domingo, maio 30, 2004

Ruy Guerra

A MORTE DO VELHO GUERREIRO SWAZI

Os meus pais tinham uma casa no meio das montanhas, na Namaácha, fronteira com a Swazilândia.
Eu era um garoto de uns seis anos quando começou a ser construída, e até hoje guardo a lembrança da aventura que foi ajudar meu pai a marcar com barbante, na terra vermelha, os limites das fundações.
Nessa casa de pedra à vista iria passar, ao longo da minha infância, grande parte das férias familiares.
Por isso, quando em 1975 fui a Moçambique para assistir aos festejos da Independência, foi com um sentimento que não procuro descrever, que subi a estrada da Namaácha a setenta e poucos quilómetros da capital.
Quando vi a velha casa de pedra com sua varanda, me espantei que ainda estivesse lá, como se os 25 anos de ausência fossem uma eternidade de terremotos. Mas passada a água nos olhos, tive um sorriso que contado pode parecer descabido ao ver as mudas de macieiras, cerejeiras, amendoeiras, que o meu pai mandara buscar de navio em Portugal e plantara com serapilheiras e fé. Continuavam lá, atrofiadas árvores inadaptadas, miúdas, mesquinhas, mirradas, iguais a quando eu as deixara pela última vez, e já então motivo de chacota da minha parte diante da teimosa esperança de meu pai de que ainda vingariam no frio das montanhas e dariam frutos nostálgicos da Metrópole, colhidos no pé, em terra africana.
Não vou falar do que é encontrar um velho livro extraviado de Tarzan, da Terramarear, com minha assinatura de jovem adolescente, ou reavivar de chofre inexplicáveis esquecimentos, que batem com a violência de uma vertiginosa viagem na saudade. Lembro que lembrei dias e noites, caçadas e jogos, passeios na velha cascata que não visitei para não me surpreender de a encontrar igual a ela mesma, como se o tempo não tivesse passado e o vazio dos meus pais fosse uma absurda imagem de filho pródigo.
Depois olhei o alpendre-garagem rasgado pelo abandono, e mais além, a meio caminho do terreno invadido de capim, aquele outro vazio doloroso.
Caminhei até lá, pisei a erva bravia e tive a certeza que tinha sido ali, mais palmo menos palmo, que eu tinha ajudado com a alegria da minha inocência, a construir a palhota do velho guerreiro. Lembro que lembrei como o velho swazi me ensinou a colocar os paus no tecto cónico, como me ensinou a ciência das nós e das tranças de palha seca até a para mim imensa abóbada ficar pronta, pousada no solo, expectante.
Lembro que lembrei a excitação de jogar o barro nas paredes dia após dia, numa azáfama prazerosa que me fazia levantar ao romper do sol para me juntar ao velho swazi, que me esperava sorrindo, os bigodes ralos pendentes, os olhos puxados, capulana e torso nu, catana nos dedos grossos, mistura de negro e malaio. Lembro que lembrei quando chegou a hora de pedir ajuda e vieram da vizinhança músculos para ajudar a levantar o tecto à força de braço e canções, sobre as paredes da palhota, de porta pronta.
Lembro ainda que recordei depois, já numa nebulosa de nó na garganta, as inúmeras vezes em que saí para a caça com o velho guerreiro swazi, que me ensinava os caminhos do mato, os perigos da mamba, a leitura das sombras do macaco-cão, as águas de beber, as marcas a deixar, os rastros a esquecer. Lembro que recordei das comidas em volta do fogo dentro da palhota, os olhos picados pelo fumo, quando o velho guerreiro cantarolava canções que eu não entendia, como não entendia o seu linguajar swazi além de meia dúzia de palavras aprendidas entre nós como náufragos solitários. Porque o velho Lambo, guardião durante anos a fio da casa da Namaácha, jamais tentou um só som de português, não por desinteresse, mas suspeito por não lhe descobrir a utilidade.
E lembro agora, como lembrei muitas vezes durante muitos esquecimentos, o dia em que o meu pai se aproximou mansamente de mim na nossa residência de Lourenço Marques para dizer que o velho Lambo estava na cidade e queria se despedir.
Corri excitado, quando a minha alegria de abraçar o velho guerreiro foi cortada: não me deixaram aproximar mais que três passos.
O velho guerreiro swazi me sorriu, os bigodes ralos agora mais pendentes, um rosto escalavrado por uma inesperada magreza, uma desconhecida camisa de quadros dançando no corpo só de ossos. De igual apenas a mesma capulana colorida.
Me falou com voz rouca algumas frases curtas e sacudidas, num swazi que escapa às minhas poucas palavras do idioma. Mas entendi o olhar febril, o sorriso crispado, e entendi a sua ternura, quando o meu pai, os olhos húmidos, explicou tristemente:

Não podes aproximar-te. O Lambo está muito doente. Trouxe-o para tratamento mas ele agora quer voltar para a Namaácha. Pediu para te dizer adeus.
Daquela distância, que já era a distância da morte, o velho guerreiro me fez um derradeiro aceno e entrou bruscamente na caminhonete, sem mais um olhar.
Lambo morreu de tuberculose poucos dias depois, e a sua palhota foi queimada.
Durante muito tempo não tive coragem de voltar à casa de pedra da Namaácha.

Dizem que não se morre enquanto se é lembrado.
Se assim for, o velho guerreiro swazi continuará vivo até ao fim de mim mesmo.


[82]
Bibliografia essencial: Ruy Guerra, 20 Navios, Caminho

quinta-feira, maio 27, 2004

O primeiro poema apareceu há precisamente um ano.
Desde então, compareceram à sombra dos palmares:

