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segunda-feira, julho 18, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / CASAS DE FERRO (excerto/2)

De dia, calhando estar a maré baixa, descia o Povo dos barcos a estender os seus produtos no areal. Surgia ali um bazar desarrumado e barulhento que, embora sendo igual, era muito diferente dos restantes bazares conhecidos. O peixe, fresquíssimo, era pescado ali mesmo no local, quando ainda o tapava a maré. Havia gordas mulheres vendendo as farinhas, as couves e as cebolas; cesteiros com os seus cestos acabados de entrançar, cheirando ainda ao cheiro acre da seiva da palha; rapazes vendendo cigarros à unidade ou apalpando as capulanas para comprovar o macio do pano com que eram feitas; raparigas passeando as suas cabaças de bebida fermentada, as suas latas de amendoim torrado com tal competência que a pele se soltava com um sopro e saía voando, etérea.


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quarta-feira, julho 13, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / CASAS DE FERRO (excerto/1)

Afloram nessa folha branca, meio enterrados nela, grandes barcos que aprecem ter sido espalhados ao acaso por Deus ele próprio, no tempo em que era criança e ali gostava de brincar. Um enorme petroleiro guardando do tempo antigo, quando ainda navegava, a mesma solene majestade; mais adiante, um modesto e inclinado navio de cabotagem de obscura história e pouco esclarecida função; postado entre os dois, um curto mas maciço barco de pesca com hirsuta cabeleira de grandes guindastes e enormes roldanas de onde pendiam umas correntes ferrugentas, à ré uma abertura tão escancarada que nos perguntamos como terá ele conseguido evitar que o mar lhe invadisse os interiores, quando era jovem e ainda navegava, Mais ao longe outros ainda, menores e de mais reduzido interesse, sem que se saiba se é a distância que os faz assim, se a impossibilidade de lhes chegar perto, mesmo na maré vazia. Tão diferentes todos, na forma e na altura, apenas partilhando a massa de que eram feitos: um ferro pardo nos dias enevoados, laranja quase vivo nos de sol, raiado de tons esverdeados que eram restos do sarro que a saliva do mar deixava neles ao lambê-los todos os dias. Disparando um brilho intenso à luz vermelha do fim da tarde, que era o sol reflectindo-se nos milhões de cracas que traziam agarradas aos costados – desorganizado reflexo. E à noite mais escuros que a própria escuridão, imóveis vultos, estranhos animais que ali se deixaram petrificar com pré-histórica paciência. Quando o mar se retirava ficavam eles secando ao sol, as cracas fervilhando uma cutânea respiração que de perto provocava intenso ruído, como se o sol os estivesse fritando. Depois, o mar voltava lentamente, molhando-lhes primeiro os ferrugentos cascos, logo depois subindo-lhes nos âmagos, onde provocava inúmeros remoinhos, e finalmente cobrindo-lhes o corpo inteiro nos mais baixos, quase todo nos restantes, deixando-lhes apenas os cocurutos de fora; e eles pacientes, dilatando e encolhendo, rangendo a dor da chegada e da partida das marés e dos dias.


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segunda-feira, julho 04, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / O PANO ENCARNADO (excerto/3)

(…) e viramos o olhar para fora, para ver quem passa.
Serão crianças aos pares a caminho da madrassa, rapazes com rapazes, barulhentos; raparigas com raparigas, em silêncio e de olhos postos no chão, tirados de lá apenas para varrer em volta e queimar como fogo num curto instante; velhos sem idade, a cabeça os cofiós, montados em também velhas bicicletas, que chiam e tremem mas avançam sempre; belas mulheres transportando coisas à anca ou à cabeça; e turistas, quase sempre italianos.
Guarda che bello!
Entram por uma margem e saem pela outra do estreito campo de visão que a porta nos permite, não dando sequer tampo de reter feições, que por isso nos parecem tão iguais. Como se fosse apenas um par de crianças, um velho, uma bonita rapariga, dois ou três turistas passando e tornando a passar, sempre os mesmos, mudando apenas o que trazem vestido para nos confundir. Como se fossem modelos do senhor Rashid desfilando naquela curta passarelle para nos dar ideia das potencialidades da Alfaiataria 2000.


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quinta-feira, junho 30, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / O PANO ENCARNADO (excerto/2)

Se ainda houver dúvidas, puxe pela memória, cliente,
diz ainda o senhor Rashid, achando que temos aspecto de ter memória,
e lembre-se de um certo fato da melhor fazenda riscada que o senhor doutor Arantes e Oliveira gostava tanto de usar no tempo em que era Governador-Geral, e que lhe assentava a matar; levou-o daqui, éramos já Alfaiataria 2000, embora ainda sem Jamal, nessa altura soando a negócio mais que de futuro, espacial, marciano. Mais avançado que ele, e mesmo assim só um ano, apenas aquele filme americano que passou à época no Alemida Garret, em Nampula, e a tanta gente admirou. Pagou o senhor Governador pelo fato uma pechincha. Há até uma fotografia onde tudo o que ele veste é meu excepto as extremidades, ou seja, o chapéu que usava alternadamente na cabeça ou na mão e consta que foi Salazar ele próprio que lho enviou, e os sapatos que não sei onde os comprou pois não se pode saber tudo. Não sou e veríamos nessa fotografia um Governador-Geral todo nu, de sapatos nos pés e chapéu na mão.


