse, ao despertar pela manhã, uma maria-café enrolada ao pénis… e deixava-o gritar desenfreadamente sem consagrar-lhe nenhum tipo de mimos…
Esta última terapia teve um êxito estrondoso. Dir-se-ia mesmo, um êxito desmesurado. Para lá da conta. Samora nunca mais pôde urinar; isto é, em situação alguma, fosse na cama, fosse noutro sítio qualquer – pelo menos não da forma ortodoxa, porquanto a sua via urinária transferira-se definitivamente para o ânus.
Metia cá uma impressão vê-lo sempre a agachar-se, como a matriarca Eva fazia, para urinar.
Mas este episódio viria, ao longo da sua combativa vida, permitir-lhe poupar tempo suficiente para ensaiar aquele seu gesto famoso, ou seja, o dedo em riste, uma vez que as suas necessidades menores se tinham juntado, numa sinergética inovação, àquelas maiores.
Por outro lado, Samora reassumiu finalmente a sua característica rebeldia.


[150]

sábado, abril 30, 2005

José Craveirinha

MAMPSINCHA

A mampsincha
é um fruto africano
rasteiro ali onde nasce
e cresce de cor verde
enquanto púrpuro não se torna
e já sazonado o levanta
nas puras mãos de ébano
o negrinho na gula do seu caroço.


[149]

terça-feira, abril 26, 2005

Jall Sinth Hussein

SÃO AS COISAS E TÊM ALMA PRÓPRIA

São as coisas e têm alma própria
e as nomeio pedra água pau casa
e me equilibro e perco em seu centro
mas as trato como pessoas iguais a mim.
Nunca estou só como as crianças
que frente a ninguém estão no meio dos seus amigos.
São as coisas e povoam tudo como pessoas
e como pessoas me cercam e seu coração lhes bate e me chama.
Suas almas atravesso e as trato por tu


[148]

sexta-feira, abril 22, 2005

Pedro Muiambo

A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/2)

Havia quem a chamasse uma mulher sem idade. E quem a considerasse uma convergência de graças infinitas. Ou uma alavanca de desvarios.
Os homens escondiam-se com frequência das suas esposas, faziam-se aos lugares mais recônditos das suas habitações, abriam as braguilhas, introduziam as mãos e, voilá, entregavam-se à arte humana mais remota – a de ordenhar o próprio touro – deixando escapar mudas interjeições.
Mas não eram apenas os homens que suspiravam por ela: também as mulheres.
Viam-na, aquela borboleta, esvoaçando entre as bancas do mercado, e todas elas estacavam o passo, e antes mesmo que a auto-estima lhes impedisse, debruçavam-se aos seus pés, minimizavam-se, por assim dizer, em submissa rendição.
E quando, de noite, à cama se faziam, e eventualmente lá não encontravam os esposos, voltavam a pensar nela, obsessivamente, na aura que a iluminava e naqueles seios agressivos, o andar arrebatador, enfim…
“Pensam no infinito, estas mulheres”, adivinhava sô Ribeiro, o bom do tuga, que passava a vida a falar dos livros que dizia ter lido, ou do bom azeite de oliveira que dizia ter crescido a saborear lá em Trás-os-Montes, onde nascera. “E macacos me mordam se eu também não desejo o infinito”, rematava, cuidando no entanto que a sua consorte não o ouvisse.
E o que dizer o Ubaldo Delgado, o cooperante cubano que leccionava matemática no centro de formação de professores, em Chibututuíne, a sete quilómetros da vila. Um tipo que se derramava em versos, tão cedo a avistava ou dela ouvia falar, sem se importar com os possíveis escândalos sociais que a sua atitude poderia provocar, nem em traduzir para os seus confrades moçambicanos os seus frémitos românticos.
(…)

O nome dela era Maceda Magaço.
Era mãe de Isayana.

Enfim, ninguém ficava alheio à aura esplendorosa que dimanava daquela mulher. No seu confronto, ou se era do leste ou se era do ocidente. Não-alinhado era uma possibilidade inexistente.
O próprio governador da província chegara a afirmar em pleno comício, exibindo-a: “Ela é a máxima demonstração de que a revolução socialista pode alcançar o que se supões estar apenas na alçada dos deuses: o milagre da beleza. Sendo assim, precisamos de deus para quê?”
Fortes aplausos.


[147]

segunda-feira, abril 18, 2005

Victor Matos e Sá

A RUI DE NORONHA

Poder, Amigo
chamar-me irmão na tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor;

Ja que um destino diferente
e os anos,
Puseram longas, infinitas margens
entre as nossas vidas
afastadas...

