Jall Sinth Hussein
SÃO AS COISAS E TÊM ALMA PRÓPRIA
São as coisas e têm alma própria
e as nomeio pedra água pau casa
e me equilibro e perco em seu centro
mas as trato como pessoas iguais a mim.
Nunca estou só como as crianças
que frente a ninguém estão no meio dos seus amigos.
São as coisas e povoam tudo como pessoas
e como pessoas me cercam e seu coração lhes bate e me chama.
Suas almas atravesso e as trato por tu
[148]
terça-feira, abril 26, 2005
sexta-feira, abril 22, 2005
Pedro Muiambo
A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/2)
Havia quem a chamasse uma mulher sem idade. E quem a considerasse uma convergência de graças infinitas. Ou uma alavanca de desvarios.
Os homens escondiam-se com frequência das suas esposas, faziam-se aos lugares mais recônditos das suas habitações, abriam as braguilhas, introduziam as mãos e, voilá, entregavam-se à arte humana mais remota – a de ordenhar o próprio touro – deixando escapar mudas interjeições.
Mas não eram apenas os homens que suspiravam por ela: também as mulheres.
Viam-na, aquela borboleta, esvoaçando entre as bancas do mercado, e todas elas estacavam o passo, e antes mesmo que a auto-estima lhes impedisse, debruçavam-se aos seus pés, minimizavam-se, por assim dizer, em submissa rendição.
E quando, de noite, à cama se faziam, e eventualmente lá não encontravam os esposos, voltavam a pensar nela, obsessivamente, na aura que a iluminava e naqueles seios agressivos, o andar arrebatador, enfim…
“Pensam no infinito, estas mulheres”, adivinhava sô Ribeiro, o bom do tuga, que passava a vida a falar dos livros que dizia ter lido, ou do bom azeite de oliveira que dizia ter crescido a saborear lá em Trás-os-Montes, onde nascera. “E macacos me mordam se eu também não desejo o infinito”, rematava, cuidando no entanto que a sua consorte não o ouvisse.
E o que dizer o Ubaldo Delgado, o cooperante cubano que leccionava matemática no centro de formação de professores, em Chibututuíne, a sete quilómetros da vila. Um tipo que se derramava em versos, tão cedo a avistava ou dela ouvia falar, sem se importar com os possíveis escândalos sociais que a sua atitude poderia provocar, nem em traduzir para os seus confrades moçambicanos os seus frémitos românticos.
(…)
O nome dela era Maceda Magaço.
Era mãe de Isayana.
Enfim, ninguém ficava alheio à aura esplendorosa que dimanava daquela mulher. No seu confronto, ou se era do leste ou se era do ocidente. Não-alinhado era uma possibilidade inexistente.
O próprio governador da província chegara a afirmar em pleno comício, exibindo-a: “Ela é a máxima demonstração de que a revolução socialista pode alcançar o que se supões estar apenas na alçada dos deuses: o milagre da beleza. Sendo assim, precisamos de deus para quê?”
Fortes aplausos.
[147]
A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/2)
Havia quem a chamasse uma mulher sem idade. E quem a considerasse uma convergência de graças infinitas. Ou uma alavanca de desvarios.
Os homens escondiam-se com frequência das suas esposas, faziam-se aos lugares mais recônditos das suas habitações, abriam as braguilhas, introduziam as mãos e, voilá, entregavam-se à arte humana mais remota – a de ordenhar o próprio touro – deixando escapar mudas interjeições.
Mas não eram apenas os homens que suspiravam por ela: também as mulheres.
Viam-na, aquela borboleta, esvoaçando entre as bancas do mercado, e todas elas estacavam o passo, e antes mesmo que a auto-estima lhes impedisse, debruçavam-se aos seus pés, minimizavam-se, por assim dizer, em submissa rendição.
E quando, de noite, à cama se faziam, e eventualmente lá não encontravam os esposos, voltavam a pensar nela, obsessivamente, na aura que a iluminava e naqueles seios agressivos, o andar arrebatador, enfim…
“Pensam no infinito, estas mulheres”, adivinhava sô Ribeiro, o bom do tuga, que passava a vida a falar dos livros que dizia ter lido, ou do bom azeite de oliveira que dizia ter crescido a saborear lá em Trás-os-Montes, onde nascera. “E macacos me mordam se eu também não desejo o infinito”, rematava, cuidando no entanto que a sua consorte não o ouvisse.
E o que dizer o Ubaldo Delgado, o cooperante cubano que leccionava matemática no centro de formação de professores, em Chibututuíne, a sete quilómetros da vila. Um tipo que se derramava em versos, tão cedo a avistava ou dela ouvia falar, sem se importar com os possíveis escândalos sociais que a sua atitude poderia provocar, nem em traduzir para os seus confrades moçambicanos os seus frémitos românticos.
(…)
O nome dela era Maceda Magaço.
Era mãe de Isayana.
Enfim, ninguém ficava alheio à aura esplendorosa que dimanava daquela mulher. No seu confronto, ou se era do leste ou se era do ocidente. Não-alinhado era uma possibilidade inexistente.
O próprio governador da província chegara a afirmar em pleno comício, exibindo-a: “Ela é a máxima demonstração de que a revolução socialista pode alcançar o que se supões estar apenas na alçada dos deuses: o milagre da beleza. Sendo assim, precisamos de deus para quê?”
Fortes aplausos.
[147]
segunda-feira, abril 18, 2005
Victor Matos e Sá
A RUI DE NORONHA
Poder, Amigo
chamar-me irmão na tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor;
Ja que um destino diferente
e os anos,
Puseram longas, infinitas margens
entre as nossas vidas
afastadas...
Tu, lá no último Sonho
onde a verdade existe em cada um
como um sangue puro,
como uma lua natural.
E eu
ainda nesta luta
de viver
sofrendo
o mesmo mal.
Este malfeito destino
desde meus sonhos primeiros
de menino;
este mal de chorar sempre
a dor comum dos desgraçados
e ter lágrimas ainda
para os nossos sonhos
destroçados...
Esta mal
só mal para o mundo
a nossa única essência de viver
e contar
diversamente
a mesma eterna agonia...
Este mal que vem a ser
a poesia...
Deixa-me, pois, Amigo
(Diante qualquer noite deserta
em que o silêncio
e a sonolência de tudo
seja para nós
a única porta inteiramente aberta
e o nosso altar)
ficar contigo um só instante,
- apenas o bastante
para te Amar!
E poder, Amigo,
chamar-me irmão da tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor...
[146]
A RUI DE NORONHA
Poder, Amigo
chamar-me irmão na tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor;
Ja que um destino diferente
e os anos,
Puseram longas, infinitas margens
entre as nossas vidas
afastadas...
Tu, lá no último Sonho
onde a verdade existe em cada um
como um sangue puro,
como uma lua natural.
E eu
ainda nesta luta
de viver
sofrendo
o mesmo mal.
Este malfeito destino
desde meus sonhos primeiros
de menino;
este mal de chorar sempre
a dor comum dos desgraçados
e ter lágrimas ainda
para os nossos sonhos
destroçados...
Esta mal
só mal para o mundo
a nossa única essência de viver
e contar
diversamente
a mesma eterna agonia...
Este mal que vem a ser
a poesia...
Deixa-me, pois, Amigo
(Diante qualquer noite deserta
em que o silêncio
e a sonolência de tudo
seja para nós
a única porta inteiramente aberta
e o nosso altar)
ficar contigo um só instante,
- apenas o bastante
para te Amar!
E poder, Amigo,
chamar-me irmão da tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor...
[146]
sábado, abril 16, 2005
Pedro Muiambo
A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/1)
Brincava no jardim frontal da vivenda que juntamente com outras cinco dezenas, de igual pequenez e ordinarice, inventavam aquela vila sobranceira ao Incomáti – quando as surpreendeu.
Precipitavam-se, num jogo de matyangwe-tyangwe, para um buraquito cavado no centro do relvado.
As formigas.
Agachou-se a acolheu-as, qual monge solene, com a sombra do seu corpinho. Enlevado. Boquinha semiaberta. Olhos reflectindo estrelas inexistentes no amplo azul celeste. Eram uns olhos grandes, justamente a medida da interrogação das crianças, na sua ingénua, entusiástica e mórbida filosofia.
E tão voraz era a sua curiosidade, que quase derrubava o formigueiro com a potestade da sua contemplação.
Foi no ano em que a fome chegou pelas asas dos gafanhotos.
Nesse inolvidável ano de 1980.
Isayana Magaço prosseguia a sua infanta desvenda do cosmos enquanto, lá das nuvens, aos olhos dos passarinhos, parecia entregue aos fúteis mistérios dos homens.