De Longe Esta Ilha Parece Pequena (Canção Popular)
Alberto de Lacerda - Regresso
Alberto de Lacerda - L'Isle Joyeuse
Alberto de Lacerda - Ponta da Ilha
Campos Oliveira - O Pescador de Moçambique
Eugénio Lisboa - No Tempo em Que, Fernando
Eugénio Lisboa - Origem
Fonseca Amaral - L'Aprés-Midi D'un Gala-Gala
Fonseca Amaral - Penitência
Fonseca Amaral - Passagem de Nível
Fonseca Amaral - Para Um Barco Que Apodrece a Meio da Baía
Glória de Santana - Dia Africano
Grabato Dias - As Quybyrycas (canto nove - fragmento)
Grabato Dias - Laurentina Cesariniana 2
João Dias - Gôdido
João Dias - Indivíduo Preto
José Craveirinha - Poema de JC Num Dia em que Estava Todo de Negro
José Craveirinha - Aforismo
José Craveirinha - Esperança
José Craveirinha - Primavera
José Craveirinha - Moçambiquicida
José Craveirinha - Menus
José Craveirinha - Quero Ser Tambor
José Craveirinha - O Bule e O Blue
José Craveirinha - Xigubo
José Craveirinha - Grito Negro
José Craveirinha - África
José Craveirinha - Boato do Velho Ussene
José Craveirinha - Mina Antipessoal
José Craveirinha - Gente a Trouxe-Mouxe
José Craveirinha - Trouxa de 8 Couves
Luis Bernardo Honwana - As Mãos dos Pretos
Luis Carlos Patraquim - Muhípiti
Mia Couto - O Primeiro Astronauta
Mia Couto - Poema Mestiço
Mia Couto - (Escre)ver-me
Mutimati Barnabé João - Eu, O Povo
Nelson Saúte - Mulher de M´siro
Noémia de Sousa - Poema Para Rui de Noronha
Noémia de Sousa - Poema da Infância Distante
Noémia de Sousa - A Billie Holiday, Cantora
Noémia de Sousa - A Mulher Que Ri à Vida e à Morte
Noémia de Sousa - Porquê
Noémia de Sousa - Justificação
Noémia de Sousa - Nossa Voz
Noémia de Sousa - Moça das Docas
Noémia de Sousa - Bayete
Nuno Bermudes - Natal em África
Orlando Mendes - Rigor
Orlando Mendes - Instante Para Depois
Rui de Noronha - Surge et Ambula
Rui de Noronha - À Tarde
Rui de Noronha - Grito de Alma
Rui Knopfli - Então, Rui?
Rui Knopfli - Naturalidade
Rui Knopfli - Ilha Dourada
Rui Knopfli - O Povo da China Visto do Alto-Maé
Rui Knopfli - Na Morte de Reinaldo Ferreira
Rui Knopfli - Proposição
Rui Knopfli - Dana
Rui Knopfli - Carta para Um Amor
Rui Knopfli - Ponta da Ilha
Rui Knopfli - No Crematório Baneane
Rui Knopfli - Baldio
Rui Knopfli - Kaap Die Goeie Hoop
Rui Knopfli - O Campo
Rui Knopfli - Retorno
Rui Knopfli - Nenhum Monumento
Rui Knopfli - II. Pátria
Rui Knopfli - Mesquita Grande
Rui Knopfli - Dawn
Rui Knopfli - Hidrografia
Rui Knopfli - Aeroporto
Rui Knopfli - Inventário
Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal
Sebastião Alba - Cidade Baixa
Sebastião Alba - Reinaldo Ferreira
Sebastião Alba - Mais Do Que Do Outro
Sebastião Alba - Ícaro
Suleiman Cassamo - O Rascunho
Virgílio de Lemos - Ouamisi

domingo, maio 23, 2004

Fonseca Amaral

PARA UM BARCO QUE APODRECE A MEIO DA BAÍA

Ship of the Body, Ship of the
Soul voyaging, voyaging, voyaging.

- Walt Whitman

Velho Liberal, zarcão e ferrugem ao lume de água,
cansado desta costa, tua conhecida como a palma do convés,
encostaste-te a um canto da Baía e ancoraste no sono.
Já não te desperta a malta acenando com o palhinhas
às belas marrusses das vilas costeiras,
nem o tempo em que, a escarrar e a tossir,
(Estibordo, bombordo, tantas braças, toda a estaléca àvante!)
à força de pulso, à chicotada de hélice,
lá ias, mastreado de positivismo e lírica retórica,
varando a Costa, corpo de mulher cingido de água.

Mundo familiar aquele: Funcionários, machambeiros,
magaíças, a casada por procuração,
a alacre gente ribeirinha de Inhambane e Mossuril,
a fumar com o lume dentro da boca,
e um poeta que trazia, de contrabando,
três mancheias de bruma e um rouxinol.
Quantos não fecharam já o definitivo e secreto périplo,
desembarcando lá onde não se exigem
malas, mantas, trouxas, esteiras nem cartas de chamada?

Para ti, meu navio de cabelos brancos, velho colono do mar,
vieram o cansaço, o caruncho a roer-te o casco e as articulações,
o catarro roubando-te galhardia aos silvos
que faziam saltar, bater as palmas
às gentes daqui até à Mocímboa.

Foste amarra de emoção passada entre mar e terra,
mas cansaste-te, meu velho.
Olha, arrasta-te, reumático, ao Cemitério dos Navios
e, «com vossa licença, cidadãos»,
ao lado dos mais aderna um tanto,
ajeita a chaminé debaixo da cabeça,
cerra as pálpebras das vigias,
deixa-te morrer, tristemente morrer,
com esse teu nome a evocar descabelados conluios carbonários,
muito medo para o ganho e imensos lunares de suor.

Prometo-te que nós,
deste cais onde viscoso nembo a viagem nos tolhe,
macilentos, impaludados, te acenaremos, todos os dias,
com um lenço e um sorriso de irónica simpatia.

Farewell my old ship! A água te seja leve.


[81]

quarta-feira, maio 19, 2004

Rui Knopfli

MANGAS VERDES COM SAL

Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.
Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.
Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida.


[80]

terça-feira, maio 11, 2004

Fonseca Amaral

PASSAGEM DE NÍVEL

Para o R.K.

Ali a nossa Pátria mal nascia.
A água salgada, o lodo, a maresia
eram o cuspo, o barro, o olor
com que um Deus jovem e faceto,
ao mesmo tempo urbano, pastoril e marítimo
(Seria branco ou preto?)
nos moldava de todas as cores:
pila ao léu
a verter para o céu
ou prós comboios,
a provocar os mabunos,
lá do Godine,
das entranhas reluzentes.

Shitimela shi ku psá...
Mas a ira deles, tão loiros,
seria só da nossa adâmica nudez
de machinhos inocentes?
A praia do Nhike-Panze
foi um ar que lhe deu...
Joãozinho, você não venha agora
com as suas manias,
que eu bem conheço,
evocar o que não é jamais.

O aterro está muito bem assim.
Cinco chagas!,
Você pode ficar certo duma coisa:
não só lá enterrámos a infância
mais a roupa (tão leve!)
que a envolvia.