Tu, lá no último Sonho
onde a verdade existe em cada um
como um sangue puro,
como uma lua natural.
E eu
ainda nesta luta
de viver
sofrendo
o mesmo mal.

Este malfeito destino
desde meus sonhos primeiros
de menino;
este mal de chorar sempre
a dor comum dos desgraçados
e ter lágrimas ainda
para os nossos sonhos
destroçados...

Esta mal
só mal para o mundo
a nossa única essência de viver
e contar
diversamente
a mesma eterna agonia...
Este mal que vem a ser
a poesia...

Deixa-me, pois, Amigo
(Diante qualquer noite deserta
em que o silêncio
e a sonolência de tudo
seja para nós
a única porta inteiramente aberta
e o nosso altar)
ficar contigo um só instante,
- apenas o bastante
para te Amar!

E poder, Amigo,
chamar-me irmão da tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor...


[146]

sábado, abril 16, 2005

Pedro Muiambo

A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/1)

Brincava no jardim frontal da vivenda que juntamente com outras cinco dezenas, de igual pequenez e ordinarice, inventavam aquela vila sobranceira ao Incomáti – quando as surpreendeu.
Precipitavam-se, num jogo de matyangwe-tyangwe, para um buraquito cavado no centro do relvado.
As formigas.
Agachou-se a acolheu-as, qual monge solene, com a sombra do seu corpinho. Enlevado. Boquinha semiaberta. Olhos reflectindo estrelas inexistentes no amplo azul celeste. Eram uns olhos grandes, justamente a medida da interrogação das crianças, na sua ingénua, entusiástica e mórbida filosofia.
E tão voraz era a sua curiosidade, que quase derrubava o formigueiro com a potestade da sua contemplação.
Foi no ano em que a fome chegou pelas asas dos gafanhotos.
Nesse inolvidável ano de 1980.
Isayana Magaço prosseguia a sua infanta desvenda do cosmos enquanto, lá das nuvens, aos olhos dos passarinhos, parecia entregue aos fúteis mistérios dos homens.
Na verdade, naquele ângulo, era-lhes difícil reparar que o garoto batia também as suas asas, à sombra daquele eucalipto imponente.


[145]
Bibliografia essencial: Pedro Muiambo, A Enfermeira da Bata Negra, Campo das Letras

domingo, abril 10, 2005

Jall Sinth Hussein

MOÇAMBIQUE 75 – PRAÇA MOUZINHO DE ALBUQUERQUE

Era um dia solitário e pequeno
dia confidencial e toscamente feito
dia de homenagem nas traseiras

o instante parecia feito para recuar.

Quando homens sem nome
apearam Mouzinho
vi a natureza confusa das coisas
o mundo de pressa e emenda que me levava ignorado.

Eu não – que não estava ali –
mas com uns olhos limpos que podiam ser os meus.


[144]

sexta-feira, abril 08, 2005

GALINHA À CAFREAL

1 frango
1 colher de sopa de azeite
Sumo de meio limão
4 piri-piris
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de pimenta
4 dentes de alho picados

Abrem-se os frangos pelas costas e espalmam-se. Misture o azeite, sumo de limão, piri-piri, sal, pimenta e alho. Tempere a galinha com esta mistura. Grelhe virando de vez em quando. Unte de vez em quando com o molho restante à medida que se vai grelhando. Deve ficar bem picante.

segunda-feira, abril 04, 2005

Rui Knopfli

CÃO DO NILO

Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto. Cão do Nilo, sobreviverei bebendo
na corrida, entre o ranger metálico das culatras
e o bafo cálido da pólvora. Sigo ao sabor da corrente,
um destroço à tona de água. Perto do fim, o cerco.

Adeus amigos, ternura diluída na neblina, começo
a esquecer-vos. Perdoam-me os mortos, enigmáticos,
sorrindo e escurece, no corredor, envergonhada, a luz.
De pura cobardia reincide o coração. Na margem
do rio indistintos vultos acenam discretamente.

Transidas, não esvoaçam as aves de outrora,
imóvel e erecto o canavial petrificado. Outras
vozes sepultam já o eco da minha. Foragido
da memória irei por esse mundo além. Amigos,
fantasmas, nomes, lugares sabidos de cor, quero

chamar-vos esquecimento. Não estarei com os que verão
o declive verdejante da montanha, nem alcançarei
a Terra Prometida. Errarei o resto dos meus dias através
de paragens inóspitas, levando comigo a vaga
lembrança de um aceso país povoado de gentes,

coisas e lugares perdidos e sem rosto. O cabo
enfreia a costa que do austro vinha correndo.
Em temporais, vento e névoa, para sempre
mergulhará o continente. Olho adiante.
Sobre meus ombros cerra-se, definitiva, a noite.