Na verdade, naquele ângulo, era-lhes difícil reparar que o garoto batia também as suas asas, à sombra daquele eucalipto imponente.
[145]
A ENFERMEIRA DA BATA NEGRA (excerto/1)
Brincava no jardim frontal da vivenda que juntamente com outras cinco dezenas, de igual pequenez e ordinarice, inventavam aquela vila sobranceira ao Incomáti – quando as surpreendeu.
Precipitavam-se, num jogo de matyangwe-tyangwe, para um buraquito cavado no centro do relvado.
As formigas.
Agachou-se a acolheu-as, qual monge solene, com a sombra do seu corpinho. Enlevado. Boquinha semiaberta. Olhos reflectindo estrelas inexistentes no amplo azul celeste. Eram uns olhos grandes, justamente a medida da interrogação das crianças, na sua ingénua, entusiástica e mórbida filosofia.
E tão voraz era a sua curiosidade, que quase derrubava o formigueiro com a potestade da sua contemplação.
Foi no ano em que a fome chegou pelas asas dos gafanhotos.
Nesse inolvidável ano de 1980.
Isayana Magaço prosseguia a sua infanta desvenda do cosmos enquanto, lá das nuvens, aos olhos dos passarinhos, parecia entregue aos fúteis mistérios dos homens.
Na verdade, naquele ângulo, era-lhes difícil reparar que o garoto batia também as suas asas, à sombra daquele eucalipto imponente.
[145]
domingo, abril 10, 2005
Jall Sinth Hussein
MOÇAMBIQUE 75 – PRAÇA MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
Era um dia solitário e pequeno
dia confidencial e toscamente feito
dia de homenagem nas traseiras
o instante parecia feito para recuar.
Quando homens sem nome
apearam Mouzinho
vi a natureza confusa das coisas
o mundo de pressa e emenda que me levava ignorado.
Eu não – que não estava ali –
mas com uns olhos limpos que podiam ser os meus.
[144]
MOÇAMBIQUE 75 – PRAÇA MOUZINHO DE ALBUQUERQUE
Era um dia solitário e pequeno
dia confidencial e toscamente feito
dia de homenagem nas traseiras
o instante parecia feito para recuar.
Quando homens sem nome
apearam Mouzinho
vi a natureza confusa das coisas
o mundo de pressa e emenda que me levava ignorado.
Eu não – que não estava ali –
mas com uns olhos limpos que podiam ser os meus.
[144]
sexta-feira, abril 08, 2005
GALINHA À CAFREAL
1 frango
1 colher de sopa de azeite
Sumo de meio limão
4 piri-piris
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de pimenta
4 dentes de alho picados
Abrem-se os frangos pelas costas e espalmam-se. Misture o azeite, sumo de limão, piri-piri, sal, pimenta e alho. Tempere a galinha com esta mistura. Grelhe virando de vez em quando. Unte de vez em quando com o molho restante à medida que se vai grelhando. Deve ficar bem picante.
1 frango
1 colher de sopa de azeite
Sumo de meio limão
4 piri-piris
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de pimenta
4 dentes de alho picados
Abrem-se os frangos pelas costas e espalmam-se. Misture o azeite, sumo de limão, piri-piri, sal, pimenta e alho. Tempere a galinha com esta mistura. Grelhe virando de vez em quando. Unte de vez em quando com o molho restante à medida que se vai grelhando. Deve ficar bem picante.
segunda-feira, abril 04, 2005
Rui Knopfli
CÃO DO NILO
Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto. Cão do Nilo, sobreviverei bebendo
na corrida, entre o ranger metálico das culatras
e o bafo cálido da pólvora. Sigo ao sabor da corrente,
um destroço à tona de água. Perto do fim, o cerco.
Adeus amigos, ternura diluída na neblina, começo
a esquecer-vos. Perdoam-me os mortos, enigmáticos,
sorrindo e escurece, no corredor, envergonhada, a luz.
De pura cobardia reincide o coração. Na margem
do rio indistintos vultos acenam discretamente.
Transidas, não esvoaçam as aves de outrora,
imóvel e erecto o canavial petrificado. Outras
vozes sepultam já o eco da minha. Foragido
da memória irei por esse mundo além. Amigos,
fantasmas, nomes, lugares sabidos de cor, quero
chamar-vos esquecimento. Não estarei com os que verão
o declive verdejante da montanha, nem alcançarei
a Terra Prometida. Errarei o resto dos meus dias através
de paragens inóspitas, levando comigo a vaga
lembrança de um aceso país povoado de gentes,
coisas e lugares perdidos e sem rosto. O cabo
enfreia a costa que do austro vinha correndo.
Em temporais, vento e névoa, para sempre
mergulhará o continente. Olho adiante.
Sobre meus ombros cerra-se, definitiva, a noite.
Alem, álgida e glabra, abre-se a luz para onde
me empurram tempo e fera ventura. No proscénio
em que se desenrola a tragédia de Lear, a saga
de Tamburlaine, ou a fúria sanguinária de Macbeth,
serei comparsa anónimo revendo, nessas cenas,
lances bem outros e diferentes. Exausto de batalhas
e combates que não travei, de conturbadas situações
em que mais não fui que espectador passivo, dormirei
por fim, transposto o limiar neutro e cinzento onde
não há lápides, lembranças da pátria, ou de coisa nenhuma.
Meus irmãos, meus inimigos desaguados nos esgotos
da Europa, irão urdindo, sob a indiferente,
brônzea miradas dos algozes, espectros e sombras,
por praças estrangeiras talhadas em granito,
silêncio e desolação. Alcácer Quibir, melhor fora
ter adormecido no deserto, melhor fora repousar
no leito das areias, convertido o sonho em ossada,
brancura na distância. Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora.
[143]
CÃO DO NILO
Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto. Cão do Nilo, sobreviverei bebendo
na corrida, entre o ranger metálico das culatras
e o bafo cálido da pólvora. Sigo ao sabor da corrente,
um destroço à tona de água. Perto do fim, o cerco.
Adeus amigos, ternura diluída na neblina, começo
a esquecer-vos. Perdoam-me os mortos, enigmáticos,
sorrindo e escurece, no corredor, envergonhada, a luz.
De pura cobardia reincide o coração. Na margem
do rio indistintos vultos acenam discretamente.
Transidas, não esvoaçam as aves de outrora,
imóvel e erecto o canavial petrificado. Outras
vozes sepultam já o eco da minha. Foragido
da memória irei por esse mundo além. Amigos,
fantasmas, nomes, lugares sabidos de cor, quero
chamar-vos esquecimento. Não estarei com os que verão
o declive verdejante da montanha, nem alcançarei
a Terra Prometida. Errarei o resto dos meus dias através
de paragens inóspitas, levando comigo a vaga
lembrança de um aceso país povoado de gentes,
coisas e lugares perdidos e sem rosto. O cabo
enfreia a costa que do austro vinha correndo.
Em temporais, vento e névoa, para sempre
mergulhará o continente. Olho adiante.
Sobre meus ombros cerra-se, definitiva, a noite.
Alem, álgida e glabra, abre-se a luz para onde
me empurram tempo e fera ventura. No proscénio
em que se desenrola a tragédia de Lear, a saga
de Tamburlaine, ou a fúria sanguinária de Macbeth,
serei comparsa anónimo revendo, nessas cenas,
lances bem outros e diferentes. Exausto de batalhas
e combates que não travei, de conturbadas situações
em que mais não fui que espectador passivo, dormirei
por fim, transposto o limiar neutro e cinzento onde
não há lápides, lembranças da pátria, ou de coisa nenhuma.
Meus irmãos, meus inimigos desaguados nos esgotos
da Europa, irão urdindo, sob a indiferente,
brônzea miradas dos algozes, espectros e sombras,
por praças estrangeiras talhadas em granito,
silêncio e desolação. Alcácer Quibir, melhor fora
ter adormecido no deserto, melhor fora repousar
no leito das areias, convertido o sonho em ossada,
brancura na distância. Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora.
[143]
quinta-feira, março 24, 2005
Luís Carlos Patraquim
ELEGIA DO NILO
à Odete e ao Amioto
Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença; Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-os junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que sabia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.
[142]
ELEGIA DO NILO
à Odete e ao Amioto
Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença; Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-os junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que sabia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.
[142]
domingo, março 20, 2005
quinta-feira, março 17, 2005
Jall Sinth Hussein
TANGERINAS EM REDOR DE MINHA VIDA
Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.
[140]
TANGERINAS EM REDOR DE MINHA VIDA
Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.
[140]
domingo, março 13, 2005
Luís Carlos Patraquim
LIDEMBURGO BLUES (5)
Et pur, magno pórtico onde
neither division nor unity
Matters! Tu, mufana que te atreves,
atira a pedra, rasga
a textura opaca de tanto sangue!