[79]
Bibliografia essencial: João Fonseca Amaral, Poemas, INCM

segunda-feira, maio 03, 2004

Suleiman Cassamo

O RASCUNHO

Corri atrás do ardina. É sempre com o coração nas mãos que, pela manhã, corro atrás do ardina. A escrita de um texto não acaba. Vai-se da primeira à última versão, corta-se-lhe as rebarbas, afina-se-lhe a pauta. Mas há sempre uma excrescência, um incongruência que se nos escapa.
A isto, junte-se as gralhas, a má composição, o carácter desfalecido no vigos da página, frases amassadas tipo arroz mal cozido.
É isto que faz a aflição do escriba. Ver como ficou, na face da página, o rosto do seu texto. O escritor de verdade não procura o estrondo do seu nome, mas a certeza de ir descansado, o jornal debaixo do braço, e deitar-se sobre a página aberta, a urdir a próxima aventura.
Nessa manhã, não. Não tive sossego. Ao desfraldar o matutino, no lugar da depurada, enxuta e desgralhada crónica, choco, vejam só, com o rascunho. Sim, o rascunho. Que após fixar o esqueleto do texto, havia amarrotado para a lata do lixo.
Corri até ao jornal: Redacção, Composição, Maquetização, Impressão e Revisão. Nada. Não só não sabiam explicar como também não haviam notado.
Exigi o texto de partida. E, agora que não há mais chumbos de linotipia, a disquete. Essas e demais provas eram fiéis ao original. Posta de lado também a possibilidade de alguém ter recuperado o rascunho, tão esmigalhado o deixara.
Só restava uma hipótese: farto de ser ignorado, o rascunho passara, discreto e rebelde, impregnado debaixo da substância visível do texto em evolução. Só no último momento empurrou a forma eleita, e caminhou para a meta.
Que fazer? Tivesse posses, comprava toda a tiragem e mandava destruir. Mas o matutino já estava na rua, mais esse meu texto cruelmente cru, se alastrando parece queimada.
Fiquei doente, recolhido. Que volte face, a do rascunho. Destruído como se fosse prova de vergonha, agora me esmagava!
Naquela mesma tarde, as cartas começaram a assediar a minha porta, a sitiar-me. Não precisava abrir: me acusariam de abuso de confiança, de abuso de liberdade de expressão, um rol de coisas, enfim, de estender no jornal as minhas cuecas.
Engano meu. «Nunca foste tão sincero contigo próprio», reagiam os leitores, «o mesmo que dizer, connosco.»
«Não imaginamos», lia-se num abaixo-assinado, «quanto se perdeu. Por autocensura de motivação política, moral, ou religiosa. Ou por egoísmo apenas. Aquilo que você cortava no fim. Não imagina quanto se perdeu nisso.»
Afinal, a dinâmica e a fluidez dos textos anteriores eram em detrimento da ira, do sabor agreste do esboço, da tinta do coração.
Um padre comentava: «O rascunho marca o primeiro impulso, a verdade não-manipulada, o que, muitas vezes, o coração diz e a boca cala. Se o Homem falasse rascunho não havia necessidade de confissão.»
Ninguém o dizia de caras, mas a insinuação era clara: rasgue os textos decantados, publique os rascunhos. Isto é, um fórmula antifórmula, uma escrita no sentido anti-horário.
Desnecessária a sugestão. Ao fim e ao cabo, pretendendo escrever direito, se escreve torto. Mesmo este texto, na sua aparência depurada, tal como o Homem dos nossos dias à luz do projecto divino, não passa de um rascunho.


[78]
Bibliografia essencial: Suleiman Cassamo, Amor de Baobá - Crónicas, Caminho

sexta-feira, abril 30, 2004

Orlando Mendes

INSTANTE PARA DEPOIS

A tarde viva está quase vazia
na esplanada represa de sombra morna.
Seis velhos mastigam recordações
com dentes cariados da memória
e o dia-a-dia com as falhas dos dentes.
Olhos distantes sobre os livros
e mãos e pernas entrelaçadas
um casal jovem intimamente suborna
o tempo minuto a minuto seguinte.
Na berma do passeio mufana parado
estende os dedos pedindo quinhentas
nem se sabe porquê e ninguém dá.

Passa um jipe da polícia militar
e um dos velhos mastiga em segredo
que aquilo anda muito pior por lá.
Os dentes e as falhas cessam de mastigar
recordações e a suave cadência dos pulsos
e a moça levanta os olhos húmidos
mufana encolhe os dedos e desliza
inteiro ao sol da rua e assobia
não se sabe porquê e ninguém sente.

Batem horas num relógio distante
e o jovem casal parte subitamente
para o seu primeiro acto de posse.
A tarde fica então mais vazia
com os velhos mastigando a voz sibilada
no dia raso à sombra morna.

Reina a paz na esplanada laurentina


[77]

domingo, abril 25, 2004

Noémia de Sousa

BAYETE

para Rui Knopfli

Ergueste uma capela e ensinaste-me a temer a Deus e a ti.
Vendeste-me o algodão da minha machamba
pelo dobro do preço por que mo compraste,
estabeleceste-me tuas leis
e minha linha de conduta foi por ti traçada.
Construíste calabouços
para lá me encerrares quando não te pagar os impostos,
deixaste morrer de fome meus filhos e meus irmãos,
e fizeste-me trabalhar dia após dia, nas tuas concessões.
Nunca me construíste uma escola, um hospital,
nunca me deste milho ou mandioca para os anos de fome.
E prostituíste minhas irmãs,
e as deportaste para S. Tomé...

- Depois de tudo isto,
não achas demasiado exigir-me que baixe a lança e o escudo
e, de rojo, grite à capulana vermelha e verde
que me colocaste à frente dos olhos: BAYETE?


[76]

quinta-feira, abril 22, 2004

Rui Knopfli

INVENTÁRIO

Rosas inglesas rosa-pálido tingido
de alvura, gravatas Lanvin e Ricci.
Na mão a demorada taça do ordálio,
ouro velho e insidioso, doce cheiro a fumo.
Objectos familiares, ténues, difusas

lembranças de longe. Um crânio
de ébano negrejando entre a luz
e a garrulice do barro artesanal,
o cio magoado da voz fadista. A ilha ao sol,
ao sonho, amortalhada na distância.

O cajueiro e a mafurra, micaias
agrestes, panoramas da infância,
dolorosos, esbatidos fantasmas
de outro tempo, agigantados em olmos
e castanheiros na oval cinzenta

do No Man’s Common. Livros por abrir
dormitando na poeira, o gráfico
anguloso do horóscopo, retratos,
memória paralisando o instante
esquecido. A mulher de passagem,

velo fulvo, debrum para o azul
lavado do olhar, perfil mitigando
a vacilante modorra do entardecer.
Alongada curva do flanco retraindo-se
sob a experimentada carícia antiga

dos dedos cansados. Toda a memória
inflectindo o gesto, o gesto já só memória
que de si mesma se desprende e afasta,
conjecturando, indolor, a paisagem
neutra dos dias que se avizinham ermos.


[75]

quinta-feira, abril 08, 2004

Rui Knopfli

AEROPORTO

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.


[74]

quarta-feira, abril 07, 2004

Noémia de Sousa

MOÇA DAS DOCAS

A Duarte Galvão

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço,
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trancadas,
nossos corpos submissos escancarados.
De mãos ávidas e vazias,
de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,
de corações amarrados de repulsa,
descemos atraídas pelas luzes da cidade,
acenando convites aliciantes
como sinais luminosos na noite,

Viemos...
Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,
do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,
do doer de espádua todo o dia vergadas
sobre sedas que outros exibirão,
dos vestidos desbotados de chita,
da certeza terrível do dia de amanhã
retrato fiel do que passou,
sem uma pincelada verde forte
falando de esperança,

Viemos...
E para além de tudo,
por sobre Índico de desespero e revoltas,
fatalismos e repulsas,
trouxemos esperança.
Esperança de que a xituculumucumba já não virá
em noites infindáveis de pesadelo,
sugar com seus lábios de velha
nossos estômagos esfarrapados de fome,
E viemos....
Oh sim, viemos!
Sob o chicote da esperança,
nossos corpos capulanas quentes
embrulharam com carinho marítimos nómadas de outros portos,
saciaram generosamente fomes e sedes violentas...
Nossos corpos pão e água para toda a gente.

Viemos...
Ai mas nossa esperança
venda sobre nossos olhos ignorantes,
partiu desfeita no olhar enfeitiçado de mar
dos homens loiros e tatuados de portos distantes,
partiu no desprezo e no asco salivado
das mulheres de aro de oiro no dedo,
partiu na crueldade fria e tilintante das moedas de cobre
substituindo as de prata,
partiu na indiferença sombria da caderneta...