Alem, álgida e glabra, abre-se a luz para onde
me empurram tempo e fera ventura. No proscénio
em que se desenrola a tragédia de Lear, a saga
de Tamburlaine, ou a fúria sanguinária de Macbeth,
serei comparsa anónimo revendo, nessas cenas,

lances bem outros e diferentes. Exausto de batalhas
e combates que não travei, de conturbadas situações
em que mais não fui que espectador passivo, dormirei
por fim, transposto o limiar neutro e cinzento onde
não há lápides, lembranças da pátria, ou de coisa nenhuma.

Meus irmãos, meus inimigos desaguados nos esgotos
da Europa, irão urdindo, sob a indiferente,
brônzea miradas dos algozes, espectros e sombras,
por praças estrangeiras talhadas em granito,
silêncio e desolação. Alcácer Quibir, melhor fora

ter adormecido no deserto, melhor fora repousar
no leito das areias, convertido o sonho em ossada,
brancura na distância. Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora.


[143]

quinta-feira, março 24, 2005

Luís Carlos Patraquim

ELEGIA DO NILO

à Odete e ao Amioto

Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.

Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença; Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-os junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;

Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que sabia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!

Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.


[142]

domingo, março 20, 2005

Jall Sinth Hussein

MAR

Imenso e plano como um campo raso
em tuas águas se condena sem julgamento
e só te ouves a ti próprio.

O teu orgulho tem o poder de um deus
que perdeu o encanto que não redime já.


[141]

quinta-feira, março 17, 2005

Jall Sinth Hussein

TANGERINAS EM REDOR DE MINHA VIDA

Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.


[140]

domingo, março 13, 2005

Luís Carlos Patraquim

LIDEMBURGO BLUES (5)

Et pur, magno pórtico onde
neither division nor unity
Matters! Tu, mufana que te atreves,
atira a pedra, rasga
a textura opaca de tanto sangue!
Fere a cicatriz e a dobre, tu
que desceste ao vale dos mortos e sugaste
o osso e encontraste o vazio, batendo-o
na viseira de deus, veste a pele
e não cegues o olho do Leopardo.
Ele espreita os séculos, é quem
vagueia pelos dias e não dorme desde o crepúsculo,
o último que há-de vir
e por onde salta, alma voraz
intumescendo a árvore.


[139]

terça-feira, março 08, 2005

Carlos Gil

UM BAIRRO

Mafalala, oh Mafalala
bairro rico ao metro quadrado,
o maior índice da cidade
de carrinhos em arame moldados

Mafalala, oh Mafalala
onde vivi até aos quinze
- bairro que queriam que eu visse,
o calção limpo,
os olhos fechados

Mafalala, oh Mafalala
bairro de putas e operários…
vendedoras de bazar, mainatos,
tantos caminhos cruzados

Mafalala, oh Mafalala
tantos caminhos para milhares.
Teus becos, meu gelo-doce,
lá despedi a virgindade…

Mafalala, oh Mafalala
onde vivi até aos quinze!
eu de olhos fechados,
tu a ensinares-me a olhar

Mafalala, oh minha Mafalala…


[138]

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Frei Bartolomeu dos Mártires

AS RUÍNAS DERROTADAS

Deve aqui notar-se como de passagem, que as casas, ou edifícios grandes, que se arruinam jamais tornam a levantar-se, e já não são poucos os que se acham por terra, e outros, que nunca se acabaram de edificar pela morte de quem os principiou.


[137]

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Alberto de Lacerda

JÓIAS

Jóias que imensa madrugada
De estrelas na ilha alegre
Do riquechó contemplo as conchas
Celestes a cintilar.

São conchas algas são prodígios
Do mar que os deuses cravejaram
Assimetricamente musicalmente no firmamento.


[136]

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Jall Sinth Hussein

BASMA (72)

Ilha de Muipíti
olho de terra no mar
alheio ao seu corpo


[135]

sábado, fevereiro 19, 2005

Glória de Santana

BAIRRO NEGRO

As pequenas casas maticadas
erguem-se de longe (de séculos, de antigas datas)
contra o mar e as ondas e as algas.

Como remotas conchas embaciadas
caídas de uma súbita maré alta (lúcida e predestinada)
entre o areal e as ondulantes palmas.

As pequenas casas cúbicas e caladas
onde os problemas são primários e as janelas fechadas
e os tectos de macúti...

(Quem sofre dentro das rústicas portas não aplainadas?
Ou se encosta chorando às trémulas arestas
projectadas entre ângulos de acaso?