Fere a cicatriz e a dobre, tu
que desceste ao vale dos mortos e sugaste
o osso e encontraste o vazio, batendo-o
na viseira de deus, veste a pele
e não cegues o olho do Leopardo.
Ele espreita os séculos, é quem
vagueia pelos dias e não dorme desde o crepúsculo,
o último que há-de vir
e por onde salta, alma voraz
intumescendo a árvore.
[139]
LIDEMBURGO BLUES (5)
Et pur, magno pórtico onde
neither division nor unity
Matters! Tu, mufana que te atreves,
atira a pedra, rasga
a textura opaca de tanto sangue!
Fere a cicatriz e a dobre, tu
que desceste ao vale dos mortos e sugaste
o osso e encontraste o vazio, batendo-o
na viseira de deus, veste a pele
e não cegues o olho do Leopardo.
Ele espreita os séculos, é quem
vagueia pelos dias e não dorme desde o crepúsculo,
o último que há-de vir
e por onde salta, alma voraz
intumescendo a árvore.
[139]
terça-feira, março 08, 2005
Carlos Gil
UM BAIRRO
Mafalala, oh Mafalala
bairro rico ao metro quadrado,
o maior índice da cidade
de carrinhos em arame moldados
Mafalala, oh Mafalala
onde vivi até aos quinze
- bairro que queriam que eu visse,
o calção limpo,
os olhos fechados
Mafalala, oh Mafalala
bairro de putas e operários…
vendedoras de bazar, mainatos,
tantos caminhos cruzados
Mafalala, oh Mafalala
tantos caminhos para milhares.
Teus becos, meu gelo-doce,
lá despedi a virgindade…
Mafalala, oh Mafalala
onde vivi até aos quinze!
eu de olhos fechados,
tu a ensinares-me a olhar
Mafalala, oh minha Mafalala…
[138]
UM BAIRRO
Mafalala, oh Mafalala
bairro rico ao metro quadrado,
o maior índice da cidade
de carrinhos em arame moldados
Mafalala, oh Mafalala
onde vivi até aos quinze
- bairro que queriam que eu visse,
o calção limpo,
os olhos fechados
Mafalala, oh Mafalala
bairro de putas e operários…
vendedoras de bazar, mainatos,
tantos caminhos cruzados
Mafalala, oh Mafalala
tantos caminhos para milhares.
Teus becos, meu gelo-doce,
lá despedi a virgindade…
Mafalala, oh Mafalala
onde vivi até aos quinze!
eu de olhos fechados,
tu a ensinares-me a olhar
Mafalala, oh minha Mafalala…
[138]
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
terça-feira, fevereiro 22, 2005
sábado, fevereiro 19, 2005
Glória de Santana
BAIRRO NEGRO
As pequenas casas maticadas
erguem-se de longe (de séculos, de antigas datas)
contra o mar e as ondas e as algas.
Como remotas conchas embaciadas
caídas de uma súbita maré alta (lúcida e predestinada)
entre o areal e as ondulantes palmas.
As pequenas casas cúbicas e caladas
onde os problemas são primários e as janelas fechadas
e os tectos de macúti...
(Quem sofre dentro das rústicas portas não aplainadas?
Ou se encosta chorando às trémulas arestas
projectadas entre ângulos de acaso?
Que mar indeterminado e abstracto
se reflecte num olhar ou num gesto marcado
por um ignoto hábito?)
[134]
BAIRRO NEGRO
As pequenas casas maticadas
erguem-se de longe (de séculos, de antigas datas)
contra o mar e as ondas e as algas.
Como remotas conchas embaciadas
caídas de uma súbita maré alta (lúcida e predestinada)
entre o areal e as ondulantes palmas.
As pequenas casas cúbicas e caladas
onde os problemas são primários e as janelas fechadas
e os tectos de macúti...
(Quem sofre dentro das rústicas portas não aplainadas?
Ou se encosta chorando às trémulas arestas
projectadas entre ângulos de acaso?
Que mar indeterminado e abstracto
se reflecte num olhar ou num gesto marcado
por um ignoto hábito?)
[134]
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Luís Carlos Patraquim
EIS AS CASAS
Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua ou sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe, memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado de desejo. O bosque.
Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagens de despudor sem mim. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.
[133]
EIS AS CASAS
Eis as casas. Grutas de sal a céu onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua ou sonha, vento marítimo que me leva às praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe, memória, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde escuro açoitado de desejo. O bosque.
Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagens de despudor sem mim. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.
[133]
domingo, fevereiro 13, 2005
Rui Knopfli
S. PAULO
Povoado de sombras e fantasmas,
é ranger de passos o que escutamos,
ou apenas o estalido que o tempo
arde na madeira ressequida dos sobrados?
Pilhado, sangrado, espoliado
pela voraz cobiça
de sátrapas, clérigos e soldados,
apenas te legaram
a pesada alvenaria rectangular,
treze órbitas vazias com que fitas
a praça, e o mar em frente,
o silêncio húmido que te desce
das soturnas arcadas
e o lenho sepulcral das portas semicerradas
em que escasseiam batentes e puxadores
ou mesmo o metal pobre
de algum mais caprichoso arabesco.
Não só as portas e os muros.
Também as sombras. E os fantasmas.
[132]
S. PAULO
Povoado de sombras e fantasmas,
é ranger de passos o que escutamos,
ou apenas o estalido que o tempo
arde na madeira ressequida dos sobrados?
Pilhado, sangrado, espoliado
pela voraz cobiça
de sátrapas, clérigos e soldados,
apenas te legaram
a pesada alvenaria rectangular,
treze órbitas vazias com que fitas
a praça, e o mar em frente,
o silêncio húmido que te desce
das soturnas arcadas
e o lenho sepulcral das portas semicerradas
em que escasseiam batentes e puxadores
ou mesmo o metal pobre
de algum mais caprichoso arabesco.
Não só as portas e os muros.
Também as sombras. E os fantasmas.
[132]
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Frei Bartolomeu dos Mártires
UM CAMINHAR NA CIDADE DE PEDRA E CAL
Na ponta N.E. da ilha está situada a bela e linda cidade de Moçambique servindo-lhe como de coroa a grande e magnífica fortaleza de S. Sebastião, que pela sua celebridade nos merece uma descrição particular (...)
Saindo da dita fortaleza, e passando um pequeno, mas vistoso campo todo limpo plano, e com vistas ao mar pelo sul, e pelo norte aonde a tropa faz as suas evoluções, e exercícios militares; que serve como de passeio público à cidade, e aos mouros de lugar destinado para fazerem amarras, viradores, e cordas de cairo, entra-se na mesma cidade por duas ruas, além de outra que corre junto da praia pela parte do sul. Estende-se a povoação por todo o comprimento da ilha até mais de dois terços da sua extensão, ocupando de mar a mar todo o terreno intermédio. As ditas ruas e outras e outras mais que tem a cidade bem podiam ser tiradas todas em linhas rectas, paralelas, e cortadas igualmente em ângulos rectos, segundo inculca a natureza do terreno; mas infelizmente quase todas são irregulares, tortas sem nenhuma uniformidade. São contudo limpas, e asseadas, planas e algumas das principais argamassadas de tal forma, que causa gosto andar por elas. Há em todas casas nobres e são algumas tão vastas e bem construídas, que podem entrar em competência com os bons palácios das grandes cidades. São as casas e igrejas todas cobertas de terraços, talvez mais pesados e mais fortes que as abóbadas de tijolo: servem-se deles os moradores, não só para os seus divertimentos, e passeios da tarde, mas principalmente para aproveitarem as águas da chuva (únicas que se bebem em toda a cidade) em grandes cisternas, que junto das mesmas casas têm sido construídas.
[131]
UM CAMINHAR NA CIDADE DE PEDRA E CAL
Na ponta N.E. da ilha está situada a bela e linda cidade de Moçambique servindo-lhe como de coroa a grande e magnífica fortaleza de S. Sebastião, que pela sua celebridade nos merece uma descrição particular (...)