E agora, sem desespero nem esperança,
seremos em breve fugitivas das ruas marinheiras da cidade...

E regressaremos,
Sombrias, corpos floridos de feridas incuráveis,
rangendo dentes apodrecidos de tabaco e álcool,
voltaremos aos telhados de zinco pingando cacimba,
ao sem sabor do caril de amendoim
e ao doer do corpo todo, mais cruel, mais insuportável...

Mas não é a piedade que pedimos, vida!
Não queremos piedade
daqueles que nos roubaram e nos mataram
valendo-se de nossas almas ignorantes e de nossos corpos macios!
Piedade não trará de volta nossas ilusões
de felicidade e segurança,
não nos dará os filhos e o luar que ambicionávamos.
Poedade não é para nós.

Agora, vida, só queremos que nos dês esperança
para aguardar o dia luminoso que se avizinha
quando mãos molhadas de ternura vierem
erguer nossos corpos doridos submersos no pântano,
quando nossas cabeças se puderem levantar novamente
com dignidade
e formos novamente mulheres!


[73]

segunda-feira, abril 05, 2004

Rui Knopfli

HIDROGRAFIA

São belos os nomes dos rios
na velha Europa.
Sena, Danúbio, Reno são
palavras cheias de suaves inflexões,
lembrando em tardes de oiro fino,
frutos e folhas caindo, a tristeza
outoniça dos chorões.
O Guadalquivir carrega em si espadas
de rendilhada prata,
como o Genil ao sol poente,
o sangue de Federico.
E quantas histórias de terror
contam as escuras águas do Reno?
Quantas sagas de epopeia
não arrasta consigo a corrente
do Dniepre?
Quantos sonhos destroçados
navegam com detritos
à superfície do Sena?
Belos como os rios são
os nomes dos rios na velha Europa.
Desvendada, sua beleza flui
sem mistérios.
Todo o mistério reside nos rios
da minha terra.
Toda a beleza secreta e virgem que resta
está nos rios da minha terra.
Toda a poesia oculta é a dos rios
da minha terra.
Os que cansados sabem todas
as histórias do Sena
e do Guadalquivir, do Reno
e do Volga
ignoram a poesia corográfica
dos rios da minha terra.
Vinde acordar
as grossas veias da água grande!
Vinde aprender
os nomes de Uanétze, Mazimechopes,
Massintonto e Sábié.
Vinde escutar a música latejante
das ignoradas veias que mergulham
no vasto, coleante corpo do Incomáti,
O nome melodioso dos rios
da minha terra,
a estranha beleza das suas histórias
e das suas gentes altivas sofrendo
e lutando nas margens do pão e da fome.
Vinde ouvir,
entender o ritmo gigante do Zambeze,
colosso sonolento da planura,
traiçoeiro no bote como o jacaré,
acordando da profundeza epidérmica do sono
para galgar os matos
como cem mil búfalos estrondeantes
de verde espuma demoníaca
espalhando o imenso rosto líquido da morte.
Vede as margens barrentas, carnudas
do Púngoé, a tristeza doce do Umbelúzi,
à hora do anoitecer. Ouvi então o Lúrio,
cujo nome evoca o lírio europeu
e que é lírico em seu manso murmúrio.
Ou o Rovuma acordando exóticas
lembranças de velhos, coloniais
navios de roda revolvendo águas pardacentas,
rolando memórias islâmicas de tráfico e escravatura.


[72]