Que mar indeterminado e abstracto
se reflecte num olhar ou num gesto marcado
por um ignoto hábito?)


[134]

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Luís Carlos Patraquim

EIS AS CASAS

Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua ou sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe, memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado de desejo. O bosque.
Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagens de despudor sem mim. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.


[133]

domingo, fevereiro 13, 2005

Rui Knopfli

S. PAULO

Povoado de sombras e fantasmas,
é ranger de passos o que escutamos,
ou apenas o estalido que o tempo
arde na madeira ressequida dos sobrados?

Pilhado, sangrado, espoliado
pela voraz cobiça
de sátrapas, clérigos e soldados,
apenas te legaram
a pesada alvenaria rectangular,
treze órbitas vazias com que fitas
a praça, e o mar em frente,
o silêncio húmido que te desce
das soturnas arcadas
e o lenho sepulcral das portas semicerradas
em que escasseiam batentes e puxadores
ou mesmo o metal pobre
de algum mais caprichoso arabesco.

Não só as portas e os muros.
Também as sombras. E os fantasmas.


[132]

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Frei Bartolomeu dos Mártires

UM CAMINHAR NA CIDADE DE PEDRA E CAL

Na ponta N.E. da ilha está situada a bela e linda cidade de Moçambique servindo-lhe como de coroa a grande e magnífica fortaleza de S. Sebastião, que pela sua celebridade nos merece uma descrição particular (...)
Saindo da dita fortaleza, e passando um pequeno, mas vistoso campo todo limpo plano, e com vistas ao mar pelo sul, e pelo norte aonde a tropa faz as suas evoluções, e exercícios militares; que serve como de passeio público à cidade, e aos mouros de lugar destinado para fazerem amarras, viradores, e cordas de cairo, entra-se na mesma cidade por duas ruas, além de outra que corre junto da praia pela parte do sul. Estende-se a povoação por todo o comprimento da ilha até mais de dois terços da sua extensão, ocupando de mar a mar todo o terreno intermédio. As ditas ruas e outras e outras mais que tem a cidade bem podiam ser tiradas todas em linhas rectas, paralelas, e cortadas igualmente em ângulos rectos, segundo inculca a natureza do terreno; mas infelizmente quase todas são irregulares, tortas sem nenhuma uniformidade. São contudo limpas, e asseadas, planas e algumas das principais argamassadas de tal forma, que causa gosto andar por elas. Há em todas casas nobres e são algumas tão vastas e bem construídas, que podem entrar em competência com os bons palácios das grandes cidades. São as casas e igrejas todas cobertas de terraços, talvez mais pesados e mais fortes que as abóbadas de tijolo: servem-se deles os moradores, não só para os seus divertimentos, e passeios da tarde, mas principalmente para aproveitarem as águas da chuva (únicas que se bebem em toda a cidade) em grandes cisternas, que junto das mesmas casas têm sido construídas.


[131]

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Jall Sinth Hussein

ILHA DE MOÇAMBIQUE 1972

As ruas desertas cheias de vento
como um deus as paredes enormes do forte assistindo a tudo
a areia longa e lisa e a timidez do mar
a língua perdida como ruínas
na mão o cavalo-marinho e os sonhos
o tempo sem chegada e sem partida

assim haveria de ser mais tarde a minha vida


[130]

sábado, fevereiro 05, 2005

Luís de Camões

OS LUSÍADAS (I, 54)

Esta ilha pequena, que habitamos
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala,
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E, por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha – Moçambique.


[129]

terça-feira, fevereiro 01, 2005

(Canção Popular)

EIS O QUE É BELO NESTE MUNDO

Eis o que é belo neste mundo
Eis o que o homem roga acontecer dia após dia
Nós de Beira-Mar gostamos imenso
A nossa alegria de hoje é incomparável, pela vinda destes
amigos de outros Países
Toda a Ilha hoje está abalar.

Naqueles tempos, tempos que já lá vão,
quando vínhamos do continente
Lumbo, o nosso transporte principal era o paporo.
Ao pisarmos a Ilha, avistávamos primeiramente as estatuetas
das muralhas florindo um brilhante candeeiro
Da Ilha para os vários locais viajávamos de riquixós
Quando o paquete adragava era guiado por um piloto, um
farol que piscava da ponta do Mercado Sancul.


[128]

sábado, janeiro 29, 2005

Rui Knopfli

SEM NADA DE MEU

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem) . Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.


[127]

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Luís Carlos Patraquim

MORADAS

O rosto da montanha na sombra do vale,
sua macerada inscrição confundindo as pegadas
de quem, ignoto, nem a memória inscreveu
sobre o vento.