Saindo da dita fortaleza, e passando um pequeno, mas vistoso campo todo limpo plano, e com vistas ao mar pelo sul, e pelo norte aonde a tropa faz as suas evoluções, e exercícios militares; que serve como de passeio público à cidade, e aos mouros de lugar destinado para fazerem amarras, viradores, e cordas de cairo, entra-se na mesma cidade por duas ruas, além de outra que corre junto da praia pela parte do sul. Estende-se a povoação por todo o comprimento da ilha até mais de dois terços da sua extensão, ocupando de mar a mar todo o terreno intermédio. As ditas ruas e outras e outras mais que tem a cidade bem podiam ser tiradas todas em linhas rectas, paralelas, e cortadas igualmente em ângulos rectos, segundo inculca a natureza do terreno; mas infelizmente quase todas são irregulares, tortas sem nenhuma uniformidade. São contudo limpas, e asseadas, planas e algumas das principais argamassadas de tal forma, que causa gosto andar por elas. Há em todas casas nobres e são algumas tão vastas e bem construídas, que podem entrar em competência com os bons palácios das grandes cidades. São as casas e igrejas todas cobertas de terraços, talvez mais pesados e mais fortes que as abóbadas de tijolo: servem-se deles os moradores, não só para os seus divertimentos, e passeios da tarde, mas principalmente para aproveitarem as águas da chuva (únicas que se bebem em toda a cidade) em grandes cisternas, que junto das mesmas casas têm sido construídas.
[131]
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Jall Sinth Hussein
ILHA DE MOÇAMBIQUE 1972
As ruas desertas cheias de vento
como um deus as paredes enormes do forte assistindo a tudo
a areia longa e lisa e a timidez do mar
a língua perdida como ruínas
na mão o cavalo-marinho e os sonhos
o tempo sem chegada e sem partida
assim haveria de ser mais tarde a minha vida
[130]
ILHA DE MOÇAMBIQUE 1972
As ruas desertas cheias de vento
como um deus as paredes enormes do forte assistindo a tudo
a areia longa e lisa e a timidez do mar
a língua perdida como ruínas
na mão o cavalo-marinho e os sonhos
o tempo sem chegada e sem partida
assim haveria de ser mais tarde a minha vida
[130]
sábado, fevereiro 05, 2005
Luís de Camões
OS LUSÍADAS (I, 54)
Esta ilha pequena, que habitamos
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala,
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E, por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha – Moçambique.
[129]
OS LUSÍADAS (I, 54)
Esta ilha pequena, que habitamos
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala,
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E, por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha – Moçambique.
[129]
terça-feira, fevereiro 01, 2005
(Canção Popular)
EIS O QUE É BELO NESTE MUNDO
Eis o que é belo neste mundo
Eis o que o homem roga acontecer dia após dia
Nós de Beira-Mar gostamos imenso
A nossa alegria de hoje é incomparável, pela vinda destes
amigos de outros Países
Toda a Ilha hoje está abalar.
Naqueles tempos, tempos que já lá vão,
quando vínhamos do continente
Lumbo, o nosso transporte principal era o paporo.
Ao pisarmos a Ilha, avistávamos primeiramente as estatuetas
das muralhas florindo um brilhante candeeiro
Da Ilha para os vários locais viajávamos de riquixós
Quando o paquete adragava era guiado por um piloto, um
farol que piscava da ponta do Mercado Sancul.
[128]
EIS O QUE É BELO NESTE MUNDO
Eis o que é belo neste mundo
Eis o que o homem roga acontecer dia após dia
Nós de Beira-Mar gostamos imenso
A nossa alegria de hoje é incomparável, pela vinda destes
amigos de outros Países
Toda a Ilha hoje está abalar.
Naqueles tempos, tempos que já lá vão,
quando vínhamos do continente
Lumbo, o nosso transporte principal era o paporo.
Ao pisarmos a Ilha, avistávamos primeiramente as estatuetas
das muralhas florindo um brilhante candeeiro
Da Ilha para os vários locais viajávamos de riquixós
Quando o paquete adragava era guiado por um piloto, um
farol que piscava da ponta do Mercado Sancul.
[128]
sábado, janeiro 29, 2005
quinta-feira, janeiro 27, 2005
Luís Carlos Patraquim
MORADAS
O rosto da montanha na sombra do vale,
sua macerada inscrição confundindo as pegadas
de quem, ignoto, nem a memória inscreveu
sobre o vento.
Alguém que olha a ausência
e o mais íntimo sinal, sedosa estrela,
uma quase poeira, a viandante terra,
nómada, entre silêncio e nada.
Uma única mão de luz talonando o tempo.
[126]
MORADAS
O rosto da montanha na sombra do vale,
sua macerada inscrição confundindo as pegadas
de quem, ignoto, nem a memória inscreveu
sobre o vento.
Alguém que olha a ausência
e o mais íntimo sinal, sedosa estrela,
uma quase poeira, a viandante terra,
nómada, entre silêncio e nada.
Uma única mão de luz talonando o tempo.
[126]
quarta-feira, janeiro 26, 2005
terça-feira, janeiro 25, 2005
Fonseca Amaral
S’AGAPO
Penélope,
nascida e criada no Alto-Maé,
filha do Kristos da cantina,
neta do Aristóteles da padaria,
vizinha de Karimo o monhé
da esquina,
irmã da helénica Sophia,
vai tecendo
e destecendo
- até ao pôr-do-sol –
tua renda de lençol
- pálida sombra do mito –
enquanto esperas
teu primo Ulisses,
o noivo aflito,
lá do Chibuto,
para as lautas bodas
no Ateneu.
Pois eu,
sem os direitos do grego astuto,
vou gritar no Largo Albasini
- ágora perfeito para tais intentos –
os meus profundos sentimentos
e lamentos.
Que os conheçam
a Polícia
a Milícia
os motoristas
as floristas
os maviques
os caciques
dos buicks
os poetas meus amigos
os colonos, dos antigos,
a casuarina
da esquina
e o cajueiro
do terreiro
- que é quintal
cá para a gente.
Penélope,
vou gritar,
sem cessar,
sem ática contenção,
até enrouquecer
de fazer dó:
S’AGAPO
S’AGAPO
S’AGAPO.
[124]
S’AGAPO
Penélope,
nascida e criada no Alto-Maé,
filha do Kristos da cantina,
neta do Aristóteles da padaria,
vizinha de Karimo o monhé
da esquina,
irmã da helénica Sophia,
vai tecendo
e destecendo
- até ao pôr-do-sol –
tua renda de lençol
- pálida sombra do mito –
enquanto esperas
teu primo Ulisses,
o noivo aflito,
lá do Chibuto,
para as lautas bodas
no Ateneu.
Pois eu,
sem os direitos do grego astuto,
vou gritar no Largo Albasini
- ágora perfeito para tais intentos –
os meus profundos sentimentos
e lamentos.
Que os conheçam
a Polícia
a Milícia
os motoristas
as floristas
os maviques
os caciques
dos buicks
os poetas meus amigos
os colonos, dos antigos,
a casuarina
da esquina
e o cajueiro
do terreiro
- que é quintal
cá para a gente.
Penélope,
vou gritar,
sem cessar,
sem ática contenção,
até enrouquecer
de fazer dó:
S’AGAPO
S’AGAPO
S’AGAPO.
[124]
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Rui Knopfli
VISITAÇÃO (1)
Perfura-me o sono
essa luz estelar, basculante,
puríssimo cristal de lágrimas.
Minha comprida noite desabitada
se enche com a mansa luz dorida
desses olhos irmãos do meu silêncio.
Um pouco de ternura incomensurável
pousa os brandos dedos sobre o meu ombro,
minhas pálpebras, meu sono inquieto
e adoça a nudez fria deste espaço
ora visitado pelo teu rosto querido.
Cerro os olhos de cansaço, na boca
um travo salgado, sabor de mar,
resto de amargura antiga. Ou serão lágrimas
tuas, esse sal vivíssimo, que sinto nos lábios,
como se tivesse beijado os olhos teus tristíssimos?
[123]
VISITAÇÃO (1)
Perfura-me o sono
essa luz estelar, basculante,
puríssimo cristal de lágrimas.
Minha comprida noite desabitada
se enche com a mansa luz dorida
desses olhos irmãos do meu silêncio.
Um pouco de ternura incomensurável
pousa os brandos dedos sobre o meu ombro,
minhas pálpebras, meu sono inquieto
e adoça a nudez fria deste espaço
ora visitado pelo teu rosto querido.
Cerro os olhos de cansaço, na boca
um travo salgado, sabor de mar,
resto de amargura antiga. Ou serão lágrimas
tuas, esse sal vivíssimo, que sinto nos lábios,
como se tivesse beijado os olhos teus tristíssimos?