quinta-feira, abril 01, 2004

João Dias

INDIVÍDUO PRETO

A classificação dos concursos para chefe de secção está no gabinete do sub-director dos Caminhos de Ferro, claramente explícita e assinada pelos membros do júri. Falta só a ratificação por ordem do sub-director.
Tudo se passa, aparentemente, como se se tratasse apenas de uma rubrica sobre mais um dos burocráticos diplomas do funcionalismo. À porta, assoma meio gago, a cruzar as mãos com as palavras, desastradamente pesaroso por importunar as lazeirices do senhor sub-director:
- Era o papel dos concursos para metermos nas máquinas, que a «ordem de serviço» está quase impressa – diz o Manuel da Silva, empregado da tipografia privativa.
- Olhe... espere. Ou vá-se embora, que não vi o assunto ainda.
Sobre a secretária as decisões do concurso teimam em desmenti-lo:
- Vá-se embora!
O Manuel da Silva, a dobrar o pescoço, afasta os olhos da mesa e retira-se.
Há em toda a tipografia uma enervação provocada pelas demoras do sub-chefe. O trabalho não avança, e a ordem tem de sair. Não haverá quem perceba que os atrasos podem vir dos senhores chefes. O pior não está nessa compreensão, mas na certeza, quase matemática, de que a repreensão registada cairá sobre o pessoal inferior. E nenhum deles se atreverá a culpar os chefes.
A vida dos operários e dos subalternos esfola. Às vezes, nas horas de trabalho, cruzam os braços e lêem nos anúncios a secção das «ofertas e procuras» e sobretudo a dos «empréstimos sobre penhores». Trabalham em horas extraordinárias porque tudo lhes vem tarde, e tem de sair normalissimamente a tempo. E sai, apesar da tesouraria jogar o slogan de que «não há verba». Fica-lhes a festa a dez e doze horas de serviço só parcialmente remuneradas. O tempo, por seu lado, faz hábitos, e ilude organização racional do trabalho. Em determinados dias, os operários por impulso mais do que por lógica, reprovam entre eles, a meia-voz, aquelas arbitrariedades.
Hoje, o senhor M. da Silva não convence os companheiros da existência de um motivo justo dos atrasos. Faltam-lhe argumentos.
- Estive no gabinete do chefe...
Levanta a sobrancelha esquerda, tosse e crê na sua importância, repetindo em pensamento: «estive no gabinete do chefe»!!! Depois continua, mentindo um pouco também:
- ... mostrou-me um montão de assuntos urgentes e prometeu atender-nos em primeiro lugar.
Quando o Manuel da Silva pensa acrescentar adjectivos elogiosos ao nome do sub-director encontra olhos de gargalhada a cortarem-lhe a voz. Como não é redondamente bruto, pega no jornal e espera que do silêncio que então fica, nasça outro motivo de conversa.
O senhor Meireles noutra sala ao lado, levanta-se bruscamente e abre a janela. Primeiro andar, nas traseiras da repartição donde se vê a avenida de Sá da Bandeira e todo o seu movimento. Na rua, compõe o macadame uma dúzia de negros com regadores de alcatrão e troncos semi-nus em suas camisas rotas. Talvez alguns, a maioria, se sinta feliz nessa insuficiência de vida: trabalho de besta e arroz. A tragédia do homem só nasce da consciência de se bastar e querer ir além, de ver na felicidade o começo da infelicidade. Os negros porém, deviam ser todos dóceis, activos como máquinas, e com a inteligência necessária apenas à satisfação dos desejos dos brancos. Os que assim não são persistem só para complicar as coisas. Imaginem que por causa do raio de um destes, está o serviço pendente. Não se devia interpretar tanto à letra o Humanismo nas colónias. A própria existência das colónias, contradiz por si o Humanismo.
Da sala ao lado, entrou o aspirante Ferreira com requerimentos a despacho. O Meireles recebe o novo fardo.
Senta-se à mesa. Entretanto o cartão de visita do Senhor Arcebispo chama-o para fora da papelada trazida pelo aspirante. Ainda na véspera o senhor D. José viera falar-lhe no caso do concurso. «Não venho, propriamente meter-lhe uma cunha; isso, em quaisquer circunstâncias repugnaria à minha dignidade de homem e de representante do Justo». Vinha, com a razão nas mãos, mostrar-lhe a necessidade de defender o património do colonizador. O caso era simples: o negro António Neves ascendeu a uma posição grada no funcionalismo Qualquer injustiça sobre ele podia habilmente explorar-se para tentar agitar negros. As perseguições racistas acentuavam-se; a habilidade dos melindrados e a persistência de injustiças causariam na massa negra, não a compreensão clara da pata opressora, mas um mal-estar colectivo, uma vontade de dizer «Não!», a pulmões cheios, de escoicinhar sem saber como, nem em quem. Se os negros civilizados fossem contentados no mínimo necessário, a evolução negra até à compreensão da verdade seria muito morosa. Os próprios beneficiados, egoisticamente, trairiam o bem-estar de milhões de irmãos. A questão estava toda nisto; não bulir com os negros civilizados, por uma questão de conveniência não muito remota.
Ao despedir-se, o Arcebispo voltou a insistir:
«... Lembre-se de que as autoridades superiores enfileiram a meu lado nesse pensar. E olhe que não venho armar em defensor dos negros. É que é de toda a conveniência que proceda consoante...»
A mão beijada, o Arcebispo julgou triunfante a sua opinião, e retirou-se.
O Meireles largou o cartão de visita e voltou à janela. Todas as palavras do padre martelando-lhe a memória, lhe pareceram ilógicas. Como nomear um negro, que os futuros subordinados brancos não aceitarão como superior? O Neves é o segundo classificado e já vítima de ratifícios racistas do júri. Há dez vagas de preenchimento urgente. Escasseiam meios de eliminar o concorrente. A arbitrariedade não avançará agora nem um centímetro sem escândalo.
«Se fosses como teus irmãos, mero carregador de cais, ou desentupidor de fossas!... não levantarias novos problemas a ti e a nós. A vida seria suavemente menos alcantilada. Seria feliz porque eras do teu mundo, e te bastavas nele.
O Meireles dá dois murros no parapeito como que para mudar o ângulo de visão dos seus pensamentos. A verdade é que o caso já não é de lamentos. Tem a naturalidade fria das leis físicas. O subdirector esgravata as unhas da mão esquerda, com a unha pontuda do mínimo da direita. Uma sujidade escura cai perdida...
O Neves tinha bom comportamento como cidadão e como funcionário. Na Administração Civil e segurança pública de nada serviria essa comportamento. Bastava a cor, como cartão de rejeição. Nas outras repartições... enxameavam aqueles bicos de obras. Negros a quererem ir além do que uma condescendente colonização permitia.
O Meireles olha com ódio os trabalhadores da rua. «São todos o mesmo!» Volta a sentar-se e, inseguro, tine a campainha, a que o servente preto Zafania acode. A farda caqui, os olhos abertos, à espera.
- Costuma pedir-se licença, meu cão! Rua!!! Entra outra vez e com mais respeito.
O Zafania aparvalha-se.
O subdirector precisava falar aos componentes do júri. A ordem de classificação dos concursos castigava-lhe o cérebro. Nevralgia! Lembra as últimas recomendações do Arcebispo... «olhe que não venho armar em defensor dos negros. Mas é de toda a conveniência que proceda consoante...» Os negros das estradas, os serventes, os moleques de casa, o Neves, baralham-se-lhe num xadrez de psicologia e aspectos físicos diferentes, que ele mantém unidos debaixo da raça.
NEGROS!...


O Manuel da Silva e companheiros, lá apresentaram a ordem de serviço no dia próprio. Tinha ao alto o nome da repartição logo abaixo de «Serviço da República». Vinham nomeações para capatazes, transferências de praticantes de escritório e novas formas de admissão a concursos públicos enviadas pelas autoridades superiores da Administração Colonial. E acabava nesta frase habitual: «A Bem da Nação».
Dizia-se que o Subdirector nada decidira sobre os concursos de primeiros oficiais, aguardando a vinda de férias do Director para dali a um mês.


Algum tempo depois, numa Ordem de Serviço, o Subdirector era castigado por incúria na resolução de problemas prementes da repartição.


[71]

terça-feira, março 30, 2004

Noémia de Sousa

NOSSA VOZ

Ao J. Craveirinha

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados...

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques da guerra
nossa voz gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando.


[70]

quarta-feira, março 24, 2004

Grabato Dias

LAURENTINA CESARINIANA 2

Mestiços somos nós todos
e eu também
mestediços visigodos
tinham um palato a modos
não muito por aí além.

Mestiços somos nós todos
judeus e mouros
e ainda bem.


[69]

terça-feira, março 23, 2004

Rui Knopfli

DAWN

Agónica noite estremece
e despedaça-se
lá fora em chuva
nas vidraças.
Das sombras, das solidões
dos recantos recônditos
da noite e da chuva
saem homens.
Pela crosta da terra passa
um frémito de arrepio.
Chove.
Chove em África.
É noite
É noite em África.
Mão desmedida ergue-se
no breu,
corpo da terra que as águas
fecundam, impregnam.
Silêncios, hesitações,
sono de séculos, jugos,
racham em surdina.
Jogamos bridge na tepidez
do living,
reclinamo-nos na morna
penumbra erótica
dos cinemas,
ou dormimos em calma
digestão.
Para lá
da noite angustiada
monótono acalanto ergue
a voz.
No inescrutável, nas sombras,
nos recantos recônditos de agónica noite
África desperta...


[68]

segunda-feira, março 22, 2004

Há um lugar reservado à sombra dos palmares para alguém que queira colaborar neste blog. Contacto: asombradospalmares@hotmail.com

quinta-feira, março 18, 2004

Rui Knopfli

MESQUITA GRANDE

Neste raso Olimpo argamassado em febre
e coral, o Deus maior sou eu. Por mais
que as pedras, os muros e as palavras afirmem
outra coisa, por mais que me abram o corpo
em forma de cruz e me submetam a árida

voz às doces inflexões do cantochão latino,
por mais que a vontade de pequenos deuses
pálidos e fulvos talhe em profusas lápides
o contrário e a sua persistência os tenha
por Senhores, o sangue que impele estas veias

é o meu. Pórticos, frontarias, o metal
das armas e o Poder exibem na tua sigla
a arrogância do conquistador. Porém o mel
da tâmaras que modula o gesto destas gentes,
o cinzel que lhes aguça a madeira dos perfis,

a lenta chama que lhes devora os magros rostos,
meus são. Dolorido e exangue o próprio
Cristo é mouro da Cabaceira e tem a esgalgada

magreza de um velho cojá asceta.
Raça de escribas, mandai, julgai, prendei:
Só Alah é grande e Maomé o seu profeta.