Alguém que olha a ausência
e o mais íntimo sinal, sedosa estrela,
uma quase poeira, a viandante terra,
nómada, entre silêncio e nada.

Uma única mão de luz talonando o tempo.


[126]
Bibliografia essencial: Luís Carlos Patraquim, O Osso Côncavo e Outros Poemas, Caminho

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Jall Sinth Hussein

ÍNDICO

Pálida e fria como uma estátua grega
a luz do sol me chama e me habita.
No sul sei que o silêncio passa devagar
por isso me perco no vento que me leva lá.
No sul ouço o dia brotar
e não em outro lugar.


[125]
Bibliografia essencial: Jall Sinth Hussein, Poemas do Índico, Amores Perfeitos.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Fonseca Amaral

S’AGAPO

Penélope,
nascida e criada no Alto-Maé,
filha do Kristos da cantina,
neta do Aristóteles da padaria,
vizinha de Karimo o monhé
da esquina,
irmã da helénica Sophia,
vai tecendo
e destecendo
- até ao pôr-do-sol –
tua renda de lençol
- pálida sombra do mito –
enquanto esperas
teu primo Ulisses,
o noivo aflito,
lá do Chibuto,
para as lautas bodas
no Ateneu.

Pois eu,
sem os direitos do grego astuto,
vou gritar no Largo Albasini
- ágora perfeito para tais intentos –
os meus profundos sentimentos
e lamentos.

Que os conheçam
a Polícia
a Milícia
os motoristas
as floristas
os maviques
os caciques
dos buicks
os poetas meus amigos
os colonos, dos antigos,
a casuarina
da esquina
e o cajueiro
do terreiro
- que é quintal
cá para a gente.

Penélope,
vou gritar,
sem cessar,
sem ática contenção,
até enrouquecer
de fazer dó:
S’AGAPO
S’AGAPO
S’AGAPO.


[124]

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Rui Knopfli

VISITAÇÃO (1)

Perfura-me o sono
essa luz estelar, basculante,
puríssimo cristal de lágrimas.
Minha comprida noite desabitada
se enche com a mansa luz dorida
desses olhos irmãos do meu silêncio.
Um pouco de ternura incomensurável
pousa os brandos dedos sobre o meu ombro,
minhas pálpebras, meu sono inquieto
e adoça a nudez fria deste espaço
ora visitado pelo teu rosto querido.
Cerro os olhos de cansaço, na boca
um travo salgado, sabor de mar,
resto de amargura antiga. Ou serão lágrimas
tuas, esse sal vivíssimo, que sinto nos lábios,
como se tivesse beijado os olhos teus tristíssimos?


[123]

sábado, janeiro 15, 2005

Sebastião Alba

O NAVEGADOR

Plena, a cidade
navega o dia. Ao lado,
o mar em que verte.
Passa lentamente,
à sombra, imposta,
do seu meridiano.
Só um vidro faísca:
Há séculos emite
sinais indecifráveis.


[122]

quarta-feira, janeiro 12, 2005

João Paulo Borges Coelho

AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto II)