[123]
sábado, janeiro 15, 2005
quarta-feira, janeiro 12, 2005
João Paulo Borges Coelho
AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto II)
Entretanto, lá fora tudo parece funcionar dentro da arrastada normalidade com que sempre funcionou: as figuras públicas dando a sua opinião sobre as coisas aos jornais locais antes de se refugiarem nos clubes a jogar as cartas, por vezes tendo mão (um trio de damas, dois ases), outras sem jogo nenhum; os carpinteiros brancos, com barbas espessas de três dias, passando a caminho da Munhava montados nas suas Florette, nas suas Zundapp, levando atrás, amarradas com tiras de câmaras-de-ar, a caixa das ferramentas e a lancheira cheia se é na neblina fresca da manhã, ou vazia com restos para o gato lá de casa se é no tempo dos fumos e odores vespertinos; os estivadores, em cachos, carregando sacas de serapilheira e vestidos de serapilheira depois de terem dormido em lençóis de serapilheira e comido uma shima cheirando a vapor e a serapilheira, espalhando-se pelo cais como um mar negro e agitado; os médicos dando consultas caras todos os dias, baratas uma vez por semana, receitando misteriosas mensagens em código que só a infinita sabedoria dos farmacêuticos sabe ler, antes de fecharem os consultórios para ir espairecer com as esposas à matiné das cinco; os pescadores saindo para o mar de mãos vazias e voltando ao fim do dia com algum peixe ou quase sem peixe nenhum; as raparigas da Boite Primavera, Zamina, Minita, Irene e Erleny, como outras tantas que vieram antes ou ainda outras que virão depois, passeando-se lentas pela baixa atrás das suas boquilhas e espremidas nos seus hot-pants, dando troco aos marinheiros para que não pensem que os seus piropos ficam sem resposta, antes de recolherem ao redil para enfim se prepararem para os trabalhos da noite; as meninas do Liceu Pêro de Anaia, com longos cabelos castanhos, despertando púberes instintos nos candidatos a namorados e fumando às escondidas dos pais e dos amigos dos pais; o cauteleiro arrastando-se por entre as mesas do café sem pedir licença, alardeando as suas roucas promessas; o monhé da loja coçando os pés atrás do balcão, indiferente aos clientes que lhe esquadrinham a mercadoria, uns para comprar e outros só para ver; os chineses passando as suas couves em pequenas carrinhas rastejantes e exangues, ou vendendo com modos suaves e educados os seus pijamas e camisas de casca-de-ovo, e as suas chávenas de louça fina como pele, com carantonhas no fundo olhando-nos quando bebemos, e nós bebndo sofregamente para salvar das profundezas daquele minúsculo mar esses estranhos afogados; os empregados da câmara municipal fazendo interrupções ao expediente da manhã, imunes ao calor na protecção das suas camisas brancas de casca-de-ovo compradas no Ping Ta e com os bolsos cheios de esferográficas, circulando a caminho do bazar; os contínuos caminhando nas suas estranhas e contraditórias fardas de caqui, a metade de cima um camisa à militar, a de baixo uns calções inocentes como se fossem de criança; os criados batendo tapetes nos quintais, levantando nuvens de poeira; as crianças negras chapinhando em minúsculas lagoas de água da chuva se é depois da chuva, ou na lama quase seca se é dia de sol, com as suas barrigas redondas e os olhos irradiando uma alegria inventada a partir de motivo nenhum; as crianças brancas irradiando essa mesma alegria, chapinhando na praia do Clube Náutico, nas poças de água do mar; os jovens rebeldes do Oceana fumando suruma para inventar outra cidade tão encalhada e viva quanto esta; os corvos negros de peitilho branco passeado-se lentamente pela Praia do Veleiro, crocitando nos ramos das casuarinas com voz idêntica à do cauteleiro vendedor de promessas nos cafés; os barcos imensos e descarnados, presos no areal, soltando esquírolas de ferrugem, lágrimas ferrugentas da dor que é a humilhação de acabar daquela maneira, longe das profundezas; os rodesianos cor-de-rosa e sardentos chegando em revoada com as suas filhas belíssimas muito brancas para comer camarões e beber cerveja, e em revoada partindo; os arquitectos fazendo casas modernas para terem onde morar, e os pobres casas de lata e capim para terem onde sofrer, a cada qual o seu telhado; os cozinheiros cozinhando souflés e gigantescos mariscos cor-de-rosa como o gigantesco John Dale se é de dia, as suas mulheres shima com camarões magros e secos como Ganda se é de noite, para enfim todos terem o que comer, cada qual à sua mesa; a bicicleta branca dos ice-creams passando a tilintar, anunciando os cones pontiagudos se é Esquimó, de fundo chato se é Alasca, e Vicente correndo atrás dela com as moedas na mão para trazer um sorvete de chocolate, secreto capricho de Sá Caetana; o pão que os padeiros cozem de madrugada espalhando o seu cheiro bom e universal sobre a cidade, igual para toda a gente, amolecendo no chá dos pobres a sua integridade ou deixando derramar sobre as suas fatias um cacho de ovas de caviar importado; as mulheres dos oficiais escrevendo romances melancólicos como murmúrios que as entretenham da angústia da espera; os padres conspirando nas suas inócuas capelas, na falta de alguém mais adequado para o fazer; os soldados chegando e partindo com as mãos cheias de sangue e os olhos de pavor; os combatentes no mato, diz-se em surdina, fazendo fogueiras e conspirando; os pides, atrás dos óculos negros, tomando cafés no Café Capri, vestidos com camisas brancas de casca-de-ovo dos chineses e fingindo estar de folga mas na verdade trabalhando; o mangal secando, mal-grado o desespero dos minúsculos caranguejos; o mar paciente e obstinado engolindo lentamente a terra na Praia dos Pinheiros e no Macúti, em todos os lugares; as marés cheias e vazias dando a cada uma o seu lugar, mas cada vez as marés cheias sendo mais cheias; e os dias de sol sucedendo-se uns aos outros, com dias cinzentos e chuvosos pelo meio.
[121]
AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto II)
Entretanto, lá fora tudo parece funcionar dentro da arrastada normalidade com que sempre funcionou: as figuras públicas dando a sua opinião sobre as coisas aos jornais locais antes de se refugiarem nos clubes a jogar as cartas, por vezes tendo mão (um trio de damas, dois ases), outras sem jogo nenhum; os carpinteiros brancos, com barbas espessas de três dias, passando a caminho da Munhava montados nas suas Florette, nas suas Zundapp, levando atrás, amarradas com tiras de câmaras-de-ar, a caixa das ferramentas e a lancheira cheia se é na neblina fresca da manhã, ou vazia com restos para o gato lá de casa se é no tempo dos fumos e odores vespertinos; os estivadores, em cachos, carregando sacas de serapilheira e vestidos de serapilheira depois de terem dormido em lençóis de serapilheira e comido uma shima cheirando a vapor e a serapilheira, espalhando-se pelo cais como um mar negro e agitado; os médicos dando consultas caras todos os dias, baratas uma vez por semana, receitando misteriosas mensagens em código que só a infinita sabedoria dos farmacêuticos sabe ler, antes de fecharem os consultórios para ir espairecer com as esposas à matiné das cinco; os pescadores saindo para o mar de mãos vazias e voltando ao fim do dia com algum peixe ou quase sem peixe nenhum; as raparigas da Boite Primavera, Zamina, Minita, Irene e Erleny, como outras tantas que vieram antes ou ainda outras que virão depois, passeando-se lentas pela baixa atrás das suas boquilhas e espremidas nos seus hot-pants, dando troco aos marinheiros para que não pensem que os seus piropos ficam sem resposta, antes de recolherem ao redil para enfim se prepararem para os trabalhos da noite; as meninas do Liceu Pêro de Anaia, com longos cabelos castanhos, despertando púberes instintos nos candidatos a namorados e fumando às escondidas dos pais e dos amigos dos pais; o cauteleiro arrastando-se por entre as mesas do café sem pedir licença, alardeando as suas roucas promessas; o monhé da loja coçando os pés atrás do balcão, indiferente aos clientes que lhe esquadrinham a mercadoria, uns para comprar e outros só para ver; os chineses passando as suas couves em pequenas carrinhas rastejantes e exangues, ou vendendo com modos suaves e educados os seus pijamas e camisas de casca-de-ovo, e as suas chávenas de louça fina como pele, com carantonhas no fundo olhando-nos quando bebemos, e nós bebndo sofregamente para salvar das profundezas daquele minúsculo mar esses estranhos afogados; os empregados da câmara municipal fazendo interrupções ao expediente da manhã, imunes ao calor na protecção das suas camisas brancas de casca-de-ovo compradas no Ping Ta e com os bolsos cheios de esferográficas, circulando a caminho do bazar; os contínuos caminhando nas suas estranhas e contraditórias fardas de caqui, a metade de cima um camisa