[67]

domingo, março 07, 2004

Rui Knopfli

II. PÁTRIA

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nome por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal

e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios

entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso

obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma

remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

De quatro paredes restaram as paredes. Com as folhas
de zinco e a madeira ferida dos travejamentos
perfaziam uma casa. Partes de um corpo
desmembrado, dispersas ao acaso, vento e silêncio
as atravessam e nelas não dura a memória

que em mim, residual, subsiste. Sobre escombros deveria,
talvez, chorar pátria e infância, os mortos que
lhe precederam a morte, o primeiro e o derradeiro
amor. Quatro paredes tombadas ao acaso e isso bastou
para que, no que era só mundo, todo o mundo entrasse

e o polígono demarcado, conservando embora
a original configuração, fosse percorrido por
um arrepio estrangeiro, uma premonição de gelos
e inverno. Algo lhe alterara imperceptivelmente
o perfil, minado por secreta, pertinaz enfermidade.

Semelhante a qualquer outro, o lugar volvia meta
e ponto de partida, conceitos que, como a linha imaginária,
circunscrevem, mas de todo eludem, o essencial,
Ladeado de sombras e árvores, o caminho de areia,
que se dizia conduzir a parte alguma, abria

para o mundo. A experiência reduz, porém,
a segunda à primeira das asserções: pelo mundo
se alcança parte nenhuma; se restringe ficção
e paisagem ao exíguo mas essencial: legado
de palavras, pátria é só a língua em que me digo.


[66]

quarta-feira, março 03, 2004

José Craveirinha

TROUXA DE 8 COUVES

Srª D. Josefina Amélia dos Prazeres Santos Tembe
viajando no tejadilho do calhambeque "Chapa 100"
ia à cidade de Maputo vender
uma trouxa de 8 couves
quando aquele frufru
da rajada não deixou.


[65]

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

José Craveirinha

GENTE A TROUXE-MOUXE

Gente a trouxe-mouxe da má sorte
calcorreia a pátria asilando-se onde
não cheire a bafo
de bazucadas.

Gente que gastronomiza
desapetitosos bifes de cascas
gusados de raízes ao natural
e sobremesas de capim seco.

Gente dessedentando martírios
nos charcos
se chover.
...
ou a pé descalço dançando.
A castiça folia.
Das minas.

[64]

sábado, fevereiro 21, 2004

Campos Oliveira

O PESCADOR DE MOÇAMBIQUE

- Eu nasci em Moçambique
de pais humildes provim,
a côr negra que eles tinham
é a côr que tenho em mim:
sou pescador desde a infância,
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei.

Antes que o sol se levante
eis que junto à praia estou;
se ao repoizo marco as horas
à preguiça não as dou;
em frágil casquinha leve,
sempre longe do meu lar,
ando entregue ao vento e às ondas
sem a morte receiar.

Ter continuo a vida em risco
é triste coisa – sei que é!
mas do mar não teme as iras
quem em Deus depõe a fé;
é pequena a recompensa
da vida custosa assim;
mas se a fome não me mata
que me importa o resto a mim?

Vou da Cabaceira às praias,
atravesso Mussuril,
traje embora o céu d’escuro,
ou todo seja d’anil;
de Lumbo visito as águas
e assim vou até Sancal,
chegou depois ao mar-alto
sopre o norte ou ruja o sul.

Só à noite casca ataco
para o corpo repousar,
e ao pé da mulher qie estimo
ledas horas ir passar:
da mulher doces carícias
também quer o pescador,
pois d’esta vida os pezares
faz quasi esquecer o amor!

Sou pescador desda a infância
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei;
e em quanto tiver os braços,
a pá e a casquinha ali,
viverei sempre contente
neste lidar que escolhi.


[63]

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

José Craveirinha

MINA ANTIPESSOAL

O avançado Jossias “Ponta Esquerda”
terror dos guarda-redes
agora já possui três pés
mas não chuta com nenhum.

Foi uma mina antipessoal
que o pé canhoto não driblou
num carreiro do mato.

Agora uma perna da calça oscila ao vento
enquanto duas pernas suplentes
são próteses de madeira.

As guerras dos homens
desenvolvem o desporto
com próteses para o povo.

Herói de golos de antologia
Jossias, o “Ponta Esquerda” de Fura-Rede
já não tem admiradores.

Palmas e autógrafos quando passa?
Do seu clube nem nada
e autógrafos só no hospital
ou quando o neo-realismo
do pé esquerdo de voz ausente
dá óptima compensação
com autógrafos no hospital
quando preenche e assina:
Jossias ex-Ponta Esquerda
Profissão: indigente.
Clube: Mina Antipessoal.


[62]

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Mia Couto

(ESCRE)VER-ME

nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar


[61]

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Noémia de Sousa

JUSTIFICAÇÃO

Se o nosso canto negro é simultaneamente
baço e ameaçador como o mar
em noites de calmaria;
se a nossa voz é rouca e agreste
só se abrindo em gritos de rebeldia;
se é ao mesmo tempo amarga e doce a nossa poesia
como suco de nhantsumas silvestres;
se é encovado e profundo o nosso olhar
rasgando-se impávido à luz do dia;
se são disformes e gretados nossos pés espalmados
de trilhar caminhos ingratos;
se a nossa alma se fechou para a alegria
e só dá hospedagem ao ódio e à revolta
- não nos culpes a nós, irmão vindo das ruas da cidade.

Que entre nós e o sol se interpuseram
grades feias de escravidão,
grades negras e cerradas a impedir-nos de tostar
de verdadeira felicidade,


Mas ai, irmão vindo das ruas da cidade!
Nosso firme sentido de justiça, nossa indómita vontade a nascer
nossa miséria comum vestida de sacas rotas e imundas,
nossa própria escravidão
serão o calor e o maçarico que fundirão
para sempre as grossas colunas que nos zebravam a vida inteira
e lhe arrancaram todo o jeito doce e inexprimível de vida.


[60]

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Rui Knopfli

NENHUM MONUMENTO

Não são aparentes em ti as marcas de grandeza
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.

A escassez de ogivas, arcobotantes,
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer

da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,

não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva
fala por ti apenas o tempo.


[59]

sábado, janeiro 24, 2004

Alberto de Lacerda

PONTA DA ILHA

Ó corpos dados com melodia
As melodias do meu ardor!
Ó pretas lindas! Ponta da Ilha!
Vestem soberbos panos de cor.
Deles se despem com grã doçura,
Vénus despida no próprio mar.
É com doçura que negras, lindas,
Desaparecem no meu calor.


[58]

domingo, janeiro 18, 2004

Nelson Saúte

MULHER DE M'SIRO

O m'siro
encantamento dos meus olhos
perfaz a tua insular imagem.
No litoral do teu corpo
a apoteótica espuma
do orgasmo das ondas.
Ó júbilo na falésia do canto.