Entretanto, lá fora tudo parece funcionar dentro da arrastada normalidade com que sempre funcionou: as figuras públicas dando a sua opinião sobre as coisas aos jornais locais antes de se refugiarem nos clubes a jogar as cartas, por vezes tendo mão (um trio de damas, dois ases), outras sem jogo nenhum; os carpinteiros brancos, com barbas espessas de três dias, passando a caminho da Munhava montados nas suas Florette, nas suas Zundapp, levando atrás, amarradas com tiras de câmaras-de-ar, a caixa das ferramentas e a lancheira cheia se é na neblina fresca da manhã, ou vazia com restos para o gato lá de casa se é no tempo dos fumos e odores vespertinos; os estivadores, em cachos, carregando sacas de serapilheira e vestidos de serapilheira depois de terem dormido em lençóis de serapilheira e comido uma shima cheirando a vapor e a serapilheira, espalhando-se pelo cais como um mar negro e agitado; os médicos dando consultas caras todos os dias, baratas uma vez por semana, receitando misteriosas mensagens em código que só a infinita sabedoria dos farmacêuticos sabe ler, antes de fecharem os consultórios para ir espairecer com as esposas à matiné das cinco; os pescadores saindo para o mar de mãos vazias e voltando ao fim do dia com algum peixe ou quase sem peixe nenhum; as raparigas da Boite Primavera, Zamina, Minita, Irene e Erleny, como outras tantas que vieram antes ou ainda outras que virão depois, passeando-se lentas pela baixa atrás das suas boquilhas e espremidas nos seus hot-pants, dando troco aos marinheiros para que não pensem que os seus piropos ficam sem resposta, antes de recolherem ao redil para enfim se prepararem para os trabalhos da noite; as meninas do Liceu Pêro de Anaia, com longos cabelos castanhos, despertando púberes instintos nos candidatos a namorados e fumando às escondidas dos pais e dos amigos dos pais; o cauteleiro arrastando-se por entre as mesas do café sem pedir licença, alardeando as suas roucas promessas; o monhé da loja coçando os pés atrás do balcão, indiferente aos clientes que lhe esquadrinham a mercadoria, uns para comprar e outros só para ver; os chineses passando as suas couves em pequenas carrinhas rastejantes e exangues, ou vendendo com modos suaves e educados os seus pijamas e camisas de casca-de-ovo, e as suas chávenas de louça fina como pele, com carantonhas no fundo olhando-nos quando bebemos, e nós bebndo sofregamente para salvar das profundezas daquele minúsculo mar esses estranhos afogados; os empregados da câmara municipal fazendo interrupções ao expediente da manhã, imunes ao calor na protecção das suas camisas brancas de casca-de-ovo compradas no Ping Ta e com os bolsos cheios de esferográficas, circulando a caminho do bazar; os contínuos caminhando nas suas estranhas e contraditórias fardas de caqui, a metade de cima um camisa à militar, a de baixo uns calções inocentes como se fossem de criança; os criados batendo tapetes nos quintais, levantando nuvens de poeira; as crianças negras chapinhando em minúsculas lagoas de água da chuva se é depois da chuva, ou na lama quase seca se é dia de sol, com as suas barrigas redondas e os olhos irradiando uma alegria inventada a partir de motivo nenhum; as crianças brancas irradiando essa mesma alegria, chapinhando na praia do Clube Náutico, nas poças de água do mar; os jovens rebeldes do Oceana fumando suruma para inventar outra cidade tão encalhada e viva quanto esta; os corvos negros de peitilho branco passeado-se lentamente pela Praia do Veleiro, crocitando nos ramos das casuarinas com voz idêntica à do cauteleiro vendedor de promessas nos cafés; os barcos imensos e descarnados, presos no areal, soltando esquírolas de ferrugem, lágrimas ferrugentas da dor que é a humilhação de acabar daquela maneira, longe das profundezas; os rodesianos cor-de-rosa e sardentos chegando em revoada com as suas filhas belíssimas muito brancas para comer camarões e beber cerveja, e em revoada partindo; os arquitectos fazendo casas modernas para terem onde morar, e os pobres casas de lata e capim para terem onde sofrer, a cada qual o seu telhado; os cozinheiros cozinhando souflés e gigantescos mariscos cor-de-rosa como o gigantesco John Dale se é de dia, as suas mulheres shima com camarões magros e secos como Ganda se é de noite, para enfim todos terem o que comer, cada qual à sua mesa; a bicicleta branca dos ice-creams passando a tilintar, anunciando os cones pontiagudos se é Esquimó, de fundo chato se é Alasca, e Vicente correndo atrás dela com as moedas na mão para trazer um sorvete de chocolate, secreto capricho de Sá Caetana; o pão que os padeiros cozem de madrugada espalhando o seu cheiro bom e universal sobre a cidade, igual para toda a gente, amolecendo no chá dos pobres a sua integridade ou deixando derramar sobre as suas fatias um cacho de ovas de caviar importado; as mulheres dos oficiais escrevendo romances melancólicos como murmúrios que as entretenham da angústia da espera; os padres conspirando nas suas inócuas capelas, na falta de alguém mais adequado para o fazer; os soldados chegando e partindo com as mãos cheias de sangue e os olhos de pavor; os combatentes no mato, diz-se em surdina, fazendo fogueiras e conspirando; os pides, atrás dos óculos negros, tomando cafés no Café Capri, vestidos com camisas brancas de casca-de-ovo dos chineses e fingindo estar de folga mas na verdade trabalhando; o mangal secando, mal-grado o desespero dos minúsculos caranguejos; o mar paciente e obstinado engolindo lentamente a terra na Praia dos Pinheiros e no Macúti, em todos os lugares; as marés cheias e vazias dando a cada uma o seu lugar, mas cada vez as marés cheias sendo mais cheias; e os dias de sol sucedendo-se uns aos outros, com dias cinzentos e chuvosos pelo meio.