à militar, a de baixo uns calções inocentes como se fossem de criança; os criados batendo tapetes nos quintais, levantando nuvens de poeira; as crianças negras chapinhando em minúsculas lagoas de água da chuva se é depois da chuva, ou na lama quase seca se é dia de sol, com as suas barrigas redondas e os olhos irradiando uma alegria inventada a partir de motivo nenhum; as crianças brancas irradiando essa mesma alegria, chapinhando na praia do Clube Náutico, nas poças de água do mar; os jovens rebeldes do Oceana fumando suruma para inventar outra cidade tão encalhada e viva quanto esta; os corvos negros de peitilho branco passeado-se lentamente pela Praia do Veleiro, crocitando nos ramos das casuarinas com voz idêntica à do cauteleiro vendedor de promessas nos cafés; os barcos imensos e descarnados, presos no areal, soltando esquírolas de ferrugem, lágrimas ferrugentas da dor que é a humilhação de acabar daquela maneira, longe das profundezas; os rodesianos cor-de-rosa e sardentos chegando em revoada com as suas filhas belíssimas muito brancas para comer camarões e beber cerveja, e em revoada partindo; os arquitectos fazendo casas modernas para terem onde morar, e os pobres casas de lata e capim para terem onde sofrer, a cada qual o seu telhado; os cozinheiros cozinhando souflés e gigantescos mariscos cor-de-rosa como o gigantesco John Dale se é de dia, as suas mulheres shima com camarões magros e secos como Ganda se é de noite, para enfim todos terem o que comer, cada qual à sua mesa; a bicicleta branca dos ice-creams passando a tilintar, anunciando os cones pontiagudos se é Esquimó, de fundo chato se é Alasca, e Vicente correndo atrás dela com as moedas na mão para trazer um sorvete de chocolate, secreto capricho de Sá Caetana; o pão que os padeiros cozem de madrugada espalhando o seu cheiro bom e universal sobre a cidade, igual para toda a gente, amolecendo no chá dos pobres a sua integridade ou deixando derramar sobre as suas fatias um cacho de ovas de caviar importado; as mulheres dos oficiais escrevendo romances melancólicos como murmúrios que as entretenham da angústia da espera; os padres conspirando nas suas inócuas capelas, na falta de alguém mais adequado para o fazer; os soldados chegando e partindo com as mãos cheias de sangue e os olhos de pavor; os combatentes no mato, diz-se em surdina, fazendo fogueiras e conspirando; os pides, atrás dos óculos negros, tomando cafés no Café Capri, vestidos com camisas brancas de casca-de-ovo dos chineses e fingindo estar de folga mas na verdade trabalhando; o mangal secando, mal-grado o desespero dos minúsculos caranguejos; o mar paciente e obstinado engolindo lentamente a terra na Praia dos Pinheiros e no Macúti, em todos os lugares; as marés cheias e vazias dando a cada uma o seu lugar, mas cada vez as marés cheias sendo mais cheias; e os dias de sol sucedendo-se uns aos outros, com dias cinzentos e chuvosos pelo meio.
[121]
sábado, janeiro 08, 2005
MATAPA SABOROSA
½ kg de folhas de mandioca
6 dentes de alho
4 malaguetas
1 colher de chá de sal
1 chávena de camarão seco e sem as cabeças
2 cocos
1 chávena de farinha de amendoim
Escolhem-se as folhas mais tenrinhas, lavam-se e pisam-se, com alho e malagueta num pilão ou na máquina. Põem-se numa panela a cozer sem água e um pouco sal. Depois de secar a água natural deita-se o camarão seco pilado, e em seguida o leite de coco e deixa-se ferver. Por fim, deita-se a farinha de amendoim e deixa-se apurar durante uma hora.As folhas de mandioca podem ser substituídas por folhas de couve. Se desejar confeccionar matapa à moda makua substitua o amendoim pela castanha de caju.
½ kg de folhas de mandioca
6 dentes de alho
4 malaguetas
1 colher de chá de sal
1 chávena de camarão seco e sem as cabeças
2 cocos
1 chávena de farinha de amendoim
Escolhem-se as folhas mais tenrinhas, lavam-se e pisam-se, com alho e malagueta num pilão ou na máquina. Põem-se numa panela a cozer sem água e um pouco sal. Depois de secar a água natural deita-se o camarão seco pilado, e em seguida o leite de coco e deixa-se ferver. Por fim, deita-se a farinha de amendoim e deixa-se apurar durante uma hora.As folhas de mandioca podem ser substituídas por folhas de couve. Se desejar confeccionar matapa à moda makua substitua o amendoim pela castanha de caju.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Links importantes:
O site Macua de Moçambique, e principalmente a sua biblioteca, à sombra de cujos palmares este blog se irá sentar.
A livraria Mabooki (Livros e Mais), especializada em temas africanos.
O site Macua de Moçambique, e principalmente a sua biblioteca, à sombra de cujos palmares este blog se irá sentar.
A livraria Mabooki (Livros e Mais), especializada em temas africanos.
terça-feira, janeiro 04, 2005
Rui Knopfli
A PEDRA NO CAMINHO
Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.
redondo aqui, acolá acerado.
Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.
Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
na avenida tu és um homem
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.
[120]
A PEDRA NO CAMINHO
Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.
redondo aqui, acolá acerado.
Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.
Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
na avenida tu és um homem
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.
[120]
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Rui Knopfli
PRAÇA SETE DE MARÇO
No centro da praça, meu pai acena
do fundo do tempo: o coração
da cidade ao voltar da esquina.
Por sobre os metais cintilantes da banda,
o Ali de cofió rendado e cabaia branca
leva a bandeja nos gestos graves.
Há um bule de loiça e uma chávena
a fumegar na tarde, o odor quente
e loiro das torradas, o travo amargo
da compota; senhores que passeiam
de palhinha e palm beach, baneanes
magros de reverência solícita, um surdo
marulhar de pedras giradas no mah jong.
O horizonte abre para o mar, lisa
matriz do sol. Móveis, as sombras
gizam no empedrado caprichos longos
com o passar da luz entre a folhagem.
E meu pai tão longe que já o não vejo,
talvez de ter passado, como a luz,
sobre esse tempo e esse lugar, ora mudados
em eco fruste da memória. No centro
da praça volto-me para acenar a meu filho.
[119]
PRAÇA SETE DE MARÇO
No centro da praça, meu pai acena
do fundo do tempo: o coração
da cidade ao voltar da esquina.
Por sobre os metais cintilantes da banda,
o Ali de cofió rendado e cabaia branca
leva a bandeja nos gestos graves.
Há um bule de loiça e uma chávena
a fumegar na tarde, o odor quente
e loiro das torradas, o travo amargo
da compota; senhores que passeiam
de palhinha e palm beach, baneanes
magros de reverência solícita, um surdo
marulhar de pedras giradas no mah jong.
O horizonte abre para o mar, lisa
matriz do sol. Móveis, as sombras
gizam no empedrado caprichos longos
com o passar da luz entre a folhagem.
E meu pai tão longe que já o não vejo,
talvez de ter passado, como a luz,
sobre esse tempo e esse lugar, ora mudados
em eco fruste da memória. No centro
da praça volto-me para acenar a meu filho.
[119]
sexta-feira, dezembro 24, 2004
José Craveirinha
NATAL
A cidade acordou em festa.
Natal! Natal!
A Baixa encheu-se de gente. Nas lojas os brinquedos atraíam os pais com as crianças pela mão. Maguébe o negrinho, sobraçando seu monte de aspargos, parou em frente de uma montra. Os olhos abriram-se gulosamente perante as maravilhas tão perto e tão longe dele, que aquilo tudo era um sonho boiando nas pupilas redondas e cheias de todas as fomes de África. Triciclos, motos, camiões, aviões e tantas coisas mais, feitiçaria misteriosa para Maguébe, estavam ali atrás do muro de vidro.
Maguébe seguiu depois, rua fora, com seu grande ramo verde debaixo do braço e no pensamento: «a shitututo, a mimova, a shitimela... oh... inkuasu psa Quissimuce ya valungu!»
Um búzio grande soprava na alma de Maguébe as ânsias de um menino sem um balão sequer na mão escura, um reles balão encarnado para ele assoprar, o balão inchando como um sapo enorme.
Os machimbombos passavam pejados de gente com pressa.
Nas lojas há um entra-e-sai ininterrupto como formigueiro.
Maguébe cruza a rua, um carro buzina e passa, rápido, um olhar zangado do motorista a visá-lo da cabeça aos pés.
No bazar as pessoas iam e vinham, de banca em banca, numa lufa-lufa de batatas, legumes e frutas do Transval e também outras coisas que Maguébe nunca tinha comido e cujos nomes não sabia.
Maguébe passou no bazar, vendo, ouvindo e cheirando. Mas o maior milagre de Culucumba era a falta de espaço para a cobiça na alma do pequeno vendedor de ramos de aspargos. Ele não sofria e nunca provara aquelas coisas bonitas que brilhavam do outro lado do vidro das montras. A filosofia de Maguébe nascia e vivia de não saber.