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terça-feira, junho 21, 2005

João Paulo Borges Coelho

SETENTRIÃO / O PANO ENCARNADO (excerto/1)

Para entrar na Ilha de Moçambique é necessário atravessar a ponte. Ponte estreita, metálica, quase infinita, que nos leva da terra firme para o outro lado. Como sempre, há a versão daqueles que olham a Ilha com estranheza e a dos outros, que a consideram o dentro do mundo, e ao outro lado o mato. De qualquer maneira, sendo ou não como cada um diz, é na ponte que reside todo o mistério pois que, unindo, ela traz à lembrança a separação. Sem ponte seria um mundo à parte; com ela, transformou-se a Ilha numa ilha, num espaço fechado onde só pela ponte se entra ou sai. Como em todas as ilhas, também aqui os habitantes são inquietos, olhando o continente com desdém, outras vezes como se o desejasse. Nunca se decidindo, todavia, a alcançá-lo.


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quarta-feira, janeiro 12, 2005

João Paulo Borges Coelho

AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto II)

Entretanto, lá fora tudo parece funcionar dentro da arrastada normalidade com que sempre funcionou: as figuras públicas dando a sua opinião sobre as coisas aos jornais locais antes de se refugiarem nos clubes a jogar as cartas, por vezes tendo mão (um trio de damas, dois ases), outras sem jogo nenhum; os carpinteiros brancos, com barbas espessas de três dias, passando a caminho da Munhava montados nas suas Florette, nas suas Zundapp, levando atrás, amarradas com tiras de câmaras-de-ar, a caixa das ferramentas e a lancheira cheia se é na neblina fresca da manhã, ou vazia com restos para o gato lá de casa se é no tempo dos fumos e odores vespertinos; os estivadores, em cachos, carregando sacas de serapilheira e vestidos de serapilheira depois de terem dormido em lençóis de serapilheira e comido uma shima cheirando a vapor e a serapilheira, espalhando-se pelo cais como um mar negro e agitado; os médicos dando consultas caras todos os dias, baratas uma vez por semana, receitando misteriosas mensagens em código que só a infinita sabedoria dos farmacêuticos sabe ler, antes de fecharem os consultórios para ir espairecer com as esposas à matiné das cinco; os pescadores saindo para o mar de mãos vazias e voltando ao fim do dia com algum peixe ou quase sem peixe nenhum; as raparigas da Boite Primavera, Zamina, Minita, Irene e Erleny, como outras tantas que vieram antes ou ainda outras que virão depois, passeando-se lentas pela baixa atrás das suas boquilhas e espremidas nos seus hot-pants, dando troco aos marinheiros para que não pensem que os seus piropos ficam sem resposta, antes de recolherem ao redil para enfim se prepararem para os trabalhos da noite; as meninas do Liceu Pêro de Anaia, com longos cabelos castanhos, despertando púberes instintos nos candidatos a namorados e fumando às escondidas dos pais e dos amigos dos pais; o cauteleiro arrastando-se por entre as mesas do café sem pedir licença, alardeando as suas roucas promessas; o monhé da loja coçando os pés atrás do balcão, indiferente aos clientes que lhe esquadrinham a mercadoria, uns para comprar e outros só para ver; os chineses passando as suas couves em pequenas carrinhas rastejantes e exangues, ou vendendo com modos suaves e educados os seus pijamas e camisas de casca-de-ovo, e as suas chávenas de louça fina como pele, com carantonhas no fundo olhando-nos quando bebemos, e nós bebndo sofregamente para salvar das profundezas daquele minúsculo mar esses estranhos afogados; os empregados da câmara municipal fazendo interrupções ao expediente da manhã, imunes ao calor na protecção das suas camisas brancas de casca-de-ovo compradas no Ping Ta e com os bolsos cheios de esferográficas, circulando a caminho do bazar; os contínuos caminhando nas suas estranhas e contraditórias fardas de caqui, a metade de cima um camisa à militar, a de baixo uns calções inocentes como se fossem de criança; os criados batendo tapetes nos quintais, levantando nuvens de poeira; as crianças negras chapinhando em minúsculas lagoas de água da chuva se é depois da chuva, ou na lama quase seca se é dia de sol, com as suas barrigas redondas e os olhos irradiando uma alegria inventada a partir de motivo nenhum; as crianças brancas irradiando essa mesma alegria, chapinhando na praia do Clube Náutico, nas poças de água do mar; os jovens rebeldes do Oceana fumando suruma para inventar outra cidade tão encalhada e viva quanto esta; os corvos negros de peitilho branco passeado-se lentamente pela Praia do Veleiro, crocitando nos ramos das casuarinas com voz idêntica à do cauteleiro vendedor de promessas nos cafés; os barcos imensos e descarnados, presos no areal, soltando esquírolas de ferrugem, lágrimas ferrugentas da dor que é a humilhação de acabar daquela maneira, longe das profundezas; os rodesianos cor-de-rosa e sardentos chegando em revoada com as suas filhas belíssimas muito brancas para comer camarões e beber cerveja, e em revoada partindo; os arquitectos fazendo casas modernas para terem onde morar, e os pobres casas de lata e capim para terem onde sofrer, a cada qual o seu telhado; os cozinheiros cozinhando souflés e gigantescos mariscos cor-de-rosa como o gigantesco John Dale se é de dia, as suas mulheres shima com camarões magros e secos como Ganda se é de noite, para enfim todos terem o que comer, cada qual à sua mesa; a bicicleta branca dos ice-creams passando a tilintar, anunciando os cones pontiagudos se é Esquimó, de fundo chato se é Alasca, e Vicente correndo atrás dela com as moedas na mão para trazer um sorvete de chocolate, secreto capricho de Sá Caetana; o pão que os padeiros cozem de madrugada espalhando o seu cheiro bom e universal sobre a cidade, igual para toda a gente, amolecendo no chá dos pobres a sua integridade ou deixando derramar sobre as suas fatias um cacho de ovas de caviar importado; as mulheres dos oficiais escrevendo romances melancólicos como murmúrios que as entretenham da angústia da espera; os padres conspirando nas suas inócuas capelas, na falta de alguém mais adequado para o fazer; os soldados chegando e partindo com as mãos cheias de sangue e os olhos de pavor; os combatentes no mato, diz-se em surdina, fazendo fogueiras e conspirando; os pides, atrás dos óculos negros, tomando cafés no Café Capri, vestidos com camisas brancas de casca-de-ovo dos chineses e fingindo estar de folga mas na verdade trabalhando; o mangal secando, mal-grado o desespero dos minúsculos caranguejos; o mar paciente e obstinado engolindo lentamente a terra na Praia dos Pinheiros e no Macúti, em todos os lugares; as marés cheias e vazias dando a cada uma o seu lugar, mas cada vez as marés cheias sendo mais cheias; e os dias de sol sucedendo-se uns aos outros, com dias cinzentos e chuvosos pelo meio.