[121]

sábado, janeiro 08, 2005

MATAPA SABOROSA

½ kg de folhas de mandioca
6 dentes de alho
4 malaguetas
1 colher de chá de sal
1 chávena de camarão seco e sem as cabeças
2 cocos
1 chávena de farinha de amendoim


Escolhem-se as folhas mais tenrinhas, lavam-se e pisam-se, com alho e malagueta num pilão ou na máquina. Põem-se numa panela a cozer sem água e um pouco sal. Depois de secar a água natural deita-se o camarão seco pilado, e em seguida o leite de coco e deixa-se ferver. Por fim, deita-se a farinha de amendoim e deixa-se apurar durante uma hora.As folhas de mandioca podem ser substituídas por folhas de couve. Se desejar confeccionar matapa à moda makua substitua o amendoim pela castanha de caju.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Links importantes:
O site Macua de Moçambique, e principalmente a sua biblioteca, à sombra de cujos palmares este blog se irá sentar.
A livraria Mabooki (Livros e Mais), especializada em temas africanos.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Rui Knopfli

A PEDRA NO CAMINHO

Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
na avenida tu és um homem
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.


[120]

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Rui Knopfli

PRAÇA SETE DE MARÇO

No centro da praça, meu pai acena
do fundo do tempo: o coração
da cidade ao voltar da esquina.
Por sobre os metais cintilantes da banda,
o Ali de cofió rendado e cabaia branca
leva a bandeja nos gestos graves.
Há um bule de loiça e uma chávena
a fumegar na tarde, o odor quente
e loiro das torradas, o travo amargo
da compota; senhores que passeiam
de palhinha e palm beach, baneanes
magros de reverência solícita, um surdo
marulhar de pedras giradas no mah jong.
O horizonte abre para o mar, lisa
matriz do sol. Móveis, as sombras
gizam no empedrado caprichos longos
com o passar da luz entre a folhagem.
E meu pai tão longe que já o não vejo,
talvez de ter passado, como a luz,
sobre esse tempo e esse lugar, ora mudados
em eco fruste da memória. No centro
da praça volto-me para acenar a meu filho.


[119]

sexta-feira, dezembro 24, 2004

José Craveirinha

NATAL

A cidade acordou em festa.
Natal! Natal!
A Baixa encheu-se de gente. Nas lojas os brinquedos atraíam os pais com as crianças pela mão. Maguébe o negrinho, sobraçando seu monte de aspargos, parou em frente de uma montra. Os olhos abriram-se gulosamente perante as maravilhas tão perto e tão longe dele, que aquilo tudo era um sonho boiando nas pupilas redondas e cheias de todas as fomes de África. Triciclos, motos, camiões, aviões e tantas coisas mais, feitiçaria misteriosa para Maguébe, estavam ali atrás do muro de vidro.
Maguébe seguiu depois, rua fora, com seu grande ramo verde debaixo do braço e no pensamento: «a shitututo, a mimova, a shitimela... oh... inkuasu psa Quissimuce ya valungu!»
Um búzio grande soprava na alma de Maguébe as ânsias de um menino sem um balão sequer na mão escura, um reles balão encarnado para ele assoprar, o balão inchando como um sapo enorme.
Os machimbombos passavam pejados de gente com pressa.
Nas lojas há um entra-e-sai ininterrupto como formigueiro.
Maguébe cruza a rua, um carro buzina e passa, rápido, um olhar zangado do motorista a visá-lo da cabeça aos pés.
No bazar as pessoas iam e vinham, de banca em banca, numa lufa-lufa de batatas, legumes e frutas do Transval e também outras coisas que Maguébe nunca tinha comido e cujos nomes não sabia.
Maguébe passou no bazar, vendo, ouvindo e cheirando. Mas o maior milagre de Culucumba era a falta de espaço para a cobiça na alma do pequeno vendedor de ramos de aspargos. Ele não sofria e nunca provara aquelas coisas bonitas que brilhavam do outro lado do vidro das montras. A filosofia de Maguébe nascia e vivia de não saber.
Talvez fossem coisas boas, mais gostosas que o sumo de caju; a tincarosse; a mapsincha madura, mais coisas que não tinha perdido porque nunca as tivera. Talvez mesmo fossem melhores que mavunga!...
Custa é ter uma coisa que dá gosto depois perder tudo!
Maguébe, agora que estava morando na cidade, sentia vontade de provar as coisas dos mulungo. Quando ele descia as ruas gritando: -- Aspargo minha sinhôr!!!, havia senhoras que tinham pena dele e davam comida, às vezes bolos que ficavam do dia de anos do menino. Maguébe ficava contente e comia até lamber os dedos. Maguébe ficava sentado debaixo de uma sombra de cajueiro, descobrindo o gosto dos bolos até ao lamber dos dedos.
Hoje, véspera de Natal, Maguébe sai caminhando rua acima, buscando as moradias, a boca gritando: -- aspargo minha sinhôr... – e os grandes olhos amarrados ainda às paredes de vidro das casas grandes de chilunguine.
-- Aspargo minha sinhôr!!!
Mas a voz hoje perde-se no burburinho da cidade e no barulho dos motores dos automóveis que são os donos das estradas negras de alcatrão
-- Dá bocadinho de pão minha sinhôr...
Espreita nos portões, grita através das grades mas o apelo morre na lufa-lufa dos preparativos do Natal.
Maguébe olha, ajeita o ramo de aspargos no braço nu e lá vai estrada em estrada com o Natal nos olhos, nos ouvidos e no nariz achatado e a luzir em vão no ar embuzinado e festivo:
-- As... par... go minha sinhôr...
Já longe o pregão de Maguébeainda corta a atmosfera festiva da cidade, paira no ar como um balão suspenso:
-- As... par... go... minha sinhôr...
E nas veias do menino que veio de fundo da Munhuana com seu ramo de aspargos, um batuque estranho bate e repercute pelo corpo todo como se mil demónios dançassem chibugo dentro da sua barriga:
Qui... ssi... mu... ce! Qui... ssi... mu... ce!