Talvez fossem coisas boas, mais gostosas que o sumo de caju; a tincarosse; a mapsincha madura, mais coisas que não tinha perdido porque nunca as tivera. Talvez mesmo fossem melhores que mavunga!...
Custa é ter uma coisa que dá gosto depois perder tudo!
Maguébe, agora que estava morando na cidade, sentia vontade de provar as coisas dos mulungo. Quando ele descia as ruas gritando: -- Aspargo minha sinhôr!!!, havia senhoras que tinham pena dele e davam comida, às vezes bolos que ficavam do dia de anos do menino. Maguébe ficava contente e comia até lamber os dedos. Maguébe ficava sentado debaixo de uma sombra de cajueiro, descobrindo o gosto dos bolos até ao lamber dos dedos.
Hoje, véspera de Natal, Maguébe sai caminhando rua acima, buscando as moradias, a boca gritando: -- aspargo minha sinhôr... – e os grandes olhos amarrados ainda às paredes de vidro das casas grandes de chilunguine.
-- Aspargo minha sinhôr!!!
Mas a voz hoje perde-se no burburinho da cidade e no barulho dos motores dos automóveis que são os donos das estradas negras de alcatrão
-- Dá bocadinho de pão minha sinhôr...
Espreita nos portões, grita através das grades mas o apelo morre na lufa-lufa dos preparativos do Natal.
Maguébe olha, ajeita o ramo de aspargos no braço nu e lá vai estrada em estrada com o Natal nos olhos, nos ouvidos e no nariz achatado e a luzir em vão no ar embuzinado e festivo:
-- As... par... go minha sinhôr...
Já longe o pregão de Maguébeainda corta a atmosfera festiva da cidade, paira no ar como um balão suspenso:
-- As... par... go... minha sinhôr...
E nas veias do menino que veio de fundo da Munhuana com seu ramo de aspargos, um batuque estranho bate e repercute pelo corpo todo como se mil demónios dançassem chibugo dentro da sua barriga:
Qui... ssi... mu... ce! Qui... ssi... mu... ce!
[118]
NATAL
A cidade acordou em festa.
Natal! Natal!
A Baixa encheu-se de gente. Nas lojas os brinquedos atraíam os pais com as crianças pela mão. Maguébe o negrinho, sobraçando seu monte de aspargos, parou em frente de uma montra. Os olhos abriram-se gulosamente perante as maravilhas tão perto e tão longe dele, que aquilo tudo era um sonho boiando nas pupilas redondas e cheias de todas as fomes de África. Triciclos, motos, camiões, aviões e tantas coisas mais, feitiçaria misteriosa para Maguébe, estavam ali atrás do muro de vidro.
Maguébe seguiu depois, rua fora, com seu grande ramo verde debaixo do braço e no pensamento: «a shitututo, a mimova, a shitimela... oh... inkuasu psa Quissimuce ya valungu!»
Um búzio grande soprava na alma de Maguébe as ânsias de um menino sem um balão sequer na mão escura, um reles balão encarnado para ele assoprar, o balão inchando como um sapo enorme.
Os machimbombos passavam pejados de gente com pressa.
Nas lojas há um entra-e-sai ininterrupto como formigueiro.
Maguébe cruza a rua, um carro buzina e passa, rápido, um olhar zangado do motorista a visá-lo da cabeça aos pés.
No bazar as pessoas iam e vinham, de banca em banca, numa lufa-lufa de batatas, legumes e frutas do Transval e também outras coisas que Maguébe nunca tinha comido e cujos nomes não sabia.
Maguébe passou no bazar, vendo, ouvindo e cheirando. Mas o maior milagre de Culucumba era a falta de espaço para a cobiça na alma do pequeno vendedor de ramos de aspargos. Ele não sofria e nunca provara aquelas coisas bonitas que brilhavam do outro lado do vidro das montras. A filosofia de Maguébe nascia e vivia de não saber.
Talvez fossem coisas boas, mais gostosas que o sumo de caju; a tincarosse; a mapsincha madura, mais coisas que não tinha perdido porque nunca as tivera. Talvez mesmo fossem melhores que mavunga!...
Custa é ter uma coisa que dá gosto depois perder tudo!
Maguébe, agora que estava morando na cidade, sentia vontade de provar as coisas dos mulungo. Quando ele descia as ruas gritando: -- Aspargo minha sinhôr!!!, havia senhoras que tinham pena dele e davam comida, às vezes bolos que ficavam do dia de anos do menino. Maguébe ficava contente e comia até lamber os dedos. Maguébe ficava sentado debaixo de uma sombra de cajueiro, descobrindo o gosto dos bolos até ao lamber dos dedos.
Hoje, véspera de Natal, Maguébe sai caminhando rua acima, buscando as moradias, a boca gritando: -- aspargo minha sinhôr... – e os grandes olhos amarrados ainda às paredes de vidro das casas grandes de chilunguine.
-- Aspargo minha sinhôr!!!
Mas a voz hoje perde-se no burburinho da cidade e no barulho dos motores dos automóveis que são os donos das estradas negras de alcatrão
-- Dá bocadinho de pão minha sinhôr...
Espreita nos portões, grita através das grades mas o apelo morre na lufa-lufa dos preparativos do Natal.
Maguébe olha, ajeita o ramo de aspargos no braço nu e lá vai estrada em estrada com o Natal nos olhos, nos ouvidos e no nariz achatado e a luzir em vão no ar embuzinado e festivo:
-- As... par... go minha sinhôr...
Já longe o pregão de Maguébeainda corta a atmosfera festiva da cidade, paira no ar como um balão suspenso:
-- As... par... go... minha sinhôr...
E nas veias do menino que veio de fundo da Munhuana com seu ramo de aspargos, um batuque estranho bate e repercute pelo corpo todo como se mil demónios dançassem chibugo dentro da sua barriga:
Qui... ssi... mu... ce! Qui... ssi... mu... ce!
[118]
quarta-feira, dezembro 22, 2004
Gulamo Khan
MOÇAMBICANTO I
céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
moçambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
[117]
MOÇAMBICANTO I
céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
moçambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
[117]
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Gulamo Khan
XITIMELA
para Alexandre Langa
neste xitimela nosso comboio da vida
que nos faz meninos de ontem
pensar hoje vamos não só à Manhiça
mais longe vamos meu amigo
espera ver no diesel do teu peito
a força motriz que sopra
as mais belas ngomas deste moçambicano
e diz ao povo como sabes
que xitimela da vida é da gente
e faz poh poh poh num apeadeiro livre.
[116]
XITIMELA
para Alexandre Langa
neste xitimela nosso comboio da vida
que nos faz meninos de ontem
pensar hoje vamos não só à Manhiça
mais longe vamos meu amigo
espera ver no diesel do teu peito
a força motriz que sopra
as mais belas ngomas deste moçambicano
e diz ao povo como sabes
que xitimela da vida é da gente
e faz poh poh poh num apeadeiro livre.
[116]
sábado, dezembro 11, 2004
Rui Knopfli
AUTO-RETRATO
De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.
De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.
De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.
De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.
[115]
AUTO-RETRATO
De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.
De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.
De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.
De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.
[115]
quinta-feira, dezembro 02, 2004
Jorge Viegas
CÍRCULO DE SOMBRA
Ao Rui Knopfli
A minha alma é um círculo de sombra.
Os meus poemas são a pálida mensagem
dum homem melancólico. Se sou poeta,
decerto não o sou do tempo presente.
Escrevo poemas de amor, e os meus poemas
não conduzem os povos à contestação.
Gosto de passear nas ruas a antiga liberdade
que eu sei haver nos poetas que mais amo.
Uma liberdade que não conduz a nada,
uma liberdade que não explica nada.
Leio velhos filósofos de antigamente,
e velhos poetas, mais velhos ainda.
De quando em vez, monólogos em surdina.
A minha alma é um círculo de sombra.
[114]
CÍRCULO DE SOMBRA
Ao Rui Knopfli
A minha alma é um círculo de sombra.
Os meus poemas são a pálida mensagem
dum homem melancólico. Se sou poeta,
decerto não o sou do tempo presente.
Escrevo poemas de amor, e os meus poemas
não conduzem os povos à contestação.
Gosto de passear nas ruas a antiga liberdade
que eu sei haver nos poetas que mais amo.
Uma liberdade que não conduz a nada,
uma liberdade que não explica nada.
Leio velhos filósofos de antigamente,
e velhos poetas, mais velhos ainda.
De quando em vez, monólogos em surdina.
A minha alma é um círculo de sombra.
[114]
sábado, novembro 27, 2004
terça-feira, novembro 23, 2004
José Craveirinha
POLANA
I
Doirada alcatifa d’areia.