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domingo, novembro 14, 2004

João Paulo Borges Coelho

AS VISITAS DO DR. VALDEZ (excerto)

(...)impera o silêncio naquela casa. Faltam palavras e sons no espaço que se foi cavando entre as duas mulheres. Sá Caetana, porque se recolheu dentro da tristeza e do rigor dos seus olhos fixos, da sua boca fina e cerrada; Sá Amélia, porque há tempo que deixou terra firme, navegando hoje num mar revolto onde não se descortinam territórios nem fronteiras, onde tudo é tão igual e amplo que nada fica por dizer.
A primeira, com os óculos pendurados na ponta do nariz, borda nos seus panos réplicas de sinais que o tempo já levou, sinais que transporta no interior da sua memória. Hoje está sentada na penumbra da sala. Desapareceram os recantos angulosos na escuridão que o fim da tarde já não consegue iluminar, ficou o espaço mais arredondado. Um último raio de sol incide sobre o pano cru onde ela vai bordando um par de gatos fofos, anafados. Gatos verdes, gatos que foi buscar ao sonho.
Na ilha do Ibo, onde cresceu, não havia gatos. Sempre que a sua mãe Ana Bessa os nomeava, povoando com um monte deles uma qualquer história fantástica, imaginava-os ela fofos e verdes (por um qualquer motivo nunca a mãe lhes dera cor, ou dera-a sem que a Caetaninha, criança dispersa e impaciente, a retivesse). Viu gatos mais tarde, claro, gatos de quase todas as cores que os gatos têm: pretos, brancos, castanhos, pardos. Mas os gatos que agora borda são os gatos verdes da sua infância. Gatos imaginários. Gatos alegres que brincam na mornidão daquele último raio de sol procurando chegar com as patas felpudas às minúsculas e infinitas partículas que ele transporta. Quando o dia acabar, quando se começarem a acender pequenas luzes nas janelas, Sá Caetana depositará o pano na cesta da costura e os gatos ali passarão a noite, inacabados, à espera que nova sessão de bordado lhes aumente a definição.
Também Sá Amélia visita o passado. Só que com muito menos rigor que a outra, e também com um proveito diferente. Incursões violentas, erráticas, destituídas de critério. Que a deixam a ronronar de prazer ou a assustam e fazem gemer baixinho. No lugar dos gatos da irmã, com as suas cores de fantasia, são temporais que descabelam coqueiros, são vagas de trabalhadores macondes do coqueiral com dentes aguçados e faces escarificadas onde o diabo deixou estranhos sinais. Olhando Maméia, criança e feia, com os seus olhos amarelos.
- Caetana, tenho medo! – diz ela nessas alturas, num fio de voz, como se fosse há muito tempo e ela fosse pequena e chamasse pela mãe, Ana Bessa, na varanda da Casa Grande.


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