[118]
Bibliografia essencial: José Craveirinha, Hamina e Outros Contos, Caminho

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Gulamo Khan

MOÇAMBICANTO I

céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio

nem o zumbido da cigarra
me entontece

nem o troar do tambor
me ensurdece

as vozes que são
sulcos das nossas esperanças

Oh pátria
moçambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.


[117]

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Gulamo Khan

XITIMELA

para Alexandre Langa

neste xitimela nosso comboio da vida
que nos faz meninos de ontem
pensar hoje vamos não só à Manhiça
mais longe vamos meu amigo
espera ver no diesel do teu peito
a força motriz que sopra
as mais belas ngomas deste moçambicano
e diz ao povo como sabes
que xitimela da vida é da gente
e faz poh poh poh num apeadeiro livre.


[116]

sábado, dezembro 11, 2004

Rui Knopfli

AUTO-RETRATO

De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.


[115]

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Jorge Viegas

CÍRCULO DE SOMBRA

Ao Rui Knopfli

A minha alma é um círculo de sombra.
Os meus poemas são a pálida mensagem
dum homem melancólico. Se sou poeta,
decerto não o sou do tempo presente.

Escrevo poemas de amor, e os meus poemas
não conduzem os povos à contestação.
Gosto de passear nas ruas a antiga liberdade
que eu sei haver nos poetas que mais amo.

Uma liberdade que não conduz a nada,
uma liberdade que não explica nada.
Leio velhos filósofos de antigamente,

e velhos poetas, mais velhos ainda.
De quando em vez, monólogos em surdina.
A minha alma é um círculo de sombra.


[114]

sábado, novembro 27, 2004

Jorge Viegas

DO MEU PAÍS

Do meu País as aves se ausentaram
e com elas se foi a vida, a alegria.
E os poetas, nos versos que cantaram,
foram pássaros de morte e de melancolia.


[113]

terça-feira, novembro 23, 2004

José Craveirinha

POLANA

I

Doirada alcatifa d’areia.
Um cúmplice lençol de praia.

Gloriosas bocas ávidas
Celebrando hinos.

Epílogos de carícias.
Gaivotas de nervos.
A maresia.
O sol.
A praia.


II

Uma enternecedora capulana de maresia.
Uma arenosa esteira prateada.
Gloriosas nossas bocas ávidas
celebrando cem mil hinos das línguas.
Beijos trincando-nos os dentes.


[112]
Bibliografia essencial: José Craveirinha, Poemas Eróticos, Texto Editores, 2004

segunda-feira, novembro 22, 2004

GALINHA À ZAMBEZIANA

1 galinha
1 coco
1 colher de chá de sal
2 limões
2 dentes de alho
1 colher de chá de pimenta
1 colher de chá de piri-piri em pó
2 colheres de sopa de óleo

Toma-se uma galinha nova, limpa-se e tempera-se com sal, limão, pimenta, piri-piri e alho. Extrai-se o leite a um coco ralado e mistura-se com duas colheres de óleo. Grelha-se depois a galinha em fogo lento, regando-a constantemente com a mistura de coco e óleo. À hora de servir aproveite o molho que estiver no tabuleiro para regar a galinha. Esta receita é também saborosa quando a galinha é assada no carvão.