Um cúmplice lençol de praia.
Gloriosas bocas ávidas
Celebrando hinos.
Epílogos de carícias.
Gaivotas de nervos.
A maresia.
O sol.
A praia.
II
Uma enternecedora capulana de maresia.
Uma arenosa esteira prateada.
Gloriosas nossas bocas ávidas
celebrando cem mil hinos das línguas.
Beijos trincando-nos os dentes.
[112]
POLANA
I
Doirada alcatifa d’areia.
Um cúmplice lençol de praia.
Gloriosas bocas ávidas
Celebrando hinos.
Epílogos de carícias.
Gaivotas de nervos.
A maresia.
O sol.
A praia.
II
Uma enternecedora capulana de maresia.
Uma arenosa esteira prateada.
Gloriosas nossas bocas ávidas
celebrando cem mil hinos das línguas.
Beijos trincando-nos os dentes.
[112]
segunda-feira, novembro 22, 2004
GALINHA À ZAMBEZIANA
1 galinha
1 coco
1 colher de chá de sal
2 limões
2 dentes de alho
1 colher de chá de pimenta
1 colher de chá de piri-piri em pó
2 colheres de sopa de óleo
Toma-se uma galinha nova, limpa-se e tempera-se com sal, limão, pimenta, piri-piri e alho. Extrai-se o leite a um coco ralado e mistura-se com duas colheres de óleo. Grelha-se depois a galinha em fogo lento, regando-a constantemente com a mistura de coco e óleo. À hora de servir aproveite o molho que estiver no tabuleiro para regar a galinha. Esta receita é também saborosa quando a galinha é assada no carvão.
1 galinha
1 coco
1 colher de chá de sal
2 limões
2 dentes de alho
1 colher de chá de pimenta
1 colher de chá de piri-piri em pó
2 colheres de sopa de óleo
Toma-se uma galinha nova, limpa-se e tempera-se com sal, limão, pimenta, piri-piri e alho. Extrai-se o leite a um coco ralado e mistura-se com duas colheres de óleo. Grelha-se depois a galinha em fogo lento, regando-a constantemente com a mistura de coco e óleo. À hora de servir aproveite o molho que estiver no tabuleiro para regar a galinha. Esta receita é também saborosa quando a galinha é assada no carvão.
sexta-feira, novembro 19, 2004
Jorge Viegas
O NÚCLEO TENAZ
Ao Sebastião Alba
Com o poema
abriremos a noite,
jugularemos o medo.
Com o poema
construiremos o homem.
Não o homem definitivo,
enquistado em verdades irrecusáveis,
em certezas absolutas,
mas o homem
em permanente transformação.
O homem em viagem,
o homem-interrogação.
Porque o poema é sempre
(mesmo o das palavras mansas e amáveis)
o núcleo tenaz
duma revolução.
[111]
O NÚCLEO TENAZ
Ao Sebastião Alba
Com o poema
abriremos a noite,
jugularemos o medo.
Com o poema
construiremos o homem.
Não o homem definitivo,
enquistado em verdades irrecusáveis,
em certezas absolutas,
mas o homem
em permanente transformação.
O homem em viagem,
o homem-interrogação.
Porque o poema é sempre
(mesmo o das palavras mansas e amáveis)
o núcleo tenaz
duma revolução.
[111]
domingo, novembro 14, 2004
João Paulo Borges Coelho
AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto)
(...)impera o silêncio naquela casa. Faltam palavras e sons no espaço que se foi cavando entre as duas mulheres. Sá Caetana, porque se recolheu dentro da tristeza e do rigor dos seus olhos fixos, da sua boca fina e cerrada; Sá Amélia, porque há tempo que deixou terra firme, navegando hoje num mar revolto onde não se descortinam territórios nem fronteiras, onde tudo é tão igual e amplo que nada fica por dizer.
A primeira, com os óculos pendurados na ponta do nariz, borda nos seus panos réplicas de sinais que o tempo já levou, sinais que transporta no interior da sua memória. Hoje está sentada na penumbra da sala. Desapareceram os recantos angulosos na escuridão que o fim da tarde já não consegue iluminar, ficou o espaço mais arredondado. Um último raio de sol incide sobre o pano cru onde ela vai bordando um par de gatos fofos, anafados. Gatos verdes, gatos que foi buscar ao sonho.
Na ilha do Ibo, onde cresceu, não havia gatos. Sempre que a sua mãe Ana Bessa os nomeava, povoando com um monte deles uma qualquer história fantástica, imaginava-os ela fofos e verdes (por um qualquer motivo nunca a mãe lhes dera cor, ou dera-a sem que a Caetaninha, criança dispersa e impaciente, a retivesse). Viu gatos mais tarde, claro, gatos de quase todas as cores que os gatos têm: pretos, brancos, castanhos, pardos. Mas os gatos que agora borda são os gatos verdes da sua infância. Gatos imaginários. Gatos alegres que brincam na mornidão daquele último raio de sol procurando chegar com as patas felpudas às minúsculas e infinitas partículas que ele transporta. Quando o dia acabar, quando se começarem a acender pequenas luzes nas janelas, Sá Caetana depositará o pano na cesta da costura e os gatos ali passarão a noite, inacabados, à espera que nova sessão de bordado lhes aumente a definição.
Também Sá Amélia visita o passado. Só que com muito menos rigor que a outra, e também com um proveito diferente. Incursões violentas, erráticas, destituídas de critério. Que a deixam a ronronar de prazer ou a assustam e fazem gemer baixinho. No lugar dos gatos da irmã, com as suas cores de fantasia, são temporais que descabelam coqueiros, são vagas de trabalhadores macondes do coqueiral com dentes aguçados e faces escarificadas onde o diabo deixou estranhos sinais. Olhando Maméia, criança e feia, com os seus olhos amarelos.
- Caetana, tenho medo! – diz ela nessas alturas, num fio de voz, como se fosse há muito tempo e ela fosse pequena e chamasse pela mãe, Ana Bessa, na varanda da Casa Grande.
[110]
AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto)
(...)impera o silêncio naquela casa. Faltam palavras e sons no espaço que se foi cavando entre as duas mulheres. Sá Caetana, porque se recolheu dentro da tristeza e do rigor dos seus olhos fixos, da sua boca fina e cerrada; Sá Amélia, porque há tempo que deixou terra firme, navegando hoje num mar revolto onde não se descortinam territórios nem fronteiras, onde tudo é tão igual e amplo que nada fica por dizer.
A primeira, com os óculos pendurados na ponta do nariz, borda nos seus panos réplicas de sinais que o tempo já levou, sinais que transporta no interior da sua memória. Hoje está sentada na penumbra da sala. Desapareceram os recantos angulosos na escuridão que o fim da tarde já não consegue iluminar, ficou o espaço mais arredondado. Um último raio de sol incide sobre o pano cru onde ela vai bordando um par de gatos fofos, anafados. Gatos verdes, gatos que foi buscar ao sonho.
Na ilha do Ibo, onde cresceu, não havia gatos. Sempre que a sua mãe Ana Bessa os nomeava, povoando com um monte deles uma qualquer história fantástica, imaginava-os ela fofos e verdes (por um qualquer motivo nunca a mãe lhes dera cor, ou dera-a sem que a Caetaninha, criança dispersa e impaciente, a retivesse). Viu gatos mais tarde, claro, gatos de quase todas as cores que os gatos têm: pretos, brancos, castanhos, pardos. Mas os gatos que agora borda são os gatos verdes da sua infância. Gatos imaginários. Gatos alegres que brincam na mornidão daquele último raio de sol procurando chegar com as patas felpudas às minúsculas e infinitas partículas que ele transporta. Quando o dia acabar, quando se começarem a acender pequenas luzes nas janelas, Sá Caetana depositará o pano na cesta da costura e os gatos ali passarão a noite, inacabados, à espera que nova sessão de bordado lhes aumente a definição.
Também Sá Amélia visita o passado. Só que com muito menos rigor que a outra, e também com um proveito diferente. Incursões violentas, erráticas, destituídas de critério. Que a deixam a ronronar de prazer ou a assustam e fazem gemer baixinho. No lugar dos gatos da irmã, com as suas cores de fantasia, são temporais que descabelam coqueiros, são vagas de trabalhadores macondes do coqueiral com dentes aguçados e faces escarificadas onde o diabo deixou estranhos sinais. Olhando Maméia, criança e feia, com os seus olhos amarelos.
- Caetana, tenho medo! – diz ela nessas alturas, num fio de voz, como se fosse há muito tempo e ela fosse pequena e chamasse pela mãe, Ana Bessa, na varanda da Casa Grande.
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