[57]

terça-feira, janeiro 13, 2004

(Canção Popular)

DE LONGE ESTA ILHA PARECE PEQUENA

De longe esta Ilha parece pequena
Esta Ilha é grande.
Tem longa história desde os habitantes aos seus monumentos
Não nos é possível contar-vos tudo quanto temos
Pois há outros que querem também falar-vos
Se ainda quereis ouvir algos nossos
ficais muito tempo nesta Ilha.
Assim mostrar-vos-iam a rua de fogo
onde vós nunca chegastes.


[56]

domingo, janeiro 11, 2004

Virgílio de Lemos

OUAMISI

Será desta luz d'equinócio o manto verde azul
quem te confere teu ar de canto singular?
Será que o mistério vem mais da luz iridiscente
que de tua alma errante em busca da vertigem?

Etiópia Sudão Novo Mundo e Extremo Oriente
escravos e canelas, baixelas de prata bordados.
Será que posso falar de omnipresente osmose
entre o sagrado e o grito mineral da carne?

Efebos e mulheres, conquistadores e naus
entre o simulacro de uns, de outros a firmeza,
neste santuário de almas, a génese irrompe

como se o génio da memória e da paisagem
se beijassem na imediatez do que reclamo
e do oceano imprevisível, nascesses tu, ilha.

[55]
Bibliografia essencial: Virgílio de Lemos, Para Fazer Um Mar, Instituto Camões

domingo, janeiro 04, 2004

Luís Carlos Patraquim

MUHÍPITI

É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.


[54]

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Rui Knopfli

RETORNO

Nous reviendrons dans nos enfants.

Subo um passeio branco alastrado de sombra,
luz e folhas caídas.
Pela mão vai minha filha,
juntos subimos rente ao fim
da tarde.
Apertando-me os dedos, olhos nos olhos,
minha filha faz-me as perguntas de todas
as crianças.
Seus olhos espelham os meus
e na boquita fresca vagueia o sorriso
que outrora perdi.
Absorto, caminho rumo ao fim do tempo,
ela, rumo ao princípio.
O meu poente roxo é a sua alvorada
estridente.
Termino um pouco onde ela começa,
mas minhas mãos continuam nas suas.
Penso agora na morte sem angústia
e na vida com outro empenho.
Minha filha vai comigo, seus olhos,
seus gestos, seu sorriso,
lembrança de mim.
Vou partindo. Ela apenas chega.
A tarde cai e não é triste morrendo.


[53]

sábado, dezembro 27, 2003

Noémia de Sousa

PORQUÊ

Por que é que as acácias de repente
floriram flores de sangue?
Por que é que as noites já não são calmas e doces,
por que são agora carregadas de electricidade
e longas, longas?
Ah, por que é que os negros já não gemem,
noite fora,
Por que é que os negros gritam,
gritam à luz do dia?


[52]

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Nuno Bermudes

NATAL EM ÁFRICA

«Natal... Na província neva»
- Fernando Pessoa

Como no longe
europeu,
Natal -
mas na província não neva,
nem arde o fogo
nas lareiras,
nem a estrela dos Reis Magos
brilha neste céu.

Idênticos,
Só mesmo a solidão
e o cansaço.

- E toda a esperança,
como nas terras onde neva,
se perdeu.


[51]

domingo, dezembro 21, 2003

Noémia de Sousa

A MULHER QUE RI À VIDA E À MORTE

Para lá daquela curva
os espíritos ancestrais me esperam.

Breve, muito breve
tomarei o meu lugar entre os antepassados

À terra deixarei os despojos do meu corpo inútil
as unhas córneas de todos os labores
este invólucro sulcado pela aranha dos dias

Enquanto não falo com a voz do nyanga
cada aurora é uma vitória
saúdo-a com o riso irreverente do meu secreto triunfo

Oyo, oyo, vida!
Para lá daquela curva
os espíritos ancestrais me esperam


[50]

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Noémia de Sousa

A BILLIE HOLIDAY, CANTORA

Era de noite e no quarto aprisionado em escuridão
apenas o luar entrara, sorrateiramente,
e fora derramar-se no chão.
Solidão. Solidão. Solidão.

E então,
tua voz, minha irmã americana,
veio do ar, do nada nascida da própria escuridão...
Estranha, profunda, quente,
vazada em solidão.

E começava assim a canção:
“Into each heart some rain must fall...”
Começava assim
e era só melancolia
do princípio ao fim,
como se teus dias fossem sem sol
e a tua alma aí, sem alegria...

Tua voz irmã, no seu trágico sentimentalismo,
descendo e subindo,
chorando para logo, ainda trémula, começar rindo,
cantando no teu arrastado inglês crioulo
esses singulares “blues”, dum fatalismo
rácico que faz doer
tua voz, não sei porque estranha magia,
arrastou para longe a minha solidão...

No quarto às escuras, eu já não estava só!
Com a tua voz, irmã americana, veio
todo o meu povo escravizado sem dó
por esse mundo fora, vivendo no medo, no receio
de tudo e de todos...
O meu povo ajudando a erguer impérios
e a ser excluído na vitória...
A viver, segregado, uma vida inglória,
de proscrito, de criminoso...

O meu povo transportando para a música, para a poesia,
os seus complexos, a sua tristeza inata, a sua insatisfação...

Billie Holiday, minha irmã americana,
continua cantando sempre, no teu jeito magoado
os “blues” eternos do nosso povo desgraçado...
Continua cantando, cantando, sempre cantando,
até que a humanidade egoísta ouça em ti a nossa voz,

e se volte enfim para nós,
mas com olhos de fraternidade e compreensão!


[49]

segunda-feira, dezembro 15, 2003

José Craveirinha

BOATO DO VELHO USSENE

Esposa e filhos do velho Ussene
são genuinos espíritos
de fábula.

Por agora o boato apenas põe o velho Ussene
refém-camionista sequestrado
no meio da mata.

Ou
falsa africanitude ou pura africanice
enquanto este feitiço não souber
onde está ou não está o velho Ussene
Mas quando?
A mulher e os filhos vão magicando
a boa nova do velho Ussene
mãos no volante
a saltar dos boatos
e a chegar a casa.


[48]

sexta-feira, dezembro 12, 2003

João Dias

GODIDO

"Era um vêgi um dia. Barranco chigou no nosso terra. Parota, tinha degi. E patrrão ficou falar assi": - "Agora machamba não é de prreto."
"Brranco ficou no terra."
O senhor Manuel Costa veio à povoação e assentou seus projectos ao lado dos negros. Trazia máquinas, autoridade, réguas. Espalhou dinheiro e panos de fantasia pelas gentes, trazendo à sua quinta os braços do sector. Trabalhar para o senhor Costa era mais seguro porque se abrigavam dos maus tempos que destroem os cultivos. Os brancos até lutam vantajosamente contra a Natureza.
Os pretos dividiam-se em dois grupos: os das pequenas machambas independentes e os empregados da quinta. Os primeiros , sentindo o peso dos impostos, vendiam seus produtos ao caseiro. De modo que uns subordinados directamente e outros conscientes de uma liberdade que não tinham, todos viviam para o grande proprietário.
Quatro meses andados, no lugar o senhor Costa se tornou um verdadeiro soba. Até fazia de juiz entre os indígenas.
Grandes camiões paravam ali. Os armazéns falavam de tudo que se produzia e os carros afastavam-se de pneus em baixo, pingando amendoins ou feijões que sacos rotos não seguravam. Aquela carga descongestionava os armazéns e ia espalhar libras no senhor Costa.
Os produtos seguiam para grandes cidades. Na aldeia, a fome.
"Di modo qui os prreto trabaia, e, às vêzi, fica fome no barriga dele. Não te comida para o gente."
Um feiticeiro disse uma vez que a fome que começava nascendo era uma praga dos antepassados. Que andava um anjo mau na povoação. "Dá mim 20 cábêça ha-di matar este chatice qui te no terra." Mas os negros supersticiosos desconfiaram do que se lhe dizia e seguraram suas cabeças de gado.
O branco, raivando riso, empurrou para longe o negro ladrão.
Os indígenas viram depois uma sombra e quiseram bater no feiticeiro que deitava pesos em seus pensamentos.
De manhã, ainda a claridade rasgava farrapos de escuridão, um sino chamava às charruas e colheitas. Carlota trabalhou enquanto se lhe enchia o ventre.
Certo dia sentiu náuseas, voltou à palhota. Descontaram-lhe horas de trabalho.
A barriga rompeu e vazou. O senhor Costa espiou.
- Azar! Se fosse mulher, a mão-de-obra...
Mas não havia dúvidas. Nem a barba lhe faltaria ao crescer. Homem com todas as características. Na idade, havia de distrair as tombazanas da faina diária, rebolar por elas na mata. E as horas de sexo quem as perdia em trabalho era ele, caseiro, que não tinha olhos em todos os cantos simultaneamente.
Carlota continuou entre o quarto do senhor Costa e os negros da palhota. Entre eles, Godido germinou sem cinismos a roer até aos dedos a mandioca que a mãe lhe dava pelo dia.
A vida fazia-se fábrica de descasque: os homens entravam, descascavam-se e saíam farelo para estrumeira. Na máquina ficava suor. Amadureciam os campos, desfazia-se a vida em adubo. Não se pintavam novas cores no cenário; era aquele o método único, com mais ou menos pormenores.
"Escola pra preto num tinha. Branco estava a falar cos pretos é só pra cavari, cavari ni chão."
Mamana Carlota lembrou que tinham passado tantos anos quantos os dedos das mãos e de um pé, depois que Godido nascera. Cercavam-no olhos brancos de cobiça do senhor Costa, gulavam-lhe charruas e sementeiras no campo. Mãe-negra desgastara-se naquilo; sabia os trabalhos dos que nem corpo haviam para a sexualidade do senhor Costa.
Godido precisava outros rumos.
A vida realiza-se sempre certa onde quer que seja, mas nós não somos suficientemente fortes para o compreender e executar.
O negro olhou-se entre campos e montes, a alma sangrando lágrimas aos cantos dos olhos. "Patarrão não esconfiou eu estava fugir." A mãe ficara a mentir um inesperado desaparecimento como se esquecesse aquelas últimas palavras ditas ao filho, que a vida estava um bocado além da mandioca e do chicote. Mas havia de dizer ao senhor Costa: - "Minha Godido ficou maluco; fugiu... fugiu do soroviço. Dêxou patrão, dêxou mãe. Maluco!"
Godido mediu a falta de uma voz de mãe onde apoiar as acções, uma voz de mãe a cansar-lhe os ouvidos: "Num fagi isso!, Godido vênha aqui."
A estrada parecia doida no seu andar, atirando-se da colina ao vale quantas vezes com brusquidão. Morava em baixo uma respiração de grades. Vazio de casas e homens. A falar-nos da vida humana só estrada. Despropositadamente, raríssimos quase-pastores irmanados a elas. Ninguém acredita que sejam homens. Mantém-se que ali só estiveram os construtores da estrada, e viajantes.
Godido deu um passo menos seguro e pestanejou. Lembrara-se que podia passar alguém por ele. Com mil diabos!
- "Mim vai no cidade viver co brancos", diria a seus patrícios.
Complicavam-se as coisas se passasse por um branco. E neste pensamento falhou-lhe o coração e sentiu um frio nos pés. Que ia em serviço, haviam de dizer.
A cidade agora começou a assustá-lo. Tinha medo. Era terra dos brancos. Os brancos eram como o senhor Costa. A cidade eram muitos senhores Costas. A paisagem à volta despiu-se e o caminho entrou de oscilar num "Vou? Não vou?"
Os negros lá deviam ficar sufocados. O seu caminho era para trás, na senzala. Que se não metesse em cavalarias altas.
Mas a quinta dava-lhe náuseas e um caminho novo pedia ser pisado. "Os branco di cidade não fagi mal. Ni mato já mi chatia catinga de mamana, e paiota do gente co chuva no cama."
Vertigens de novo, esperavam-no. Os pretos não estariam mais puxando carroças, como na quinta. O chão e o céu perderiam areia e azul e tudo seria oiro como o Sol. Ná! Aquele cheiro a suor da mãe e a senhor Costa enjoavam.
A imagem do burgo deu-lhe sonho e medo alternados. A estrada ora escorregava gulosa, ora oscilava em vontades de palhota.
Ao longe pinceladas amarelo-avermelhadas davam cidade. Era como que o limiar de outra existência mais real para Godido. - "Hih! Tão bom! Olhó o cidade." O ambiente ter-se-ia rido do seu estado de alma se o soubesse.
Como se não fosse humano um negro pensar que a "vida do negro há-de acabar."


[47]

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Bibliografia essencial: José Craveirinha, Babalaze das Hienas, Associação de Escritores Moçambicanos

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Mia Couto

POEMA MESTIÇO

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer


[46]

sábado, dezembro 06, 2003

Rui Knopfli

O CAMPO

Saio para o campo. O campo
aqui não é o campo, mas a savana
eriçada de micaias e capim
feio e desigual. Habitantes
do seu mundo, os negros ignoram-me,
empenhados em suas tarefas quotidianas.
Olho para as coisas abandonadas,
latas escuras de ferrugem, lonas
pardas de pneus, ferros
retorcidos sem jeito. Entre isso
o capim espreita, descolorido, espigado
e hirsuto. Nada me sugere a face
aveludada de uma paisagem pastoril,
rosto tranquilo de criança sonhando.
Mas eles estão no seu mundo,
e eu passeio no campo.


[45]
Alberto de Lacerda

L'ISLE JOYEUSE

Ó festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas de um branco rosa

Dum tempo antigo que aqui ficou

Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes por mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os gregos deuses orientais
Marcam a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filhos
Por motivos sobrenaturais


[44]

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Bibliografia essencial: A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas, compilação de Nelson Saúte e António Sopa, edições 70

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Mia Couto

O PRIMEIRO ASTRONAUTA

O primeiro astronauta
devia ter sido
Silvestre José Nhamposse

Só ele
teria sacudido os pés
à entrada da Lua

Só ele
teria pedido
com suave delicadeza:
- dá licença?


[43]
Bibliografia essencial: Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Caminho

sábado, novembro 29, 2003

Sebastião Alba

ÍCARO

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.


[42]